quinta-feira, 31 de outubro de 2013

“NBA 2K14”
PS3

O jogo de uma vida



“O Basquete não é um desporto fácil. Toda a minha vida tem sido um treino constante para melhorar. É um compromisso. Para seres o melhor tens de trabalhar mais que todos. Tens de tentar conseguir o que os outros acham impossível, sem desistir, porque tal não é uma opção…”

São com estas palavras de luta e coragem ditas por LeBron James, estrela dos Miami Heat e uma das maiores figuras da NBA dos últimos anos, que entramos e NBA 2K2014, videojogo desenvolvido pela Visual Concepts que ameaça ser o mais excitante tomo da saga e que pela primeira vez conta a presença de 14 equipas da EuroLiga de Basquetebol entre as quais se destacam o Real Madrid, o Barcelona, o Panathinaikos ou o Maccabi Tel Aviv.

Tal como já perceberam é LeBron James – para muitos o jogador que pode de alguma forma rivalizar com a excelência do mítico Micheal Jordan – que centra toda a atenção e é dele também a escolha dos temas que compõem a banda sonora do jogo. Depois de arrecadar quatro prémios MVP e sentir o doce sabor de ser campeão por duas vezes assume agora a vontade de conquistar os fãs da saga NBA 2K.

Naquela que é a maior e mais atraente novidade deste jogo, o modo “LeBron: Path to Greatness” permite que o jogador assuma o controlo de James e tente alcançar a façanha de ultrapassar o feito histórico de Jordan que arrecadou seis títulos na NBA, algo que se espera ser feito pelos Maimi Heat neste NBA 2K2014. Assim, este modo dá-nos dois caminhos: “Heat Dynasty” ou “Fantastic Journey” sendo que neste último caso LeBron viaja até Nova Iorque de forma a tentar resgatar o campeonato e terminar de uma vez por todas com o fantasma da especulação que formou o rumor que James quer abandonar a sua equipa.
Nota-se que existiu um grande investimento por parte da Visuals Concepts por forma a fazer de “Path to Greatness” o grande trunfo deste jogo. Superando o “Jordan Chalange” da edição de 2011, em NBA 2K2014 existe uma maior contextualização e as estórias paralelas que vão evoluindo ao longo do jogo tornam o mesmo numa experiência impressionante e não falamos apenas para os fãs de LeBron.



Nos restantes modos de jogo NBA 2K2014 mantém os padrões de qualidades anteriormente exibidos mas pouco mais. O modo “Association” continua a possibilitar as já habituais e possíveis mexidas de plantel e permite a construção de uma equipa desde a sua raiz. Também mantendo a filosofia de sempre, o modo “Career”, uma das formas mais populares desta saga, está bem delineado mas exigia-se mais coragem de forma a inovar alguma coisa. No que toca à possibilidade de se jogar em modo “My Team”, a versão da 2k Sports de EA’a Ultimate Team, acrescenta mais algumas possibilidades de jogo tal como torneios, conseguir novos jogadores ou jogar contra amigos.

No que toca à jogabilidade, NBA 2K2014 traz algumas novidades sendo que a principal diferença está intimamente ligada à reconfiguração que o controlo analógico direito foi sujeito e que permite ao jogador controlar de forma mais eficiente, por exemplo, os dribles e os lançamentos. Esta funcionalidade revela-se ainda mais entusiasmante depois de conseguirmos dominar a arte e capacidade de fintar o adversário ou lançar ao cesto, ações que ganharam maior velocidade de resposta.

Os passes também estão agora mais “facilitados” e podemos entregar a bola a um companheiro de equipa sem olhar para o mesmo mantendo a pressão no comando e direcionar a bola com a ajuda do controlo analógico direito. Ainda assim nunca é demais salientar que o sucesso deste movimento está intrinsecamente ligado à qualidade do jogador (da equipa) em causa. Também mais fácies estão os movimentos de bloqueio sendo a defesa mais agressiva e rápida a reagir no que nas edições anteriores.

No entanto, a ação de jogo denota algumas questões que a Visual Concepts ainda não conseguiu ultrapassar. Existem muitos contactos entre jogadores enquanto debaixo do cesto, as bolas saem de forma estranha das mãos dos jogadores durante algumas animações de transição e os defesas dão muito espaço para os lançamentos. Ainda que possam ser apenas pormenores quando se procura a perfeição são estas as questões a rever.

Em traços gerais NBA 2K2014 é, sem dúvida, um excelente jogo e é, talvez, o melhor da sua saga. Os gráficos são muito bons, a jogabilidade subiu de qualidade e a presença de LeBron garante uma adrenalina permanente no ambiente geral. Muito perto da “perfeição” enquanto simulador, NBA 2K2014 peca apenas por algum conservadorismo no que se refere aos modos de jogo mais tradicionais e pensamos que a Visual Concepts, como alguma vontade e coragem, pode em 2015 apresentar algo verdadeiramente surpreendente. Até lá, vamos sentindo a magia dos afundanços de Lebron e companhia. E, acreditem, é mesmo muito bom. Como diriam alguns: “NBA action is fantastic!”.

In Rua de Baixo

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

30 Seconds to Mars @ Meo Arena

O grande circo de Leto


 
Jared Leto. Eis a razão maior dos 30 Seconds to Mars. Vocalista, mentor, ator, mestre de cerimónias, Leto é uma das maiores estrelas rock do momento e demonstrou isso mesmo perante os milhares que se deslocaram à Meo Arena, ontem à noite. O concerto foi bastante competente, a histeria foi a esperada e as muitas surpresas que iam acontecendo em palco transformaram o primeiro espetáculo da digressão europeia da banda natural da Califórnia numa verdadeira celebração. O único senão foi mesmo a voz de um engripado Leto que deixou, compreensivelmente, algo a desejar em alguns momentos da atuação. Mas vamos lá à festa…

Depois da atuação dos You Me At Six, a expectativa em relação à aparição dos 30 Seconds to Mars (30 STM) crescia sobremaneira. Já não bastava o muito emotivo showcase que a banda deu, na segunda-feira, numa conhecida rádio nacional, Leto ainda resolveu, nessa mesma tarde, aparecer nas ruas da baixa lisboeta para libertar um pouco da sua música - o que aguçou ainda mais o apetite dos fãs do trio.

Com as luzes acesas e a Meo Arena ainda a receber muita gente, do palco coberto com uma gigantesca tela negra e enfeitado com o icónico triângulo da banda norte-americana surgiam algumas surpresas. Dois “homens de negro”, de máscaras colocadas, animavam a plateia com focos de lanterna. O público respondia, o ambiente aquecia e a festa que se sentia levava os presentes a ensaiarem a conhecida “onda”, tão famosa nos estádios de futebol. Rapidamente todos entraram na celebração e os aplausos refletiam satisfação total. Gritava-se por Portugal. Apenas faltava a música.

Até que a tela caiu. A multidão gritava. Jared Leto, encapuzado, numa plataforma superior, cantava as primeiras linhas de “Birth”. Num patamar inferior, uma tela branca revelava as sombras de Tomo Miličević, à esquerda, e de Shannon Leto, no extremo oposto. Entre guitarrista e baterista, um punhado de percusionistas tornavam ainda mais épico e marcial o ambiente. A descida à terra de Leto fez-se quando já ecoavam os primeiros acordes de “Night of the Hunter”, a primeira incursão a “This is War”. A histeria quase que abafa a voz de Jared, que aproveita a ocasião para empunhar a microfone para a plateia. À segunda música, Leto tem o público na mão.

“Search and Destroy”, com novos e potentes arranjos, e o hino “This is War” continuam a celebração, com Leto a pedir palmas, muitas palmas, entre saltos e gritos de guerra que desfazem corações mais sensíveis em milhões de pequenos pedaços doces. O coro extravasou, por certo, as paredes da Meo Arena e, contente, o vocalista agradece com um “obrigado” muito saudado. Sem grandes pausas, a banda ataca “Conquistador”, um dos temas mais apreciados de “Love, Lust, Faith and Dreams”, o mais recente trabalho da banda, e no final da canção são disparados do palco milhares de papelinhos coloridos.

Bastante comunicativo, Jared Leto faz uma pausa no que toca à música e chama a palco alguns fãs. Um rapaz e uma rapariga. Ele, repleto de tatuagens da banda; ela, emocionada, enverga uma bandeira de Portugal. Eis o momento que antecede “Do or Die” e que leva Leto a cantar com uma bandeira de Portugal em riste. A loucura adensa-se. A massa presente canta. Intenso. A banda aproveita e sai de palco, e é momentaneamente “substituída” por um número circense, centrado num acrobata e um arco. No ar soam acordes, tímidos, de “Depuis le Début”.

O regresso do trio dá-se numa toada mais calma e as doces pitadas de piano de “End of All Days” enchem a alma de todos. Leto apela à fé e a devoção é garantida. Depois, “City of Angels”, tema que versa sobre o estrelado de Hollywood, é dedicada a todos os sonhadores presentes, num dia muito especial, segundo o vocalista, pois marca a estreia mundial do vídeo que ilustra a referida faixa. O escuro da Meo Arena é quebrado pelas luzes dos telemóveis e quejandos, enquanto Leto segura a voz debilitada, não forçando a garganta.

Segue-se nova pausa e em palco surgem mais dois malabaristas que ensaiam saltos mortais ao som arabesco de “Pyres of Varanasi”, outro tema saído do mais recente álbum do grupo. No regresso ao palco, Leto vem só e carrega uma guitarra acústica, que serve de mote para alguns dos momentos mais bonitos da noite. À cappella, ou com singelos acordes, Leto oferece “Hurricane”, “Was it a Dream”, “From Yesterday” e “Alibi”. A ocasião foi de grande cumplicidade entre vocalista e público, com Jared a perguntar se alguém tem pedidos a fazer. Desconstruídas, nuas, as referidas músicas ganham outra alma e colam-se ainda mais aos ouvidos.

Já em formato trio, os 30 STM surpreendem a assistência com uma cover de “Stay” - um original de Rihanna –, que resulta muito bem. Com nova presença da assistência em palco, Leto cede o microfone ao inesperado convidado e dá-lhe a tarefa de apresentar, na língua de Camões, uma canção nunca antes tocada ao vivo. Falamos de “The Race”, momento que valeu uma posse da plateia para o Instagram da banda. Logo a seguir, outro dos pontos mais altos da noite. Leto pede braços no ar e todos, literalmente, obedecem, e ao som de “Closer to the Edge” voam balões coloridos e libertam-se mais papelinhos coloridos. Toda a gente vibra. O circo está bem montado.

A celebração, o culto - o que quiserem - terminou com mais momentos de grande intensidade. “Kings and Queens” e “Up in the Air” incendiaram a Meo Arena. Na derradeira atuação, Leto puxa dezenas de fãs para o palco e grava na memória de todos minutos de grande excitação. O sentimento é de puro devaneio, assente num sentido competente de entretenimento. E no fundo é isso que são os 30 STM: um circo repleto de emoção que tem na figura do seu vocalista o âmago da celebração.

