quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

10 Discos de 2015


#10 Sleaford Mods: “Key Markets”

Imaginemos um cruzamento entre Jello Biafra, Paul Gascoigne, spoken word, hip-hop minimalista e electrónico, hardcore, um microfone, um computador. O resultado é, mais coisa menos coisa, os britânicos Sleaford Mods, uma dupla de Notthingham composta por Jameson Williamson (voz) e pelo “maestro” Andrew Fearn (programações). Rebeldes com causa, os Sleaford Mods são, mais do que uma banda, uma expressão urbana, um grito urgente e político e um fenómeno a ter em conta. Afinal, o punk continua vivo.

#9 Sleater-Kinney: “No Cities to Love”

Navegando por sons cujas ondas remetem para marés de vagas que misturam laivos de punk com salpicos de indie rock, as Sleater-Kinney, são um trio de “meninas” originárias de Olympia, Washington, composto pelas guitarristas Corin Tucker e Carrie Brownstein, e a baterista Janet Weiss. Formaram-se em 1994, lançaram entretanto oito álbuns, mas até hoje pautaram a carreira com alguns hiatos. Voltaram novamente ao activo no ano passado e, desse regresso, resultou “No Cities to Love”, um disco carregado de energia e que descarrega dez boas vibrações em pouco mais de meia hora.

#8 Courtney Barnett: “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit”

Envolto de uma áurea de frescura e com um assumido – e cativante – olhar rock, este disco brilha como o sol de verão, uma brisa marítima fresca que dissipa um calor exagerado. As histórias são simples e “conhecidas”, a música escorreita, no tempo e proporções que queremos. Como aquelas paixões certeiras, ao primeiro olhar, o disco de estreia de Courtney Barnett é brilhante, cativante, memorável.

 #7 Sufjan Stevens: “Carrie & Lowell”

Registo perfeito de memórias e histórias, eis um dos álbuns mais intimistas, bonitos e reais do ano. Stevens abre o coração e revela o homem, o menino Sufjan, o seu crescimento, as suas dores e como a vida pode ser uma súmula de experiências que navegam entre o bom e o traumatizante. O resultado é uma imensa névoa melancólica, interior e muito bonita.

#6 Joanna Newsom: “Divers”

Através do disco mais curto da sua carreira, Newsom confirma a sua genialidade através de um trabalho que faz, como poucos, uma excelente mediação entre amor, perda, tempo, vida e morte. Mais do que canções, “Divers” oferece momentos de intimidade, de uma partilha segredada entre Joanna e os (seus) ouvintes, através de palavras e sons elaborados, de pura filigrana.

#5 Viet Cong: “Viet Cong”

Imbuído de um espírito industrial, e sob a influência de texturas de uns Throbbing Gristle ou Skinny Puppy, “Viet Cong” serve de elo de ligação entre um mundo pop e um satélite sónico repleto de baterias saturadas, opressivas, e um (des)encanto desarmante – e atrofiado -, com apontamentos experimentais.

#4 Grimes: “Art Angels”

Colhido na derradeira colheita musical do ano, “Art Angels”, o quarto disco da carreira da canadiana Claire Boucher, assume-se como uma espécie de ovni propulsionado a combustíveis melódicos vários e dançáveis. O resultado são mosaicos sintéticos, experimentais, electrónicos, descaradamente pop. Mais uma excelente aposta da 4AD.

#3 Low: “Ones and Sixes”

Tal como seria de esperar de um disco dos Low, “Ones and Sixes” é uma obra emocional que funde um sentido sónico com toques de beleza, escuridão e uma tensão agridoce, nas medidas certas e com um intenso brilhantismo no mais pequeno detalhe.

#2 Ólafur Arnalds & Nils Frahm: “Collaborative Works”

São dois discos mas poderiam ser os que Arnalds e Frahm quisessem. Tal como dois génios à solta, os compositores de “Collaborative Works” trabalham com um mesmo objectivo: a catarse. Os mais de 100 minutos destas maravilhosas peças neoclássicas, nascidas de uma estreita colaboração durante quatro anos, documentam o virtuosismo da música, da sua plenitude, do seu fascinante deslumbramento. Um disco essencial, intemporal e delicado.

#1 Sun Kil Moon: “Universal Themes”

Tal como Midas, Mark Kozelek tem um toque especial, um condão que transforma em ouro qualquer pedaço de voz e guitarra e, aquilo que faz com os Sun Kill Moon, não foge à regra. “Universal Themes” é um disco completo de simples estruturas musicais e notas líricas confessionais que nos envolvem ao longo de 70 minutos. Deliciosamente indie, o sétimo tomo do agora trio é um dos discos mais bonitos que Kozelek já gravou fora do universo dos Red House Painters.

In deusmelivro

“Mercado de Inverno”
de Philip Kerr

Remate ao ângulo ou penálti falhado?

 
É incontornável associar o nome do escocês Philip Kerr ao universo de Bernie Gunther, um dos personagens mais brilhantes (e negros) dos romances modernos ditos policiais.

Títulos como “As Violetas de Março” e “O Requiem Alemão”, ou o mais recentes “O Projeto Janus” ou “Se os Mortos não Ressuscitam”, revelam atmosferas densas, investigações particularmente brilhantes e um conjunto de tiques que evidenciam uma qualidade narrativa herdada de nomes como Dashiell Hammet ou Raymond Chandler.

No seu mais recente romance, o autor natural de Edimburgo leva-nos até ao epicentro de um dos mais espetaculares campeonatos de futebol do mundo: a inglesa Premier League. Em “Mercado de Inverno” (Porto Editora, 2015), somos assim transportados para dentro das quatro linhas e temos na figura de Scott Manson, ex-jogador de futebol e agora treinador adjunto do London City, o improvisado detetive de serviço.

Ao invés da grande maioria dos profissionais de futebol, Manson tem formação superior, é poliglota e muito bem-visto pelos seus pupilos assim como pelo sempre polémico João Zarco, o mister de origem portuguesa e que dirige todo o futebol do clube pertença do milionário ucraniano Viktor Sokolnikov, cuja fortuna parece ter nascido de uma série de negociatas pouco legais por alturas da dissolução da União Soviética.

 As paixões que movem o mundo do futebol leva a sentimentos exacerbados mas desta vez os limites são apenas uma linha a quebrar e, para espanto de alguns, João Zarco é encontrado morto no interior do estádio do London City. Por muitas razões, não sendo a polícia muito bem-vinda nas instalações do clube londrino, será Manson quem ficará encarregado de encontrar o assassino.

O que terá acontecido antes do jogo entre o London City e o West Ham e que coincidiu com o desaparecimento de Zarco? Quem teria interesse em matar o português, um homem que personalizava o futebol moderno, sempre impecavelmente vestido e de rosto fechado, fera dominante do balneário e conhecido pelas suas conferências de imprensa inflamadas, destroçando todos os que se intrometem entre a sua equipa e o sucesso?

Estas, e outras questões, colocam Zarco como uma apetecível vítima dentro do viperino mundo do futebol e resta a Manson resolver este quebra-cabeças, numa corrida desenfreada contra a própria polícia e assim vingar-se também ele de uma injustiça passada face às autoridades.

Para nos guiar neste thriller, Kerr treinou os seus conhecimentos sobre futebol, afinou a pontaria de remate dos acontecimentos que marcaram o chamado desporto-rei por terras britânicas nas últimas décadas, e acaba por conseguir um resultado que deixa tudo em aberto para uma qualquer desforra com Scott Manson como protagonista.

Com uma narrativa fluida e por vezes carregada de uma saudável ironia – que até permite fazer uma alusão a um ghost writer de “segunda” chamado Phil… Kerr – “Mercado de Inverno” é um policial competente mas está muito longe do ambiente de Bernie Gunther, algo que poderá colocar algumas dúvidas na qualidade final deste romance.

Não queremos com isto dizer que não se trate de um livro agradável, mas está longe da mestria de outros títulos do autor que parece ter concentrado mais atenção no acrescentar de conteúdos relacionados com a própria história do futebol do que em fazer uma trama mais ambiciosa.

Resta-nos esperar que, num próximo jogo do London City, Manson e seus pupilos revelam outra capacidade tática e que o resultado final não seja tanto uma vitória à tangente contra uma equipa de um escalão inferior mas sim uma goleada das antigas.

In Rua de Baixo

“As Flores de Lótus” de José Rodrigues dos Santos

História viva


Na lombada e na contracapa do livro, lê-se que estamos perante um romance. Não é propriamente uma novidade tratando-se de José Rodrigues dos Santos, mas desta vez o autor português quis ir mais longe.

A trama de “As Flores de Lótus” (Gradiva, 2015) leva-nos numa viagem entre Portugal e Ásia, sob o cenário do final do século XIX e a aurora do XX, período conturbado que tinha como fio condutor um forte pendor revolucionário que fazia cair alguns regimes e ideais em favor de outros, que se revelariam mais complexos e polémicos.

Mas o epicentro da narrativa centra-se, principalmente, nas primeiras décadas do 1900 e da total descredibilização da democracia, não só em Portugal mas nos quatros cantos do planeta, e como consequência direta eclodiram pensamentos autoritários e totalitários.

O português Artur Teixeira, à época já capitão, um dos principais personagens de “As Flores de Lótus”, chega mesmo a conhecer António Salazar, e vive, em primeira mão, o drama em que o sistema político nacional se encontrava, com o descrédito completo dos partidos que se tinham tornado numa espécie de concubinado clientelista, assistindo, na primeira fila, ao edifício do Estado Novo, e tem nas suas mãos a tarefa de convencer o homem nascido em Santa Comba Dão a assumir as rédeas do país.

Mas a revolução também assola o território asiático. No Japão, Satake Fukui entristece com um país cuja ferida faz dividir as suas gentes entre a tradição e a modernidade. No seu âmago, cresce a vontade de mudar e envolve-se num magnânimo braço de ferro com Sawa desde os tempos de escola, confrontando-se assim entre uma crescente vontade modernista e o pensamento tradicional militarista.

Na China, o nascimento da pequena Lian-hua trazia um aviso: os seus invulgares e serenos olhos azuis serviam como uma espécie de veredicto para a tempestade que ameaçava o colossal território. No coração da tempestade estava o eterno confronto entre nacionalistas, comunistas e japoneses. Para complicar o cenário, Lian-hua é raptada por um emergente radical comunista, de seu nome Mao Tse-tung.

Para completar quadro, na Sibéria, os bolcheviques invadem a pequena propriedade do clã Skuratov e falam dos feitos de um certo Estaline. A impressionável Nadeszheda vê-se assim no meio de um ciclo de sofrimento onde o medo e a fome eram locais comuns.

Estas quatro histórias, que no fundo são uma só, mostram os destinos de quatro famílias e formam o primeiro tomo de uma saga que promete encantar os fãs da escrita do autor de livros como “A Chave de Salomão”. As suas três partes revelam um ritmo elevado mas que pode gerar, principalmente nas passagens de maior contextualização histórica, alguma sensação de relato apressado dos acontecimentos mas, ainda assim, bem estruturado.

