domingo, 21 de dezembro de 2014

NBA 2K15
XBOX 360

Terá chegado o momento?


Remonta a 1999 a primeira edição da série NBA 2K e na altura a Visual Concepts concebeu aquele que viria a transformar-se na maior referência dos simuladores de basquetebol para o universo Dreamcast, um produto da japonesa Sega.

Década e meia volvida, eis que surge NBA 2K15, um jogo lançado para as consolas das duas últimas gerações assim como para as versões Windows, Android, Ipad e Iphone. E tal como na primeira edição do jogo, a primeira coisa que fazemos depois de colocar o jogo na consola é… jogar. Somos apenas nós, a equipa contrária e o campo.

Num ápice, Kevin Durant, a estrela dos Oklahoma City Thunder cede o seu lugar na imagem e ouvimos “Shut Em’ Down” de DJ Caramel Jack. No écran estão agora Dwyane Wade, dos Miami Heat e Tim Duncan, dos San Antonio Spurs a brincar com a bola. Uma espera superior à normal neste menu leva-nos a ouvir “Suck My Kiss” dos Red Hot Chili Peppers. O ambiente sonoro é muito simpático e a responsabilidade da sua escolha foi de Pharrell Williams.

De comando em riste, deixamos a apresentação do jogo envolver-nos mas quando o gongo soa não podemos voltar atrás. Tenta-se ganhar o ressalto, os dribles sucedem-se. Lançamos ao cesto, acertamos, falhamos. O jogo é mesmo isto. Mas, será que estamos a jogar NBA 2K15? Ou será NBA 2K14? As diferenças são poucas e o gameplay é basicamente o mesmo.

À medida que evoluímos no jogo notam-se ligeiras diferenças no interface do utilizador. Uma evolução na mecânica de lançamento que nos ajuda a ser mais certeiros e a movimentação parece mais fluida. Não precisamos recorrer ao tutorial para conseguir jogar, isto claro, para quem está habituado ao mundo NBA 2K.

Ainda assim, as maiores diferenças notam-se em termos gráficos, especialmente nas consolas de última geração, pois na versão Xbox 360 que realizamos este teste as coisas estão bem idênticas à versão 14, o que não é necessariamente negativo pois a dinâmica dos jogadores é muito próxima do real. Menos boa está a questão facial dos jogadores e em alguns casos o resultado é manifestamente constrangedor nomeadamente no que toca à expressão emotiva das estrelas, um problema que vem das edições anteriores. Apesar disso, o suor aparece nos semblantes de forma “natural” e as marcas faciais estão bem trabalhadas e adensam a questão dos pormenores.

Mais visíveis são os ajustes em termos da fórmula do gameplay, principalmente na questão defensiva. Existem mais opções de ressalto e podemos agora recorrer a outras formas de contrariar o lançamento adversário, estas sim, evoluções face à edição de 2014.

Estes pequenos ajustes dão uma visão do que é o jogo na globalidade, isto é, um pouco mais do mesmo, sem grandes atrativos em forma de novidade no que toca à jogabilidade. Tal não quer dizer que não existam pontos favoráveis em NBA 2K15 mas a grande questão que se coloca é se está nova versão é suficientemente pertinente para atrair quem já possui NBA 2K14.

Ainda assim, estamos perante um jogo com uma excelente narrativa e o modo de criação de um jogador continua muito acima da concorrência (se é que ela existe depois da fraca luta que a série Live NBA da EA Sports tem vinda a representar) e nesta edição 2015 está uns furos acima daquilo que se viu no ano passado. Podemos mesmo fazer um scan na nossa cara através do Kinect. O processo é simples e muito interessante, permitindo trabalhar posteriormente a estrutura facial e é divertido dar outra tez à nossa expressão bem como trabalhar o nosso semblante de muitas maneiras. Se alguma vez teve esperança de se tornar numa estrela da NBA, chegou a sua hora.

Também o modo Carreira denota alguns ajustes mas basicamente mantém a sua (boa) estrutura. Assumimos a figura de um jogador livre e o primeiro objetivo é conseguir um contrato de 10 dias. Depois de provarmos o nosso valor, o céu é o limite. O dramatismo da NBA está presente e a glória apenas só pode ser alcançada depois de muito suor e lágrimas.

Uma nota positiva também para o trabalho de vocalização de alguns jogadores no modo Carreira pois se em NBA 2K14 o ambiente é claramente artificial, a nova versão denota maior profissionalismo o que é também uma mais-valia. Algo que já não se pode dizer em relação à estrutura de modo online que provoca uma acentuada dose de frustração principalmente no que toca à falta de estabilidade e sincronia entre os comandos e a ação do próprio jogo cujo delay é extremamente contraproducente.

Em forma de resumo, NBA 2K15 assume um perfil, grosso modo, idêntico às mais recentes edições transatas: boa jogabilidade, excelência do modo Carreira e um confrangedor modo online. A apreciação global é positiva – e mais uma vez podemos contar com 25 equipas da Euroleague Basketball – mas ainda não é desta que a série dá o esperado salto para novos patamares de interesse. Não resta outra coisa senão (des)esperar por esse momento.

In Rua de Baixo

Noiserv
“Everything Should Be Perfect Even If No One's There” DVD

Sozinho em Casa

 
Há poucos músicos assim. Há pouca música assim. O universo sem paralelo criado há cerca de uma década por David Santos, a.k.a. Noiserv, continua a deixar marcas.

Pouco mais de um ano depois de editar “ A.V.O – Almost Visible Orchestra”, eis que chega aos escaparates “Everything Should Be Perfect Even If No One's There”, um registo DVD gravado no minhoto teatro Diogo Bernardes. Intimista e cheio de alma, “Everything Should Be Perfect Even If No One's There” é tudo menos uma simples gravação de um (qualquer) concerto. Com produção do CANAL 180 em parceria com a Filmesdamente, estamos perante uma peça de pura filigrana musical e visual.

Traçando uma tangente no seu espólio artístico, David Santos veste a pele de um verdadeiro homem dos muitos instrumentos – 24 no total – e as nove composições ouvidas em cerca de 45 minutos fazem-nos sentir como se dentro de uma caixinha de música estivéssemos. Ainda que o teor deste “concerto” seja sinónimo do que tem sido a mais recente digressão de Noiserv, as seis câmaras que dissecam a prestação irrepreensível de David Santos tornam cada segundo, cada frame, num momento especial, único e completamente absorvente. Os pormenores revelam-se num eterno grande plano visual e auditivo que os sentidos resgatam deste trabalho. Do mais singelo acorde até à mais abrasiva equação sonora.

Misturando canções do mais recente “A.V.O – Almost Visible Orchestra” com outras de outros registos, “Everything Should Be Perfect Even If No One's There” segue o trilho da perfeição sonora através da exploração de um quase ilimitado somatório de camadas musicais que desafiam fronteiras entre o perpétuo e o efémero, entre o simples acorde e a refinada orquestração. Como elo aglutinador surge a voz segura e cadenciada de David Santos, também ela um instrumento vibrante que envolve música, instrumentos e imagem. Quando dentro do carrossel que é a música de Noiserv, é difícil abandonar essa viagem sincopada por um assinalável e - por que não dizê-lo sem qualquer tipo de imparcialidade – delicado bom gosto.

Seria injusto, tremendamente diga-se, destacar algum momento em “Everything Should Be Perfect Even If No One's There”. Todos eles são de uma imaculada pureza. A música encaixa perfeitamente nos nossos ouvidos anteriormente treinados pela mestria musical de discos como o já referido disco de 2013, “One Hundred Miles from Thoughtless”, ou dos mais curtos “A Day in the Day of the Days” ou “56010-92”.
Peça de ímpar beleza, este DVD tem o condão de mostrar o planeta singular de David Santos de uma forma particularmente cativante. Mais do que um veículo visual e musical, “Everything Should Be Perfect Even If No One's There” é um exercício de exacerbada beleza, uma forma de contemplar, e abraçar, a banda-sonora perfeita de um devaneio onírico, de um sussurro que envolve, amarra e se eterniza.

Alinhamento:

1 Mr. Carousel
2 This is maybe the place where trains are going to sleep at night
3 Bullets on Parade
4 Today is the same as yesterday but yesterday is not today
5 The sad story of a little town
6 It's easy to be a marathoner even if you are a carpenter
7 Palco do Tempo
8 I was trying to sleep when everyone woke up
9 Don't say hi if you don't have time for a nice goodbye

Classificação do Palco: 10/10

In Palco Principal

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

“A Chave de Salomão”
de José Rodrigues dos Santos


Na página 350 de “A Chave de Salomão” (Gradiva, 2014), depois de uma intensa conversa sobre Física entre Tomás Noronha e Maria Flor, o historiador afirma: «O universo é uno.» A leiga Flor fica surpreendida com tal afirmação mas não desarma e pergunta ao camarada de aventura e conselheiro da Fundação Gulbenkian o que tal significa. Noronha é então peremptório e diz estar mais perto de resolver o enigma.

A referida declaração resume o quinto congresso Solvay, realizado em 1927, que colocou frente a frente gente como Albert Einstein e Niers Bohr, cientistas que ilustram a capa “escondida” do mais recente romance de José Rodrigues dos Santos, um livro que transporta o leitor para uma alucinante viagem entre a ciência e a filosofia e cuja génese é a morte de Frank Bellamy, director de Tecnologia da CIA.

Inesperadamente, o corpo do norte-americano é encontrado no CERN, em Genebra, quando cientistas procuram o bosão de Higgs, também apelidado de Partícula de Deus. Para além do trágico que a morte de Bellamy encerra, o mistério cresce dado que a vítima foi encontrada com a estranha mensagem: «The Key: Tomás Noronha.» Sem nunca o esperar, Noronha assume-se como o maior suspeito da morte de Frank Bellamy e apenas resta ao português tentar demonstrar a sua inocência. Ciente de que Tomás é o homicida, a CIA lança uma autêntica caça ao homem e o historiador vê no seu encalce homens contratados pela agência norte-americana.

Misto de fuga e desesperada viagem, a demanda de Tomás Noronha, na companhia da bela Maria Flor leva a dupla a percorrer séculos de descobertas científicas, que têm a Física como o maior elo aglutinador. Mas pelo meio, outras dívidas surgem: como será a vida depois da morte? A alma existe? O que é, de facto, a realidade?

Fruto de uma intrincada investigação, “A Chave de Salomão” leva o leitor para o interior de um universo que mescla conceitos como a consciência e a realidade e, apesar de ser um livro de ficção, a informação científica é genuína. Rodrigues dos Santos escreve, nas primeiras páginas do livro, que «todas as teorias e hipóteses apresentadas são sustentadas por cientistas.»

O ritmo das páginas de “A Chave de Salomão” pauta-se por um registo dinâmico – frenético até – e cativa o leitor desde as primeiras frases, que revelam em si situações repletas de acção, peripécias várias e, por vezes, longas e pormenorizadas descrições dos ambientes, uma das mais vincadas imagens de marca do estilo narrativo do autor de “Codex 632” e “A Fórmula de Deus”.

O suspense marca presença permanente neste romance que, por vezes, entra em modo automático e particularmente maçador quando Noronha divaga sobre Ciência e Física – apesar da sua pertinência contextual, são momentos contraproducentes para a fluidez dinâmica da trama. Essa é uma das pechas deste livro que tendencialmente, a espaços, arrasta o leitor para longos discursos (ou quase monólogos) centrados nas mentes de, por exemplo, Max Plank, Alberte Einstein, Werner Heisenberg ou Erwin Schrodinger.