In Palco Principal

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Pearl Jam
“Lightinig Bolt”

Da tempestade à bonança



Com o auge do movimento grunge bem preso nas amarras cronológicas da prolífera década de 1990, os Pearl Jam são um dos poucos exemplos de sucesso continuado no que toca às bandas que encabeçaram o movimento musical que teve a sua génese em Seattle. É certo que foram os primeiros álbuns da banda que mais criatividade demonstraram mas, ao longo de mais de duas décadas, a banda de “Even Flow” conseguiu, pacientemente, editar discos interessantes com alguma regularidade. Pelo caminho, Eddie Vedder criou alguns projetos paralelos, mas o fim dos Peral Jam nunca esteve definitivamente pensado.

Chegados a 2013 - ano que, curiosamente, trouxe à vida a edição comemorativa dos vinte anos de “In Utero”, dos Nirvana, um dos registos maiores do período grunge - os Pearl Jam editam o seu décimo trabalho de originais. Passados cerca de quatro anos depois da edição de “Backspacer”, “Lightining Bolt” mantém, entre outras premissas, a produção de Brendan O’Brien, homem que esteve também por detrás da criação de “Vitalogy” e “Vs.”, dois dos mais importantes e aclamados álbuns do grupo.

Entre “Backspace” e este “Lightning Bolt”, a banda envolveu-se em reedições e num documentário ambicioso. Falamos, claro está, em “Pearl Jam Twenty”, filme realizado por Cameron Crowe, que reúne a história de uma banda que ousou desafiar alguns dos maiores poderes da indústria da música e logrou sobreviver, com distinção, sem a «ajuda» da MTV ou das grandes promotoras de espetáculos.

Mais do que uma banda de rock, os Pearl Jam assumem-se como uma instituição de referência que tem na música a sua arma mais forte e, ainda que seja em palco que o coletivo melhor faz soar a sua arte, as idas a estúdio fazem parte de todo o processo criativo. Assim, “Lighting Bolt” resulta como a súmula de cerca de duas décadas de experiência e assume parte da filosofia dos primeiros discos da banda, que são, no fundo, a combinação de duas facetas distintas. Se, de um lado, sentimos com agrado a marca vincada de um som «primitivo» e assumidamente grunge, do outro nota-se a tranquilidade que a maturidade possibilita, com as aproximações mais acústicas a permitirem explorar o perfil mais songwriter de Vedder.

E é na soma entre o brilhante vocalista e a restante banda que se encontra o ponto de equilíbrio de “Lightning Bolt”, ainda que, por exemplo, os solos de Mike McCready, o groove de Jeff Ament e o ritmo de Stone Gossard reservem espaço por direito adquirido. Se a primeira metade do disco revela paisagens mais agitadas e claramente rock, o contraste entre músicas como “Getaway”, “Mind Your Manners” e “Lightning Bolt” e a mais serena “Sirens” confere um bonito ecletismo ao álbum.

A meio do disco e numa fase em que a tempestade sonora vai perdendo espaço para uma certa acalmia, “Infallible” assume-se como uma criação maior, feita à medida da genialidade grunge e da capacidade vocal de Vedder, e remete o ouvinte para os já longínquos anos 1990.

Se bem que, em plenos territórios acústicos, “Future Days” encerra de forma brilhante “Lightning Bolt”. Antes, temas como “Let the Records Play” e “Yellow Moon” mostram que os Pearl Jam dominam por completo a arte de entreter ouvidos e almas dos seus fãs de sempre ou de potenciais novos ouvintes. Já a belíssima “Sleeping by Myself” embala-nos para sons solitários, que buscam portos de abrigo em ecos distantes da poesia de vozes como a do malogrado Jeff Buckley, também ele um ídolo de uma geração.

Ainda que sem a magnitude de outros tempos – que já não voltam, por razões óbvias – os Pearl Jam confirmam com “Lightning Bolt” que continuam a fazer boa música, pois é a única coisa que os move. Sem nada a provar, Edie Vedder e companhia trazem-nos um álbum adulto emerso numa saudável e recomendada «bipolaridade» sonora, que resulta numa bonita coleção de canções que cresce e conquista os ouvidos a cada audição. Um disco para todos.

Alinhamento:

01.Getaway
02.Mind Your Manners
03.My Father’s Son
04.Sirens
05.Lightining Bolt
06.Infallible
07.Pendulum
08.Swallowed Whole
09.Let the Records Play
10.Sleeping by Myself
11.Yellow Moon
12.Future Days

Classificação Palco: 7/10

In Palco Principal

sábado, 26 de outubro de 2013

“HISTÓRIA INSÓLITA DO MUNDO”
de GREGORIO DOVAL

As várias perspetivas da “verdade”



Madrileno de gema, Gregorio Doval é jornalista de formação mas, ao longo da vida, tem alargado os seus horizontes enquanto estudante e tem, nas áreas da Psicologia, Sociologia e Filologia, outras das suas especialidades e interesses. Paralelamente, há cerca de duas décadas e meia, alia às já referidas temáticas trabalhos enquanto guionista, criador, editor e diretor de programas de televisão. Mas, para o caso, é a faceta literária de Doval que mais nos interessa.

Autor de livros que percorrem várias temáticas, é a história que mais motiva Gregorio Vidal. É nesse sentido que falamos de “História Insólita do Mundo” (Marcador, 2013), uma obra que procura o outro lado da cronologia do mundo, uma ala que nos leva aos bastidores de momentos menos claros e envoltos de inteligentes pitadas de humor.

Ao longo das quase quatrocentas páginas de “História Insólita do Mundo” ficamos a conhecer algumas das mais peculiares e rebuscadas fraudes, enganos e “coincidências” que preenchem as linhas da História. Foram surgindo aproveitando as diferenças conjunturais, como passos de mágica, truques e logros que tinham como fim em si mesmo a riqueza, a fama e a glória, ou a salvação da própria vida.

Para estes artistas do engano, a exploração da ingenuidade é a maior das armas e a manipulação de factos encobre supostas descobertas e façanhas genuínas. Plágios que deitam supostas obras-primas da literatura por terra, mensagens secretas fruto da imaginação pura, documentos cuja veracidade partiu para longe, teorias em forma de choque ou sucessos com muitas aspas são alguns dos casos que Doval explora neste livro e que deixará, muitos dos seus leitores, de queixo caído.

No fundo, “História Insólita do Mundo” é, acima de tudo, um livro muito divertido que se serve de uma das armas mais obscuras do ser humano, que o leva a considerar o seu semelhante como um mero instrumento para conseguir os seus objetivos ainda que, os mesmos, sejam a repetida venda da Torre Eiffel ou conseguir arrancar a Al Capone mais de 50 mil dólares. Mas nem só de trapaceiros vive este livro. Ficamos também a saber, entre milhentos temas, que o inventor da cola mais bebida do planeta afinal queria criar um medicamento para combater o vício da morfina e que, as fotos que registam o encontro entre Franco e Hitler na estação de Hendaia, em 1940, afinal foram manipuladas pois a figura do espanhol não acompanhava o estilo do germânico.

O mais peculiar é que este livro não conta anedotas, mas sim episódios verídicos onde a humanidade – no seu sentido mais lato – dos seus intervenientes é uma característica inata. Da antiguidade até aos nossos dias, conheça alguns dos mais bizarros acontecimentos que o mundo já assistiu e divirta-se com esta “História Insólita do Mundo”.

In Rua de Baixo

terça-feira, 22 de outubro de 2013

“RAIN”
PS3

A arte em forma de entretenimento




As consolas fazem parte do quotidiano de milhões de pessoas em tudo o mundo. Chegaram de mansinho e, em relativamente pouco tempo, conseguiram conquistar os fãs dos jogos de vídeo e têm na sua oferta particular os produtos que marcam a diferença entre plataformas.

No topo do mercado a Microsoft e a Sony disputam a supremacia, ainda que passageira a cada novo jogo, a cada nova forma de entreter os seus seguidores. E como é a evolução que marca a tendência das novas tecnologias, norte-americanos e japoneses preparam-se para revolucionar. Se os nipónicos apostam em força na nova PS4, a empresa fundada por Bill Gates e Paul Allen responde com a também muito aguardada Xbox One.

Por norma, as novas versões das consolas levam pouco tempo a implementarem-se no mercado e fica sempre no ar a dúvida: o que fazer com a antiga consola? Mais notório no caso da Sony, o salto qualitativo gigante entre a PS2 e a PS3 “condenou” ao estatuto quase de culto a consola lançada em 2000.
Com o nascimento da PS4 as dúvidas voltam a assombrar. Mas, felizmente, a Sony revelou estar atenta a essa transição e tem no formato online a solução, ainda que provisória entenda-se, para a sobrevivência da PS3. Os jogos e aplicações exclusivas através de download fazem crer que há esperança para os amantes da PS3.

Entre alguns dos jogos lançados pela Sony, títulos como o maravilhoso e simplista “Journey” e o mais complexo “The Unfinished Swan to Guacamelee!”, jogos plenos de uma identidade inovadora e distinta, tornam possível acreditar que esta filosofia apostada em garantir a fidelização do jogador PS3 deixe marcas através de uma herança vincadamente aliada ao ato do download exclusivo.

E é a referida exclusividade que nos leva até “Rain”, um jogo desenvolvido por Yuki Ikeda através da PlayStation C.A.M.P., em conjunto com a Acquire e a SCE Japan Studio, que revela uma atmosfera única cujos personagens se encontram num cenário que mistura ansiedade com tranquilidade e que consegue a proeza de travar fortes laços emotivos entre jogo e jogador através de uma jogabilidade simples e direta ao coração.

Em traços gerais “Rain” conta a estória (romântica) entre um rapaz e uma rapariga que têm a particularidade de apenas se tornarem visíveis através da chuva e procuram fugir de alguns inimigos atrozes. Pleno de ideias e sensações que apesar de simples – não confundir com simplistas – “Rain” agarra de imediato o jogador que sente que está a viver uma realidade paralela e não apenas um jogo.

Nos primeiros instantes do jogo a nossa vista é inebriada por aguarelas coloridas que revelam um cenário onde a chuva é uma constante e no qual o nosso anónimo herói percorre as ruas abandonadas de uma estranha cidade cujas poças provocadas pela pluviosidade servem de sinais orientadores.
Perdido na noite, o rapaz decide seguir a rapariga que foge de um monstro e dá início a uma série de aventuras cuja ação e permanente banda sonora faz sentir-nos que estamos num bonito e constante quadro cuja arte é por demais avassaladora.



À medida que avançamos na trama surgem frases no ecrã que dão dicas de como seguir em frente. Não existem muitas cutscenes e, para além da constante realidade metafórica de “Rain”, ao jogador é dado o privilégio de interagir com a narrativa de forma tranquila e sedutora.

A jogabilidade é feita através de três botões que permitem ao nosso rapaz saltar, correr, rastejar e interagir com o cenário (abrir e fechar portas, saltar para dentro de objetos, etc.). As câmaras revelam planos de ângulos estáticos e são dispensados tutoriais. Os perigos são facilmente assinaláveis – as formas de fugir aos mesmos também – e por vezes é necessário recorrer ao “select” para entender melhor a ação sendo que em grande parte do jogo é possível avançar sem qualquer interferência maligna que pode assumir a forma do monstro desconhecido ou de cães raivosos. Quando as coisas apertam os nossos heróis juntam forças e conseguem levar o inimigo a uma autodestruição.