O discurso de Rodrigues dos Santos é muito visual, cinematográfico até, mas, por vezes, perde-se no “excesso” de informação dos já referidos relatos verídicos. Ao leitor pede-se alguma paciência e, em alguns momentos, sente-se uma espécie de interlúdio narrativo e somos transportados para o interior de uma sala de aula de História, principalmente quando as páginas são ocupadas pelos longos diálogos entre Artur e Teófilo Baptista, professor de Moral e Religião e de Philosophia.

Tal como na maioria dos seus livros, o conhecido jornalista da RTP, e o autor que mais vende livros em Portugal, exibe um elevado grau de investigação sendo esse o mais interessante trunfo deste livro, tornando os principais personagens das quatro estórias numa espécie de veículos da mais alva pureza intelectual e que encontram acertada metáfora na referida flor de lótus.

Mas esta obra é também sinónimo da paixão que José Rodrigues dos Santos tem pela própria História e da sua vontade, e capacidade, de recriar uma época, nas palavras do própria autor «tentando tornar a História viva». Esse jogo de recuar na memória é um dos alicerces deste livro ambicioso que nas últimas páginas anuncia “O Pavilhão Púrpura”, o próximo episódio desta saga pois, como se escreve no final de “As Flores de Lótus”: «o mais interessante ainda está para vir».

In Rua de Baixo

Livros para o Natal


O livro é, sem dúvida, uma das melhores prendas de Natal. O difícil será escolher que título oferecer tal é a crescente oferta do mercado editorial. Para ajudar nesta complicada tarefa, o Rua de Baixo deixa algumas sugestões, para o menino e para a menina.

Porque dizem que as crianças são o melhor do mundo, começamos por algumas obras que assentam que nem uma luva no sapatinho da criançada. Para um soninho descansado, “10 Histórias Para Adormecer Sem Medos Nem Birras”, (Manuscrito Editora), de Filipa Sommerfeldt Fernandes e Pedro Benvindo é um poderoso aliado de pais e educadores enquanto “O principezinho para os Mais Pequeninos”, de Antoine de Saint-Exupéry (Presença) é uma visão mais pueril de uma das mais encantadoras fábulas da literatura moderna. Noutro registo, “Feliz Natal Lobo Mau” (Livros Horizonte), de Clara Cunha e Natalina Cóias, vai reunir a família à volta da lareira. Por fim, “Um Ano Inteiro – Agenda para Explorar a Natureza” (Planeta Tangerina), de Isabel Minhós Martins e Bernardo P. Carvalho, deixa um ano inteiro de propostas, passeios e observações, os mais indicados para cada época e selecionados de acordo com o calendário do nosso país e as espécies que o habitam.

Quanto aos livros para gente graúda, são muitos os títulos que assentam que nem uma luva na noite de consoada. Se José Luís Peixoto deambula sobre os milagres de Fátima em “Em Teu Ventre” (Quetzal), Afonso Cruz conta uma deliciosa história repleta de memórias em “Flores” (Companhia das Letras) e José Rodrigues dos Santos revela “As Flores de Lótus” (Gradiva), mais um livro que vai deixar contentes os seus muitos fãs. E porque falamos em duas vozes da nova e genial geração de escritores portugueses ficam mais duas boas prendas: “Contos de Cães e Maus Lobos” (Porto Editora) de Valter Hugo Mãe”, e “O Coro dos Defuntos” (Leya), de António Tavares.

Quanto a autores estrangeiros, o mais complicado é fazer a “triagem”. Mas vamos por partes. Visionário e dono de uma escrita inteligente e provocante, J. G. Ballard traz-nos “Arranha-Céus” (Elsinore). Para quem procura uma leitura mais descontraída, e em especial se é amante de futebol, recomendamos “O Drible”, de Sérgio Rodrigues, (Companhia das Letras) e, num contexto policial, “Mercado de Inverno” (Porto Editora), de Philip Kerr.

E por falar em policiais, crime será não oferecer alguns dos muitos títulos que, felizmente, preenchem as livrarias. “Hereges” (Porto Editora), de Leonardo Padura, é sinónimo do regresso do mestre cubano, enquanto “O Fantasma”, de Jo Nesbo, (D. Quixote) e “O Bicho-da-Seda”,de Robert Galbright (Presença), trazem novas aventuras de Harry Hole e Cormoran Strike respetivamente. Outras excelentes sugestões são “Alguém para Tomar Conta de Mim” de Yrsa Sigurdardottir (Quetzal) e “A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha”, de David Lagercrantz, thriller que é sinónimo do quatro tomo da saga Millennium e mata saudades de Lisbeth Salander.

Além destes autores mais clássicos, temos algumas grandes novidades. Da Suécia, “Segredos Obscuros” (Suma de Letras), de Michael Hjorth e Hans Rosenfeldt, é um dos títulos mais interessantes do género policial de 2015, assim como “Peregrino” (Topseller), de Terry Hays, e “A Rapariga no Comboio” (Topseller), de Paula Hawkins.

Para os mais saudosistas, existem dois livros que não podem deixar de fazer parte das suas wishlists: “Star Wars – Guia Visual Definitivo” (Planeta) e “Lembras-te Disto?” (Esfera dos Livros) de Luís Alegre e Pedro Marta Santos.

In Rua de Baixo

sábado, 5 de dezembro de 2015

Arranha-céus
de J.G. Ballard

Câmara subjetiva


Robert Laing, professor de medicina, é um dos dois mil inquilinos de um imponente edifício de quarenta andares situado nos arrabaldes de Londres e que prima por uma arquitetura arrojada de coração modernista, fruto de uma visionária cultura de meados da década de 1970.

Dentro das muitas paredes do edifício os luxos são muitos e a sua facilidade de acesso, via elevador, faz com que não seja necessário sair para a rua para usufruir de ginásio, piscina ou supermercado.

As rotinas aburguesaram os inquilinos mas o ambiente está longe de ser normal e, aos poucos, as situações caricatas e anormais tendem a ameaçar a tranquilidade aparente desta sociedade vertical. Os primeiros sinais de rutura surgem quando os automóveis são alvos de violência, depois os próprios moradores. Como um autêntico efeito baralho de cartas, os incidentes sucedem-se e surgem as primeiras vítimas.

De forma a entender e registar os bizarros e inesperados acontecimentos, Richard Wilder, realizador de comentários, avança no meio do caos, de câmara em riste, e grava um inexplicável avolumar de violência e destruição cujo único responsável é o indivíduo movido por um sentimento de sobrevivência egoísta, duas das mais inatas características à raça humana.

Num misto de anarquia e alucinação, e assumindo-se como um dos maiores herdeiros da narrativa de H. G. Wells, o mítico J. G. Ballard, reconhecido autor de obras controversas como “Crash” ou “Noites de Cocaína”, lança um interessante desafio ao leitor com “Arranha-Céus” (Elsinore, 2015) e leva-nos a colocar em causa a filosofia das sociedades modernas que, apesar de viver no “conforto” de tal opta por demonstrar uma vivência primitiva.

E é, talvez, por este conjunto de incongruente aceções que constatamos que “Arranha-céus” não é um livro fácil de catalogar. Ainda que com alguns tiques de ficção científica, a ação remete para meados da década de 1970 de uma Londres envolta de ambiente distópico e o autor aposta numa reflexão do comportamento humano que a psicologia dificilmente conseguirá contextualizar.

Para, e por tal, Ballard opta por isolar o Homem de qualquer laivo de humanidade, remetendo-o trancado numa jaula emotiva e emocional, e sujeito a avalanches de stresse que o empurram para intrincadas estruturas sociais onde a moral comunitária e do próprio indivíduo colapsa. A seleção e separação que o ser humano é vetado neste livro criam uma comunidade de cerca de duas mil almas com algumas afinidades profissionais e que mais tarde reforçam essa identidade por via de uma traumática experiência a que estão sujeitos.

Pelo meio da narrativa, por vezes matematicamente factual, surgem dúvidas, momentos de alguma perplexidade, mas tudo nasce do exercício psicológico que o autor faz da calendarização evolutiva dos acontecimentos, desde dos tempos de pacata normalidade até aos primeiros sinais de caos. Os dogmas são colocados em causa e a própria infraestrutura que pensamos inata, e que é sinónimo de um certo conforto, pode ser um alerta em forma de uma rebeldia dos elementos (des)funcionais (os elevadores param entre andares, a eletricidade regista falhas, os canais de envio de lixo estão encerrados, o ar condicionado funciona mal, os lugares de estacionamento são quase inacessíveis…).

Por outro lado, a inicial homogeneidade social, e mesmo burguesa ou aristocrática, dos inquilinos quebra ao menor sinal de tensão e reside na verticalidade do próprio edifício, e na distribuição dos andares, algumas das maiores metáforas de “Arranha-céus” pois à medida que as páginas são folheadas a noção que estamos perante uma efabulação da vida moderna explode, colocando a olho nu uma exacerbação egoísta da própria noção de comunidade. No fundo, e apesar de viverem em conjunto, é a solidão que mais “une” as partes humanas no prédio onde o código moral há muito foi colocado em causa.

Profundo exercício intelectual sobre a premissa da urbanidade e dos limites da liberdade individual e coletiva, “Arranha-céus” coloca ainda em causa as noção de isolamento, emancipação social, identificação de classes e estratos, a ténue linha entre a racionalidade e o espírito animal (selvagem) de sobrevivência, e a noção de crise e de todos os impulsos que dela resultam e que levam a maioria a espezinhar a “oposição”, mesmo que a mesma seja lógica e pertinente.

Também importante é a coagitação feita à ação e meandros da prevalência subconsciente de quem age por influência de uma gratificação e hierarquização dos problemas quotidianos e pode, na fronteira do bom senso, levar a uma alienação gratuita da moderno quotidiano por via de uma “simples” câmara de vídeo que transforma um minuto real em momentos dignos de um reality show sem regras que se alimenta de tragédias, desastres, crimes e acidentes.

E é também nesse limbo entre real e ficção que se movem os personagens desta intrigante obra de Ballard, principalmente por parte de Wilder que tem a ideia de criar um documentário repulsivo mas atraente do ponto de vista sociológico ou do arquiteto que idealizou o edifício e vive no topo do mesmo (e porque não dizê-lo da pirâmide social) e que assume um privilegiado papel de salivante espetador.

In Rua de Baixo

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Low
“Ones and Sixes”


Aquilo que os Low lograram atingir ao longo de duas décadas, torna-os uma das bandas mais prolíferas, entusiasmantes e consistentes do universo indie. Desde o lançamento de “I Could Live in Hope”, disco datado de 1993, que o duo – e casal – Alan Sparhawk e Mimi Parker, naturais do Minnesota, conseguiu reunir uma base de fãs fiéis muito por culpa de uma música de contornos espartanos e minimalistas, à base de guitarra baixo e bateria (e das duas complementares vozes de Sparhawk e Parker) que estaria na fundação do movimento slowcore.

Em mais de vinte anos de existência, os Low mantiveram uma elevada fasquia qualitativa (sinceramente, não nos lembramos de um “mau” disco da banda) e souberam manter-se à tona e, desde que se juntaram ao catálogo da editora Sub Pop, por alturas da edição de “The Great Destroyer” (2005), até arriscaram uma abordagem mais pop, com elementos aqui e ali mais electrónicos.