Apesar disso, Rodrigues dos Santos consegue construir várias camadas misteriosas que, à medida da sua descoberta, tornam a ação mais fluida, permitindo encaixar as muitas peças de um intrincado puzzle que navega ao longo de mais de 600 páginas, apostando numa narrativa formada por uma sucessão de capítulos que intervalam a trama entre si, conferindo assim um maior dramatismo ao romance que reserva alguns apontamentos irónicos – nomeadamente à fragilidade anedótica da suposta super-competente CIA.

Ainda que tal possa ter relevância subjectiva face ao resultado final, são notórias as comparações entre o universo de Rodrigues dos Santos e o de Dan Brown, “fantasma” que persegue algumas obras do autor português mas que não impede de o afirmar, cada vez mais, como o escritor que mais vende em Portugal.

“A Chave de Salamão” está perto de atingir a invejável marca das 100 mil vendas, sendo que o também jornalista está perto de conseguir a bonita soma de dois milhões de livros vendidos ao longo da sua (super)produtiva carreira. Números à parte, e não sendo a melhor obra de José Rodrigues dos Santos, “A Chave de Salomão” é um livro consistente e vai, de certeza, fazer as delícias dos fãs do autor.

In deusmelivro

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

“A Primeira Guerra Mundial”
de John Keegan

Uma tragédia com epicentro na Europa


 Um das questões mais importantes quando falamos de não-ficção é a pertinência dos factos, esses elementos aglutinadores que tornam a realidade como uma balança que oscila mediante os seus protagonistas, os seus acontecimentos e, acima de tudo, a ambiência conjuntural.

Quando o cenário retratado nos remete para um conflito bélico à escala planetária (ou quase), são muitas as questões que surgem. Qual a génese de uma guerra? Para que serve a mesma? Existe alguma legitimidade para tal?

Cético, Sir John Keegan, professor da Academia Militar de Sandhurst e historiador britânico especialista em conflitos bélicos, entretanto falecido em 2012, não tem dúvidas em caracterizar a Grande Guerra como “um conflito trágico e inútil”. Tal pode ser lido nas primeiras linhas de “A Primeira Guerra Mundial” (Porto Editora, 2014), um extraordinário livro assente em uma linguagem acessível e contagiante sobre um recontro que teve a sua origem no assassinato de Francisco Fernando, arquiduque da Áustria, em 28 de junho de 1914.

Assim, há precisamente cem anos, o mundo dito moderno estava a braços com a Primeira Guerra Mundial e foi este terrível evento que vitimou cerca de 10 milhões de pessoas que definiu, à força, a história de um século que viria a ser, mais tarde, assombrado pelo nascimento do nazismo, a afirmação da Rússia Soviética, os ecos da Guerra Fria, a desintegração da Europa Central assim como os bárbaros conflitos no Médio Oriente e o policiamento do universo por parte dos Estados Unidos da América.

Neste livro, dedicado a todos os que não tiveram a felicidade de regressar do palco do conflito, Keegan traça uma tangente sobre os vários vértices da guerra vivida entre 1914 e 1918, debruçando-se sobre a tragédia que assolou a Europa nesse período, os planos de guerra, a chamada crise de 1914, a batalha das fronteiras e do Marne, a alternância vitoriosa no Leste bem como a leitura da dureza das próprias batalhas assim como os seus efeitos nefastos sobre os militares ou o papel dos norte-americanos na ponta final daqueles que foram quatro anos negros.

A par de uma rica bibliografia, algumas das mais emblemáticas fotografias do conflito assim como mapas que explicam os avanços e recuos das forças militares, “Primeira Guerra Mundial” apresenta ainda uma pertinente reflexão que analisa a presença dos portugueses no conflito e as suas consequências em termos do futuro deste país à beira-mar plantado.

In Rua de Baixo

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Tears for Fears
“Songs from the Big Chair - Super Deluxe Edition Box Set”

Eles queriam e conquistaram o mundo

 
Muita da melhor música pop das décadas de 1980 e 1990 nasceu do complô criativo que brotou da junção de Roland Orzabal e Curt Smith, a dupla que ficou conhecida no mundo da música como Tears for Fears.
Fazendo uso de uma magnífica mescla entre ingredientes inatos tanto ao espírito da new wave como do synthpop, a banda britânica originária de Bath, a oeste de Londres, conseguiu a proeza de vender até hoje mais de trinta milhões de discos e colocar mais de duas dezenas de composições nos lugares cimeiros das tabelas de vendas internacionais.

Mas, para além da componente comercial, os Tears for Fears tiveram o mérito de assinar um dos melhores discos da história da música moderna. Falamos de “Songs from the Big Chair”, segundo longa-duração da dupla e um álbum fabuloso que, em 1985, deixou o mundo rendido a músicas como “Shout”, Everybody Wants to Rule the World”, “The Working Hour”, “Head Over Heels” ou “Mothers Talk”.

Ombreando em termos sonoros com bandas como os Human League, Soft Cell ou ABC, os Tears For Fears ousaram mesmo reclamar pelo título da maior banda à face do planeta, tal era a força e magnitude da sua música. Rapidamente, Orzabal e Smith conquistaram o mundo através de uma pop brilhante, que encontrava excelente porto de abrigo em orquestrações cerebrais e eletrónicas.

A ambição poética deste disco transpunha qualquer tipo de fronteira musical e, ao longo das oito canções de “Songs from the Big Chair”, conviviam elementos épicos com sonantes solos de guitarra e fortíssimas percussões, que extravasavam por completo o conceito mainstream.

Décadas passaram mas a música manteve-se pertinente, acutilante, brilhante. Por isso, à passagem dos trinta anos de existência, “Songs from the Big Chair” é alvo de remasterização e novas edições, incluindo a ambiciosa Super Deluxe Edition Box Set, um conjunto de seis discos (quatro CD e dois DVD) ao qual se junta uma réplica do programa da digressão que promoveu o disco aquando do seu lançamento e ainda um booklet de 32 páginas.

Para além de, no primeiro disco, podermos contar com as oito músicas originais remasterizadas, encontramos também alguns lados B e versões raras limitadas e ou minimalistas. O segundo tomo desta edição de luxo é composto por versões de sete polegadas, enquanto no disco número três as surpresas dividem-se entre remisturas, versões 12 polegadas e experiências dub.

O quarto capítulo desta Super Deluxe Edition Box Set exibe canções nunca editadas, promos, demos e alguns momentos ao vivo, enquanto o disco cinco mostra as oito canções do alinhamento original em modo 5.1 Mix e Stereo. Já o DVD encerra em si um documentário, momentos de entrevista, atuações do lendário "Top of The Pops", assim como videoclips, carinhosamente apelidados no Portugal dos anos 1980 de “telediscos”.

In Palco Principal

“Bryan Adams”
“Reckless 30th Anniversary”

Clássico rock and roll




O país sonhava entrar na CEE, ainda se falava do “Tolan” atolado no Tejo, os portugueses vibravam com as fintas de Fernando Chalana no França 84. A década de 1980 estava ao rubro. Sentiam-se novas energias e vibrações, e o universo musical não fugia à regra. O rock luso marcava pontos e nasciam novas formas de promover a música. Se António Sérgio se assumia como um dos maiores divulgadores da causa, o nascimento do jornal “Blitz”, com Manuel Falcão ao leme, e o “Top Disco”, na RTP, sob a batuta de António Duarte, abriam horizontes aos melómanos cá do burgo. A oferta musical começava a ser significativa e os LP’s e os singles que chegavam a Portugal, com assombroso delay, diga-se, eram como presentes dos deuses.

Entre essas ofertas chegaram discos que, passados três décadas, são ainda hoje referências, gostemos ou não do estilo ou do autor. E um desses álbuns charneira é “Reckless”, do canadiano Bryan Adams, um disco com uma dezena de canções que misturavam alguma puerilidade rock and roll com assinalável pujança e um conjunto de melodias radio friendly que ainda hoje fazem sorrir, dançar e saltar os (mais ou menos) saudosistas.

Que atire a primeira pedra quem nunca bateu o pé ao som de “Summer of 69” ou “It’s Only Love”, suspirou com “One Night Love Affair” ou “Heaven”, ou sonhou acordado com “Run to You”.

Hoje, 30 anos volvidos, envolto numa torrente saudosista, o cantor, que passou alguns anos da sua infância e adolescência em Portugal, lança “Tracks of My Hears” e, acima de tudo, reedita “Reckless”, um disco que vendeu milhões um pouco por todo e mundo e que agora está disponível em várias versões de luxo.
Produzido em nome próprio e com a preciosa ajuda de Bob Clearmountain, “Reckless” conseguiu a proeza de ter colocado cinco singles no Top 15 norte-americano, algo que apenas “Thriller”, de Micheal Jackson, e “Born in the USA”, de Bruce Springsteen, haviam conseguido.

De forma a celebrar os trinta anos de vida, “Reckless” tem vida nova e foi alvo de remasterização. A par disso, vai ser possível ouvir mais sete inéditos e, na versão Super Deluxe, os fãs do autor de “Cuts Liks a Knife” vão também contar com um CD áudio com o concerto realizado em 1985 no mítico londrino Hammersmith Odeon.

Mas as surpresas não ficam por aqui. Existe também um DVD com um filme inédito de “Reckless” e um Blu-Ray áudio com o álbum misturado em 5.1 pelo já referido Bob Clearmountain. Esta edição vem acompanhada por um livro que inclui, para além de fotografias inéditas, apontamentos de Alexis Petridis, Bryan Adams, Jim Vallance e Bob Ludwig - o quarteto que, entre março e agosto de 1984, pisou o Little Mountain Sound Studios em Vancouver, Canadá.

In Palco Principal

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

“Um, dó, li, tá”
de M. J. Arlidge

Dois reféns, uma bala, uma terrível decisão


Combinar uma forma narrativa excitante, personagens com cabeça, tronco e membros e uma atmosfera assustadoramente inebriante não é tarefa fácil mas o britânico M. J. Arlidge consegue-o logo na sua primeira experiência enquanto escritor de romances policiais.

Com uma vasta experiência em televisão – nomeadamente em séries dramáticas de cariz criminal – Arlidge lança-se de cabeça no panorama literário com “Um, dó, li, tá” (Topseller, 2014), uma obra que está a fazer furor em termos internacionais através de (merecidas) excelentes críticas.

No centro da ação está Helen Grace, inspetora-detetive do departamento policial de Southampton que lidera uma investigação envolta de um intrincado jogo de sacrifício onde a chantagem psicológica do raptor encontra feedback no desespero das vítimas que são obrigadas em optar entre matar ou morrer, entre salvar-se ou eliminar o seu companheiro de forçado cativeiro.

Tudo começa quando Sam e Amy, um jovem casal, é raptado e se vê forçado face a uma decisão aterradora. As regras deste abominável jogo são claras: apenas um dos reféns pode sair com vida deste cárcere. Alvos de uma forte manipulação, os namorados enfrentam o desespero e a “solução” assume a forma de uma bala. Um simples tiro certeiro significa o fim do martírio de um dos raptados, um preço demasiado alto.

Os casos sucedem-se e cada pormenor, cada detalhe, leva Helen a acreditar que existe um padrão nos acontecimentos. Com a preciosa ajuda do atormentado Mark Fuller e da belíssima Charlie, uma dupla de detetives que habitualmente acompanha as investigações de Grace, a inspetora-detetive está cada vez mais convencida que a chave para capturar o monstro raptor está nos sobreviventes. Mas o tempo não para e a qualquer momento o número de vítimas pode aumentar enquanto a época natalícia em Southampton é manchada pelo vermelho do sangue derramado.