Com ou sem a presença de entraves à ação, todo o clima do joga está envolto de uma tensão permanente que torna a atmosfera num misto de acalmia e sobressalto e que deixa o jogador alerta para futuras intervenções furtivas que mediante insucesso podem ser repetidas do mesmo ponto ou de outros checkpoints.

Um dos poucos “defeitos” do jogo é a curta duração. Perante tão fantástico ambiente apetece continuar ad aeternum nesta urbe vintage, chuvosa e vibrante na qual as notas musicais de “Clair de Lune” de Debussy e restante música de Yugo Kanno ecoam e deixam marcas dentro de nós. Sem reservas, somos levados a repetir locais ou simplesmente parar e ouvir a chuva que cai ou passar pelas poças e ouvir o chapinhar.

Mais de que um jogo, “Rain” é uma notável experiência sensorial envolta de uma arte que prende o jogador num ápice tendo o mérito de apostar na simplicidade de processos para atingir o objetivo. A natureza de certa forma “etérea” deste jogo tem tudo o que é preciso para o tornar no mais recente clássico do mundo PSN. Altamente recomendável, “Rain” assume-se como uma peça criativa e comovente que reúne os mesmos predicados que, em tempos, deixou boquiabertos os fãs de jogos como ICO e que vai, de certeza, prevalecer na memória dos mais exigentes. Sem dúvida, uma obra-prima.

In Rua de Baixo

Korn
“The Paradigm Shift”

Regresso ao passado



Nomes maiores do apelidado nu metal - movimento nascido na década de 1990 que fundia sonoridades normalmente associadas ao heavy/trash metal com ambientes hip-hop e alternativos -, os Korn contam já com uma carreira de duas décadas, e o seu primeiro registo em forma de EP, “Neidermayer’s Mind”, é hoje um dos documentos mais importantes da génese de um género que, em determinada fase, ousou invadir o mainstream.

De certa forma “herdeiros” do legado grunge e de um certo ocaso do metal, a banda de Jonathan Davis construiu um considerável culto, muito graças a álbuns como “Life is Peachy”, “Follow the Leader” e “Issues”, dos quais se retiraram hinos de uma geração como o são canções como “A.D.I.D.A.S.”, “Got the Life”, “Freak on a Leash” ou “Make me Bad”, que teve honras de contar com a participação do líder dos The Cure, Robert Smith, na sua versão unplugged.

A entrada dos anos 2000 foi sinónimo de uma “crise” criativa por parte dos Korn que, ainda assim, tiveram em discos como “Untouchables” algo da chama daquilo que a banda californiana construiu nos primeiros anos de vida. A saída de membros influentes como o guitarrista Brain “Head” Welch também provocou alguma instabilidade. E, coincidentemente ou não, o regresso de “Head” aos Korn para a elaboração do novo “The Paradigm Shift” faz regressar a banda aos grandes discos. Utilizando alguns dos ingredientes que tão bons resultados surtiram em outras edições, os Korn fazem do seu mais novo álbum um dos melhores discos da carreira.

Naquele que é o seu décimo primeiro álbum de estúdio, Davis, “Head” e restantes comparsas apostam num registo que junta sonoridades épicas, pinceladas eletrónicas e muita melancolia. Ainda que não tenham muito a provar, aos Korn «pedia-se» algo que pudesse afastar para longe a inércia dos últimos registos e “The Paradigm Shift” converge nesse sentido.

Na procura da redenção, Jonathan Davis aproveita a primeira música de “The Paradigm Shift”, “Prey for Me”, e lança um “…Prey for me, I think I owe you an apology…”. As guitarras estão afiadas como nunca e Shaffer e Welch servem de ponte para a intervenção hipnótica de Davis. Para reforçar o clima opressivo, bateria e baixo apontam ao motim sonoro. Os Korn estão vivos e metálicos q.b..

Os primeiros acordes de baixo de “Love and Meth” são outro exemplo da excelência musical agri-doce dos clássicos Korn, que apostam na oscilação vocal de Davis e no sublinhado das cordas elétricas, que libertam riff’s de grande potência e que, em momentos do disco como “What We Do”, são sinónimo de um potente groove em que a sua base leva a territórios definitivamente metálicos. A juntar ao acerto musical, a presença da voz de Jonathan Davis confere o efeito montanha-russa tão do agrado dos Korn.

Em “Spike in my Viens”, por exemplo, a estrutura altera-se, mas a eficiência mantém-se. O registo, embora tenso, caminha em águas mais “calmas” e há espaço para sonoridades eletrónicas e sampladas. Rapidamente o estilo mais “convencional” dos Korn regressa em temas como “Mass Hysteria” e “Paranoid and Aroused”.

“Never Never”, o primeiro single de “The Paradigm Shift”, é talvez o exercício mais eletrónico deste novo trabalho, e as promessas de não repetir erros apaixonados surgem envoltas de uma barreira sonora forte e bastante “orelhuda”, que tem na polida manipulação o seu trunfo maior.

Voltando a territórios que misturam sentimentos abrasivos e harmonias várias, “Punishment Time” e “Lullaby for a Sadist” revelam-se dois exercícios onde a voz tem espaço para brilhar, deixando de lado um perfil mais gritado. As guitarras descem um pouco na escala da agressividade e são as palavras que assumem a responsabilidade maior de carpir a atmosfera.

Perto do final do álbum, “Victimized” volta a trazer a eletrónica que, na companhia dos potentes riff’s, faz aumentar a tensão, que atinge o seu clímax na derradeira faixa do disco e que torna “It’s All Wrong” no epílogo prefeito de um disco muito interessante.

Tomando como ponto de partida o próprio título do álbum, não sabemos se os Korn reviram os seus paradigmas, mas o que este melódico “The Paradigm Shift” nos traz é uma coleção de grandes músicas que voltam a agradar, por certo, os fãs mais céticos da banda. A crise criativa parece ter desaparecido e o regresso do “Head” resultou em pleno.

Alinhamento:

01.Prey For Me
02.Love & Meth
03.What we do
04.Spike in my Veins
05.Mass Hysteria
06.Paranoid and Aroused
07.Never Never
08.Punishment Time
09.Lullaby for a Saddist
10.Victimized
11.It´s All Wrong

Classificação Palco: 8/10

In Palco Principal

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

“A Bibliotecária”
de Logan Belle

A ingenuidade perdida em Nova Iorque



Quando em 2012 E.L. James, na altura uma perfeita desconhecida, logrou lançar “As Cinquenta Sombras de Grey” o romance erótico estava um pouco “esquecido” entre os editores mundiais. As aventuras apaixonadas e ao ritmo BDSM colocaram personagens como Anastasia Steele e Christian Grey no imaginário coletivo de quem procura, na literatura erótica, um misto de entretenimento e sedução.

Hoje, os livros que no erotismo centram as suas palavras tornaram-se mais vulgares, residindo na fuga a uma certa banalidade de género o segredo de um bom romance. Logan Belle – pseudónimo da norte-americana Jamie Brenner – é uma dessas vozes emergentes e, “A Bibliotecária” (Planeta, 2013), assume-se como um romance a ter em conta.

Ainda que a autora se tenha estreado nas lides literárias com a trilogia “Blue Angel” (que pode ser encontrada por cá mas escrita na língua mãe), apenas cerca de dois anos depois o mercado português resolveu acolher este livro que foi, entretanto, editado em mais de dez idiomas diferentes.
“A Bibliotecária” versa sobre a ida de Regina Finch para Nova Iorque depois de conseguir chegar ao seu emprego de sonho: trabalhar na Biblioteca Pública. Para trás ficaria uma educação clássica e recatada centrada na figura materna, uma castradora referência.

Nesta nova aventura, Regina partilha um apartamento com Carly e vê na sua companheira de residência a antítese da sua pessoa. Extrovertida e com a líbido em territórios nunca explorados pela jovem bibliotecária, Carly “ameaça” a pacatez de Regina que vê as noites interrompidas pelos desvarios sexuais da companheira.

Mas é no silêncio da biblioteca que a vida de Regina vai inesperadamente ganhar alento. Involuntariamente, a jovem estagiária descobre, por entre os corredores, a paixão na forma de um desvario tórrido que lhe desperta um misto de repúdio e desejo. Possuída por uma luxuriante curiosidade, Regina assiste ao quente encontro e sente o corpo a responder de forma nova e cativante.

Sebastian, um dos intervenientes desse encontro sexual, é um milionário e fotógrafo conhecido pelo seu gosto pela luxúria, levando Regina a entrar num jogo onde o prazer é o bem mais procurado e um fim em si mesmo. Ainda que sentindo um turbilhão de novas emoções e com a cabeça um pouco perdida, Regina encontra na vida da vintage pin-up Bettie Page o reflexo da sua personalidade, de alguém de se vê convertida num modelo fetichista depois de abandonar uma personalidade fechada sobre várias camadas de ingenuidade.

Convertida ao novo “eu”, Regina deixa-se levar numa alucinante e quente viagem onde o sexo vai ajudar a quebrar barreiras, assim como se transformará numa das mais valiosas ferramentas para seduzir o homem que ama.

Ainda que por vezes recorra aos inúmeros lugares comuns com os quais a literatura erótica se encontra espartilhada, Logan Belle consegue desenvolver uma narrativa bastante apelativa, que encontra saudáveis fronteiras de bom gosto evitando a sordidez em exagero. A leitura é bastante apelativa, simples e as páginas de “A Bibliotecária” são devoradas com a mesma paixão com que Regina veste a sua nova identidade.

In Rua de Baixo

“Os Segredos do FBI”
de Ronald Kessler

Agente provocador



Ronald Kessler, ex-repórter de investigação do Washington Post e Wall Street Journal – e vencedor de 17 prémio de jornalismo -, faz chegar-nos uma obra que revela alguns dos mais bem guardados segredos do FBI e coloca, a nu, políticos, celebridades e estrelas de cinema “disfarçadas” de agentes secretos.

Tendo como base o acesso interno aos arquivos secretos da Agência Federal de Investigação norte-americana, “Os Segredos do FBI” (Bertrand, 2013) revela pormenores até agora (quase) desconhecidos: alguns meandros da captura de Osama Bin Laden, cuja identificação das impressões digitais depois de morto foi inconclusiva; a recente proposta de troca de espiões por parte da Rússia, que fez o governo de Moscovo incluir Robert Hanssen e Aldrich Ames no “negócio”; investigações que apontam que a morte da atriz Marilyn Monroe pode, afinal, incriminar Robert Kennedy; pormenores de um encontro entre Hillary Clinton e Vince Foster que, eventualmente, levou ao suicídio deste último; a orientação sexual de J. Edgar Hoover.

Mas há mais. Pela primeira vez o grande público vai saber como o FBI invade habitações, empresas e embaixadas para colocar a colocar aparelhagem que permite a realização de escutas sem aviso prévio. De forma a apimentar ainda mais esta obra, as páginas centrais do livro mostram fotografias que ilustram alguns dos surpreendentes relatos contados em “Os Segredos do FBI”.