A música para os Low é algo em permanente – mas tímida – evolução, e a exploração de outros territórios sonoros, ainda que sem grandes desvios de uma matriz inata, leva Sparhawk e Parker até discos como o mais recente “Ones and Sixes” (Sub Pop, 2015), décimo primeiro tomo da carreira desta dupla, que é mais uma centelha brilhante a juntar à sua discografia.

Gravado nos estúdios April Base, quartel-general de Justin Vemon – a.k.a. Bon Iver -, “Ones and Sixes” contou com a colaboração de Glenn Kotche, baterista dos Wilco, e a produção conjunta entre a banda e BJ Burton, assumindo-se como uma súmula dos diferentes caminhos que os Low têm percorrido, principalmente a partir de “Thinks We Lost in the Fire” – talvez o derradeiro suspiro da fase mais ensimesmada e negra do grupo.

Hoje, a banda navega entre ambientes mais “quentes”, tão caros a discos como “C´mon” e “The Invisible Way” e momentos mais interiores, soturnos, de, por exemplo, “Drums and Guns”. Este processo, pensado, tranquilo e natural, tornou possível acolher ingredientes electrónicos em composições como “Congregation” ou “Gentle, neste último caso com algumas referências a fazer lembrar momentos mais downtempo de alguns projectos associados a Trent Reznor.

Esses momentos mais misteriosos, densos, encaixam de forma perfeita com outros registos mais “baladeiros” à base de guitarras, como o desafiante “Lies”, canção que tem lugar no pódio das mais emblemáticas da carreira da banda e cujo clímax nos remete para a assertiva assunção de que a música é muitíssimo mais que uma matemática de acordes, podendo ser mesmo encarada como a mais sublime forma de catarse.

Outro dos grandes momentos de “Ones and Sixes” é “Landslide”, um tour de force de quase dez minutos que nos faz regressar a faixas como a maravilhosa “Lullaby”, do já referido disco de estreia dos Low, ou “Stay”, pérola que nasceu aquando da saída de “Long Division” (1995), e que se pauta por vibrantes camadas de uma negritude apaixonante, alimentada pelas vozes complementares de Alan Sparhawk e Mimi Parker, dissonantes mas complementares, únicas e deliciosas.

Ao longo das 12 partes de “Ones and Sixes” são perceptíveis laivos de novas explorações musicais, como o uso mais recorrente à distorção, o que dá ao universo do disco um carácter mais “cru” e que contrasta com outras formas mais intocáveis, puras. Essa experimentação instrumental eleva ao estado de cristalina sonoridade algumas adições vocais e melodias muito bem construídas, que vão fazer as delícias dos ouvintes mais exigentes, que não ficarão indiferentes a composições como a viciante “No Comprende”, a curtinha “No End”, a mais gingona “Kid in the corner” ou a descaradamente etérea “DJ”.

Esta maior diversidade e exploração de sons transformam “Ones and Sixes” numa espécie do melhor de “dois mundos”, uma mais-valia que segue várias direcções. Se, por um lado, mantém a exigência sonora que os velhos fãs esperam, por outro abre novos horizontes para os recentes ouvidos que chegam ao paraíso musical dos Low.

in deusmelivro

“A Irmandade do Santo Sudário”
de Julia Navarro


Tinha o sonho de ser bailarina mas acabou por se entregar ao jornalismo. Natural de Madrid, Julia Navarro é uma das mais conhecidas vozes da comunicação em Espanha e, há mais de uma década, autora de romances – podemos dizer best sellers.

E é sobre a primeira das suas obras, “A Irmandade do Santo Sudário” (Bertrand Editora, 2015) – lançado primeiramente em 2004 e recentemente reeditado -, que versa esta reflexão, um livro que, nas palavras da própria autora, resulta de uma intrínseca vontade de “inventar histórias em frente de um monitor.

Com um ambiente que decerto entusiasmará os fãs de Dan Brown ou do “nosso” José Rodrigues dos Santos, o livro abre com o relato de um misterioso incêndio na Catedral de Turim, repositório do conhecido Santo Sudário, que levou à morte um homem com algumas sequelas físicas pouco comuns: sem língua e com as impressões digitais deformadas.

Para tentar esclarecer este invulgar caso é chamado à cena do crime Marco Valoni, detective do “Departamento de Arte” da Polícia Italiana. A investigação leva a crer que se trata de algo mais do que um acidental incêndio, trazendo à memória um acontecimento, ocorrido no mesmo local, anos antes e que tinha no seu epicentro um ladrão… sem língua e desprovido de impressões digitais. Dá-se assim o início a uma extensa busca que vai colocar a vida de Valoni em perigo.

A narrativa tem um início algo pausado mas, à medida que os acontecimentos se sucedem, aumenta o seu ritmo e, preparem-se os leitores, a velocidade pode vir a ser alucinante, sublinhada com traços de clara influência cinematográfica.

Julia Navarro traça um caminho bifurcado em “A Irmandade do Santo Sudário”: se, por um lado, somos envolvidos na própria história do Santo Sudário, por outro sentimos, de chofre, os estilhaços inatos a uma investigação moderna. E, como em muitos dos livros do género, as conspirações abundam ao virar de cada capítulo, neste caso alternando entre acontecimentos do passado e presente.

Valoni é obrigado a lidar com vários grupos de interesses distintos, entre eles uma facção cristã turca com sede na cidade de Urfa, comunidade fundada no rescaldo da morte de Jesus.

Somos assim levados num carrossel emotivo que rodopia através dos séculos e que acompanha o trajecto do Santo Sudário, que terá sido encaminhado e vendido em Constantinopla – seguindo depois para terras de França.

Reclamando por algo que apelidam como seu, os referidos cristãos de Urfa desesperam por recuperar o Sudário. Mas os problemas avolumam-se, pois o grupo não está sozinho neste resgate já que os Templários, escondidos do mundo, apostam tudo para que a santa peça de vestuário não acabe em território turco.

A luta promete não dar tréguas, e quem ganha é quem tem o livro nas mãos e “devora” páginas repletas de acção, thriller, intriga e espirais conspirativas, cujo explosivo clímax revela algumas surpresas. O único senão são alguns acontecimentos mais “laterais”, que podem criar alguma confusão e pouco (ou nada) acrescentam ao rumo dos acontecimentos.

Ainda que a linguagem usada por Julia Navarro neste livro seja de uma natureza mais simples (não confundir com simplista) que a de outros títulos seus, “A Irmandade do Santo Sudário” é um livro para ler ou reler, cativante e que deu, e continua a dar, excelentes sinais do que se seguiu e seguirá na bibliografia da autora.

In deusmelivro

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

“Em teu ventre”
de José Luís Peixoto

Elogio à maternidade

 
Sem que exista um fim, ou palavra semelhante, nas últimas páginas de “Em teu ventre” (Quetzal, 2015), José Luís Peixoto partilha uma nota: «Este é um texto de ficção». Mas não será a própria vida um facto ficcionado? Onde começa e acaba o ato a que costumamos definir como realidade? Será esse um termo apropriável, uma forma de encarar o mundo, os seus acontecimentos? E será essa verosímil partilha uma verdade, sentimento ou sensação, pessoal e tornar a mesma num dogma?

É esse um dos maiores desafios da humanidade: distinguir o real do imaginado, sonhado ou sentido. E é esse um dos dilemas que a religião, as suas doutrinas, têm enfrentado ao longo de muitos séculos e que têm na origem da sua devoção factos que desafiam a lógica, o “normal” quotidiano.

Os milagres, frutos de análises várias, encontram-se dentro dessa categoria, entre a dúvida e a devoção, entre a crença e a desconfiança, entre o inesperado e a falácia. Dentro desse quadro, Portugal, viveu nos primórdios do século XX, um episódio que colocou o período entre maio e outubro de 1917 nos anais da religião cristã.

As (supostas) aparições da Senhora de Fátima aos três pastorinhos numa pequena azinheira na Cova de Santa Iria transformaram a vida de Lúcia, Francisco e Jacinta, primos de sangue, nos principais “porta-vozes” da igreja católica em Portugal.

Tendo por base esses acontecimentos, José Luís Peixoto escreve “Em teu ventre”, nas suas palavras uma «novela» que cruza o rigor da sua dimensão histórica e que coloca em cima da mesa uma profunda reflexão sobre um país que aceitou o referido fenómeno e o transformou, via Estado Novo, numa das suas bandeiras.

Se bem que estejamos perante um trabalho de ficção, tal como o referido no início deste texto, «os dados que o compõem têm como base a informação contida nos livros Memórias I a VI, da autoria de Irmã Lúcia de Jesus». E foi com essa informação, assim como de algumas outras publicações da época, que nasceu um livro tranquilo, que caminha entre «instantes de assombro e milagre» e que versa, essencialmente, sobre a maternidade, sobre os trabalhos de quem pare um filho, de quem o trata, acompanha, sente e sofre.

Com a habitual e serena mestria, Peixoto transporta-nos numa viagem ao coração da própria bondade, da inocência, do querer acreditar e de algum desespero. A escrita de “Em teu ventre” é muito mais que uma matemática de palavras, uma soma de constatações, ideias.

As frases, embebidas num misto de simplicidade e assertivo apelo ao coração, são como que um resultado, um sinónimo de uma transcendência comunicacional, seja isso uma forma de partilha coletiva, privada, sacra ou profana.

As palavras, escritas ou ditas, nascidas com aquela particular forma de respirar, num sopro de quebrando, elevam-nos ao expoente do sentimento, das emoções verdadeiras, ora amargas ora doces, mas sempre reais, seja a realidade aqui entendida como uma mãe que sofre pelas “mentiras” da filha traquina ou pela perseguição que a comunidade faz ao seu rebento em busca da salvação.

A transparência sempre foi uma das maiores qualidades da escrita de José Luís Peixoto. Nos seus livros, e este não é exceção, disseca-se a vida, em tons escuros, doridos, dilacerantes, seja o tema o desespero, a solidão, o amor, a religião ou uma mãe que atravessa «a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam».

Livro que se lê num trago, num suspiro, “Em teu ventre” é um olhar sobre o que está além da própria racionalidade, da memória, da paixão, do aceitar de um papel, do destino de se entregar aos trabalhos de parto e dar a vida por quem vem de dentro, do ventre.

In Rua de Baixo

“Menino da Mamã” de Álvaro Magalhães

Os mimos do melhor do mundo 

 
Ter orgulho nos nossos pequenos é tarefa inata. Sejam eles petizes ou já mesmo papás, nunca deixam de ser os maiores alvos dos infindáveis mimos das mamãs. Cristiano Ronaldo não é exceção.

E é a relação entre o craque do Real Madrid e a senhora sua mãe que versa “Menino da Mamã” (Verso da História, 2015) de Álvaro Magalhães, espécie de diário pouco secreto e ficcionado (nas palavras do autor, «ainda mais real») que revela alguns dos segredos da atribulada e exigente vida de Ronaldo, aqui apresentado como alguém cujo ego grande serve de escudo e filtro para as mais variadas e caricatas situações.