Estão assim lançados os dados para este que é um dos mais alucinantes romances policiais do presente ano. Arlidge revela uma ímpar mestria em combinar tensão, mistério e uma estória muito bem delineada. Um dos grandes trunfos de “Um, dó, li, tá” está na sólida construção dos personagens, principalmente da tripla Helen, Mark e Charlie, que mostra pormenores de grande lucidez ao apresentar “notas de rodapé” sobre as complicadas vidas destes polícias que, cada um à sua maneira, tentam ultrapassar fantasmas interiores que teimam em não abandonar as suas mentes.

Mas é também no perfil pérfido do raptor que reside outra das traves mestras deste romance pois as suas pensadas movimentações tendem a fazer revelar o pior do ser humano encurralado por uma situação que leva a que os sobreviventes sintam a dor imensa provocada pela culpa de matar alguém, para mais um amigo, um camarada de trabalho, um namorado ou uma filha. Desta forma recai sobre os “vencedores” um tormento interminável que os leva a ponderar a sua condição humana.

Escrito através de capítulos curtos, dinâmicos e absolutamente viciantes, que remete para um universo cinematográfico de películas como “Saw”, “Um, dó, li, tá” leva o leitor a devorar num ápice as páginas deste thriller psicológico cujos contornos mórbidos arrepiam e entusiasmam quem o lê pela sua brutalidade, intrincadas camadas de tensão e um enredo genuinamente entusiasmante que, algo já garantido pela editora, vai ter uma sequela.

In Rua de Baixo

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

“Do Holocausto à Salvação”
de Bernard Wasserstein


A irracionalidade de alguns actos (des)humanos continua a assombrar um dos mais negros períodos da história mundial. Por vezes, parece que a provação enfrentada pelo povo judeu durante o imperativo Nazi aconteceu numa galáxia distante. Como é possível conceber o extermínio de um povo e lidar com tal destino?

Por outro lado, a amplitude contrastante entre estar “marcado” para a exterminação e manter um perfil que era constantemente saudado entre as elites é um intenso mistério. Essa hesitação agoniante foi sentida por alguns que, inseridos em uma particular conjuntura se sentiram, enquanto judeus, uma minoria privilegiada que gozava do “luxo” do quase livre arbítrio, mas que usava esse poder para ajudar os seus semelhantes a fugir de uma realidade negra.

O grande objectivo era escapar à morte certa, julgamento esse decidido num tribunal unilateral e omnipotente. A fuga, entendida na forma de escape face à deportação para as fábricas de morte idealizadas pelo Terceiro Reich, colocou em cena indivíduos que ousaram desafiar o poder instituído numa Europa à mercê de um louco chamado Adolf Hitler.

É sobre uma dessas almas altruístas que recai “Do Holocausto à Salvação” (Vogais, 2014), uma obra da autoria de Bernard Wasserstein, historiador e professor de História Judaica Europeia Moderna na Universidade de Oxford, que também se dedica à História e Política de Israel. A par de nomes como Aristides de Sousa Mendes, Oskar Schindler ou Raoul Wallenberg, Gertrude van Tijn, uma judia alemã com nacionalidade holandesa e um dos principais membros do Conselho de Amesterdão, logrou lutar pela vida de milhares de pessoas cuja esperança fugia a cada segundo face à determinação das forças Nacional-Socialistas.

“Do Holocausto à Salvação” mostra o seu percurso diplomático no seio de uma das maiores convulsões mundiais, aproveitando Wasserstein para relembrar muito daquilo em que se centraram os debates judaicos realizados e propostos posteriormente por Hannah Arendt que enfatizava, pertinentemente, noções como a “cumplicidade” e a “culpabilidade”, esquecendo-se de entender a extraordinária coragem de activistas como van Tijn, que ousaram desafiar a autoridade Nazi assim como a – por vezes – amorfa intervenção dos Aliados, conceito entendido neste contexto como potencialmente amigáveis.

Ao longo das páginas deste muito interessante e acutilante livro, somos convidados a sentir os inacreditáveis algoritmos emocionais que pessoas como Gertrude van Tijn sentiam ao pensar os trabalhos diários de resgate e o constante recorrer à boa vontade alheia através de fundos e apoios supranacionais. A dilacerante dúvida entre quem escolher, o dilema da “opção” face à deportação mediante inevitáveis rivalidades e “traições”, assombrava a mente da holandesa.

Mas, sob outra perspectiva, “Do Holocausto à Salvação” evoca o poder da sustentação absolutamente vital da amizade, esse porto de abrigo que também salvou van Tijn da morte, principalmente quando a holandesa passou por períodos dramáticos em termos pessoais – nomeadamente nos anos 1930, quando se divorciou e viu alguns dos seus melhores amigos e vitais alicerces falecerem.

A tenacidade do espírito de van Tijn desafiou tudo e todos e, quando a Segunda Guerra Mundial atingiu o seu pico, Gertrude chegou a Portugal por forma a deixar para trás a sitiada Amesterdão. Na bagagem, mais que pertences, trazia uma missão especial: negociar o refúgio de milhares de judeus, de naturalidade alemã e holandesa, com a “estranha” permissão das autoridades nazis.

Desconfiadas, as autoridades portuguesas encaravam Gertrude van Tijn com um misto de respeito e confiança e foram muitas as teses criadas em volta da holandesa que, em tempos, optou pelo Sionismo. Teria sido ela um simples meio estratégico dos Nacional-Socialistas ou uma audaz heroína que pactuou com o inimigo para defender ao máximo o seu povo?

São alguns desses mistérios que “Do Holocausto à Salvação” pretende esclarecer, assumindo-se como um extraordinário documento que permite observar uma das mais obscuras fatias da cronologia mundial, ressalvando o papel que o território português – e principalmente a sua capital, descrita por alguns como “o ponto de estrangulamento da Europa” – desempenhou nesse período.

Dividido em doze capítulos, esta obra traça um magnífico perfil de uma mulher que teve de se reconstruir por forma a conseguir ajudar outros, que o “destino” declarou inferiores e indignos de uma existência normal. Wasserstein consegue transmitir ao leitor os dilemas de uma alma que lutava contra a própria consciência ao negociar com um dos mais pérfidos inimigos da humanidade.

In deusmelivro

terça-feira, 25 de novembro de 2014

“Longe de Veracruz”
de Enrique Vila-Matas

A melhor das viagens é feita através dos sentimentos


Uma das vozes mais proeminentes da literatura espanhola, o catalão Enrique Vila-Matas é dono de um universo que mescla ensaio, crónica jornalística e uma aproximação novelística assente em várias camadas surrealistas que, por vezes, surgem alicerçadas em fragmentos de algum ironia filtrados entre a realidade e uma particular ficção.

Desde que publicou o seu primeiro livro em 1977, “A Assassina Ilustrada”, Vila-Matas não mais parou de surpreender os amantes da literatura tendo sido através de “História Abreviada da Literatura” que, definitivamente, colocou o seu nome entre os mais reconhecidos autores contemporâneos.

A sua mais recente aventura em forma de livro é “Longe de Veracruz” (Assírio e Alvim, 2014), um relato deliciosamente “tóxico”, sinónimo de um constante estado de alerta intelectual dentro de uma galáxia onírica que desafia a fronteira entre a realidade e a aparente sensação ilusória.

No epicentro do romance está Enrique, o mais novo dos três irmãos Tenorio, narrador deste fascinante livro que aposta na literatura como seu último refúgio. Aos 27 anos, Enrique, enquanto um jovem maneta derrotado pela vida, quer afastar um sentimento de ócio aburguesado através do ato da escrita cujo tema versa sobre o ódio face a Sant Gervasi, um edifício de três andares herança do seu falecido pai, assim como à incapacidade de amar e ser amado.

Enrique pensa um romance que reúne laivos de uma figuração moderna da desgraça tendo como pano de fundo o distante porto de Veracruz, polo inspirador e trágico de uma dramática tradição de espelhar a existência através do conveniente, lógico e apaixonado dom de escrever ainda que sob o espetro de um omnipresente pânico.

É sob esse sentimento mutilado que pretende ocupar o lugar deixado vago pelo seu irmão Antonio, um escritor de viagens que nunca viajou, decidindo ele sim palmilhar mundo e viver uma vida tomada de empréstimo. Repentinamente, Enrique molda a sua vida ao romance e interioriza um misto de segmentação temporal conjugada entre fatias de presente e passado na tentativa de resgatar algo (ir)recuperável.

Esse romance é o reflexo de uma relação amor-ódio com a vida, os seus irmãos e a figura (ausente) do seu pai. Para além disso, Enrique verbaliza um misto de frustração e descrença que apenas encontra antídoto no amor pelas terras distantes que conhece enquanto viaja e mesmo o pavor ao continente africano não ofusca o prazer de conhecer mundo.

É assim que vai construindo uma obra de perfil improvisado, arrancado a ferros, de semblante diário romanceado cujo herói é uma improvável figura quebrada pela impotência de se sentir um ser humano e finito face ao normal curso dos dias, um após outro.

Pelo meio há espaço para canções que passam na rádio como metáforas da vida, anotações em um caderno cuja capa anuncia um trio de tucanos, reflexões face à presença de um obeso anjo que decora uma tapeçaria, uma cantora de bolero assassina, um dentista entregue ao álcool, um cabeleireiro fascista, roubos de objetos pessoais em noites de desvario e um enorme rol de situações rocambolescas.

Tal como em outras obras de Vila-Matas, “Longe de Veracruz” é um típico e admirável exemplo da sua genialidade enquanto escritor. A narrativa obriga o leitor a entrar na trama e assumir um papel expectante face ao que vai acontecer na página seguinte, sem pressas. As palavras fluem dolentemente e as ideias viajam, literalmente, até à nossa mente através de um processo íntimo de cumplicidade pois a escrita de Enrique, que não Tenorio, é uma eterna lufada de ar fresco.

In Rua de Baixo

terça-feira, 18 de novembro de 2014

“Infiltrado”
de Jeff Abbott


Ao quarto tomo da saga de Sam Capra, um ex-espião da CIA, o norte-americano Jeff Abbott faz-nos chegar mais um excelente livro de acção que nos leva ao coração da quente Miami, cidade que serve de cenário para mais uma viagem ao meandro de um mundo que mistura legalidade com subterfúgios vários que se escondem por trás dos mais insuspeitos personagens.

Depois de “Adrenalina”, “O Último Minuto” e “Queda”, “Infiltrado” (Asa, 2014) tem a sua génese quando Steve Robles, um dos mais frequentes clientes de “Stormy’s” – bar propriedade de Capra que exibe posters dos Miami Dolphins misturados com fotos de gente como Hemingway – é assassinado. Tal acontece à porta do referido estabelecimento e apanha todos de surpresa.

Para além de lamentar a morte do seu amigo, Sam tem para com Steve uma divida de gratidão eterna e tudo fará para puder ajudar a resolver este crime. Se em tempos foi Robles que salvou Capra e a sua família em terras de África, hoje, em Miami, está na hora de retribuir favores.

Sam Capra está determinado em encontrar o assassino e fazer justiça, pelas suas próprias mãos e meios. Sem grandes suspeitas, Capra tem na mulher desconhecida que acompanhava Steve minutos antes da sua morte o ponto de partida para a sua investigação. Quem é ela? Que queria de Steve?