De Watergate a Waco, passando por escândalos que têm em comum figuras do Congresso norte-americano até à morte de Bin Laden, “Os Segredos do FBI” revela uma escrita acutilante que capta por completo a atenção do leitor. As “anedotas”, que têm como autores os vários agentes referidos no livro, tornam esta narrativa ainda mais viva e coesa. Em vez de seguir um caminho repleto de dúvidas e suposições, esta obra assume-se livre de qualquer agenda e vai direita ao assunto. Caso transpareça algum traço que identifique a doutrina política seguida pelo seu autor, tal revelação apenas confere um raio de humanidade a Kessler.

Este livro tem o condão de revelar alguns dos maiores segredos contemporâneos, com material e testemunhos que podem alterar a história recente tal como a conhecemos. Para além de corajoso, Kesser assume o papel de contador de “estórias”, ainda que reais, desmistificando-as e expondo o verdadeiro sumo das mesmas. Para ler com muita atenção.

In Rua de Baixo

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

“O Homem de Constantinopla”
José Rodrigues dos Santos

A ficção ao serviço da história



Muitas vezes, o curso da história revela lacunas, momentos menos conhecidos ou de dúvida permanente. Para se refazer a linha cronológica, o historiador desenvolve técnicas que, baseadas em alguns traços reais, criam uma ponte entre a ficção e a realidade, entre o verosímil e o factual. O escritor, por vezes, cai na mesma tentação.

É com base nessa mestria que José Rodrigues dos Santos reconstrói a vida e obra de Calouste Gulbenkian, um homem que ousou desafiar tudo e todos, acabando por fundar um dos maiores impérios do mundo moderno e que escolher Portugal para deixar o seu legado cultural, através de uma fundação que mantém o seu estatuto de excelência passadas várias décadas.

A morte de Calouste Gulbenkian, em 1955, deixou um vazio face a sua existência e não existem grandes relatos sobre a mesma. Tendo como base a leitura de uma biografia do misterioso filantropo, José Rodrigues dos Santos estudou ainda vários registos de contemporâneos do ex-magnata do petróleo – que recebeu a alcunha de o “Senhor Cinco por Cento” devido à mestria como se movia no mundo dos negócios sendo que tal episódio é referido no livro em causa – e, juntando a essa informação relatos baseados na herança oral, chegamos a “O Homem de Constantinopla” (Gradiva, 2013), um romance biográfico ficcionado que reflete parte da vida do arménio e que se assume como a primeira parte de um relato que tem, no seu conjunto, mais de 1000 páginas, e que terá em “O Milionário em Lisboa” o tomo conclusivo.

Referência da escrita em Portugal e um dos seus autores mais prolíferos com 11 obras editadas em 12 anos, Rodrigues dos Santos lança-se numa aventura que tem o seu início aquando da queda do império Otomano e que obriga a família de Kaloust Sarkisian a refugiar-se em locais onde a sua existência não seria colocada em causa por conflitos que têm a religião como ponto de discordância.

Ao longo de 500 páginas ficamos a conhecer as desventuras de um homem que se serviu da sagaz sapiência negocial para formar um dos maiores impérios financeiros da história, ainda que tenha sido obrigado a percorrer meio mundo. Da Arménia a Inglaterra, passando por França ou Rússia, Rodrigues dos Santos oferece um romance de ficção cuja inspiração de acontecimentos verídicos dá a conhecer um homem único que viveu os últimos suspiros do século XIX e a primeira metade do século XX, assistindo da primeira fila a momentos-chave da história e assumindo-se como uma alma em tudo semelhante a um “Forrest Gump” no caminho da evolução.

Tal como é apanágio do autor, “O Homem de Constantinopla” revela-se um delicioso romance cuja riqueza histórica envolve o leitor de tal forma que se torna (quase) impossível parar de o ler. A escrita clara, interessada e interessante de José Rodrigues dos Santos denota inspiração da ação cinematográfica, seduzindo o leitor com “imagens” literárias que sustentam as palavras escritas nascidas a partir da ideia central de fazer uma biografia de caráter ficcional, onde o rigor assenta na capacidade imaginativa do autor.

Pelo meio desta intricada narrativa existem relatos polémicos, alguns nomes trocados pela poesia da escrita romanceada e, acima de tudo, reflete-se uma época onde os negócios e a evolução técnica estavam intrinsecamente ligadas, onde a corrupção era o meio para conseguir fins vários pois a conjuntura o permitia e era tornada prática comum, principalmente no que toca à realidade do Império Otomano.

A primeira edição desta obra, cuja tiragem de 50 mil exemplares já esgotou, promete transformar “O Homem de Constantinopla” num dos livros mais interessantes do ano. Os fãs do autor de títulos como “O Último Segredo” ou “O Sétimo Selo” apenas vão ter de aguardar pelo próximo mês para saber a conclusão deste romance que terá, em “O Milionário em Lisboa”, a desejada conclusão, com a trama a incidir sobre a passagem de Gulbenkian pela capital portuguesa.

In Rua de Baixo

“Adeus, por enquanto”
de Laurie Frankel

O amor, na terceira pessoa



Ao segundo livro, a norte-americana Laurie Frankel consegue surpreender com um romance inovador que tem, como principal premissa, a reflexão sobre a natureza da própria existência, tocando em sentimentos como a perda e a morte. No meio de um turbilhão de acontecimentos, a escrita escorreita de Frankel eleva o amor ao expoente da sua essência que, com o auxílio de uma ferramenta informática, se revela o sentimento mais arrebatador entre dois seres que se completam – ou na junção de diferentes dimensões.

Numa época em que a tecnologia se afirma como um elemento incondicional à vida, Sam Elling, um dedicado informático que trabalha numa agência de encontros, cria um algoritmo que tem como maior objetivo permitir encontrar a alma gémea. Esta revolucionária técnica faz com que Sam consiga guiar o seu coração até Meredith, sua colega de trabalho, mas enquanto o amor se torna a sua razão de viver sofre o forte revés de perder o emprego. Mas os infortúnios não ficam por aqui: Livive, avó de Meredith, morre de forma algo inesperada e a tristeza e a dor ocupam grande parte da alma da namorada de Sam, que deixa o vazio da perda apoderar-se de si.

De forma a tentar combater a tristeza de Meredith, Sam investe o tempo livre que o desemprego lhe confere e aposta num novo programa informático. Da investigação resulta um algoritmo que gera uma simulação online de Levive, tendo como ponto de partida o registo do seu correio eletrónico e o perfil do Facebook.

Surpreendentemente, Levive volta “à vida” em formato virtual e Meredith volta a apaixonar-se pela presença do espetro da sua avó e mata saudades via internet. A invenção de Sam é, mais uma vez, genial, e para o casal esta deve ser partilhada com todos. Dessa ideia nasce a “RePousa”, uma empresa que permite a comunicação – virtual claro – com entes queridos, entretanto falecidos.

Inebriados com as múltiplas funcionalidades do algoritmo, algumas pessoas fazem destes reencontros a sua vida, servindo para mais do que uma última despedida: o adeus torna-se uma palavra, de novo, a evitar.
Utilizando um misto de linguagem mais técnica e a paixão de uma escrita leve e direta ao coração, Laurie Frankel consegue, com este “Adeus, Por Enquanto” (Bertrand Editora, 2013), um romance mordaz, escrito na terceira pessoa, repleto de humor e revestido por uma narrativa competente que consegue ser um misto de racionalidade e emoção, de sensibilidade e magia.

De forma simples e assertiva, Frankel leva o leitor a refletir sobre questões como a perda de um ente querido, a superação da mesma e a importância que a tecnologia tem nos nossos dias, época em que os extremismos da utilização online podem ser sinónimo de perda de identidade e cidadania e onde a verdade passa a ser aquilo que um computador debita em detrimento da vida real, sem bits, bytes ou passwords encriptadas.

In Rua de Baixo

David Machado em entrevista

«Cada pessoa terá a sua forma de olhar, pensar e viver a sua felicidade. Confesso que, nesse aspeto, sou muito parecido com o Xavier, para mim os números são importantes e tendo a tentar quantificar tudo»



Romancista, excelente contador de estórias e ex-economista, David Machado é uma das mais promissoras e emergentes vozes literárias da sua geração. Com livros editados em vários países, o autor de “Deixem Falar as Pedras” ou “O tubarão na Banheira” traz até nós “Índice Médio de Felicidade”, uma obra otimista sobre a amizade e o companheirismo que reflete a capacidade transcendente de acreditar na felicidade, nem que seja através de uma equação matemática. Para nos falar sobre este novo romance, crises, absurdos e outros assuntos, eis David Machado em discurso direto.

No teu livro anterior – “Deixem Falar as Pedras” – fizeste um exercício sobre a memória, assim como da herança geracional. Em “Índice Médio de Felicidade” é o presente que alicerça a narrativa. Esta “diferença cronológica” foi propositada?

Eu diria que não é tanto o presente, mas o futuro, a ideia que fazemos do futuro, que traz consigo conceitos como o otimismo e a esperança. E isso, sim, foi propositado. Mesmo antes de começar a escrever o “Índice Médio de Felicidade”, quando a história ainda só existia na minha cabeça, já então era claro para mim que os dois romances se complementariam: um voltado para o passado, o outro para o futuro. Nenhum é mais verdadeiro do que o outro. As duas coisas, passado e futuro, fazem parte do nosso presente.

Nas páginas iniciais deste teu novo romance fala-se de encontrar a hipotética satisfação de viver através de uma fórmula matemática. Achas possível ler a própria felicidade através de uma equação?

Cada pessoa terá a sua forma de olhar, pensar e viver a sua felicidade. Confesso que, nesse aspeto, sou muito parecido com o Xavier, para mim os números são importantes e tendo a tentar quantificar tudo. Por isso mesmo, nunca quis responder à questão do inquérito sobre a satisfação com a vida. A minha inclinação seria imediatamente começar a atribuir valores a tudo. No entanto, esse é um processo pelo qual não quero passar, até porque se trata de uma tarefa infinita.

A personagem principal de “Índice Médio de Felicidade”, Daniel, revela que ao longo da vida desenvolveu um diário que tinha o futuro escrito. Acreditas que é possível traçar um futuro ainda que o mesmo seja alterado consoante as dificuldades da vida?

Não é muito fácil fugir a uma ideia de futuro. Ela está sempre lá, na nossa cabeça, e cruza-se com todos os pensamentos que temos, ainda que, por vezes, não nos demos conta. Essa é uma das coisas que nos diferencia dos outros animais. Penso que, em certos casos, teríamos a ganhar estando mais atentos ao futuro, àquilo que esperamos dele, por exemplo, projetando esse futuro através de um plano. Por outro lado, temos de estar conscientes que esse plano, esse futuro, é apenas uma linha para nos orientarmos e que, muito dificilmente, se tornará realidade. O que não é necessariamente uma coisa má: é apenas assim que a vida é.