Escrito na “primeira pessoa”, “Menino da Mamã” revela tudo e mais alguma coisa sobre os tiques e truques de Ronaldo, a relações com os maiores rivais (Messi no centro das atenções), os namoros secretos ou mais populares, a desconstrução do Tiki-taka, afinal uma invenção da própria mamã Dolores, ou mesmo as táticas de sucesso de Mourinho assim como alguns episódios de Alex Ferguson, Jorge Mendes ou Irina Shayk.

Pelo meio ficamos também a saber os três mandamentos do “Abelhinha” (adivinhem quem será…), os pesadelos que impedem Cristiano de dormir, histórias sobre uma certa bola de borracha, o porquê das mulheres não gostarem de futebol, memórias do mundial de 1966 que enchem todos de orgulho e são sinónimo de sonhos inspiradores e prémios como a “Fralda de Ouro”, troféu que é uma «realidade paralela à Bola de Ouro».

No fundo, estamos perante de uma delirante e muito divertida história que assenta uma narrativa assaz interessante de Álvaro Magalhães que tem no apoio ilustrado de Carlos J. Campos um poderoso aliado para transformar os muitos minutos de leitura de “Menino da Mamã” em momentos de inspirado e inspirador prazer.

Para ler antes de adormecer ou depois de um estafante dia de aulas, “Menino da Mamã” é um pedaço de sonho, inspirado num misto de imaginação e realidade, sobre alguém que preferia conversas de futebol em vez da história do Gato das Botas e que muitas vezes, rapaz birrento, muda de CR7 para CRP(roblem) mas que facilmente regressa à colmeia mais doce do universo: o colo da mamã.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

“O Drible”
de Sérgio Rodrigues

O jogo só termina quando o árbitro apita


O futebol é uma arte. A literatura também. Juntar estes dois mundos pode parecer estranho, uma quase incompatível heresia, mas quando feito com a genialidade dos bons protagonistas o resultado é uma goleada literária que explora na plenitude os trunfos da bola e das letras.

Quase como metáforas perfeitas da geometria do jogo da vida, alguns lances nascidos dentro das quatro linhas ficam cravados na memória como hinos eternos do mais cristalino estado de pureza artística. Dentro deste universo, lembro, por exemplo, o calcanhar do Madjer na final de Viena ou, mais recentemente, a triangulação “galática” entre Gaitán e Lima no dérbi eterno de Lisboa.

E é o chamado “ópio do povo” que inspirou o brasileiro Sérgio Rodrigues, ficcionista, crítico literário e jornalista, a escrever “O Drible” (Companhia das Letras, 2015), um livro que transporta o leitor para o colorido e particular universo dos anos 1970, cujas primeiras páginas remetem para o primeiro Mundial de Futebol disputado no México. O calendário marcava o dia 17 de junho de 1970, o Brasil ganhou ao Uruguai por três a um mas o mais emblemático lance do jogo não deu em golo.

A jogada durou nove segundos e a simulação de Pelé sobre Mazurkiewicz, o guarda-redes uruguaio, ficou registada nos anais da história do futebol. São precisas seis páginas para Sérgio Rodrigues recuperar esse momento e, no final, quase como num fôlego, visualizamos ou relembramos esse lance genial.

É com esse pedaço de epifania desportiva protagonizada Edson Arantes do Nascimento que está lançada a narrativa que fez com que Sérgio Rodrigues arrecadasse o Grande Prémio Portugal Telecom de Literatura de 2014, um romance apaixonado e por vezes envolto de uma enorme camada de tensão que utiliza a metáfora de um drible, qual momento de inaudita magia, para trazer a lume as incertezas da vida e os lugares estranhos que a mesma nos pode encaminhar.

No cerne da trama está Neto, um quarentão revisor de livros de auto-ajuda que vive uma existência amargurada, sem luz. Fechado numa concha que remete para a cultura pop, kitch, nos anos 1970, tem como hobby colecionar velharias e romances fugazes com raparigas do bairro onde vive. Conduz um Maverick preto de 1977 (o seu «Batmóvel») e é no conforto de um sofá em tons zebra que ouve a sua datada coleção de vinil, outro dos seus maiores passatempos.

O seu maior desgosto encontra eco na falta de atenção de um pai “ausente”, homem despedaçado pelo suicídio da sua mulher e mãe de Neto, quando este contava apenas cinco primaveras. Esse homem é Murrillo Filho, conhecido cronista desportivo dos anos dourados do futebol brasileiro, que agora tenta aproximar-se do filho depois de saber que a morte o espera abraçar em breve.

Entre pai e filho ergue-se uma muralha que dificilmente será transposta, barreira essa alicerçada em mais de duas décadas de mágoas, desconforto esse que é (pouco) contrariado por via de encontros semanais, ao domingo, entre ambos e cujo tema central são relatos e episódios míticos de jogadores de futebol que há muito deixaram os relvados.

À medida que pai e filho e adensam a relação, tal como num desafiante e entusiasmante jogo de futebol, os nervos crescem, as dúvidas aumentam, a vida acontece. O mérito é totalmente da responsabilidade de Sérgio Rodrigues que revela, página a página, um romance compulsivo, escrito à base de uma linguagem que funde estilos “coloquiais” e literários, que nos leva até às tortuosas memórias da ditadura brasileira, época que guarda um terrível segredo da família de Neto e Filho.

Ainda que “O Drible”, eleito um dos 15 melhores romances brasileiros do século XXI pelo jornal brasileiro Brasil Post, seja uma trama carregada de dor, sentimentos (quase) perdidos e reviravoltas, Sérgio Rodrigues estabelece um equilíbrio emocional entre uma carga mais pesada, triste, sem esperança, e alguns toques de habilidade fruto de uma sensibilidade humorística, “taticamente” irrepreensível, que nos prende a atenção até mesmo ao apito final do árbitro, no sofrido tempo de compensação, revelando-se digno de grito de superação até ao último suspiro.

In Rua de Baixo

“Flores”
de Afonso Cruz

Cada pessoa é um universo


Quem gosta de literatura, de livros, reconhece em Afonso Cruz um dos nomes mais entusiasmantes do ato de escrever narrativas desconcertantes, intensas, diferentes, emotivas.

Seja por via do género romance, seja pelos visionários tomos da Enciclopédia Da Estória Universal, Cruz consegue sempre surpreender e o mais recente “Flores” (Companhia das Letras, 2015) segue esse mesmo raciocínio qualitativo e (i)lógico.

No cerne deste livro estão dois homens, dois «universos», duas pessoas que sofrem, cada um à sua maneira, com o quotidiano avolumar dos dias, meses, anos. A vida, longe de perfeita, tem momentos que podem parecer felizes ainda que fugazes e são essas recordações, mais ou menos longínquas, que estes dois seres tentam sofregamente resgatar.

De um lado está um homem maduro cujo passar dos dias é assaltado pelas notícias que surgem nos jornais, nessas folhas cuja mensagem em forma de papel é sinónimo de intrínseca tragédia. Este sucessivo massacre noticioso, juntamente com os problemas que a longevidade, e a solidão, trazem atrelados geram a perda das lembranças, sejam elas o primeiro beijo, as partidas e brincadeiras de criança ou a emancipação de ver e ter uma mulher sem roupa, pronta para (o) amar.

Do outro está um homem pragmático, jornalista, que vive bem com os telejornais, com os dramas televisivos ou impressos em papel, com os cinismos da vida, mas revela atroz intolerância quando vê um chapéu em cima de uma cama. No entanto, lembra bem o calor de um beijo, do amor (perdido) por Clarisse, sua mulher, embora se dê por vencido pelo desgaste da relação.

O destino destes dois homens vai acabar por cruzar-se por forma a contrariar e preencher o vazio que faz parte das suas vidas. E é o vizinho pragmático que decide ajudar o outro, o mais velho, a recuperar a memória perdida por culpa de um maldito aneurisma.

A história cresce, e como o florir de uma bela Dália, Violeta ou Margarida, torna-se num comovente rio que nos leva a navegar por marés de solidão, amor, saudade, traição, culpa e/ou desejo, elementos determinantes para definir a «altitude» das relações.

De um bairro lisboeta até ao coração de um Portugal de outros tempos, da província beata, Afonso Cruz traça em “Flores” uma tangente à própria vida, seja ela envolta de situações esquizofrénicas que levam pessoas a falar e inventar personagens diante do espelho, fadistas que relembrar tempos e traições de uma ditadura que não esquecem, amigos e conhecidos que deambulam em boas e más recordações que servem de peças para um atrevido puzzle biográfico, crianças que escolhem como parceiro o silêncio depois do divórcio dos pais, gente que dança, que não sabe dançar, boxe, jazz, blues e uma misteriosa chave cuja fechadura pode ou não desvendar um redemoinho cuja força é um misto de presente e passado.

Como se escreve, e bem, em “Flores”: «os deuses divertem-se com o nosso sofrimento», pois enquanto homens, gente falível, com defeitos e virtudes, não passamos de «pessoas que se transformam em vidro» tal é a fragilidade patente nos atos individuais ou coletivos.

E para juntar, dar consistência, a todos estes fragmentos, está a arte de Afonso Cruz em transformar um livro numa peça essencial, num companheiro presente, num amigo que não queremos deixar longe. Tal como outros romances do autor, “Flores” é como um abraço sentido em alguém que, finalmente, se deixa conhecer, se revela, um (des)conhecido que ganha o pódio da nossa amizade, que finalmente nos permite «entrar bem mais dentro da espessura».

In Rua de Baixo

“Assim foi Auschwitz”
Primo Levi e Leonardo de Benedetti


Tal como muitos milhares de judeus em plena Segunda Guerra Mundial, o italiano Primo Levi foi deportado para um “campo de trabalho” nazi. O calendário apontava Fevereiro de 1944 quando o promissor químico, na altura com 24 anos, recebeu ordem de deportação para Auschwitz, o derradeiro destino de milhares de pessoas cuja existência não os concebeu enquanto ideais do perfil ariano.

Nessa malfadada experiência, Levi trabalharia na companhia de Leonardo De Benedetti, médico prisioneiro judeu que, mais tarde, depois do final da guerra e da libertação dos campos de concentração pelos Aliados, seria camarada de escrita de um relatório sobre as condições de higiene nesses referidos infernos na terra, a pedido do exército soviético.

Terá sido o primeiro grande exercício reflexivo sobre os Lager – forma como eram também conhecidos os locais de extermínio edificados pelo Terceiro Reich -, tendo chocado pela objectividade e pelo detalhe – “tocava pela precoce e indignada lucidez” – assumindo-se como um primeiro e extraordinário testemunho de Primo Levi, uma das vozes mais relevantes no que toca à antologia de memórias sobre o Holocausto.

Esse relatório e vários outros textos, até à data inéditos de Levi e de De Benedetti, foram agora reunidos em “Assim foi Auschwitz” (Objectiva, 2015), uma reflexão sobre a experiência vivida por mártires que, pela sua condição e convicção religiosa, foram alvo da maior atrocidade vivida pelo ser humano.

Ao longo das quase 300 páginas revivem-se momentos, memórias, factos e dores, mas também – e é isso que distingue de certa forma esta obra das demais escritas sobre o tema – se fazem reflexões e críticas fundamentadas que tornam “Assim foi Auschwitz” numa importante peça que permite conhecer melhor o doloroso e complicado puzzle que foi a Segunda Guerra Mundial e que, sete décadas depois, continua a ser como sal sobre feridas que teimam em não sarar.