As perguntas são muitas e Sam quer encontrar respostas, a todo o custo. Para isso serve-se do seu antigo disfarce dos tempos de agente da CIA e faz renascer Sam Chevalier, personagem que vai infiltrar-se no seio dos Varela, uma das mais importantes e perigosas famílias de Miami.

As primeiras e espantosas revelações desta “missão” levam Sam a descobrir que a ligação entre Steve e Cordelia, o nome da misteriosa mulher que o acompanhou nas suas últimas horas de vida, teve o seu início quando a atraente mulher contratou Robles para um trabalho de segurança realizado em Porto Rico.

Sam evolve-se com Cordelia e consegue aceder ao coração da família Varela mas tal coloca o antigo agente da CIA em um perigoso jogo que pode significar a sua morte mediante o mais pequeno deslize. Quis o destino que, nos primeiros contatos com os Varela, Sam consiga salvar Rey Varela, o patriarca da família, tornando-se assim numa espécie de herói acidental, papel que não cai muito bem junto de Galo e Zhanna, os dois irmãos, ou meios-irmãos, de Cordelia.

Sempre no limite e com o amargo sabor a fel por perto, Sam Capra é completamente arrastado para um terrível drama familiar, cujo labirinto revela os fantasmas dos elementos da família Varela que são sinónimo de segredos assassinos.

Pai e filhos vivem sucessivas relações destroçadas e a autodestruição é um passo mais que esperado. Essa torrente de acontecimentos vai colocar em dúvida a operação levada a cabo por Sam que se depara com um segredo que pode significar a sua morte.

Com uma narrativa na linha de autores como James Patterson ou Janet Evanovich, Abbott cria uma trama muito ao estilo dos filmes de acção made in Hollywood, onde a dinâmica e a adrenalina dos acontecimentos leva o leitor a devorar as páginas de “Infiltrado” num ápice, livro cuja fórmula de sucesso está alicerçada numa portentosa amálgama entre momentos de puro dramatismo, suspense e uma carga fortemente emotiva.

Escrito e relatado na perspectiva de Sam Capra, o mais recente livro do autor que já venceu o International Thriller Writers Award e foi nomeado três vezes para o Edgar Award, é um elogio ao (bom) entretenimento e faz jus aos restantes episódios da saga Capra, desta vez através de uma viagem ao outro lado do poder onde as jogadas de bastidores, o contrabando, a tortura e os abusos de poder justificam todos os meios, nem que o acto assassino seja uma das armas utilizadas.

Mesmo para quem nunca leu nenhum dos outros livros que Jeff Abbott dedicou a Sam Capra, “Infiltrado” foi construído de forma a ser bem compreendido pelos leigos da saga, sendo frequentes as contextualizações sobre o passado do personagem principal, sem dúvida um dos mais interessantes nomes do universo dos thrillers e policiais contemporâneos.

In deusmelivro

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ben Howard
"I Forget Where We Were"

Música para gente graúda


Em “End of the Affair”, oitava faixa de “I Forget Where We Were” e primeiro single do segundo longa-duração do britânico Ben Howard, a música atinge a sua plenitude. Howard, sob uma paleta sonora espartana, funde sons e silêncio com palavras que vão do sussurro ao grito. Ao longo de mais de sete minutos, a música invade-nos a mente de uma forma apaixonada, quente. Canta-se o amor, a perda, os novos começos, com guitarras, bateria e baixo a voarem livres.

Três anos depois de “Every Kingdom”, disco que teve honras de ser nomeado para o Mercury Prize, Ben Howard surge mais maduro. “I Forget Where We Were” é um excelente exemplo de uma sonoridade que mescla um folk de características mais indie com laivos de um pop doce, mas não em doses excessivas, que lembra, em parte, e por exemplo, alguns dos melhores momentos de Damien Rice.

A produção de “I Forget Where We Were” esteve a cargo de Chris Bond, baterista que acompanha regularmente Ben Howard, e o resultado final é um maravilhoso disco, composto por duas mãos cheias de canções que ousam ultrapassar, com frequência, os quatro minutos de duração, e que se afastam, e muito, da banalidade.

A coragem e confiança no seu trabalho levou mesmo Howard a destacar como primeira amostra do álbum o já referido “End of an Affair”, um tour de force encantador e intenso cujo clímax se assume como um espanta-espíritos face aos mais pessimistas que não acreditariam nas qualidades do jovem cantautor.

No seu todo, “I Forget Where We Were” é um disco de guitarras, mas ousa navegar por densos territórios repletos de uma profundidade rítmica assinalável, que explora uma dicotomia de opostos onde sons oníricos se fundem com camadas de uma pop que se transfigura entre momentos mais intimistas e outros mais aguerridos - algo que se declara como um corte face ao que Ben Howard fez em “Every Kingdom”.

Ouvir este disco é um exercício refrescante e arrebatador, e nas entrelinhas das palavras e sons que derivam das canções de Howard conseguimos sentir a magia assertiva de quem sabe que está a fazer um trabalho repleto de sentido. Tal pode ser comprovado nos primeiros acordes de “Small Things”, a faixa que inicia o álbum e cujo perfil nos remete para um math-rock açucarado, ou em momentos mais soltos como “Rivers in Your Mouth” ou “Time is Dancing”.

Já “In Dreams”, onde o folk se sente amiúde nas cordas das guitarras e nos lamentos que derivam do violoncelo, revela-se uma sentida canção que explora os sentimentos díspares entre reflexões mais depressivas, que vão desaguar num mar de confusões existenciais e em algum sentido de desajustada existência que, ainda assim, se dissipa em “She Treats Me Well”, um hino à “esperança”, onde o amanhã é encarado com tranquilidade e sob a forma de uma presença feminina.

Com uma clara veia experimentalista, Ben Howard não tem pejo em fazer canções como a lindíssima e melancólica “Evergreen” ou a despretensiosa “Conrad”, composição envolta numa simplicidade tal, que os seus acordes elétricos são como o resultado de um normal e regular batimento cardíaco, pois é o coração do ouvinte o maior destinatário das (grandes) canções de “I Forget Where We Were” - um exercício sonoro que é sinónimo de uma rara espécie de filigrana musical e um dos mais inesperados melhores discos de 2014.

Alinhamento:

1. Small Things
2. Rivers In Your Mouth
3. I Forget Where We Were
4. In Dreams
5. She Treats Me Well
6. Time Is Dancing
7. Evergreen
8. End Of The Affair
9. Conrad
10. All Is Now Harmed

Classificação do Palco: 9/10

In Palco Principal

sábado, 15 de novembro de 2014

“Dois dias, Uma Noite”
de Jean-Pierre e Luc Dardenne

A Provação de Sandra



O sol, lá fora, ainda brilha. Sandra descansa, o telefone toca, insistentemente. Sandra, renitente, levanta-se e atende. Entretanto o forno dá sinal e a tarte está pronta. O dia corre normalmente até que se contrariam as lágrimas, em vão. A vida pode mudar a cada segundo, sem qualquer tipo de aviso. Resta lutar com as (poucas) forças que restam.

É desta forma crua que os veteranos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne filmaram a primeira cena de “Dois Dias, Uma Noite”, um fantástico e tocante drama que tem como figura principal (a belíssima) Marion Cotillard no papel de Sandra, uma mulher casada e com dois filhos que tenta salvar o seu emprego depois de os seus colegas terem optado por receber um bónus de mil euros em detrimento do lugar do seu posto de trabalho na Solwal, uma empresa de painéis solares.

O dilema fora colocado pelos responsáveis da empresa que depois do afastamento de Sandra devido a uma depressão de origem nervosa constataram que o volume de trabalho pode ser assegurando sem um dos colaboradores, ainda que com esforço acrescido de cada qual. Essa decisão coloca os colegas de Sandra no difícil lugar de “escolher” entre o bónus e Sandra, que finalmente se sente em condições psicológicas de regressar ao trabalho.

Esse forte revés é-lhe comunicado por Juliette (Catherine Salée) e resta a Sandra tentar durante o fim de semana convencer os colegas a mudarem de opinião, depois de conseguir a concordância do gerente da empresa para se realizar outra votação.

Desesperada, Sandra tenta salvar o seu posto de trabalho e enceta uma terrível demanda. Do seu lado está o marido Manu (Fabrizio Rongione) que encoraja a muito fragilizada esposa a falar com os colegas. São necessários nove votos para Sandra manter o trabalho mas o que a ainda funcionária da Solwal tem para oferecer “em troca” aos seus colegas é apenas a sua angústia e ansiedade.

Essa terrível situação leva Sandra a voltar a sentir sintomas depressivos e sente constrições na garganta chegando a perder a capacidade de falar, hiperventila e a única “salvação” assume a forma de um conhecido antidepressivo. Não é apenas o emprego de Sandra que está em jogo, é o seu casamento, a sua vida.
A dificuldade de Sandra é acrescida pois durante o fim de semana é mais difícil encontrar os camaradas e suas famílias. Alguns dos seus colegas aproveitam os dias de descanso para conseguirem mais dinheiro pois a vida é complicada. O desemprego assola algumas destas famílias que têm nos mil euros de bónus um precioso aliado para colmatar as crescentes necessidades. Conseguirá Sandra o seu objetivo?

Com uma simplicidade desarmante, os irmãos Dardenne transformam “Dois Dias, Uma Noite” em um dos mais emblemáticos filmes deste ano e a sua participação na mais recente edição do Festival de Cannes pode ser sinónimo de grande sucesso não só pelo filme em si como através do magnífico trabalho de Cotillard.

Anteriormente galardoados com a Palma de Ouro com “Rosetta” (1999) e “A Criança” (2005), Jean-Pierre e Luc Dardenne oferecem ao espetador uma brilhante estória de cariz realista e social que se assume como uma tensa narrativa que vem mais uma vez revelar a mestria da sua capacidade de filmar pessoas “comuns” em situações “comuns”.

É com essa ímpar arte – que nos remete para, por exemplo, alguns dos momentos mais brilhantes do britânico Ken Loach, – que os Dardenne conseguem transformar “Dois Dias, Uma Noite”, em um filme que espelha a ténue linha que separa a solidariedade do ato (desesperado) da necessidade, trabalhando um personagem no seu limite emocional que tenta esconder o seu desabar face a uma intensão de resgatar uma maioria democrática que resulta de uma votação manipulada e suja que coloca em rota de colisão colegas de trabalho, familiares chegados, famílias à beira da rutura.

A simplicidade (e extrema competência) da trama encontra um poderoso aliado na câmara de Jean-Pierre e Luc Dardenne que acompanha Sandra na sua provação derivando de planos estáticos para outros cuja ligeiríssima oscilação faz sentir o espetador como parte do drama sentido a partilha de uma realidade filtrada pelo grande ecrã.

Para além disso, nunca é demais referir, outro dos grandes pilares da consistência de “Dois Dias, Uma Noite” é a extraordinária entrega de Marion Cotillard que a encaixa na perfeição em um dos mais austeros e difíceis papéis criados pela dupla belga. Sandra mistura traços de uma dignidade e contenção assombrosas e a sua técnica de atuação é deslumbrante – a cena em que está ao telefone com um dos primeiros colegas (no caso, Kader) com que tenta tornar seu aliado na votação é de um dramatismo extraordinário pela forma como a atriz se entrega e trabalha a ação, os silêncios, as pausas, a concentração. O seu rosto espelha a amargura, convence e comove, tal como um filme em si que figurará, seguramente, nas listas dos melhores do ano.