O desemprego e a falência social – situações que refletem o Portugal de hoje – são temas fortes neste livro. A conjuntura económica é um bom filão para a inspiração de um escritor?

Nem sempre. Neste romance, como noutros livros que já publiquei, fui ao encontro do absurdo. E a nossa época, sobretudo por causa da crise que estamos a viver, parece-me cheia de absurdos. E eu tentei usá-los de uma forma literária que favorecesse a narrativa e não necessariamente como crítica social e política.
O triângulo “Daniel-Xavier-Almodôvar” é a base de “Índice Médio de Felicidade”. Estamos perante três pessoas diferentes ou três faces de uma mesma moeda? Serão estes três personagens, no fundo, um só?

Na minha cabeça sempre me pareceu que eles em conjunto representam bem cada um de nós. Pelo menos, eu sempre me identifiquei muito com os três; mais com o Daniel, é certo, mas também com os outros. Claro que há exceções, mas ninguém é absolutamente otimista, da mesma forma que ninguém é absolutamente egoísta ou triste ou só.

Daniel é um otimista e lutador por natureza e mesmo à beira do colapso encara o futuro com esperança. De alguma forma estamos perante um qualquer perfil do Homem português?

Não sei se os portugueses são particularmente dados à esperança. Acho que temos uma capacidade surpreendente de nos adaptarmos e encontrarmos caminhos alternativos para continuarmosem frente. Essaé uma das nossas melhores qualidades. E que é muito diferente de nos resignarmos à situação. Algo que, por outro lado, começa a acontecer com demasiada frequência.

Numa das passagens do livro refere-se que Portugal conseguiu ultrapassar com distinção o período social e economicamente estagnado que derivou de décadas de ditadura. Sendo formado em economia, achas possível um sorriso risonho para o Portugal pós-troika?

As crises vêm e vão. A seguir a esta virá outra e depois outra e depois outra e depois…. Após o fim da ditadura, nasceu a ideia, ingénua mas natural, de que, morto o dragão, a felicidade e a prosperidade existiriam para sempre no reino. É uma ideia falsa, claro. A possibilidade de as coisas piorarem está sempre presente. Há, obviamente, direitos e vitórias que deveríamos tentar preservar a qualquer custo e nos últimos trinta anos cometeram-se muitos erros. Aquilo que quero dizer, sem entrar muito pelo campo da política, é que, apesar de tudo e mesmo durante esta época má da nossa história, nós podemos rir e podemos acreditar que continuaremos a rir e que, mais importante ainda, podemos lutar por isso.

Daquilo que tens conhecimento do Portugal de hoje, qual o Índice Médio de Felicidade que atribuirias ao nosso país?

O valor que descobri enquanto escrevia o livro é de 5,7. E há umas semanas li no jornal que esse valor caiu três ou quatro décimas. A minha relação com esse valor muda diariamente. Por vezes parece-me baixíssimo, saio à rua e os portugueses não parecem assim tão mal, sorriem e falam e abraçam-se. Noutros dias, considero-o justo, as coisas não estão nada bem e, claro, isso pesa muito na equação da nossa felicidade, é normal as pessoas perderem ânimo.

Ao longo da carreira já fizeste tradução, escreveste contos, livros infantis e vários romances. O que podemos esperar do David Machado nos próximos tempos?

Mais do mesmo, como se diz por aí. E se for assim, ficarei muito feliz.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

“SPELUNKY”
PS3 / PS VITA

Explorador Maníaco



Com uma primeira versão lançada em 2009 de forma gratuita para o ambiente Windows, “Spelunky” cresceu, ganhou notoriedade e chega agora à Playstation 3 e PS Vita e logo com a possibilidade de interação entre estas plataformas. Criado pela dupla Derek Yu e Andy Hull, este simples e atraente jogo está a tornar-se num caso sério no que toca à nova onda de jogos 2D de cariz independente.

Depois de jogos como “HotLine Miami”, “Limbo”, “Escape Plan” ou “Stealth: A Clone in the Dark”, “Spelunky” ameaça tornar-se no próximo vício de quem procura ação, aventura e quebra-cabeças tendo em conta contornos simples mas que à medida que são explorados se revelam maravilhosamente intrincados e fazer perder a cabeça ao mais calmo dos jogadores.

Apostando forte neste tipo de entretenimento, a Mossmouth encarregou Yu de fazer um jogo que aposta na perícia e capacidade de memória e reação do jogador e para isso o norte-americano de ascendência nipónica revisitou o velhinho “Spelunker”, um videojogo desenvolvido por Tim Martin no início dos anos 1980 e que fazia as delícias dos adeptos dos 8 bits da Atari e, mais tarde, dos Commodore 64.

No fundo, o jogador assume o papel de um espeleologista com tiques de um certo Indiana de apelido Jones que se aventura em túneis e locais subterrâneos na busca de vários prémios e entre os quais está o tão desejado tesouro Olmec. E como isto de resgatar tesouros é uma tarefa complicada, o nosso spelunker vai conhecer terríveis inimigos que se escondem a cada esquina e que, acreditem, levam ao desespero do mais paciente dos jogadores.

À imagem do complicadíssimo “Super Meat Boy”, “Spelunky” exige do jogador a máxima atenção e concentração. Armados de um chicote e um punhado de explosivos e cordas, resta-nos desenvolver a capacidade furtiva de escapar aos super-irritantes inimigos. Ainda que cada nível possa ser superado com distinção em poucos instantes, no caso de jogadores experientes, para os menos afoitos o tormento pode durar muitos minutos com a agravante dos níveis serem gerados de forma aleatória o que torna o evoluir do jogo diferente de caso para caso.

O gameplay simples e propositadamente retro é muito atraente, leva-nos aos primórdios dos videojogos e não pensem que estão loucos se em determinadas fases do jogo sentirem a sensação de estarem a jogar o mítico “Chuckie Egg” no ZX Sepctrum.



E tal como muitos dos antigos jogos “48k”, “Spelunky” exige uma grande perícia e poder de superação mediante a crescente dificuldade do jogo. Para preparar o jogador para a árdua tarefa que o espera é oferecido um tutorial de certa forma limitado e que apenas revela conceitos básicos do restante conteúdo da aventura mas estes três níveis são um exemplo de como, por exemplo, uma simples pedra num escuro labirinto pode ser uma arma bem mais potente que uma poderosa shotgun.

Este tutorial serve também para o jogador ter a noção que a repetição constante de um mesmo nível não é sinónimo de incompetência mas sim de superação. Enquanto se afastam do caminho serpentes, morcegos, escorpiões, aranhas e outra bicharada é possível apanhar prémios como joias e barras de ouro que podem ser trocados pelas já mencionadas bombas e cordas, artefactos que vai posibilitam abrir novas passagens, encurtar a dificuldade e conseguir, claro, o melhor resultado final possível.

Ainda assim, e aos mais aventureiros e corajosos, recomenda-se a superação de cada nível utilizando o menor número de artefactos possível tendo na imaginação e capacidade de reação as melhores armas. O rápido planeamento dos movimentos e saber quais os melhores lugares para ultrapassar inimigos (por vezes basta saltar por cima deles) leva a situações e ações bastante divertidas.

Uma elevada fatia do sucesso e divertimento deste jogo é a sua imprevisibilidade pois nunca sabemos ao certo que nos espera. Tanto em modo “Aventura” ou “Combate Mortal” esperem o pior (melhor) possível. Se no primeiro caso a aventura é solitária, na versão “Combate Mortal” as salas são partilhadas com outros jogadores permitindo o sempre apetecível sistema multiplayer.

Mas é na versão portátil que este “Spelunky” atinge a plenitude sendo, talvez, o melhor jogo do género. O modo cooperativo revela-se bastante completo e é possível jogar-se com outros jogadores Vita ou na PS3, cujo écran é partilhado e que proporciona situações muito divertidas. Outra das particularidades do jogo prende-se com a ideia de realizar um “cross saving” entre consolas o que permite continuar a sua aventura a partir qualquer das plataformas Sony.

Contas feitas, “Spelunky” é um fantástico jogo e apesar da sua “simplicidade” encontra-se num patamar bastante elevado em ambas as plataformas Sony. Para além de permitir aos mais saudosistas viver os momentos intensos da era romântica que tinha no Spectrum e Atari monstros sagrados, este é um jogo que dá a oportunidade de sentir na plenitude a ideia do conceito “portátil” ao mesmo tempo que se queimam neurónios ao tentar ultrapassar os complicados labirintos subterrâneos.

In Rua de Baixo

Linda Martini @ Meo Arena

Foi bonita a festa, pá!



 O culto promete extravasar o seu conceito. Depois de uma década de discos, concertos e muita paixão em forma de música, os Linda Martini ousam dar o salto para uma nova plataforma. Dos cinco, cuja matemática da vida subtraiu em quatro, hoje, André, Cláudia, Pedro e Hélio são sinónimo de uma maravilhosa tempestade sonora cujas tangentes se cruzam em momentos rock, onde a agitação e a tranquilidade coexistem de forma coerente. Na ressaca da edição de “Turbo Lento”, o terceiro álbum de originais da banda, a noite de sábado levou a cada vez maior trupe de seguidores dos criadores de “Amor Combate” à Sala Tejo, da Meo Arena, e a ansiedade era tal que alguns chegaram ao local por volta das 13 horas.

Num dia em que as nuvens carregaram o céu de Lisboa, quando passavam alguns minutos das dez da noite, os primeiros acordes de “Ninguém Tropeça nos Dias” provocaram a histeria entre uma sala a rebentar pelas costuras. Do palco saíam raios de uma luz azul, que condenou ao ostracismo as tonalidades cinza que a meteorologia ditava. O público, eclético, recebeu de braços escancarados os quatro músicos, que fizeram os corpos dos presentes levitar durante perto de duas horas, numa noite que ficará, por certo, na memória de todos.

Depois das boas-vindas instrumentais carregadas de energia, a potência de “Juaréz” e “Panteão” – dedicada à rapaziada que chegou aos arredores da sala por volta da hora de almoço -, mais duas faixas de “Turbo Lento”, mostram a boa forma em que a banda se encontra. As guitarras de André e Pedro tocam e dialogam num infinito de interceções de elevado bom gosto sónico, enquanto o baixo de Cláudia sublinha o potente som com o qual Hélio “castiga” a bateria.

As palmas e a devoção surgem naturalmente e Hélio aproveita para saudar os presentes cujo impulso e devoção levou à entrega de flores antes do concerto. Porque a música é deles para nós, a celebração, intensa, viaja até “Casa Ocupada”, com o rock circular e completamente hipnótico de “Nós os Outros” que, durante segundos, levou Geraldes a ocupar as honras do microfone e a assistir em local privilegiado ao crowd surfing momentâneo.

Completamente atado a esta cerimónia sonora, o público aproveita uma breve pausa em palco e dispara: “Vocês são Lindos!”. A colocação de voz da plateia é elogiada por Cláudia e, apesar das cogitações locais em forma de pedidos, a baixista lamenta, mas o programa segue como “previsto” e o filão mais direto de “Casa Ocupada” traz à sala “Juventude Sónica”, e logo a seguir a maravilhosa “Estuque” faz recuar o calendário até 2006 e relembra “Olhos de Mongol”.