Dividido em “capítulos” que versam sobre textos e reflexões registadas entre 1945 e 1986, “Assim foi Auschwitz” inicia precisamente com “Relatório sobre a organização higiénico-sanitária do Lager de Monowitz (Auschwitz III)” – peça inicialmente publicada na revista turisense Minerva Medica e redigida a quatro mãos – e prossegue com vários textos, cronologicamente ordenados, a maioria da responsabilidade de Levi, dos quais se poderão destacar “Relação do dr. Primo Levi nº matrícula 174517 sobrevivente de Monowitz-Buna”, “Testemunhos de um companheiro de prisão”, “Aniversário”, “Carta à filha de um fascista que pede a verdade”, “A deportação de judeus” ou “À nossa geração”.

Entre um registo factual, analítico, e outro lado mais emotivo, há também espaço para a imagem, especificamente no anexo “Documentação fotográfica”, onde o leitor pode contemplar exemplares de época entre relatos oficiais, páginas de jornal ou originais de alguns textos presentes no livro, peças que tornam “Assim foi Auschwitz” uma importante “página” da história de um drama que atingiu desumanamente milhões de inocentes. Como diria Levi, “somos homens, pertencemos à mesma família humana a que pertencem os nossos carrascos. (…) Somos filhos dessa Europa onde está Auschwitz.”

In deusmelivro

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

“Os Médicos da Morte”
Philippe Aziz


Tunisino nascido em 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial, Philippe Aziz – cujo verdadeiro nome é Aziz Mahjoub – dedicou parte da vida a estudar a História Universal, com especial enfoque nos impérios Inca, Asteca e do Antigo Egito, bem como à História do Islão ou à Revolução Francesa.

Nado e criado no seio de uma família muçulmana Aziz formou-se em Islamologia, mas foi o seu percurso enquanto jornalista e escritor que o colocou na órbita dos mais atentos no que toca à análise da História Contemporânea e, principalmente, ao período entre 1939 e 1945.

Fruto de muita dedicação a essa negra fase do calendário da Humanidade, Aziz investigou com particular afinco a macabra filosofia utilizada pelos médicos nazis nos campos de concentração. À boleia do lunático desvario de Adolf Hitler na tentativa de demonstrar e elevar a superioridade da raça ariana, foram realizadas inúmeras, desumanas e macabras experiências cujas práticas passavam, por exemplo, pela incineração, o castramento e a sufocação de homens, mulheres e crianças que serviram de cobaias para o Terceiro Reich.

Um dos relatos maiores dessa monstruosidade (des)humana, “Os Médicos da Morte” (Saída de Emergência, 2015) assume-se como um poderoso documento que retrata, de forma exemplar, clara e assustadoramente real, os horrores da medicina nazi.

Tendo por base testemunhos de sobreviventes, confissões de médicos SS e milhares de documentos que os nazis não conseguiram destruir antes da derrota final, esta obra fundamental de Aziz permite-nos avaliar o sofrimento de milhares de crianças, deficientes, homossexuais, ciganos, judeus e até alemães dissidentes que não tiveram outra escolha senão o papel de mártires sob a égide de um repugnante delírio científico.

Dividido em quatro partes e com mais de 800 páginas, “Os Médicos da Morte” mergulha o leitor numa viagem negra que revela o pior do ser humano, que encontra eco em nomes como Josef Mengele, Horst Schumann ou Eduard Wirths, autênticos anjos da morte que ordenaram o envio de milhares de presos dos campos de Auschwitz para, por exemplo, câmaras de baixa pressão onde as vítimas eram testadas com drogas e venenos, esterilizadas, congeladas até à morte.

A par disso, foram realizadas “experiências em gémeos para estudar a genética e semelhança biológica, organizados banhos prolongados de água gelada a fim de se descobrir o tratamento para a hipotermia ou testes com malária, gás mostarda, tifo, venenos, variados vírus e germes para se chegar a antídotos ou curas ou estudar o desenvolvimento das doenças como potenciais armas biológicas.”

A maldade não tem limites e “esterilizaram-se milhares de pessoas através de radiação para se descobrir o método mais eficaz de inutilizar a capacidade reprodutiva daqueles que eram considerados defectivos em relação ao ideal da raça ariana; procurou-se saber se era possível tornar a água do mar potável, matando centenas de pessoas de desidratação; fizeram-se transfusões e transplantações sem anestesia. Muitos morreram de dores agonizantes ou insanidade.” Em nome da justificação biológica e científica da superioridade da raça ariana.

Muito do que foram os seis anos de maquiavelismos nazis que se perpetuaram para a eternidade estão registados em “Os Médicos da Morte”, um impressionante trabalho originalmente editado na década de 1970 que é sinónimo de uma competente análise histórica e que não deixará ninguém indiferente. Para ler sob uma perspetiva enciclopédica, este é um dos títulos mais impressionantes sobre a máquina científica nazi e aquilo que se pode fazer em nome de uma ideologia oca e cega.

In deusmelivro

“PEREGRINO”
DE TERRY HAYES

A violência flutua



Existem livros especiais que nos absorvem, consomem, exasperam. A ansiedade que a narrativa provoca, tal a sua complexidade, transforma o simples ato de folhear numa expetactiva crescente. E isso acontece com “Peregrino” (Topseller, 2015), vencedor do National Book Award no Reino Unido, obra de estreia do inglês Terry Hayes, antigo jornalista que se tem distinguido enquanto argumentista e produtor nos campos da sétima arte através de alguns filmes da saga Mad Max, bem como em telefilmes e miniséries cujo reconhecimento da crítica lhe valeu mais de duas dezenas de prémios.

Mas como falar da trama idealizada por Hayes sem revelar demasiado? Bom, imaginemos um thriller condimentado com generosas doses de espionagem, cujas primeiras páginas remetem para uma cena de crime grotesca onde uma jovem mulher é brutalmente assassinada num hotel barato de Manhattan. Mas mais peças se juntam a este intrincado quebra-cabeças: um filho assiste à decapitação do pai na Arábia Saudita; os olhos de um homem são roubados do seu corpo ainda vivo; restos humanos ardem em fogo lento numa qualquer montanha de uma cordilheira no Afeganistão.

Ao todo, são 656 páginas de uma alucinante e intensa espiral de acontecimentos que levam o leitor até a um universo que entrelaça momentos dignos de um filme de ação que James Bond não desdenharia participar, com episódios elevados ao extremo do pormenor e que tem como base para o seu credível entendimento um homem que se perde num labirinto de identidades e aventuras e é conhecido como Peregrino.

Como que uma bússola de orientação múltipla, “Peregrino” alimenta-se de uma série de desventuras dentro da própria estória-mãe e vai desaguar numa missão de vida com um objetivo definido: impedir que Sarraceno, um bioterrorista islâmico, consiga transformar o ocidente no início de um Armagedão global.

Numa corrida contra o tempo, e com intermináveis reviravoltas e viagens pelo globo, Peregrino e Sarraceno jogam uma espécie de partida do “gato” e do “rato”. E ainda que em lados diferentes da barricada, existem alguns pontos de contacto entre herói e vilão: ambos são determinados, implacáveis, astutos e têm no secretismo de quem os apoia uma das maiores armas. Contornar becos sem saída, falsas pistas, sacrifícios e traições, são situações vividas capítulo a capítulo, página a página, e apenas são superadas por elevadas doses de coragem.

Estamos perante uma verdadeira peregrinação, uma coleção de viagens e demandas. O Peregrino abandona, definitivamente, a sua identidade, simbolizando uma espécie de último moicano em prol da paz internacional; Sarraceno desespera por vingança pessoal e encontra no terrorismo internacional a arma que permite chegar a tal fim; o autor veste a pele de um “narrador” que tem em sua posse um conhecimento decisivo e que se mescla entre a subjetividade, o livre-arbítrio e a racionalidade de quem tem um fim definido.

Terry Hayes desenhou um oceano de possibilidade cujos vislumbres de retrospetivas várias dão ao leitor a sensação que a sua leitura não é um ato solitário mais sim uma partilha de experiências in vivo com personagens muito bem construídos, que valem por si mesmas, bem como pelo contexto geral de toda a narrativa.

As cenas dos crimes, a ação da policia, os rituais e procedimentos da justiça e dos “maus da fita”, deixam-nos no olho de um tremendo, alucinante e emotivo furacão de acontecimentos que apesar de contar com alguns clichés não dá um segundo de descanso ao leitor que devora com avidez um livro extraordinário.

Cada momento de “Peregrino” é sinónimo de um facto essencial, um pormenor que faz toda a diferença, uma pista que poderá definir todo o processo. Mas é também mais que isso. É “invadir” vidas alheias, saber mais sobre os seus hábitos, as suas famílias e amigos, as suas virtudes e defeitos. Particularmente, ao longo desta caminhada, o Peregrino aprende a viver com o seu próprio passado e essa pesada herança é tão fascinante, dolorosa e angustiante como a trama em si.

A história move-se como uma espécie de volta ao mundo e à medida que cada minuto, segundo, passa, a contagem decrescente galopa essa stressante realidade, colocando Peregrino e Sarraceno em posições cada vez mais determinantes para salvar ou destruir o mundo.

“Peregrino”, cujo argumento espera por uma adaptação cinematográfica, é, definitivamente, um dos livros do ano, que apenas pecará por um excessivo número de páginas. É um género que emotiva, desafia, uma viagem no mundo e em nós próprios. Os personagens ganham um pouco de nós e nós deles, dá-se uma espécie de metamorfose entre leitor e personagens. É certo que em alguns momentos, o livro pesa, os braços doem, os olhos ardem, mas a leitura é como a vida, não suporta intervalos, pausas, pois as paixões, sejam de respirar ou ler, são humanamente indispensáveis.

Caminho sinuoso e, por vezes, desesperante, que percorre o atlas geográfico e mental, “Peregrino” é um livro que não deixa ninguém indiferente, que consume, assusta, diverte, vicia, trazendo à memória episódios marcantes da história recente como a Segunda Gurrra Mundial, o conflito do Afeganistão, o 11 de setembro ou a Guerra Fria. Se dúvidas existissem, Terry Hayes consegue ao primeiro livro uma conquista reservada a poucos pois acerta em cheio!

In Rua de Baixo

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

“Ora, como eu dizia…”
de John Cleese

 
Foram muitas as referências artísticas que marcaram definitivamente as últimas décadas do século XX, influenciando as gerações seguintes, como uma espécie de jurisprudência cultural. Tal aconteceu em várias esferas e universos, da pintura ao cinema, do teatro à música, da arquitectura à comédia. Nesta última área, em particular, destacaram-se alguns nomes britânicos como, por exemplo, Benny Hill, Mr. Beans (Rowan Atkinson) ou os Monty Python.

Em comum estava uma abordagem nonsense da própria comédia, uma visão desafiante da lógica do pensamento e do próprio conceito de fazer rir – ou sorrir. Entre as “estrelas emergentes” desse movimento destaca-se um rapaz alto e tímido de Westen-super-Mare, Somerset, que, contrariando toda a normalidade, se tornaria numa estrela planetária: uma lenda.
 