In Rua de Baixo

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

“O PINTASSILGO”
DE DONNA TARTT

Um livro grande ou um grande livro?



Um dos maiores fenómenos dos últimos anos no que toca ao universo literário, “O Pintassilgo” (Presença, 2014) da norte-americana Donna Tartt – considerada pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes no mundo – chega-nos envolto de uma embalagem de sucesso e qualidade cujo expoente foi o arrebatar o Prémio Pulitzer em termos de ficção no ano de 2013.

Depois de “A História Secreta” e “O Pequeno Amigo”, Tartt aposta num livro de toadas épicas que nos leva a percorrer a história recente dos Estados Unidos da América, um país onde o medo do terrorismo e a dicotomia constante entre espaço público e privado estão na ordem das discussões quotidianas.

Ao longo das quase novecentas (!) páginas de “O Pintassilgo”, ficamos a conhecer fatias da existência de Theo Decker, um rapaz de 13 anos que vê a sua vida explodir, no sentido literal da palavra. Depois de ver um pai ausente abandonar definitivamente o lar, Theo vive os normais dramas de um adolescente, mas um dia a sua mãe é chamada à escola pelo seu mau comportamento e tudo não voltará a ser igual.

A caminho da escola, Theo e sua mãe, depois de uma viagem de táxi algo atribulada, decidem visitar o Metropolitan Museum of Art, em pleno coração da nova-iorquina Quinta Avenida. Depois de uma curta visita, enquanto a mãe de Theo ruma à loja de recordações, o rapaz deixa-se enfeitiçar pela magia que emana do olhar de Pippa, uma ruiva intrigante.

Mas não é só o coração de Theo que estreme. Instantes volvidos, uma bomba rebenta na galeria do museu e Theo é um dos poucos sobreviventes. Na ressaca do acidente, o adolescente carrega uma pintura datada de 1654 intitulada “O Pintassilgo”. A referida obra de arte foi-lhe “oferecida” por um velho cujo último suspiro foi dado na presença de Theo.

Mais tarde, Theo conhece Hobie, um restaurador de arte que se torna num confidente e uma espécie de refúgio perante a constante dor de Theo face a uma vida sublinhada pela perda da mãe e a ausência do pai e que encontra no álcool e outras substâncias um ponto de fuga que deriva em um comportamento autodestrutivo.

Egoísta e admiravelmente desagradável, Theo assume as funções de narrador e personagem principal e, através da hábil narrativa de Donna Tarrt, consegue transmitir um sentimento de decência, apesar de tudo. Já Hobie é um personagem mais maduro enquanto Boris, outro dos comparsas de Theo, é o reverso da medalha e não esconde a sua faceta desonesta, despreocupada e arrogante, sem qualquer pejo.

Com excelentes criticas um pouco em todo o mundo, “O Pintassilgo” deixou boquiabertos grandes mestres da literatura entre os quais Stephen King, que afirma que a obra de Tartt é: “um daqueles livros raros que aparecem meia dúzia de vezes por década” e cuja narrativa “resulta em um magnífico romance literário capaz de tocar tanto o coração como a mente”. Já outros referem a vertente dickensiana e algum virtuosismo vitoriano de “O Pintassilgo”, mas ao folhear a obra de Donna Tartt aquilo que fica é uma sensação controversa.

Se, por um lado, “O Pintassilgo” tem momentos de grande brilhantismo onde a capacidade de detalhe e dinâmica de Tarrt é assinalável, noutras passagens o leitor mergulha em um lento e desencorajador relato (por exemplo, as passagens que versam sobre Theo a ingerir substancias proibidas são um verdadeiro teste de resistência ao leitor, assim como o inicial relato da explosão do museu. Ambos os “episódios” prolongam-se por 50 ou mais páginas…) que leva à (quase) exaustão enquanto folheia este thriller. Será este registo bipolar que torna o livro em um fenómeno à escala mundial?

Outras das questões menos positivas da trama prende-se com o uso recorrente de clichés, sobretudo na pessoa da personagem de Theo, uma alma perseguida e assombrada por fantasmas do passado que impedem o seu amadurecimento, algo que assume alguns contornos de “banalidade”.

O próprio romance não se refugia de um eterno mar de coincidências que formam o evoluir da narrativa. Correndo o risco das próximas linhas serem uma espécie de spoiler, como entender que o senhor idoso que está no museu aquando da explosão peça a Theo para furtar a já referida pintura? Porque será que toda a gente que rodeia Theo está, mais ou menos, associada à arte? Será apenas sorte ou Theo conhece sempre a pessoa certa no momento certo, para mais numa metrópole como Nova Iorque? Estas são algumas das pontas soltas que podem ser identificadas em “O Pintassilgo”.

Somando virtudes e “defeitos”, entende-se porque “O Pintassilgo” tem sido alvo de tanto atenção apesar de, como referimos, a estatuto de obra-prima nos parecer exagerado, tal como o elevado e injustificado número de páginas. No entanto, é compreensivelmente difícil resistir à tentação de pegar em um livro cujo rasto seja sinónimo de um incomensurável sucesso mundial e tal, per si, pode justificar a sua pertinência.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Apresentação de “LittleBigPlanet 3”
@ Lisbon Games Week

Jogar, criar, partilhar e cooperar 



Cinco anos depois da Media Molecule ter lançado as primeiras aventuras de Sackboy, eis que foi hoje apresentado na Lisbon Games Week, “LittleBigPlanet 3”, versão PS4, que conta com muitas e boas novidades.

Na demonstração estiveram presentes David Dino, game designer da Sumo Digital e o responsável pelo desenvolvimento do jogo, assim como Sarah Wellock e Tom O’Connor, membros da equipa Sony XDev.

Dono de uma inovadora noção de profundidade graças ao novo motor gráfico, “LittleBigPlanet 3” traz muitas novidades, principalmente ao nível dos personagens. Se Oddsock é um rápido canino capaz de escalar paredes, Swoop é uma ave especial que voa livremente pelo gameplay e consegue apanhar pequenos objetos assim como resgatar os seus companheiros de aventura quando estes se encontram em apuros. Já Toggle, é um amigo de peso que utiliza o seu robusto perfil para derrubar obstáculos ou plataformas. Para além disso, Toggle também pode reduzir o seu porte e transformar-se em um pequeno e rápido personagem que consegue passar pelo buraco da agulha ou caminhar à superfície da água.

Também Sackboy apresenta um novo manancial de truques e habilidades e agora consegue, com destreza, subir objetos como cordas ou similares, pois toda a ajuda é necessária no planeta Bunkum depois de uma tripla de malvados Titãs serem libertados e com a ajuda do cáustico Newton têm como fim destruir o paraíso criativo deste pequeno grande planeta.

Daquilo que podemos ver (e jogar!) de “LittleBigPlanet 3”, esperam-se momentos muito interessantes e divertidos que fazem apanágio às premissas das aventuras de Sackboy e comparsas: jogar, criar, partilhar e cooperar.

É sabido que a saga “LittleBigPlanet” permite personalizar os níveis do gameplay – o novo “termómetro dinâmico” a par de uma maior capacidade do disco permite uma maior liberdade na criação de níveis – e a narrativa deste episódio possibilita ainda jogar níveis (assim como roupas e objetos conquistados) de episódios anteriores. Outra curiosidade, na versão PS4, as texturas exibem uma resolução 1080p (na versão PS3, a resolução fica-se pelos 720p), graças ao novo motor gráfico da mais recente consola da Sony.

O lançamento do jogo está agendado para o dia 26 de novembro e “LittleBigPlanet 3” vai poder ser jogado em ambiente PS4, PS3 e PSVita.

In Rua de Baixo

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

“Agatha Christie – Os Crimes do Monograma”
de Sophie Hannah


Muito daquilo que o romance policial é enquanto expressão literária por excelência, deve-o ao talento da britânica Agatha Christie, autora de mais de oito dezenas de livros que conquistaram fãs em todo o mundo e deram vida a fantásticos personagens como Miss Marple e, acima de tudo, Hercule Poirot.

Desde a edição de “O Misterioso Caso de Styles”, em 1920, o primeiro livro de Christie que tinha Poirot, Hastings e Japp nos papéis principais, até “Um Crime Adormecido”, derradeiro suspiro literário da Rainha do Crime editado na década de 1970, ficaram gravadas nas mentes dos leitores de todo o mundo milhares de páginas onde o crime e a sua solução andavam de mãos dadas.

Ainda que hoje, e sempre, o legado de Agatha Christie perdure como um dos mais representativos espólios da literatura do século XX, fica a sensação de um vazio. Saber que não vamos acompanhar mais aventuras de Marple e Poirot é sinónimo de angústia, de perda.

Felizmente, tudo mudou. “Os Crimes do Monograma” (Asa, 2014), escrito pela também britânica Sophie Hannah, traz de volta o universo ímpar de Christie e Poirot. Os fãs podem ficar descansados: a autora, que já foi finalista do Prémio T.S. Eliot, fez um maravilhoso trabalho enquanto herdeira do espólio da Rainha do Crime.

Neste mais recente tomo da atribulada vida de Poirot, agora a gozar da merecida reforma, o nosso belga vai ter de investigar um dos seus mais intricados e bizarros crimes. Estamos no final da década de 1920 e tudo começa quando Poirot é surpreendido por uma jovem mulher que surge no Pleasant, o seu café preferido, durante um dos seus habituais jantares de quinta-feira.

O nome da aparição feminina é Jennie Hobbs e afirma estar prestes a ser assassinada. A curiosidade e perplexidade de Poirot aumenta quando Jennie suplica para que não se investigue a sua merecida morte. Mas, tão repentinamente quanto apareceu, Jennie mistura-se na noite sem deixar rasto, algo que leva o nosso investigador a magicar com as suas “celulazinhas cinzentas”.

Simultaneamente, no luxuoso Hotel Bloxham acontecem três assassinatos e Harriet Sippel, Richard Negus e Ida Grabnsbury dão o último suspiro. Semelhante entre si, este triplo homicídio revela um perfil uno: os corpos estão direitos, os braços paralelos ao tronco e as palmas das mãos viradas para baixo. Mas a assinatura do criminoso tem o seu expoente no facto de, dentro das bocas das vítimas, terem sido colocados botões de punho com um monograma similar: PIJ.

Intrigado e empenhadíssimo em descobrir toda esta intrincada trama, Poirot junta a sua sapiência e implacável e racional metodologia à inexperiência do seu amigo Catchpool, detetive da Scotland Yard.

As dúvidas surgem a cada nova pista. Os crimes terão o mesmo autor? Será que Jennie estará relacionada com este mistério? Os dados estão lançados para mais um maravilhoso livro que vai fazer as delícias de todos os que gostam de um policial com cabeça, tronco e membros.

Sophie Hannah consegue, com distinção, “recriar” o ambiente típico de Agatha Cristhie e, através do relato de Catchpool, o leitor fica a saber todos os pormenores de uma narrativa que mistura astúcia, um excelente enredo e a sempre cativante arrogância de Hercule Poirot.