Como é seu apanágio, a banda lança-se a um maravilhoso tour de force e a faixa do primeiro disco do coletivo revela-se num exercício tenso, à beira do colapso. A voz de André, segura, lidera o som que invade os ouvidos de todos. Os Linda Martini são uma ilha sonora em Portugal. Movimentam-se numa montanha-russa de sons que navegam por diferentes marés, e são faixas como “Estuque” que revelam todo o potencial dos quatro.

Sempre com Hélio bastante comunicativo, o concerto segue com mais uma visita a “Turbo Lento” e “Pirâmica”, um dos momentos mais bonitos do novo álbum, enche os sentidos dos presentes com uma visão sónica ensimesmada e introspetiva a que “Sapatos Bravos” dá a devida continuação. Logo a seguir, a experimental “Febril (Tanto Mar)” deixa todos com o sangue a ferver e até a “ausência” de Chico Buarque não serve para retirar o brilhantismo desta festa que traz colada ao baile a pujança de “Belarmino”, um dos momentos mais punk da noite.

“Tremor Essencial” leva-nos de volta a territórios dignos de uma jam session, onde os músicos dão tudo de si, divertem-se e passam a magia do palco para a plateia. A voz dá espaço aos sons e entra-se num ritual xamã. Os Linda Martini não são, de facto, como a maioria das gentes…

A muito aguardada “Ratos” inicia um ciclo em que a banda não dá tréguas. Numa guerra sem quartel, “Aparato”, Mulher-A-Dias” e “Tamborina Fera” levam a plateia à loucura. Há quem grite, quem salte, quem se abrace, se beije. As emoções caem dentro de todos, sem tropeçar.

Com a celebração ao rubro chega mais um hino à medida dos “nossos” Linda. “Cem Metros Sereia” convoca todos para momentos gritados à capela, que levam Cláudia a incentivar os presentes a um sem-fim, ao som dos acordes do baixo.

O suor escorria, os sorrisos estampados no rosto. Eis o semblante de André, Cláudia, Pedro e Hélio em mais um momento de curta pausa, que serviu para apresentar o segundo single retirado de “Turbo Lento”. A dedicatória sentida às gentes da Cova do Vapor, alguns deles presentes na sala, serve de introdução a “Volta”, um perfeito exercício hedonista que resulta numa das composições mais bonitas que a banda já trouxe à vida. O clã presente circula entre os acordes saídos do palco que, sem demoras, aproveitam as vagas calmas dos presentes para navegar por “Este Mar”, outras das emblemáticas criações saídas do primeiro EP do grupo e um dos momentos mais intensos deste concerto, que estava previsto para um encore, mas a curta ausência dos músicos do palco para o esperado regresso carecia de sentido, de acordo com a baixista.

Bem perto do final, o clássico “O Amor É Não Haver Polícia” trouxe um controlado motim à sala cujo ambiente inflamado exigiu o regresso da banda ao palco para um desejado retorno que resultaria num não ensaiado e verdadeiramente lunático “Dá-me a Tua Melhor Faca”.

A festa terminou em beleza. Os Linda Martini voltaram a mostrar que são únicos e que merecem, contra as suas próprias expectativas, salas maiores. Souberam crescer e hoje, ainda sem rugas, assumem-se como uma das mais talentosas bandas de Portugal. Sem espinhas!

Foto: Diogo Oliveira

In Palco Principal

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Alice Munro vence Nobel da Literatura

«Uma narrativa afinada que tem como principal característica a clareza e o rigor psicológico»



A expectativa era muita. Durante os últimos dias, vários eram os nomes que figuravam na lista que ditaria a sucessão do chinês Mo Yan, no que tocava ao novo Nobel da Literatura. Entre os favoritos estavam o japonês Haruki Murakami, a norte-americana Joyce Carol Oates ou o húngaro Peter Nádas, mas coube à canadiana Alice Munro a honra de vencer o Nobel, sendo a décima terceira mulher a conseguir tal feito.

Segundo os rigorosos parâmetros de apreciação por parte dos membros do comité que atribui o Nobel da literatura, Munro é detentora de uma «narrativa afinada que tem como principal característica a clareza e o rigor psicológico.»

Desta forma, a autora de livros como “Demasiada Felicidade”, “Fugas” ou o mais recente “Amada Vida” – todos estes títulos editados em Portugal através da editora Relógio d’Água –, torna-se na décima oitava personalidade canadiana a ser laureada pela Academia Real Sueca.

Muitas vezes comparada a autores como o russo Anton Chekov, Munro consegue aos 82 anos o mais importante prémio literário da sua carreira, quatro depois de arrecadar o também muito prestigiado Man Booker Prize.

Ainda que a sua grande aposta enquanto escritora seja o conto, género que apenas tinha sido distinguido uma vez pela Academia Sueca em 112 anos, Alice Munro vê o seu nome juntar-se às grandes referências da literatura mundial.

In Rua de Baixo

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

“O Evangelho de Sangue”
de James Rollins e Rebecca Cantrell

Aventura, suspense e ação a quatro mãos



O que pode acontecer quando se juntam dois dos mais talentosos autores que se movem, como ninguém, em tramas que versam o thriller e o mistério? A resposta esta no novíssimo livro de James Rollins e Rebecca Cantrell, “O Evangelho de Sangue” (Bertrand Editora, 2013), que promete ser um dos livros mais interessantes no que à rentrée diz respeito. E, tal como nos livros dos autores em nome próprio, mais uma vez o leitor embarca numa viagem onde o extremismo científico, a história e a ação são os ingredientes para um romance que bebe o melhor de Rollins e Cantrell.

À imagem das excitantes e rocambolescas aventuras que Rollins tornou tão populares com a série “Força Sigma”, também este livro pega nas incansáveis premissas de um recomendável e viciante mistério. Desta vez Israel é o cenário escolhido e, depois de um terramoto em Massada – uma antiga fortificação a sul do território – que matou centenas de pessoas, uma descoberta inesperada revela-se ao mundo: um túmulo oculto no coração da montanha mostra uma descoberta macabra.

Por forma a entender tal mistério, um trio de investigadores lança-se numa uma aventura que pode mudar a vida da humanidade. Assim, o sargento Jordan Stone, especialista em medicina forense, o padre Rhuan Korza, sacerdote do Vaticano e a brilhante arqueóloga Drª Erin Granger vão tender compreender o que significa a descoberta de um cadáver crucificado de uma rapariga mumificada.

Enquanto observam o local o trio é surpreendido por um ataque inesperado que os leva a abandonar a pesquisa, mas que lhes confere um novo objetivo: recuperar algo muito importante que se encontrava no túmulo: um livro escrito por Jesus Cristo denominado “O Evangelho de Sangue”, que carrega consigo os mais profundos segredos de Sua pessoa e que é, também, alvo de cobiça por parte de uma força do mal encabeçada por um líder capaz de tudo para o conseguir.

Numa incrível corrida contra o tempo, Erin e seus companheiros percorrem sepulturas e maravilhosas igrejas de forma a tentar compreender milhares de anos de uma História que alberga consiga segredos terríveis, entre os quais um possível acordo celebrado entre o filho de Deus e alguns proscritos que tinham a eternidade como prisão.

Durante a busca ficam muitas questões no ar… Qual a razão dos padres usarem cruzes ao peito? Qual a razão do celibato? Porque se escondem os monges por trás de capuzes? Porque se celebra a eucaristia com o vinho transformado no sangue de Cristo? As tão desejadas respostas podem estar concentradas no âmago de uma seita secreta do Vaticano, os Sanguinistas, cuja existência foi revelada ao mundo através de uma pintura de Rembrandt.

Os dados estão definitivamente lançados, para pouco menos de 500 páginas de aventura, ação e mistério que levam o leitor de Israel a Itália, passando pela Rússia, em que cada linha pode ser decisiva para a compreensão do seu todo e o sangue tem o papel principal. Um livro que vai apaixonar os fãs dos autores e, também, quem gosta de um enredo que faz lembrar os clássicos contos de vampiros.

In Rua de Baixo

Nirvana - “In Utero - 20th Anniversary Edition”

O som de uma geração



Início da década de 1990. O movimento grunge estava no auge. As camisas de flanela faziam parte da indumentária de milhões de jovens que tinham descoberto um novo ídolo, alguém que se parecia com eles, no fundo, um espelho da sua alma. Washington, mais concretamente Seattle, era a capital do rock.

Segundo a lenda, foi Mark Arm, voz de bandas como Green River e Mudhoney, que terá “inventado” esta nova forma de rock que bebeu influências dos movimentos punk, indie e trash, e que se cimentou através da editora Sub Pop, a primeira casa de bandas como os Soundgarden, ou já referidos Mudhoney e os, até à época desconhecidos, Nirvana.

Kurt Cobain, Kris Novoselic e Chad Channing entram em estúdio nas instalações dos Reciprcal Recording, em Seatlle, em dezembro de 1988 e, durante cerca de dois meses, gravam as 11 faixas de “Bleach”, um disco descaradamente punk e niilista que apenas mais tarde viria a ser recompensado pela sua qualidade crua, depois do sucesso, inesperado diga-se, fazer parte do vocabulário da banda de “Nevermind”, álbum que mudaria por completo a história do rock.

Com Butch Vig na produção e já com Dave Grohl na bateria, “Nevermind” marcaria o ano de 1991 e cometeria a heresia de destronar “Dangerous”, de Micheal Jackson, do lugar cimeiro da tabela da Billborad. “Lithium”, “Come as You Are” e especialmente “Smeel Like Teen Spirit” eram a banda sonora de uma geração cujo presente era sinónimo de incerteza e desesperança.

Os Nirvana vendiam milhões de discos, Cobain e camaradas conseguiam extravasar o movimento grunge e a sua música invadia tudo e todos. Um pouco a “reboque” do sucesso de “Nevermind” surgiam bandas grunge a cada esquina, mas apenas algumas mantinham a capacidade e talento de se aguentar em cena, sendo os exemplos mais flagrantes os mais experientes Soundgarden, Alice in Chains e Pearl Jam.

Longe de todo o sucesso e refugiando-se nas drogas duras e no álcool, Kurt Cobain fugia das câmaras e deixava a imagem de um homem em luta consigo mesmo, torturado pelas constantes dores de estômago e por uma cabeça que não conseguia atingir um patamar de estabilidade.

Como que a dar um pontapé na monotonia, os Nirvana voltam a entrar em estúdio e, em setembro de 1993, lançam “In Utero”, um disco que se assumia como uma rutura face à visão mais “comercial” de “Nevermind”. Para isso, a banda chamou Steve Albini para a produção e como resultado nasceu um disco absolutamente genial, alicerçado num som mais abrasivo, mais direto, gravado durante apenas duas semanas em formato “ao vivo”. Esse som mais orgânico foi, em parte, responsável pelo batismo do disco, que teve como primeira denominação “I hate myself and i want to die”, uma forma que Kurt encontrou para caricaturar o gigante mediático em que a banda se tinha tornado e que serviria de presságio para o que aconteceria em abril de 1994.