Falamos de John Clesse, conhecido na escola primária como “Chesse” (queijo), mente brilhante e divertida que recentemente nos ofereceu “Ora, como eu dizia” (Planeta, 2015), uma autobiografia generosa, algo inesperada e tentadoramente diferente.

Ao contrário de outros livros do género, Cleese chutou para longe escândalos ou podres de bastidores, concentrando-se na vida em si mesma que, quase por “acaso”, lhe reservou um enorme sucesso. Mesmo quando há algumas referências a terceiros, o contexto é de tal forma cómico que se eliminam quaisquer resquícios de animosidade. Esqueça contos escabrosos e entre numa espécie de viagem ao cérebro de um genial comediante.

Neste percurso está bem patente a inteligência de Cleese, no fundo uma pessoa introspectiva, muito apegado à sua mãe, mas que, por obra divina ou quejandos, nasceu com uma capacidade anormal para o absurdo e farsa. Ao contrário de muitos outros casos, a comédia de Cleese é um fortalecimento do Q.I. alheio, uma de bomba de gás hilariante que atingiu o seu expoente nas séries “Monty Python’s Flying Circus” e “Fawlty Towers”, na sétima arte via Monty Phyton – “Em busca do cálice sagrado” ou “A Vida de Brian” – ou mais a solo em “Um Peixe Chamado Wanda”.

“Ora, como eu dizia” é também um livro sobre a própria escrita do acto de fazer rir, pois tanto Cleese como os seus companheiros de Cambridge – e mais tarde de Monty Python (Graham Chapman, Eric Idle, Michael Palin ou Terry Jones) – eram, antes de performers, produtores de comédia. Neste livro, o foco não está na descrição dos sketchs, nas cenas dos filmes, mas sim, por exemplo, na humanidade de Cleese de se sentir nervoso antes de cada cena, no medo de as coisas não serem bem recebidas ou sequer entendidas pelo público.

Ao folhear esta autobiografia, saltam à vista as descrições reais e quotidianas que invariavelmente resvalam para o riso, pois é a sua tendência natural. Cleese, que confessa ter vivido uma excelente experiência académica de ambos os lados da barricada, redige uma verdadeira tese sobre o acto da natureza humana. Mas vai mais longe, levando o leitor ao cerne daquilo que o inspira como comediante e pessoa, à forma como conseguiu moldar um espírito criativo e individualizado que fez nascer uma nova forma de fazer humor, arte que se disseminou por diversas áreas da dita cultura moderna e que ousou aplicar um determinado estudo psicológico do entendimento humano em situações banais – e até mesmo exageradas.

Há ainda espaço para deambulações através de lembranças, algumas delas com direito a fotografia: a sua primeira aparição pública na Escola Primária St. Peter, aos oito anos; as tournées pela Nova Zelândia e pelos Estados Unidos; referências ao acto de contrair matrimónio (ao primeiro casamento); o primeiro encontro com Graham Chapman; os problemas com a BBC; a criação dos Monty Python; a experiência de trabalhar com Peter Sellers, David Frost ou Marty Feldman; ou a passagem pelo sistema de ensino enquanto professor.

Exemplar assertivo na arte de contar não uma história mas sim uma vida simples – e recomendado a todos os fãs de Cleese e dos projectos criativos a si associados -, “Ora, como eu dizia” é um interessante e inteligente “monólogo” de um homem tímido, fã de críquete e esqui aquático – que se revelou um verdadeiro génio comediante (mas que nunca se assumiu como tal) -, mas também o reflexo de uma humorística Britânia e dos seus maiores actores, elementos máximos de algo completamente diferente.

In deusmelivro

“À Morte Ninguém Escapa”
de M. J. Arlidge

A vida depois de Marianne

 
São muitos os livros que surgem todos os anos nos escaparates, mas alguns destacam-se dos demais. É nessa categoria que se encaixava “Um dó, li tá”, um policial lançado em 2014 por terras lusas, da autoria do britânico M. J. Arlidge que se estreava no formato livro depois de muita experiência na área da televisão, nomeadamente na conceção de algumas séries do género supra citado.

No epicentro da trama estava Helen Grace, traumatizada inspetora-detetive do departamento policial de Southampton, personagem que volta à carga em “À Morte Ninguém Escapa” (Topseller, 2015), interessante e pertinente sequela do intrigante mundo criado por Arlidge.

Ainda com os ecos de “Um, dó, li tá” na mente, Helen Grace vê-se de novo envolvida numa onda de crimes que, tudo leva a crer, têm como autor um tenebroso serial-killer cujas vítimas são homens “de família” que recorriam a prostitutas cujo “cardápio” era divulgado via Internet.

Seja dos escritórios da polícia local ou em cima da sua Kawasaki, Grace sabe que não tem uma tarefa fácil e o tempo corre contra si quando há um obstinado e cruel assassino à solta. Mas Helen tem mais inimigos e fantasmas que lhe atormentam a vida: o regresso de Charlie ao ativo elevou a tensão no seio da investigação; a nova líder do departamento, Ceri Harwood, boicota o trabalho da equipa por mero egoísmo e sentimento burocrata; Emilia Garanita, a jornalista do Southampton Evening News continua a atormentar, perigosamente, o seu passado e agora com um aliado inesperado…

Enquanto isso, existe mais um terrível caso para resolver e tudo começou quando foi descoberto um corpo abandonado num sítio recôndito. Do cadáver fora arrancado o coração que, mais tarde, foi entregue à família em forma de arrepiante encomenda. O crime fora sangrento, terrível, impiedoso, cirúrgico, e não vai ser o único.

É nesta atmosfera cortante que evolui “À Morte Ninguém Escapa”, um livro dinâmico e absorvente que (e)leva o leitor para dentro de um caleidoscópio emotivo que trás de volta um universo tão caro a Arlidge e que qualquer fervoroso leitor de um (bom) thriller policial não vai querer perder. E para isso muito contribuí a capacidade do autor britânico em criar, e alimentar, bons e credíveis personagens cujo crescimento vem desde “Um dó, li tá”, e arriscamos mesmo dizer que este segundo volume conta como um ambiente mais envolvente e “sedutoramente” violento.

A isso juntam-se outros ingredientes de caráter social e humano que tornam a narrativa mais pertinente e crítica. Em causa estão as novas tecnologias e o consequente perigoso anonimato que a Internet (nomeadamente nos chamados fóruns) possibilita; a religião e a cínica usurpação dos seus mandamentos em nome de interesses pouco “católicos”; as frustrações relacionais dos casais modernos que colocam a família em segundo plano em detrimento da realização profissional; as relações de conveniência entre a polícia e a imprensa.

Estes ingredientes, alicerçados numa aventura rápida, cinematográfica, sem tréguas, à base de capítulos que não ultrapassam a meia dúzia de páginas, fazem com que “À Morte Ninguém Escapa” seja sinónimo de uma leitura ávida, uma estória entusiasmante (e sangrenta) e algumas horas muito bem passadas de livro na mão, com o virar das páginas a assemelhar-se a uma espécie de engatilhar de revólver.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Beach House - “Depression Cherry”

Risco controlado


Nascidos em Baltimore, Estados Unidos da América, os Beach House formaram-se em 2004 e tornaram-se, gradualmente e de forma algo tímida, numa das mais interessantes bandas dos últimos anos. O primeiro e homónimo trabalho lançado pelo duo Victoria Legrand (vocalista e teclista) e Alex Scally (guitarrista) foi lançado em 2006 e, à época, ficou no ar uma sensação de saudável expectativa para o que seguiria. O som dos Beach House, claramente associado ao departamento dream pop, evocava fantasmas, bem vivos e recomendados diga-se, de nomes como Slowdive, Mazzy Star, Galaxie 500 ou, numa perspetiva mais alargada, Spiritualized. Posteriormente, e com uma cadência bienal, os Beach House editaram “Devotion” (2008), “Teen Dream” (2010) e “Bloom” (2012), afirmando-se como um dos coletivos mais coesos da fação alternativa da música da última década.

Ao longo dos anos, os Beach House seguiram um perfil linear, assumindo-se muitas vezes mais como um feeling, um espetro emotivo, do que tendo a preocupação de passar alguma mensagem, muito à semelhança do filosofia apregoada pelo dream pop em si mesmo - a ausência de uma “moral” sonora, um caminho específico, sendo o objetivo uma poderosa afetividade musical, evocativa, onde a beleza reside numa matemática que preenche, de forma sublime, ternurenta, o espaço entre o que se ouve e o(s) seu(s) destinatário(s). O resultado é, invariavelmente, a bem de todos nós, a soma de sons cristalinos, vestidos de uma suave eletrónica e aveludada eletricidade, que são elevados a um patamar quase divino por via da voz etérea de Legrand, talvez o mais dinâmico fio condutor do edifício Beach House. O resultado são camadas de uma intrincada doçura sublinhada por sintetizadores, caixas de ritmos e muito bom gosto, algo, dizemos nós, que não se discute.

Foi essa magia, por vezes disfarçada de fogo fátuo, que valeu à dupla de Baltimore a capacidade de transformar discos como os já referidos “Teen Dream” e “In Bloom”, especialmente este último, em verdadeiras pérolas pop em escalada ao título de obras-primas. E é principalmente por isso que “Depression Cherry”, o quinto disco de originais dos Beach House, pode parecer uma espécie de regressão, de passo atrás. Não que seja um mau disco, longe disso, mas talvez todos nós esperássemos por mais. O cerne da filosofia da banda está presente, o preciso silêncio também, a voz de Legrand continua omnipresente, as cordas de Scally destilam suavidade, mas faltam canções à altura de, por exemplo, “Norway” ou “Lazuli”, e no ar fica mais a sensação de uma evocação, em forma de homenagem, a grupos referência dos anos 1980 e principio dos 1990.

Ainda assim, canções como “Levitation”, que abre o disco de forma brilhante, dão a sensação que se poderia ter ido mais além, ter um projeto mais ambicioso. No entanto, a opção recaiu num disco mais deliberado, seguro, sem grandes pontos de evolução. Sim, a tranquilidade continua, as camadas agridoces também, mas perdeu-se um pouco do efeito surpresa, do tal passo em frente. Sabendo que a música dos Beach House se pauta pela catarse, “Depression Cherry” fica a meio da viagem.

Porém, não faltam momentos de agradável epifania. “Sparks”, a segunda composição do álbum, é um desses quadros. Um ambiente que remete para um universo caro a bandas como os My Bloody Valentine, cuja densidade sonora deixa muitas saudades, ainda que num registo mais cristalino, perto de um paraíso cujas portas se abrem graças a uma doce voz e uma guitarra à busca da absolvição sónica.

O trajeto de “Depression Cherry” tem como cenário uma sensação de redenção, um som que caminha entre o hipnótico e quase “barroco” de “Beyond Love” e a maré claustrofóbica da beleza assombrosa de “PPP”, uma espécie de ode de cariz negro, como um sonho mau que não é necessariamente um pesadelo: "Between the cities, between the thrills, there's something inside you, it doesn't sleep well..."...