Fazendo jus à escrita de Christie, Sophie Hannah apresenta uma estória coerente e intrigante, com a acção a variar entre o rebuliço de Londres e a pacatez provinciana de Great Holling, cujos personagens rejeitam qualquer apêndice de futilidade e se revelam essenciais para a resolução de um conjunto de quebra-cabeças, que vai possibilitar desvendar o mistério de “Os Crimes do Monograma” – que não seria entendido no seu todo sem a valiosa participação de intérpretes como Margaret Ernst, Nancy Ducane, Ambrose Flowerday ou Samuel Kidd, nomes que rejeitam ficar retidos face a um eventual perfil secundário em toda a trama.

Catchpool, por exemplo, é um personagem bem construído (ainda que, por enquanto, uns furos abaixo da pertinência de Hastings) e, apesar da sua falta de confiança, assume o papel de precioso aliado de Poirot que tem, como sabemos, uma incrível capacidade de dedução graças às suas férteis “celulazinhas cinzentas”.

Também as notas de humor que povoam o texto tornam o mesmo mais interessante e acutilante, havendo espaço para uma certa sátira social que tem, no snobismo e na extrema devoção religiosa, alguns dos seus pontos de contacto, que são também sinónimo de poderosas armas que levam a um rol de execuções (por vezes) consentidas. Mas também há espaço para o assumir de culpas, erros e, acima de tudo, várias formas de redenção.

In deusmelivro

Zola Jesus
"Taiga"

Pop, com substância



Nativa de um espaço sideral musical próprio, a norte-americana Nika Rosa Danilova, aka Zola Jesus, amalgama na sua música pitadas de eletrónica, pop e devaneios clássicos que interagem com laivos de um sentido retirado da dark wave e de uma faceta mais limada do som industrial.

Apesar de rol concetual anteriormente referido, o perfil de “Taiga”, o mais recente trabalho de Zola Jesus, encontra a definição perfeita nas palavras da própria artista. Para a antiga estudante de filosofia e autora de discos como “Stridulum II” e “Conatus”, o som deste disco reúne “a frieza de uma montanha e a brutalidade da sua rudeza, mas é, no fundo, um lugar que, quando bem explorado, exibe traços de uma clara sensibilidade”.

Ao quinto álbum, Zola Jesus apresenta um disco descaradamente pop, ainda que longe da sua vulgar terminologia. A interdisciplinaridade da norte-americana de ascendência russa levou-a, nos últimos tempos, a colaborar com vários nomes da música, entre os quais se salientam as parcerias com Jamie Stewart, líder dos Xiu Xiu, Orbital e M83.

O crescimento de Zola Jesus enquanto pessoa e artista tem sido patente na evolução e transformação do seu som. Se na era “Stridulum” eram as ambiências industriais que se destacavam, “Versions” ousava exibir uma faceta mais melancólica. Assim, como síntese dessa evolução, “Taiga” reflete essa bipolaridade sonora e apresenta temas que navegam em oceanos com diferentes ondulações, e “Hunger” é um dos maiores exemplos dessa simbiose. Já “Go (Blank Sea)” revela um som mais atmosférico, que nos leva até aos finais da década de 1990, onde o post-rave era uma realidade emergente. Ainda que diferentes, estes dois temas têm em comum uma excelente capacidade dramática, sentimento esse que, felizmente, se faz sentir ao longo de todo o disco.

Misto entre luz e escuridão, som e silêncio, “Taiga” apresenta algumas composições que nos conquistam na primeira audição. “Dangerous Days” é uma desses exemplos e o seu perfil descaradamente dançável acelera a libido musical de forma instantânea. Ainda que sob uma atmosfera mais tímida, “It’s Not Over” é outra das grandes canções de “Taiga”, e o seu carácter (semi)épico faz lembrar prestações de gente como Lana del Rey e Sia aquando da banda sonora do filme “The Great Gatsby”. Também “Hollow”, de inspiração house, se salienta em “Taiga” e merece o devido destaque.

Ao contrário de discos anteriores, Zola Jesus não recuperou nenhum antiga composição, apresentando-a com outras roupagens (“Sea Talk" surge em três trabalhos ainda que com perfis dispares), e isso pode ser assumido com um corte para com o passado. “Taiga” é, também por isso, um disco que reflete toda a influência musical de Zola Jesus, que não tem qualquer problema em combinar influências de bandas como os Joy Division com a musicalidade mais “casta” de Kate Bush, e compor o cenário com pitadas R&B e resquícios industriais, ainda que pouco abrasivos.

Sob uma batuta pop, “Taiga” é o álbum mais maduro de Zola Jesus e também a sua primeira parceria com Dean Hurley na produção, nome associado ao universo mais cinematográfico de David Lynch, e resume aquilo que esperamos de um grande disco: inspiração, ambientes diversos e excelente música.

Alinhamento:

1. "Taia"
2. "Dangerous Days"
3. "Dust"
4. "Hunger"
5. "Go (Blank Sea)"
6. "Ego"
7. "Lawless"
8. "Nail"
9. "Long Way Down"
10. "Hollow"
11. "It’s Not Over"

Classificação do Palco: 8/10

In Palco Principal

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

“CounterSpy”
PS3, PS4, PSVita

Contraespionagem ao ritmo do Jazz



A Guerra Fria foi um dos períodos mais tensos da história recente. De costas voltadas e assumidamente as maiores potências bélicas do Mundo, Estados Unidos da América e a ex-União Soviética atemorizaram o globo entre o pós-Segunda Guerra Mundial e a aurora dos anos 1990.

É, em grande parte, esse o cenário de “CounterSpy”, um dos mais recentes jogos da norte-americana Dynamighty que combina um perfil assumida e encantadoramente indie com uma funcionalidade cross-save (e também cross-buy…) entre as várias plataformas Sony. Para além disso, é possível jogar “CounterSpy” em ambientes Android e iOs.

A jogabilidade sidescroller remete-nos para um ambiente 2.5 D que leva o nosso (anti)herói a percorrer uma miríade de salas onde o perigo, e o humor de características negras, surge ao virar de cada esquina e recanto.

Mas vamos à narrativa de CounterSpy. Estamos na década de 1970 e as conspirações são frequentes. Espiões lutam em favor de duas das mais poderosas superpotências jamais conhecidas. Os Estados Imperialistas e a República Socialista esgrimam argumentos atómicos e os mísseis estão prontos a dizimar o inimigo e a ser o dono da autoria do primeiro ataque nuclear à Lua.

A missão de C.O.U.N.T.E.R, ou seja, a nossa demanda, é evitar que tal aconteça e para tal temos de travar uma batalha bipolar. O plano é a invasão dos quartéis-generais dos dois países e conseguir resgatar as ideias científicas (fórmulas e planos secretos) de ambos assim como as suas principais armas. Mas tão importante quanto o arsenal utilizado é a descrição da ação em si assim como as capacidades entretanto adquiridas nas salas de jogo que vão desde o aumento da resistência em combate, da habilidade de persuadir o inimigo até à mestria em termos de disfarce e precisão de disparo ou perícia informática. E claro, quando mais imprudente for o assalto, maior será o nível DEFCON (de 1 a 5, sendo 1 o mais elevado) acionado e o inimigo não perdoa.

Com uma excelente banda-sonora jazzy, somos convidados a percorrer salas e espaços onde a natureza stop-and-go de “CounterSpy” alterna entre a extrema facilidade e uma aguda dificuldade. Um dos segredos é estar muito atento, memorizar os movimentos adequados para cada ação e seguir ao risco as indicações caras a todos os jogos stealth. Os combates são fluidos e a espionagem está ao rubro.




A tática a aplicar resulta de uma mescla entre precisão de tiro e a capacidade de abater um inimigo (ou destruir câmaras de vigilância) que teima em enervar-nos. Mas atenção, é de evitar tirar a vida a oficiais (identificados com uma farda diferente) pois a rendição dos mesmos é sinónimo de, por exemplo, a redução do nível DEFCON.

A liberdade em termos de jogabilidade não sendo “ilimitada” é simpática e as missões variam entre cenários inovadores e algumas doses repetitivas, uma das pechas desde jogo ainda que, paradoxalmente, os níveis nunca são iguais, sendo gerados de forma aleatória. Ainda assim quase tudo é perdoável perante a excelência gráfica de entoação indie.

A simplicidade é também uma das mais-valias de “CounterSpy”. Ao contrário de outros jogos, que nos obrigam a complicados e complexos movimentos, aqui as missões fluem entre ritmo side-scrolling e apenas temos de saltar plataformas e balear inimigos. Ainda assim, não confundamos simplicidade com facilidade pois qualquer descuido pode ser a desgraça de C.O.U.N.T.E.R..

Por vezes, “CounterSpy” assume um perfil perto da filosofia de um shooter na terceira pessoa e os tiros à distância (e a sua mecânica) dão uma interessante profundidade ao jogo. E quando as balas não fazem o serviço pretendido, a solução é estrangular ou esmurrar o inimigo. Afinal de contas, guerra é guerra…
Ao longo da aventura é possível desbloquear novas armas, mediante um justo “pagamento” mas é necessário estar atento a gastos excessivos que, ainda assim, podem ser reajustados mediante uma astuta exploração dos espaços suplementares. No fundo, pede-se ao nosso espião inteligência e uma boa gestão do gameplay face ao ambiente cinzento da Cortina de Ferro.

Mesmo que na sua globalidade “CounterSpy” seja um jogo muito interessante denota momentos de desequilíbrio. É, de facto, entusiasmante fazer “parte” do gameplay, principalmente devido há já referida música ambiente e ao evoluir da narrativa, por vezes hilariante – foi clara a aposta no humor ao longo de todo o jogo e o seu sucesso expressa-se em pormenores como, por exemplo, nos cartazes espalhados pelas salas ou na legenda que nos situa a cada inicio de nível – mas a mesma revela-se curtíssima e quando pensamos que a dificuldade pode aumentar de qualquer forma inesperada, resta-nos, simplesmente, “repetir” toda a missão. Apesar do perfil aleatório da génese dos níveis, o fator novidade cifra-se unicamente nessa questão.

Ao tentar não seguir fórmulas já batidas, ainda que bem-sucedidas, “CounterSpy” perde um pouco da sua acutilância e esse estatuto de orgulhosamente diferente é uma das pechas desta aventura. Por outro lado, recomendamos vivamente a aventura interativa de jogar contra outros camaradas através da funcionalidade PSN que é altamente competitiva e exigente.

Em género de montanha-russa, “CounterSpy” mistura características muito positivas (não nos casamos de elogiar a mestria do seu design) com elementos a roçar a normalidade (ainda que não banalidade), algo que deixa muito a desejar pois este jogo tinha tudo para ser um sucesso maior mas tal não acontece por, dizemos nós, alguma falta de ambição por parte da Dynamight que pode, e deve, fazer muito melhor no futuro.

In Rua de Baixo

terça-feira, 4 de novembro de 2014

“Literatura de Cordel, Uma Antologia”
de José Viale Moutinho



A maior herança que pode ser transmitida entre gerações é a cultura, esse saber intemporal que está na génese do perfil de cada povo. Nesse campo particular, Portugal foi abençoado pelos deuses e, em termos de literatura, o espólio é quase interminável e a sua pertinência inquestionável.

Nesse sentido nasceu a coleção Obras Escolhidas da Literatura Tradicional Portuguesa (Círculo de Leitores, 2014), um conjunto de quatro livros da responsabilidade de José Viales Moutinho, homem das artes cujo nome está associado à poesia, ensaio, ficção e peças de cariz dramático e que, tem no humor, uma das suas maiores armas.