Em completa falência pessoal, Cobain decide colocar um ponto final na existência. O quinto dia de abril de 1994 abriria um novo capítulo na história do rock e o mundo da música ficava manifestamente mais pobre. Morreu um homem, nasceu uma lenda, um mártir, um ídolo de uma geração.

Vinte anos mais tarde, “In Utero” é reeditado e, ao ouvir novamente esta fenomenal disco, sentem-se saudades de uma banda que terminou cedo demais, que deixou um curto e maravilhoso legado que ainda hoje assume uma contemporaneidade desarmante.

A propósito desta nova edição - que conta com as habituais recuperações de demos, atuações ao vivo e outros takes que fazem as delícias dos colecionadores -, Dave Grohl descrevia numa entrevista algumas das questões que tornaram “In Utero” um álbum charneira. Para o líder dos Foo Fighters, a principal diferença de som entre o álbum de 1993 e “Nevermind” foi a sua génese de gravação. Enquanto “Nevermind” foi gravado em vários takes, com Butch Vig a procurar a perfeição, Steve Albini queria tudo direto e, se possível, sem overdubs, pois tinha por objetivo transmitir o som dos Nirvana ao vivo.

Esse sentido abrasivo volta a sentir-se nesta nova edição, mas a sua remasterização traz outra magia ao som geral do disco, ainda que os pormenores sejam, por vezes, “inaudíveis” sem a devida legenda. Numa das novas edições de “In Utero” é possível ler uma missiva que o produtor enviou à banda e saber a enorme pressão que o trio estava a sentir por parte da editora, que levou a que Albini visse o seu papel de produtor diminuído em faixas como “Pennyroyal Tea”, “Heart Shaped Box” e “All Apologies”, que tiveram ajustes por parte de Scott Litt, um dos responsáveis pelo som de bandas como os R.E.M.. Apenas hoje, duas décadas depois e pela primeira vez, é possível sentir o disco como um todo no que toca à magia de Albini.

Outras das diferenças notadas nesta nova versão do clássico dos Nirvana prende-se com o fato de Albini, Grohl e Novoselic terem trabalhado as recentes misturas finais a partir das gravações originais. A versão de 2013 inclui novos sons de guitarras em faixas como “Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seatlle”, assim como novos takes de voz ou eliminação de alguns truques que tinham como objetivo “polir” o sujo mais sujo de algumas composições.

O recurso aos arquivos permitiu ainda juntar a esta edição algumas faixas que foram encontradas depois de um autêntico trabalho de espeleologia e é hoje possível ouvir demos de gravações quase “instrumentais”, pois as letras ainda não tinham sido trabalhadas em conjunto com a música. Mais é também possível ter acesso a lados B e algumas faixas não editadas. Como exemplo, damos uma das versões de “Marigold”, que inclui no seu início um “suspiro”, em forma de desabafo, ou a inclusão de “Sappy”, uma faixa que era vulgarmente tocada ao vivo, e ainda os inéditos “Forgotten Tune” e “Jam”, uma genial “jam session”. Outras das mais-valias destas compilações prende-se com a qualidade sonora das demos, que surpreende quem está à espera de um material mais cru.

A acompanhar a compilação, na sua versão “Super Deluxe”, foi incluído um CD/DVD de “Live & Loud”, realizado no final de 1993, a poucos meses do suicídio de Cobain, e que revisita o fundo de catálogo da banda.

Analisando esta compilação em traços gerais, estamos perante uma desconstrução do próprio mito “In Utero”, que pretende servir de contextualização da própria existência da banda. É este um projeto pertinente? Digamos que sim, na medida em que permite um outro olhar ao trabalho da banda, um olhar antes do produto final e, acima de tudo - e esta é, sinceramente, a mais-valia de “In Utero – 20th Anniversary Edition” - permite fazer com que o mundo não esqueça este genial álbum. É difícil imaginar qual seria a reação de Kurt ao ver uma edição de luxo de um trabalho seu passados vinte anos, ele que se regia por uma visão simplista da vida e rejeitava a ideia “burguesa” da existência, mas, em forma de homenagem, deixamos aqui, mais uma vez, um imenso obrigado a um talento único. A música, sua e de Grohl e Novoselic, embandeirou uma geração e é um dos maiores legados do rock que se conhecem.

Alinhamento:

01.Serve the Serventes
02.Scentless Apprentice
03.Heart-Shaped Box
04.Rape Me
05.Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle
06.Dumb
07.Very Ape
08.Milk It
09.Pennyroyal Tea
10.Radio Friendly Unit Shifter
11.tourett’s
12.All Apologies

Classificação do Palco: 10/10

In Palco Principal

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Entrevista a Guillaume de Fondaumière

De forma a conhecer mais pormenores acerca deste novo jogo tivemos a oportunidade de falar com Guillaume de Fondaumière, diretor executivo da Quantic Dream e um dos maiores entusiastas da aventura protagonizada por Jodie e Aiden.



RDB: Mantendo a tradição de lançar novos e revolucionários jogos, a Quantic Dream inventou um inovador conceito de jogabilidade e sensação com “Beyond: Duas Almas”. De certa forma aquilo que procuravam era mais que uma “sequela” de “Heavy Rain”?

Guillaume de Fondaumière: A Filosofia adjacente a ambos os títulos é idêntica: ambos têm uma narrativa forte, personagens credíveis, um gameplay contextual, uma ação repleta de surpresas, não existe o conceito de gameover, etc….; no entanto existem muitas diferenças que tornam “Betond: Duas Almas” numa experiência verdadeiramente única comparativamente ao seu antecessor: A estória prolonga-se ao longo de 15 anos e é apresentada de uma forma não-cronológica, o ambiente do jogo foi totalmente revisitado e tem ainda a possibilidade de se jogar com uma entidade invisível, existem mais QTE’s (Quick Time Events), oferecemos uma maior exploração dos ambientes e temos um elenco de luxo! “Beyond: Duas Almas” representa, a meu ver e neste sentido, uma evolução face a “Heavy Rain”.

RDB: Já tivemos o privilégio de jogar algumas partes do jogo e adorámos, entre outros pormenores, as cenas de ação. “Beyond: Duas Almas” tem um novo motor gráfico e explora novas ideias de movimento. Nas cenas de Jodie filmaram sempre com a presença da atriz Ellen Page?

GdF: Tivemos a sorte e privilégio de ter a Ellen em estúdio durante quatro semanas e ela esteve envolvida em todas as sessões de captura de movimentos para a personagem Jodie Holmes enquanto adolescente e adulta. Ela trabalhava 10 horas por dia sem grandes pausas. Para além de ser um grande esforço, a Ellen mostrou-se completamente empenhada.

Mas tal como nos filmes reais os atores não fazem grande parte das cenas mais movimentadas e para isso usam duplos para os substituírem nas ações mais espetaculares e perigosas e foi o que aconteceu também com a Ellen em “Beyond: Duas Almas”.

RDB: No futuro os jogos de vídeo vão aproximar-se cada vez mais da realidade. Acha que, tal como vemos neste jogo, o jogador deve concentrar uma participação mais orgânica no decorrer da narrativa?

GdF: A criação de uma experiência interativa que consiga misturar e envolver a própria narrativa e a sua interatividade é uma tarefa muito atraente. Mas se pensarmos bem nisso, essa questão é um dos fatores mais revolucionários que os jogos de consola têm para oferecer. A capacidade de assistirmos às consequências que as nossas ações ou decisões têm em determinando contexto narrativo é algo que não está apenas ao alcance do cinema, do teatro e dos livros, tal é algo que também faz parte da natureza comunicativa do nosso meio.

Penso que “Heavy Rain” ajudou a popularizar a noção de “narrativa interativa” e agora existem mais jogos que explorar essa possibilidade (“Walking Dead”, “The Last of Us”, etc.). Eu espero, sinceramente, que mais jogos evoluam nesta direção principalmente através de narrativas fortes e consistentes por forma a atrair ainda mais gente e grupos etários mais velhos.



RDB: Apesar de todas inovações tecnológicas e gráficas deste jogo, a narrativa de “Beyond: Duas Almas” é um dos aspetos que mais impressiona. Quando tempo demoraram a pensar na estória de Jodie?

GdF: O David (Cage) desenvolveu o script durante 15 meses mas ele tinha a estória de Jodie dentro da cabeça há muitos anos. Escrever este guião foi um verdadeiro desafio para o David para mais quando a narrativa tem uma duração tão longa e consistente.

RDB: Sem dúvida que as participações de Ellen Page e Willem Dafoe tornam este jogo ainda mais autêntico. Quem teve a ideia de convidar atores famosos? Como é trabalhar com estrelas de cinema?

GdF: Quando o David começa a delinear os seus argumentos ele gosta de associar atores de carne e osso aos seus protagonistas. Quando começamos a escolher o elenco, naturalmente, oferecemos os papéis a Page e Dafoe e para nossa surpresa e satisfação eles aceitaram o trabalho quase de imediato.

Trabalhar com com a Ellen e o Willem foi extremamente fácil. Ambos chegaram ao estúdio muito bem preparados; notava-se que estavam de fato a encarnar os personagens.

Ambos trouxeram consigo o talento e a experiência de atuar. Tal como o David diz: “É como conduzir um Ferrari”. A adaptação e cooperação entre deles foi fantástica e todas as tarefas eram feitas com subtileza e competência.

Foi para todos, e principalmente para o David, uma experiência única e bastante valiosa.

RDB: A relação entre Jodie e Aiden funciona muito bem e a possibilidade de se jogar de forma cooperativa e multiplayer são ideias muito sólidas e bem conseguidas. Pensa que o jogador se sente mais confortável a jogar sozinho ou com colaboração? Acha que o ato de jogar deixou de ser uma ação solitária?

GdF: Quando lançamos “Heavy Rain” as pessoas diziam que o jogo permitiu uma das raras experiências de podermos partilhar a ação de jogar em casa com um parceiro, particularmente quando esses companheiros eram “não-jogadores” habituais. Combinando com o facto de “Beyond: Duas Almas” está sempre a alterar o protagonismo entre Jodie e Aiden precisávamos de trabalhar um modo cooperativo e pareceu natural oferecer a possibilidade de se jogar em dueto.

Pensamos ainda na pequena revolução que é a possibilidade de se jogar em “touch mode”. Graças ao “Beyond Touch”, disponível para os serviços IOS e Android, os jogadores ocasionais podem agora utilizar os seus telefones ou tablets para participar na aventura de “Beyond: Duas Almas” com controlos simplificados. Esta é outra das caraterísticas que torna a experiência de vestir a “pele” de Jodie e Aiden ainda mais atraente.

RDB: “Heavy Rain” foi um grande sucesso e “Beyond: Duas Almas” é um dos jogos mais aguardados até hoje. O que podemos esperar da Quantic Dream no que toca ao futuro dos videojogos?

GdF: Ainda é cedo para revelar novos projetos. No início deste ano apresentamos um protótipo de uma plataforma que vai rodar na PS4 chamada “The Dark Sorcerer”. Com isso mostramos um pouco em termos daquilo que pensamos ser o futuro próximo no que toca aquilo que temos explorado nas áreas gráficas e técnicas.