Ainda assim, e devagar, o disco vai tomando conta do nosso espírito e facilmente nos perdemos no seu seio, desculpamos alguma “coerência” e embarcamos numa experiência que desafia a lógica. Não estranhem se vos deixarem levar pelo carinho de “10:37” ou “Days of Candy”, canções de embalar que elevam espírito e alma e que “contrastam” com o mais descarado momento pop do disco: “Space Song”.

Porque somos todos, no fundo, devotos do que fazem os Beach House, até lhes perdoamos momentos como “Wildflower” ou “Bluebird”, pois que atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou ao ritmo das mais gulosas experiências dos Cocteau Twins, clara inspiração para o duo de Baltimore em alguns momentos de “Depression Cherry”.

Depois de ouvir o mais recente álbum de Legrand e Scally (e repetir a dose, várias vezes) fica a sensação de estarmos perante um bom disco, mas aos Beach House pede-se mais, pois não basta pegar em várias doses de nostalgia (por vezes entre a dolência e a dor) para conseguir um grande disco. E é isso que queremos desta dupla, que faça grandes discos, obras que perdurem no tempo - e isso não acontece com “Depression Cherry”, um álbum condenado a não ser mais que um disco simpático, ainda que empático e agradável ao ouvido - uma espécie de risco controlado.

Alinhamento:
01 – Levitation
02 – Sparks
03 – Space Song
04 – Beyond Love
05 – 10:37
06 – PPP
07- Wildflower
08 – Bluebird
09 – Days of Candy

Classificação do Palco: 6,5 / 10

In Palco Principal

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

“Os Bebés de Auschwitz: Nascidos para Sobreviver”
Wendy Holden


Priska, Rachel, Anka. Três nomes anónimos, três mulheres judias, três vítimas do Holocausto que foram enviadas para o inferno em forma de campo de concentração. Auschwitz II-Birkenau foi o destino de milhares de pessoas, inocentes, cujo “crime” era ser diferente da “elite” ariana.

A Solução Final, negada imbecilmente por alguns, foi uma das decisão políticas mais negras da história, e o extermínio de milhões de vidas eleva ao estatuto de heróis os que ousaram sobreviver aos desígnios das forças nazis.

Entre esses nomes estão Priska Lowenbeinová, eslovaca, Rachel Abramczyk, polaca, e Anka Nathanová, checa, três mulheres que carregavam consigo um segredo maior que as próprias vidas: estavam grávidas. Sozinhas, assustadas, viúvas e que perderam a família em condições inimagináveis, deram à luz três bebés.

Cada um pesava menos de 1,5 quilos. Ana, Mark e Eva são os nomes desses verdadeiros milagres em forma de pequenos seres, que hoje são um dos maiores testemunhos da coragem de pessoas que viram ser-lhes retirada a humanidade.

São essas histórias que a jornalista britânica Wendy Holden conta em “Os Bebés de Auschwitz” (Vogais, 2015), um documento precioso que revela ainda mais pormenores do horror do Holocausto. Ao longo de mais de 400 páginas, Holden dá voz a Priska, Rachel e Ana, bem como a todos os que sentiram na pele a crueldade obscena da insanidade nazi.

Cru, violento e sem filtros, “Os Bebés de Auschwitz” segue a incrível história dessas três mulheres: primeiro nos guetos, formados pela política do terceiro reich; depois, como prisioneiras no referido campo de concentração; num campo de trabalho alemão onde, desesperadas e esfomeadas, lutaram por esconder a gravidez; e, por último, na pele (e osso) de passageiras de uma desumana viagem de comboio que durou 17 dias e que, felizmente, terminou com a liberdade proporcionada pela chegada dos Aliados.

Através de uma solenidade narrativa assinalável, Wendy Holden ouviu protagonistas, relatos e testemunhos, construindo um dos mais pertinentes exercícios reflexivos sobre a desumanidade nascida da guerra.
 
Comovente e um elogio à capacidade de resistência e de amar o próximo, “Os Bebés de Auschwitz” leva o leitor a sentir o terror da presença do infame Dr. Josef Mengele, apelidado de Anjo da Morte, as incertezas de uma humilhante seleção cujo veredicto decretava a escravidão ou a morte nas câmaras de gás, a força e coragem de responder «não» a uma pergunta: «Bom dia bela senhora, está grávida?»

Mais do que tudo, a herança deixada por Priska, Rachel e Anka supera fronteiras morais, religiosas ou nacionais, e os seus filhos são um fruto heróico de quem fez da esperança a mais forte das “armas”, pois todos nós, sem excepção, devemos para sempre recordar que o Holocausto existiu e este livro, de forma diferente de muitos outros que exploram o tema, deixa o seu testemunho através de um extraordinário trabalho de pesquisa.

In deusmelivro

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

“A Liberdade do Drible”
de Dinis Machado

O ópio do povo


Sou do tempo (frase saudosista que nunca deveria começar um texto) de ouvir os mais velhos falar que viram a equipa do Eusébio e do Coluna, e os Cinco Violinos, e ficar cheio de inveja da paixão com que recordavam esses momentos, alguns deles repletos de uma rivalidade saudável, com muita brincadeira à mistura que terminava, sem qualquer lampejo de falsidade, com um caloroso abraço.

Já consciente do meu fanatismo pelo futebol, com alguns ídolos, poucos, alguns deles com pés, ou melhor, joelhos de “barro”, acompanhei, envaidecido, amigos mais velhos à bola e, na noite anterior, os sonhos eram um misto de verde e encarnado, sendo o verde a cor da relva que ansiava ver, lá em baixo, sob a arte dos pés de alguns dos meus heróis.

Os domingos à tarde e, com sorte, as quartas à noite, eram as melhores horas da minha vida. Vitórias, muitas, e empates e derrotas, muito poucas por sinal, traçaram a minha infância, a minha vida, até hoje.

Mas não era só o calor do jogo que me encanta(va) no futebol, era todo o seu universo. Não perdia um texto do Aurélio Márcio, ria e sorria com os comentários do Gabriel Alves na televisão, no tempo em que haviam só dois canais, seguia com interesse a sobriedade do Rui Tovar, ouvia as histórias do Mário Zambujal com especial atenção.

Ávido por saber tudo que podia sobre o mundo da bola, ouvi também falar de um tal de Dinis Machado, jornalista que passou pelo Record, o Norte Desportivo, A Bola, Tal E Qual e Diário de Lisboa, deixando uma marca pela forma como escrevia e vivia o futebol.

E é essa paixão que está patente em “A Liberdade do Drible” (Quetzal, 2015), um livro de crónicas sobre futebol mas também o espelho de como um “simples” desporto pode ser muito mais que isso.

Ao longo de 24 crónicas, publicadas entre 1976 e 1996, Machado retalha a infância e a maioridade através de um suculento jogo de memória(s) que, em ambiente de amena cavaqueira, recordam pessoas, jogos, sentimentos que reforçam o estatuto do futebol a uma espécie de vício popular, e também burguês.

Nas páginas deste livro fala-se de uma «arte espontânea», de um «efémero bailado» que no fundo não é mais que um jogo «impreciso e inesperado, cheio de mortalidade». Assim, nasceram relatos de amigos e idas ao futebol, conversas com camaradas que já não estão neste mundo, pensamentos sobre as regras do jogo, a utopia do golo, a solidão do guarda-redes, as aldrabices cujo prémio não era uma taça mas sim uma imperial gelada, as picardias em forma de goleada, treinadores em busca da tática perfeita, cromos, figurados ou não, e até a Sétima Arte.

Recomendado a todos os que gostam de futebol, ou da vida em si mesma, “A Liberdade do Drible” é um livro curto mas entusiasmante à semelhança de um bom jogo de futebol, uma arte apreciada, como diria o madrileno Javier Marias, por «selvagens e sentimentais», gente que respira futebol, que aplaude heróis e vaia vilões, e eleva ao expoente da encenação a nobre e épica arte de marcar um golo decisivo ou defender um penálti no último minuto.

In Rua de Baixo

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

“Segredos Obscuros”
de Michael Hjorth e Hans Rosenfeldt

O homem que não era assassino


Sebastian Bergman é um psicólogo que trabalhava como profiler para a Riksmord, uma divisão especial de investigação criminal da polícia sueca. Especialista em encontrar o rasto de serial killers, Bergman acabaria por ter sido apanhado no seio da mais cruel das tragédias familiares. Mulher e filha foram mortas por um terrível tsunami que abalou a ilha no Oceano Índico em que a família passava umas férias de natal.

Perdido e só no mundo, Sebastian fez-se refém do desespero e encontrou no álcool e no vício do sexo uma espécie de catarse eternamente adiada. O contacto ténue de Bergman com o mundo exterior era apenas feito através das conversas com o seu terapeuta.

Foi novamente a perda de um familiar – a sua mãe -, que levou Sebastian a sair do seu casulo, da sua zona de (des)conforto, e vê-se de novo em Västerås, a cidade que o viu crescer. Agastado por uma péssima relação familiar com os seus pais, Bergman decide libertar-se de todos os bens relacionados com a herança que agora, involuntariamente, lhe chegou às mãos.

O objetivo é partir para longe e esquecer Västerås. Mas, enquanto tenta livrar-se da casa paterna, descobre um segredo com mais de trinta anos que pode mudar completamente a sua vida.

A única forma de conseguir mais informações sobre o que descobriu é aliar-se aos camaradas da Riksmord que no momento investiga um estranho caso de o desaparecimento de Roger Eriksson, um rapaz de 16 anos. Felizmente para Sebastian, quem esta no comando das operações é Torkel, um ex-camarada de “armas”, que aceita de novos os préstimos do profiler de temperamento irascível a bem de toda a investigação. A restante equipa não vê com bons olhos esta colaboração mas não lhes resta outra opção senão cooperar.

Mais que ajudar na investigação, Sebastian quer desvendar o segredo que o afligiu recentemente mas, aos poucos, a investigação sobre Eriksson ganha contornos interessantes para a sua sagacidade profissional. Afinal, Roger foi assassinado e um grupo de escuteiros envolvido na sua busca descobre o corpo do jovem no meio de um pântano. A morbidez da descoberta revela um corpo profanado, sem coração.

É assim que começa a trama de “Segredos Obscuros” (Suma de Letras, 2015), um romance policial escrito a quatro mãos pela dupla sueca Michael Hjorth e Hans Rosenfeldt, nomes ligados ao guionismo de séries televisivas, das quais se destaca a premiada saga policial “Bron”, difundida em mais de 170 países e foi alvo de remakes nos Estados Unidos da América e em França e que nasceu da criatividade de Rosenfeldt.

Já alvo de adaptação televisiva na Suécia, “Segredos Obscuros” tem todos os predicados para agradar os fãs dos bons policiais nórdicos. Sebastian, por exemplo, não sendo um personagem fácil, tem um perfil atormentado pelo passado e, à medida que a narrativa se desenvolve, se envolve na história e leva o leitor a perceber a sua cabeça, o seu comportamento, a sua marginalidade intelectual.

Com uma estrutura sólida, este livro apaixona o leitor sem grandes demoras. Ainda que o seu início seja um pouco confuso pelo número de personagens que apresenta, o dinamismo da narrativa encaixa perfeitamente cada nome, cada tormento, dúvida ou certeza, no contexto certo.