Assim, Obras Escolhidas da Literatura Tradicional Portuguesa junta-se à extensa obra já publicada por Viales Moutinho, da qual destacamos “Portugal Lendário”, uma obra que valeu ao funchalense arrecadar o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco/ APE e o Prémio Rosália de Castro. “Literatura de Cordel – Uma Antologia” é o primeiro tomo de um conjunto de livros que vai apresentar histórias, aventuras, segredos e saberes de um povo, assumindo-se como um documento atual, valioso e imperdível.

Ao longo de mais de cinco centenas de páginas, José Viales Moutinho apresenta 21 capítulos que misturam deliciosas estórias de cordel, provérbios, adágios e anexins com fábulas de autores nacionais e textos cuja génese nos remete para o folclore religioso, tudo publicado ao longo de dois séculos – entre 1750 e 1935.

Dedicado «à memória de um corcundinha sem idade, olhar alucinado, com extrema miopia», assim como a todos, sem sectarismos, “Literatura de Cordel – Uma Antologia” conta histórias de princesas, imperatrizes e navegadores, relata crimes horrorosos, episódios de veracidade inquestionável (ou não), despedidas ou relembra heróis populares como o mítico José do Telhado, servindo-se de fantásticas ilustrações para compor o ramalhete.

Assim, deliciados, ousamos regressar ao tempo em que as histórias eram publicadas em capítulos cuja impressão assumia o formato de cadernos suspensos de um cordel, e a sua comercialização tinha como espaço privilegiado as feiras e ruas de todo o Portugal.

O resto desta coleção, que resgata a tradição da arte de bem relatar e ouvir, é composta por mais três volumes: um dedicado às fábulas (“Livro Português das Fábulas – Uma Antologia”) e dois que se debruçam afincadamente sobre a intemporal sabedoria popular (“À Lareira – Volumes I e II”).

In deusmelivro

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

“O Amigo Andaluz”
de Alexander Soderberg

Crime à Escala Internacional



O espaço literário internacional dos romances tidos como policiais é frequentemente assaltado por uma next big thing oriunda dos países nórdicos. As expectativas são muitas mas na maioria das vezes, infelizmente, o que testemunhamos é uma constante repetição de fórmulas ainda que, por vezes, existam casos muito pertinentes.

Apelidado como “a nova voz do policial nórdico”, Alexander Soderberg – sueco natural de Estocolmo que tem experiência como argumentista na televisão do seu país e inclusive já tenha adaptado obras de Camilla Lackberg – faz-nos chegar “O Amigo Andaluz” (Porto Editora, 2014), o primeiro tomo da trilogia “Brinkmann” e que tem como figura central Sophie Brinkmann, uma enfermeira viúva que ao envolver-se com um ex-paciente vê a sua vida mudar completamente.

O culpado dessa alteração é Hector Guzman, um homem elegante e sofisticado que por trás de um charme irresistível lidera uma rede internacional de crime organizado. Fruto da sua condição, Guzman não é pessoa de aceitar um não como resposta e o vasto leque de recursos que apresenta é um garante de vitória face a qualquer obstáculo ou rival.

A viver uma situação emocional que caminha para um esperado equilíbrio face à perda precoce do seu marido, Sophie tem por melhor companhia e companheiro, Albert, o seu filho de 14 anos, mas a presença de Hector vai trazer um sol há muito esquecido.

Aos poucos, Guzman conquista a atenção e o coração de Sophie que se deixa levar. Mas o mundo do andaluz é escuro como as trevas. O tráfico de drogas não obedece a qualquer regra e nada melhor que possuir um poderoso manancial bélico para conseguir a vitória.

Enquanto a enfermeira está anestesiada com a atenção de Guzman, a sua casa está sob vigilância e a sua família em risco. A polícia abeira-se de Sophie para a ajudar mas esta está dividida. Em quem poderá confiar? Em um criminoso charmoso e apaixonante ou em um sistema policial que utiliza métodos estranhos e perigosos?

“O Amigo Andaluz” não é um livro fácil. Até o leitor encontrar o ritmo e a orientação correta para se inteirar desta obra de Alexander Soderberg aconselhamos vivamente o recurso a uma das primeiras páginas do romance que tem uma lista de personagens que são muitos e de variadíssimas nacionalidades.

Ao contrário da maioria dos romances policiais, nórdicos ou não, “O Amigo Andaluz” não tem uma narrativa “padronizada”. Neste livro não se procura um assassino de um crime em particular e o rumo da estória assemelha-se às camadas de uma cebola, tantas são as suas tramas. Suecos, russos, espanhóis e alemães disputam entre si a atenção e partilham um mundo sórdido no qual está retratada a fragilidade do ser humano.

Dividido em quatro partes, “O Amigo Andaluz” observa capítulos que divergem a sua atenção entre muitos, acreditem, personagens e locais do planeta. À medida que a tensa história se desenrola, melhor o leitor capta o seu ritmo ainda que neste primeiro volume da trilogia sejam deixadas muitas pontas soltas e a coerência de alguns acontecimentos e personagens fazem esperar que os próximos livros da saga “Brinkmann” sejam, de facto, esclarecedores.

No melhor e no menos completamente definido está a personagem de Sophie cujo crescimento e mudança de perfil durante as quase 500 páginas de “O Amigo Andaluz” assume-se como um dos pontos mais fortes em termos de expectativa para as próximas aventuras da enfermeira sueca e restante (imenso) elenco.

Livro de uma generosa complexidade, “O Amigo Andaluz” mistura traços épicos como situações que combinam momentos de ação e verdadeiro thriller que apontam para um lado mais espetacular e cinematográfico e pode transformar Sodergerg em mais um nome a ter em conta em termos do policial que vem do frio mas a sua confirmação deve, esperemos, chegar com a restante saga “Brinkmann”.

In Rua de Baixo

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

“Pontes de Sarajevo”
Vários realizadores

Episódios de vida de uma Cidade



A Europa e o Mundo mudaram significativamente nos últimos 100 anos. Duas Guerras Mundiais passadas, muitos países nascidos e impérios terminados, alteram, definitivamente, a face de um planeta marcado pelos conflitos e as fronteiras políticas assumiram a forma de um intrincado puzzle depois um século de discórdia.

Assim chegamos a 2014, ano que lembra o centenário da morte do Arquiduque Francisco Fernando à mercê de Gavrilo Princip, um anarquista radical sérvio que “provocou” uma verdadeira revolução mundial.

A propósito nessa celebração, e sob a direção artística de Jean-Michel Frondon, treze cineastas europeus foram convidados a dedicar a sua câmara a Sarajevo e ao que a cidade significa para a cronologia da Europa nos últimos 100 anos.

Fruto de abordagens e filosofias díspares entre si, “Pontes de Sarajevo” é um projeto delicado cuja pertinência se revela através das perspetivas dos realizadores convidados cuja orientação e origem são sinónimo de uma muito pertinente análise de uma cidade que vive sob o efeito de uma retorcida e dilacerante memória que a assombra desde 1914.

Em uma viagem entre o passado e os traumas associados a um presente dorido, “Pontes de Sarajevo” – trabalho que teve a honrar de configurar na seleção oficial da mais recente edição do Festival de Cannes –, assume uma pretensão exorcista rumo a um estado de redenção.

O ponto de partida desta aventura, “Querida Noite”, um trabalho do búlgaro Kamen Kalev, retrata o próprio ato do assassinato de Francisco Fernando na noite de 28 de junho de 1914, perto da ponte romana da capital bósnia, episódio que dinamitou a política europeia e despoletou a Primeira Guerra Mundial.

Ao longo de cerca de duas horas, somos convidados a assistir a uma sucessão de eventos cronológicos que se pode traduzir (ou não) na história recente de Sarajevo e cabe a Kalev o privilégio de abrir a sequência com uma visão onírica que mistura uma profunda reflexão entre o destino, a providência e o livre arbítrio. Os grandes planos de Kamen Kalev revelam a intimidade de um ser (Francisco Fernando) à beira do sacrifício onde o medo se traduz na massa anónima.

E é esse também o sentimento que o sérvio Vladimir Perisic tenta transmitir em “A Vontade das Sombras”, um exercício em surdina construído com o auxílio de um conjunto de confissões sublinhadas por uma câmara que avança por entre pedaços de uma memória coletiva aqui representada por um arquivo do género bibliotecário. Tal como em outros momentos de “Pontes de Sarajevo”, o papel do espetador encontra paralelismo em um peculiar instrumento voyeur que versa sobre um acontecimento transversal que é a história da génese do conflito dos Balcãs.

O terceiro tomo deste conjunto fílmico é da responsabilidade do italiano Leonardo di Contanzo e “O Posto de Vigia” leva-nos até a uma trincheira da Primeira Guerra Mundial onde um pequeno pelotão de soldados italianos tenta reconquistar um posto de vigia que está assombrado pela exímia pontaria de um atirador inimigo.

O cheiro a morte, a desespero, a medo puro e duro, sente-se em “O Posto de Vigia” e é sinónimo do dilema do soldado em enfrentar a morte ou optar pelo cobarde ato suicida. A honra da guerra é a medalha dos destemidos e a cruz dos anónimos.

Já “Princip, Text”, da alemã Angela Schanelec, espelha algumas passagens de uma entrevista de Gavrilo Princip que se confunde com laivos de urbanidade contemporânea e fala do fim da Sérvia e de um ideal político que representa a salvação da alma. Os grandes planos dos rostos do jovem casal que lê os excertos de Princip são o espelho dessa dicotomia entre a paz e o conflito (interior).

“Europa”, do romeno Christi Puiu, revela um ambiente natalício que tem como figuras centrais um casal que no conforto da cama reflete sobre o livro “A Análise Espetral da Europa”, um misto de reflexão sobre os conflitos raciais dos Balcãs e uma atribuição de culpa, mas que deixa também espaço para a especulação de datas e o fator coincidente do aspeto numérico das mesmas. Mais uma vez, a câmara espreita a narrativa de uma perspetiva distante mas atenta e assim o espetador entra pelo quarto do casal fruto de uma porta convenientemente aberta e que convida à partilha.

Cabe ao franco-suíço Jean-Luc Godard um dos exercícios mais complexos de “Pontes de Sarajevo”. Dono de uma linguagem cinematográfica muito própria e experimental, Godard transforma “A Ponte dos Suspiros” em uma narrativa que resulta de um sucessivo quebranto de sons e imagens que mistura o bem e o mal, a morte e a sobrevivência, a violência e o conflito, através de uma forma documental. Faz-se o elogio de uma abordagem que coabita matéria e espírito e onde o poder da imagem (no caso a Fotografia enquanto expressão) capta uma realidade em estado bruto.

Tendo como pano de fundo um bonito preto e branco, o ucraniano Sergei Loznitsa oferece-nos “Reflexo(e)s”, um interessante esboço que faz entender as duas perspetivas de uma mesma imagem e que reúne em si a sobreposição de uma fotografia sobre um episódio quotidiano.

Tendo como matéria-prima fotografias dos defensores sérvios da autoria do bósnio Milomir Kovacevic, Loznitsa cria um ambiente que convida à abstração da visão face ao elemento da memória. Neste caso, é a simplicidade que se revela o maior trunfo.

“A Viagem de Zan”, do espanhol Marc Recha, conta-nos a epifania de um rapaz que vive com a sua família no interior da Catalunha que tenta entender um conflito responsável pelo abandono da sua terra natal. Para conseguir o desejado equilibro, Zan conta com as memórias que ganham vida pela voz dos relatos do seu irmão.