Aquilo que posso adiantar é que vamos, de certeza, continuar a inovar e a surpreender as pessoas. Faz parte do nosso ADN (risos).

In Rua de Baixo

Apresentação oficial “Beyond: Duas Almas”

Guillaume de Fondaumière esteve em Portugal para apresentar o videojogo mais revolucionário do ano



Quando há cerca de um mês tivemos o privilégio de testar “Beyond: Duas Almas”, a nova aventura em forma de jogo de consola por parte da Quantic Dream, ficámos com a sensação, e certeza, de estar perante um nova forma de encarar o entretenimento no mundo dos videojogos.

Para ficarmos mais por dentro das revolucionárias ideias de “Beyond: Duas Almas” a Sony organizou uma apresentação do jogo que contou com a presença do diretor executivo da Quantic Dream, Guillaume de Fondaumière, e foi através da simpatia e entusiasmo do francês que exploramos melhor o conceito inovador deste jogo.

Ainda que muitos apelidem “Beyond: Duas Almas” como o sucessor de “Heavy Rain”, Fondaumière vincou que existem claras diferenças entre os dois jogos. Para começar “Beyond: Duas Almas” leva o jogador a viver na pele 15 anos da vida de Jodie (entre os 8 e os 23), a atormentada personagem principal do jogo, enquanto “Heavy Rain” resumia a sua ação a quatro dias. Também em termos do número de personagens existem disparidades pois se em “Heavy Rain” existia a possibilidade de incorporar quatro personagens, “Beyond: Duas Almas” possibilita o controlo de Jodie e Aiden, a entidade paranormal que acompanha a personagem que a atriz Ellen Page dá vida.

O fato de “Beyond: Duas Almas” ser jogado numa linha cronológica que desobedece à lógica é outra das grandes imagens de marca deste jogo e que o difere do seu “antecessor”. Segundo Fondaumière esta característica permite criar mais suspense e baralhar o conceito de “ação-consequência”. Nas palavras do diretor executivo da Quantic Dream: “A vida de Jodie é um verdadeiro puzzle gigante”.

Apenas explorando este emaranhado quebra-cabeças é possível sentir verdadeiramente interação com a estória do jogo. A Sony promete muitas surpresas e revelações ao jogar-se na pele de Jodie ou Aiden, nomeadamente no que toca ao desenrolar da própria narrativa que está definitivamente nas mãos no jogador pois as ações/decisões de cada qual perante determinados momentos-chave vão alterar o curso dos acontecimentos e preparem-se para conhecer não um mas sim cerca de duas dezenas de “finais” possíveis.

Para os criadores do jogo a ideia é conseguir que o jogador decida de forma mais “orgânica” e menos óbvia. Mais, em “Beyond: Duas Almas” não existe uma noção de “gameover” pois a ideia é garantir continuidade e ação. E já que falámos em ação, “Beyond: Duas Almas” revoluciona também o conceito de movimentos e tal já foi possível de ser comprovado aquando do nosso game test.

Em termos de gameplay, “Beyond: Duas Almas” mantém os processos de “Heavy Rain” apesar de se terem tornado mais intuitivos sendo o tutorial bastante simples permitindo ao jogador explorar de forma totalmente satisfatória o conteúdo da narrativa. Em média, Fondaumière afirma que bastam apenas 20 minutos para o jogador se adaptar a esta nova realidade.

Intrinsecamente ligado a esta espantosa realidade, e no que toca a ação do jogo, está o conceito de elaboração do mesmo nomeadamente no que toca à presença dos atores Ellen Page e Willem Dafoe que proporcionaram um brilhantismo maior a “Beyond: Duas Almas”. De acordo com Fondaumière: “os laços emotivos que os atores revelaram engrandeceram a própria narrativa do jogo”. De acordo com o nosso anfitrião, Page, por exemplo, passou quatro semanas no estúdio da Quantic Dream e teve de decorar mais de 15 palavras.

Algo que também ajuda a criar um ambiente único a este jogo é a fantástica banda sonora – responsabilidade de Hans Zimmer – que o acompanha algo que ajuda a intensificar o dramatismo de “Beyond: Duas Almas” que Fondaumière acredita estar mais ligado a um universo adulto. Esta aposta forte na banda sonora de um jogo por parte da Quantic Dream não é novidade pois no passado nomes como David Bowie e Angelo Badalamenti já contribuíram para abrilhantar os jogos da empresa francesa.

No final desta apresentação ficou no ar mais uma novidade em termos de jogabilidade para “Beyond: Duas Almas”. Para além das possibilidades “Solo” (um jogador) e “Duo” (é possível uma ação conjunta entre dois jogadores cada qual assumindo o comando de Jodie ou Aiden) a Quantic Dream desenvolveu a hipótese de participar na ação através de um dispositivo de touchscreen (seja android ou IOS) como o é por exemplo o “Iphone”, plataforma que serviu para Fondaumière explicar esta nova forma de cooperação no palco do jogo.

Em forma de confissão ficamos ainda a saber que vai ser possível comprar uma edição especial de “Beyond: Duas Almas” com conteúdos DLC. Para isso basta fazer já uma pré-reserva e ir riscando o calendário…

In Rua de Baixo



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Placebo
"Loud Like Love"

Passivos agressivos




Com uma carreira que remonta a meados da década de 1990, os britânicos Placebo têm conhecido um trajeto musical que, apesar de um começo forte e coeso, tem sofrido alguns momentos menos bons nos anos 2000.

Depois de três excelentes discos, Brian Molko, Stefan Olsdal e camaradas de bateria perderam um pouco do gás conseguido com “Placebo”, “Without You I’m Nothing” e “Black Market Music”, sendo que “Sleeping With Ghosts” anunciava, a espaços, alguma crise criativa que “Meds” viria a confirmar.

De forma a combater a inércia criativa, Molko e Olsdal conheceram novo companheiro na bateria - depois do estreante Robert Schultzberg e da troca de Stevie’s (Hewit por Forrest). Coincidentemente ou não, “Battle of the Sun” resultaria um disco mais apelativo que o álbum antecessor.

Entre o disco de 2009 e o novíssimo “Loud Like Love”, os Placebo editaram, via Itunes, o muito interessante “Live at Angkor Wat” e, num registo em toada semi-acústica, revestiram de forma bastante convincente clássicos como “Blind” ou “Teenage Angst”. Ainda que sem originais, os Placebo tentavam algo diferente, aproveitando causas humanitárias para a ocasião.

E eis que chegamos a 2013. Brian Molko tem 40 anos, família, estabilidade. E esses requisitos parecem ter servido para o líder dos Placebo tentar voltar a fazer (boas) canções e, podemos dizer, um álbum que tenta satisfazer, em parte, os fãs de sempre da banda, como também abrirá as portas aos ouvintes casuais. Sob a bitola da produção de Adam Noble (nome associado gente como The Guillemots ou Paul McCartney), os Placebo oferecem um disco interessante, com algumas canções “radio friendly” e outras mais introspetivas, onde o romance de tendências góticas, tão a gosto de Molko, é uma fórmula bastante requisitada. Pelo caminho ficou, é certo, o rock de tendências mais abrasivas, onde versavam temáticas aditivas ou exercícios de redenção, como “Centerfolds” ou “Special Neds”, mas a especial e afetuosa melancolia das palavras do vocalista da banda fazem sentir-se, e bem, em “Loud Like Love”, um disco com sinais de vincada maturidade e uma tensão dramática assinalável. Mas será que estas boas intenções servem para fazer um bom álbum?

O disco abre com “Loud Like Love”, o primeiro sigle do álbum homónimo que é um verdadeiro hino rock à Placebo. Um ritmo completamente viciante assente numa bateria gulosa que transforma as cordas de Molko e Olsdan em acutilante e assertiva melodia. Molko, confortavelmente otimista, apela ao amor, grita bem alto e enche os nossos ouvidos com palavras positivas. Estranho? Talvez…

O ritmo desce de intensidade em termos de decibéis com “Scene of the Crime”, mas o swing mantém-se bem vivo. Apesar de um começo sob o som de palmas (algo que se repete noutras faixas e que não parece resultar muito bem), a música cresce e a voz de Molko está solta, viva. A frustração é um dos temas presentes na poesia da banda, que aqui tem a ousadia de colocar um piano entre as cordas e a bateria, como que a preparar o que segue.

E é com o som do piano que a atormentada “Too Many Friends” - uma das faixas mais fortes deste disco - inicia um discurso onde a internet e a inibição social que advém do seu uso extremo são alvo de crítica. A música flui de forma crescente, o baixo é forte e abrasivo, e a guitarra dispara acordes e afasta a letargia. Ao contrário do que afirma Brain Molko, sentimos a sua presença.

“Hold on to Me” e “Rob The Bank” são as duas canções seguintes e está na sua diferença de estrutura e sonoridade um pouco da alma de “Loud Like Love”. De um lado, temos uma balada de tonalidades mais escuras, enquanto “Rob the Bank” aposta em sonoridades mais “punky”, onde Olsdan brilha e Molko faz uma espécie de crítica à conjuntura económica mundial, nunca deixando de apelar ao…amor.

A viagem continua com “A Million Little Pieces”, uma canção que espreita o universo deixado como legado em “Meds”, e é quase impossível não sentir a tentação de abanar o corpo ao som desta balada desencantada feita de várias camadas rock e cuja tendência confessional leva Molko a cantar: “Now I feel I’ve lost my spark / No more glowing in the dark”. Friend or Foe, perguntamos nós?

“Exit Wounds” leva-nos de volta ao mundo escuro da cabeça de Brain Molko e fala de paixões desapaixonadas, de falhanços e vidas interrompidas. O ritmo revela alguma contenção mas, aos poucos, solta-se e torna-se mais acutilante, para depois emergir em si mesmo enquanto a voz de Molko está sempre à tona, brilhante. “Purify” volta a territórios mais rock, com a bateria e o baixo a mostrarem garras afiadas.

As duas últimas músicas do disco, “Begin the End” e “Bosco”, voltam a reclamar um ambiente mais íntimo e perdem os ritmos mais acelerados. Ganha-se em dramatismo, perde-se em entusiasmo. A guitarra cede o lugar ao piano e na última faixa do disco há até espaço para violinos.

Em termos gerais, “Loud Like Love” é um disco aceitável mas, mais uma vez, fica aquém daquilo que os Placebo já fizeram e, sinceramente. Quase duas décadas depois, a banda mudou, perdeu um pouco da rebeldia dos primeiros discos e encontra-se agora num rio cujas marés não são tão fortes como outrora. Molko, Olsdan e Forrest respiram, acreditam, amam, mas arriscam pouco. Mais uma vez, estão “quase lá”, mas ainda não chega.

Alinhamento:

01.Loud Like Love
02.Scene of the Crime
03.Too Many Friends
04.Hold on to Me
05.Rob the Bank
06.A Million Little Pieces
07.Exit Wounds
08.Purify
09.Begin the End
10.Bosco

Classificação do Palco: 6,5/10

In Palco Principal