A solidão é um lugar-comum à esmagadora maioria dos personagens, principalmente nos casos da equipa da Riksmord onde Torkel, Vanja, Billy e Ursula são como que elos indissociáveis para que o todo funcione. A par desses nomes está a dupla da polícia local composta pelo “casal” Hanser e Haraldsson, chefe e súbdito que procuram afirmação e brio naquilo que fazem. Pelo meio, surgem personagens laterais, secundários, que elevam a grandiosidade dos restantes, conferindo-lhes corpo, coerência, presença e afinco.

São todas estas peças soltas que conferem unidade a um puzzle bem pensado e escrito. A trama flui de forma dinâmica e muito vezes “às custas” de lutas pessoais, interiores dos muitos protagonistas que procuram, em alguns casos mais que outros, um apoio, um abraço, um amigo.

As últimas páginas revelam-se particularmente interessantes e a descoberta do pouco provável assassino bem como algo que vai mudar para sempre a vida de Sebastian fazem com que o fim do livro seja um “martírio” para o leitor que desespera por mais um capítulo desta excelente série.

In Rua de Baixo

“O Luto de Elias Gro”
de João Tordo

Uma ilha é um excesso de terra com nome


Um amor que chega ao fim. A solidão, escura, envolta de um aparente silêncio que ecoa dentro da alma. A fuga desesperada aos sentimentos, o veto ao apelo do coração. O desistir.

Todos já sentimos a perda de alguém querido, de uma paixão, do sentido da vida. A luz desaparece, o chão abre e somos sugados para um lugar distante que desconhecemos até então. Fica a saudade da “normalidade”. É esse vazio que trata “O Luto de Elias Gro” (Companhia das Letras, 2015), o mais recente livro de João Tordo e uma das mais profundas reflexões sobre a tragédia pessoal do homem comum.

No epicentro da narrativa está esse homem. Uma figura sem nome, que na primeira pessoa relata, aos poucos e de forma tímida, um passado recente que o levou até a uma pequena ilha atlântica povoada por personagens atípicos, como pequenas peças ritualizadas de um puzzle que, de uma forma ou de outra, se encaixam na atribulada e atrofiada existência do “eu” que se assume como o núcleo deste livro.

E a todas essas pessoas se associam ideias como a perda, o luto, a tragédia e a solidão. Sem pretender qualquer tipo de redenção, esta gente isolou-se do mundo e pactua com o sofrimento como se outro destino não existisse. Falamos de Elias Gro, um pregador sonhador; Cecilia, filha de Elias, uma menina de onze anos mestre em anatomia e principalmente nos segredos do esqueleto humano; Alma, a bondade em forma de pessoa; Nórbert, um velho louco que habitualmente vagueia pela noite; Bernard, um cego de vistas largas; Erland, um rapaz-metófora do desajustamento clínico e social; A., uma paixão perdida; e um fantasma de um escritor cuja casa foi devorada pelo mar.

Todos eles, sem exceção, giram à volta do farol abandonado, refúgio escolhido pelo narrador ciclista um «homem que transporta o inferno», que assim, no isolamento, tenta derrotar fantasmas que tendem a crescer face aos inesperados caprichos da natureza humana.

A sanidade é uma definição perdida ao longo das páginas deste arrebatador romance que tende a dilacerar os seus convivas. A catarse, fugaz, surge através da ideia de literatura (entre um real Jorge Luis Borges e um onírico e fictício Lars Drosler, escritor dinamarquês que habitava a extinta Casa das Águas, espaço fetichista da ilha), da música, do boxe, do whisky e, principalmente, da personagem de Cecilia, um misto de inocência e agressividade e a luz maior de “O Luto de Elias Gro”, uma reflexão literária densa, cinzenta, sobre pessoas «feitas de porcelana», que «lascam com facilidade».

Depois do anterior e mais agitado “Biografia Involuntária dos Amantes”, João Tordo volta à escrita intimista, que carrega consigo um forte legado emocional que se serve do silêncio e do desespero para trazer à nota aquilo que de melhor se faz no que toca à contemporânea arte de escrever livros em Portugal.

Mais do que sarar feridas, “O Luto de Elias Gro”, é um romance feito de falsas e dolorosas cicatrizes que tendem a abrir sazonalmente e que mostram a fragilidade crua da vivência onde o passado é uma pedra demasiado pesada para se carregar sem deixar um rasto.

In Rua de Baixo

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

“Capital Fuck – Os Contratos do Comerciante, uma Comédia Bancocrática”
de Elfriede Jelinek

(A)Deus dinheiro


Capitalismo, produção, procura, oferta, preço, investimento, lucro, dinheiro. Um jogo real cujas regras, hoje fundadas nas bolsas e nos investidores de origens diversas, ajudam a definir um mundo global talhado à medida e mercê da economia que tece, no limite, regras adulteras, dessincronizadas.

E é esse desfasamento, essa distorção, que dá corpo a “Os Contratos do Comerciante, uma Comédia Bancocrática” (Verso da História, 2015), um obra que joga com a especulação da banca fazendo o elogio da lei do mais forte no universo dos investidores e dos escândalos associados.

Disso serve-se a austríaca Elfriede Jelinek, Prémio Nobel da Literatura em 2004, que mescla ensaio, análise e acusação com os mandamentos reflexivos dos sistemas bancário, imobiliário e de crédito que transformam todos os elementos que participam nesse ciclo na antítese da inocência, pois ao entrar no jogo aceitasse as regras implícitas ao mesmo.

Adaptado ao palco em 2012, por via do trabalho de a Associação cultural portuense Ponto Teatro, este polémico relato, inspirado no caos financeiro que assolou recentemente a Áustria, assume-se como um aviso, uma alerta catastrófico que via o capitalismo enquanto regime falido e falível, imaginado e sustentado por homens que também o são.

Nas páginas deste livro funde-se ódio, desprezo e lamentos. Tudo por via da acusação emergente de uma narrativa, que sem o ser, tem um perfil discursivo à beira do caos corporativo. Porquê, pergunta Jelinek, tentar negociar dívidas sem fim? Para quê continuar a insistir num sistema corrupto, ensombrado pela ganância humana? Para quê dar mais valor a papéis e ideais conspurcadas pela violação moral e inóspita de um barco sem rumo?

Ainda com os ecos gregos (e portugueses) presentes da memória, créditos, poupanças e promessas de lucros são os maiores alvos das críticas de Elfriede Jelinek que consegue a difícil tarefa de tornar interessante a mordaz crítica económica por via de um assertivo humor negro e melodramático.

A banca colapsou, o dinheiro acabou, a economia é uma miragem, o futuro uma incerteza. O que fazer?

In Rua de Baixo

quarta-feira, 29 de julho de 2015

“O Diário de Mary Berg”
de Mary Berg


Com o poderio de Hitler já a invadir toda a Europa, a 16 de outubro de 1940 foi criado o Gueto de Varsóvia. O seu líder era Hans Frank, advogado de formação, que ocupou o cargo de Governador-geral da Polónia entre 26 de outubro de 1939 e janeiro de 1945.

Durante 912 dias, os judeus enclausurados no Gueto de Varsóvia viveram as piores das privações e provações. Prostrados perante os piores tentáculos da violência nazi, às centenas de milhar de pessoas que viveram entre muros apenas restava a (des)esperança de sobreviver à fome, à humilhação e ao atentado à condição humana.

É esse relato brutal que está bem patente nas páginas de “O Diário de Mary Berg” (Vogais, 2015) – que derivou originalmente de uma dúzia de cadernos de memórias -, um poderoso testemunho sobre o Holocausto, vivido, sentido e escrito na primeira pessoa por uma menina que, com apenas com 15 anos, se viu forçada a sentir na pele a injustiça cega de quem se achou no direito de reclamar uma superioridade racial cruel e obscena.

Ler este livro (tal como a maioria dos que abordam o Holocausto) é uma experiência estranha por pensar que tal foi possível. Conscientes do terror que os judeus foram alvo pelos nazis, as palavras deste diário resultam numa amálgama entre a “curiosidade” e o respeito pelos ecos da História e da memória recentes.

Ainda que sejam inevitáveis as comparações entre os relatos de Mary Berg e Anne Frank, este livro tem como “trunfo” a experiência in loco e in vivo da autora. Mary esteve, de facto, no “olho do furacão” nazi, de corpo e alma, vivendo na pele os dramas quotidianos dos residentes do gueto, tal como os seus pais e familiares.

O pai de Mary era um negociador de arte e, por um feliz acaso, a sua mãe era natural dos Estados Unidos da América, trunfo que valeu, durante um período, um estatuto diferente à família, pois uma simples bandeira norte-americana na porta de casa era sinónimo de moderada imunidade que poderia significar uma maior esperança de vida e, com sorte, a sobrevivência e libertação.

Um dos aspectos mais marcantes deste livro é a aparente vida social que foi sendo possível no gueto, com a realização de concertos, o surgimento de grupos de teatro e alguns cursos de formação. À força, no meio dos estilhaços humanos, tentava-se resguardar a sanidade mental (e social). Mary Berg manteve-se viva dentro desta conjuntura cultural, cantou, fez teatro, estudou design técnico e artístico. Esta fé sócio-cultural foi o surreal escape para alguns dos residentes do Gueto de Varsóvia.

Também surreal é a possibilidade de ler uma obra deste calibre. Sabemos que o diário foi publicado durante a guerra como um grito de revolta e um pedido de ajuda ao povo judeu polaco mas que, anos depois, foi reescrito a partir do original. Nos doze cadernos originais, em muitos casos, Mary Berg, para evitar mais vítimas, optou por não revelar apelidos e escreveu notas estenográficas que apenas ela entendia.

Talvez isso explique o porquê de algumas passagens parecerem emocionalmente distantes, principalmente quando existem referências a jovens pelos quais o seu coração se apaixonou, assim como às reacções de emoção e bondade dos seus amigos próximos. Talvez essa fronteira fosse a forma de conseguir aguentar tanto sofrimento sem colapsar em definitivo.

Ao contrário de Anne Frank, Mary Berg não regista grandes referências à própria balança emotiva. A amizade, o amor, eram apenas factuais. A esperança, um sentimento fugidio. Para uma menina que perdeu a adolescência (viveu neste demoníaco local entre os 15 e os 19 anos) entre os muros do Gueto de Varsóvia, a criação do diário foi um garante de uma sobrevivência mental concentrada no acto de respirar, de alguém perfeitamente “normal”.

Mas, contrariamente, o prefácio da edição de 1945, da autoria de S. L. Shneiderman (que na companhia de L. B. Fisher foi responsável pela publicação da versão completa dos textos de Mary Berg em fevereiro de 1945, cujo título original era “Warsaw Ghetto: a Diary”), e a contextualização de Susan Pentlin, nas páginas introdutórias, revelam uma “heroína” que, depois de muito divulgar o que viu durante a Segunda Guerra Mundial, em meados da década de 1950, optou por remeter-se ao silêncio, gesto por demais humano e justificado. O desejo por uma vida banal, sem alarmes, era, afinal, o grande objectivo de Berg e dos milhares que ousaram sobreviver ao Holocausto. A todos eles, uma eterna vénia de respeito.

In Deusmelivro