Recha consegue um filme de uma beleza fotográfica impar e joga com aquilo que o Homem tem de mais sagrado: os seus sentimentos. Um dos momentos mais inspirados de “Pontes de Sarajevo”.

Já a bósnia Aida Begic não segue esse lado mais narrativo e aposta num género documental que torna “Álbum” em um testemunho emocional da relação entre a cidade e os seus habitantes, entre as memórias de um conflito e a esperança de um futuro melhor. Sarajevo é, através da lente de Begic, uma paixão, um primeiro amor que nunca se esquece mas que entretanto terminou.

“Sara e sua Mãe”, da autoria de Teresa Villaverde, mostra a mudança de casa de uma família que conta com a ajuda de uma amiga da pequena Sara. Enquanto se abrem caixotes e se arrumam coisas, são as memórias que se sentem, umas partilháveis outras sob a forma de íntimo segredo. A realizadora mostra também como a cultura é um fenómeno que caiu no esquecimento da Sarajevo contemporânea que encerrou os seus museus e outros espaços lúdicos castrando assim o lado cultural de um povo.

“A Ponte”, do italiano Vicenzo Marra, revela um casal sérvio que abandonou o país aquando do cerco de Sarajevo e durante duas décadas conseguiu equilibrar-se em uma terra estranha e não deixando que as diferenças (ele muçulmano, ela cristã) assombrassem a sua existência.

Marra filma a saudade entendida de diferentes ângulos, sentimento esse que apenas é desafiado pela morte de um ente querido que faz o casal recuar ao passado e sentir a dor da perda antigas…

De França, sob a batuta de Isild Le Besco, surge um dos mais emocionantes relatos de sobrevivência de “Pontes de Sarajevo” e a história de um menino de cinco anos, órfão de pais e que vive com a avó, e que luta pela sua vida social e fraterna, é muito comovente.

Em uma cidade vítima de um conflito quase eterno, o nosso pequeno herói vagueia pela urbe e serve-se desse anonimato para se assumir como uma peça fundamental em um cenário em tons cinza. A camara de Besco acompanha esses atos de bravura com descrição e uma apaixonante sobriedade.

“Pontes de Sarajevo” tem como último capítulo “O Silêncio de Mujo”, da suíça Ursula Meier e mostra um treino de futebol onde Mujo, uma criança de dez anos, torna-se no protagonista ao falhar uma grande penalidade e ser obrigado a procurar a bola para lá da cerca.

Paredes meias com o campo, está um cemitério que mostra a triste realidade de uma cidade dividida entre muçulmanos e católicos e cujas lápides revelam vidas perdidas de forma precoce. Nesta viagem ao “reino dos mortos”, Meier transporta Mujo para o seio de uma realidade que mostra as divisões provocadas entre a vida e a morte e como um abraço anónimo pode ser sinónimo de um esparso momento reconfortante.

Pelo meio das curtas, surgem animações da autoria de Francois Schuiten e Luis da Matta Almeida que servem de interlúdio e fazem a ligação entre as referidas 13 obras que mostram algumas das feridas de uma cidade que teimam em não sarar.

No seu todo, “Pontes de Sarajevo” faz a ligação entre a memória e o presente sem descartar uma ambiência nostálgica, mas sempre com um sentimento de esperança, otimismo e fé, nunca esquecendo o lado cultural de um povo que, gradualmente, volta a reclamar tal desígnio. O futuro a todos pertence e estes trezes pedaços de história vão fazer parte dele.

In Rua de Baixo

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Mão Morta em entrevista

"A música salva-nos a alma - e de que maneira!" 



No ano em que comemoram três décadas de existência, os Mão Morta lançaram “Pelo Meu Relógios são Horas de Matar”, um registo pesado e lento, que nos traz de volta o peculiar universo musical da banda de Adolfo Luxúria Canibal. E foi o vocalista da banda que nos revelou alguns dos pormenores que levaram à génese deste disco, cujo perfil metafórico e acutilante apela à transformação e renovação de uma sociedade entre a crise e a parede, castrada de alternativas.

Palco Principal – Tal como prometido, “Pelo Meu Relógio são Horas de Matar” é um disco mais pesado e niilista, comparativamente aos últimos trabalhos dos Mão Morta. Podemos assumir o mesmo como um álbum conceptual, como um exercício simbólico de pensar a crise que nos assola? 

Adolfo Luxúria Canibal - Estou de acordo que é um álbum mais pesado, sobretudo tendo em conta o disco anterior, mas de maneira nenhuma é mais niilista – bem pelo contrário, é um registo cheio de energia redentora, que a partir de uma situação negativa traça possibilidades para a sua superação. Não chega a ser um álbum conceptual – conceptual era o “Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável” –, mas sim um disco temático, como o são grande parte dos discos dos Mão Morta. E é efetivamente um exercício de pensamento sobre a realidade portuguesa, sobre o quotidiano que nos destrói.

PP – Ao longo do disco, está presente um sentimento de vertigem associado ao Homem enquanto ser social, que perdeu a sua individualidade, a capacidade de pensar, sendo subjugado a interesses conjunturais. “Hipótese de Suicídio” espelha, por exemplo, essa ideia. Qual será a solução para sair desse labirinto? Hoje, “viver é arrastar este morrer”? 

ALC - A sociedade pós-industrial atomizou o indivíduo e transformou essa atomização num valor desejado e num símbolo de liberdade e autonomia – na realidade, essa atomização apenas serviu para melhor o subjugar, ao cortar-lhe os laços sociais e, com isso, afastá-lo do contacto com o real, para o substituir pelas imagens mediatizadas desse real. As soluções são sempre muitas e longe de mim querer apontar uma, mas o “Hipótese do Suicídio” serve exatamente para levantar a questão, para abrir a porta da superação desta escravatura contrária à vida em que se transformou o quotidiano dos produtores-consumidores, não através da morte – que essa, simbolicamente, já aí está presente –, mas pelo vencer do medo que os impede de dizer não à desdita e avançar pela aventura do desconhecido.

PP – No vídeo promocional do vosso disco, o privilégio de abertura cabe a Marcelo Caetano, figura devidamente homenageada, musicalmente, no minimal “Os Ossos de Marcelo Caetano”. Sentem que, politicamente, Portugal regrediu?

ALC - Aquilo que é a essência de uma democracia, que é a possibilidade de escolha e de alternativa, foi profundamente esvaziado com a desculpa da crise financeira e com a culpabilização dos cidadãos por essa crise, acusados de viverem acima das suas possibilidades, e por isso merecedores de castigo e, como tal, condenados num processo arbitrário e sem garantias mínimas de defesa. Agora, que o mal está feito, sabemos que a crise foi consequência da especulação financeira e da atividade bancária à base de produtos fictícios a que os Estados, dominados ideologicamente por posturas desreguladoras, vieram dar o seu aval, transformando o que era financeiro em soberano. Agora, vai ganhando forma e, a custo, rasgando a cortina do pensamento único, a noção de que poderá haver outra maneira de gerir a crise instalada e a economia destroçada. Agora, titubeante, começa a despontar um desígnio democrático. Mas, até agora – e hoje ainda com predomínio acentuado –, o que imperou foi o despotismo da falta de alternativa, numa equivalência da chamada Primavera Marcelista que, nos anos finais do fascismo, quis fazer vingar a ideia de que estava a acontecer uma abertura democrática quando o Estado continuava profundamente mergulhado no atavismo do pensamento único. Isto é, claramente, uma regressão, não só política mas também civilizacional, à essência dessa época funesta.

PP – Ainda a respeito desse vídeo, colocaram o mesmo no ar no dia 13 de maio, uma data forte do calendário religioso nacional. Queriam que o mesmo funcionasse como uma forma de manifesto?

ALC - Não, foi um mero acaso. Somos tão pouco beatos que nem reparamos na data. E acredito que tenha sido a um 13 de maio porque o diz, já que, de facto, não faço a mínima ideia em que dia concreto o vídeo foi tornado público.

PP – No que toca à musicalidade, “Pelo Meu Relógio…” traz à tona composições como “Hipótese de Suicídio” e, principalmente, “Nuvens Bárbaras”, dois tour de force intensos que relembram o ambiente de clássicos como o “O Divino Marquês”. Essa forma de narrativa combina um discurso acutilante como uma exploração musical onde o piano e as guitarras dão especial envolvência. Sentem que a mensagem passa melhor dessa forma ou através de canções mais “diretas”, como “Horas de Matar” ou “Mulher Clitóris Morango”? 

ALC - A nós não nos preocupa a comunicação de mensagens nem sequer equacionamos qualquer mensagem a ser transmitida. Gostamos de pensar um disco como um todo, em que cada uma das canções que o compõem têm uma relação com cada uma das outras, tal como gostamos de pensar cada canção como uma obra única, composta por diversos elementos, é certo, nomeadamente letra e música, mas ainda assim única, em que os diversos componentes em que pode ser decomposta concorrem em igualdade de importância para a sua unidade. Assim, não se trata de tentar encontrar a maneira mais eficaz de passar uma mensagem – palavra que me arrepia –, mas de perceber o que faz sentido para que a fusão entre letra e música aconteça.

PP – “Pelo Meu Relógio…” é o vosso álbum mais político. Como acham que a comunidade artística portuguesa está a digerir a profanada crise? Existe um caminho para a salvação da alma através da música?

ALC - Não faço a mínima ideia de como é que a comunidade artística portuguesa está a digerir a crise, nem me interessa muito saber. Os ecos do que a comunidade artística portuguesa, supondo que tal monstro existe, está a fazer ou a não fazer não chegam ao recôndito Minho… Para nós, Mão Morta, a música é o nosso recreio, o lugar onde nos evadimos do mundo, pensando sobre ele e sobre nós, e sobretudo onde nos divertimos - e muito! Nesse sentido, salva-nos a alma – e de que maneira!

PP – O disco abre com “Irmão da Solidão”, uma canção que faz o apelo à catarse mas que reforça a noção da perda do sentido opinativo. Estará o Homem moderno condenado a uma felicidade segmentada?

ALC - A felicidade não é sempre segmentada? O discurso mediático cria a ilusão de que a felicidade é uma espécie de nirvana permanente, mais da ordem do ser do que do estar, e – já agora – que está intrinsecamente associada à posse dos mais díspares produtos e objetos. Mas isso não passa de falácia de vendedor de carros usados…

PP – O disco, no seu todo, é muito coeso, e música e mensagem apresentam uma grande coerência. Como se realizou o processo de composição? Primeiro pensaram a música, as letras ou no conceito?

ALC - Tudo partiu de uma vontade de experimentar como ficaria a música, uma qualquer composição rock, se o seu tempo fosse desacelerado. Fizemos uma primeira experiência usando uma letra antiga, de uma canção que pertencera aos Auaufeiomau e, a partir do resultado obtido e da impressão positiva que nos causou, tudo o resto foi mais ou menos em simultâneo e em catadupa: o tema, a ideia da narrativa geral para o disco, a composição das músicas, em sucessivas declinações da ideia original de desaceleração do tempo, e as letras concretas para cada uma dessas composições. Foi um processo muito homogéneo e daí, talvez, essa coesão final que conseguimos atingir.

PP – A metáfora é uma das formas de poesia mais utilizadas para a composição dos Mão Morta. Pelo vosso relógio é mesmo hora de matar?

ALC - São sempre horas de matar, entendendo-se aqui matar no sentido que as cartas do Tarot dão à morte – que é um momento de transformação e de renovação –, sobretudo quando, como atualmente, o presente se mostra tão negativo.

In Palco Principal