terça-feira, 30 de abril de 2013

Iron and Wine
“Ghost on Ghost”

Sol, primavera e uma ligeira brisa




A identidade dos Iron and Wine (con)funde-se com Samuel Beam, um dos expoentes máximos da vertente folk de tendências indie feita nos Estados Unidos. “Ghost on Ghost”, quinto álbum de originais dos Iron ad Wine, é o novo registo da banda e revela-se uma agradável amálgama sonora.

Natural da Carolina do Sul e atualmente a residir no Texas, Beam conta já com uma assinalável experiência nestas coisas da música e longe vão os tempos de “The Creek Drank The Crandle” editado em 2002 pela Sub Pop. O imaginário da música de Samuel Beam evocava fantasmas de Nick Drake, Simon and Garfunkel, Elliot Smith ou Neil Young e o ambiente acústico marcavam definitivamente o espetro dos Iron and Wine.

Paulatinamente, Beam começou a alargar os horizontes da sua composição e, aos poucos, a música dos Iron and Wine ganhou outras almas. A intimidade foi ganhando companheiros de viagem e “Kiss Each Other Clean” (2011), trabalho que antecede este “Ghost on Ghost”, ousava o uso de sintetizadores e alguns pozinhos “sónicos”.

Hoje, Samuel Beam é um homem mais seguro de si e este novo disco é o reflexo do crescimento deste cantautor norte-americano. A exploração da “pop” longe do puro minimalismo acústico que já se sentia nos últimos trabalhos de Beam ganha outros contornos em “Ghost on Ghost” e a música dos Iron and Wine é hoje um misto de influências Jazz ou R&B, sendo que a contribuição do veterano baterista Brian Blade se revelou fundamental neste processo de mutação sonora.

Os primeiros momentos de “Caught in the Briars”, a faixa que abre “Ghost on Ghost”, são uma introdução segura do que se pode esperar dos restantes 44 minutos do disco. Uma curta jam session é interrompida por acutilantes acordes acústicos que logo são envolvidos por uma batida suave e alguns metais. Para além da voz frágil mas intensa de Beam, sentem-se coros femininos e algumas pitadas de jazz, especialmente na parte final da canção.

A seguir, “The Desert Babbler” rompe com a novidade e agarra-se ao pop doce e mágico das composições dos Iron and Wine e o som viaja até uma passagem de ano algures na década de 1970. Violinos e trompetes movem-se com à-vontade por entre uma batida contagiante e os coros voltam a dar corpo ao todo da canção. As gargantas de Carla Cook e Jesette Newsome são uma das mais-valias deste “Ghost on Ghost”.

“Joy” é a primeira incursão calma do disco e o veludo da composição musical de Beam e seus pares são um encanto para os ouvidos. De forma dolente, “Joy” é um exercício perto da áurea romântica e assenta na honestidade de um cantor que abraça a paixão de fazer música de forma única. Aqui todos os pormenores sonoros são uma espécie de leve algodão que traz a magia da claridade à tona. Bonito, simples e sincero.

O amor continua mas com outros ritmos. “Low Light Buddy of Mine” assenta numa base de bateria e baixo que, aos poucos, permitem a presença dos metais e de um sintetizador tímido. Alguns tiques de jazz dão profundidade à canção. A voz de Beam aparece sem a timidez de outros tempos e alimenta-se do silêncio dos instrumentos.

“Grace For Saints And Ramblers” afasta a letargia e traz um ritmo mais “esgalhado” e até Johnny Rotten, pássaros e abelhas têm direito a referência numa canção que cheira descaradamente a verão. Apesar de destilar mais balanço, a intimidade continua colada os sons e Beam resume tudo a: “But is all come down to you and i”.

De volta a momentos mais introspetivos, “Grass Widows” faz-nos mergulhar na emotividade dos teclados planantes que, na companhia de um sintetizador tímido e de uma bateria omnipresente, completam um quadro sublinhado por uma voz bem aparada por um coro gracioso. Como que a reclamar espaço, o baixo surge em força em “Singers and the Endless Song”, uma narrativa musical de novo intimamente ligada ao universo mais jazzy e onde as vozes femininas têm o privilégio de uma participação mais ativa.

“Sundown (Back In the Briats)” é um dos momentos mais tranquilos e bonitos de “Ghost on Ghost”, onde Beam canta de forma quente e apaixonada. Aqui brilham os violinos, as guitarras, o sintetizador, o xilofone, as vozes à desgarrada, a bateria, todos os elementos sonoros mas sem grandes alaridos ou rasgos egocêntricos. “Winters Prayers”, uma espécie de valsa dolente, segue a mesma linha suave e, durante cerca de três minutos, a Terra move-se lentamente como se a pressa deixasse de existir e a preguiça fosse o mote para um merecido descanso.

Ao chegar à fantástica “New Mexico’s No Breeze”, a música de Samuel Beam e comparsas já deixou de ser apenas som e passou a fazer parte do ouvinte. Volta-se a sentir o sol primaveril e a nostalgia marca definitivamente o ambiente. O passado pode ser como uma brisa fresca quando se tem 19 anos e a vida toda pela frente.

“Lover’s Revolution” é, talvez, a composição mais jazzy que os Iron and Wine já fizeram e o resultado é uma agradável melodia na qual a voz de Beam assenta que nem uma luva. Depois do desvario libertino de “Lover’s Revolution”, “Baby Center Stage”, canção que encerra o disco, é o regresso ao território do folk com vozes em falsete e instrumentos em plena harmonia. Um final tranquilo.

“Ghost on Ghost” revela-se um disco bonito, intenso, suave e aberto a novas experiências e públicos. As melodias simples contrastam com os algoritmos complexos do cariz mais jazzy ou blues, as vozes complementam-se e estamos perante um dos discos mais bem conseguidos dos “Iron and Wine”.

Samuel Beam conseguiu reunir as quatro estações num só disco mas é o sol californiano que mais marca e firma a composição das 12 músicas de “Ghost on Ghost”, um registo clássico que junta uma densidade estilística e uma lírica inspirada num processo evolutivo bem conseguido e altamente recomendável, com uma espontaneidade íntima. Para ouvir muitas vezes e, de preferência, no final de um dia repleto de sol.

Alinhamento:

01.Caught in the Briars
02.The Desert Babbler
03.Joy
04.Low Light Buddy of Mine
05.Grace for Saints and Ramblers
06.Grass Widows
07.Singers and the Endless Song
08.Sundown (Back in the Briars)
09.Winter Prayers
10.New Mexico’s No Brezze
11.Lovers Revolution
12.Baby Centre Stage

Classificação do Palco: 7,5/10

In Palco Principal

KURT VILE
“WAKIN ON A PRETTY DAZE”

Certezas de uma Primavera prometida



Em «Too Hard», a sétima faixa de “Wakin on a Pretty Daze”, quinto disco de originais de Kurt Vile, canta-se: “I will promise to do my very best, to do my very best for you / And that won’t be too hard”. A autenticidade e honestidade do cantor norte-americano natural de Filadélfia transformam a música desta sua nova aventura sonora numa aconchegante e expansiva colecção de canções que são, sem dúvida, parte do seu mais consistente trabalho até à data.

A confiança do antigo membro dos The War on Drugs é por demais evidente durante as 11 canções de “Wakin on a Pretty Day”. De facto, Vile acordou num dia verdadeiramente inspirado.

Depois de ganhar alguma popularidade nos finais dos anos 2000 com a sua composição no território lo-fi, Kurt Vile lançou “Constant Hitmark” em 2008, disco que se revelaria como uma amostra do que este antigo técnico de empilhadores poderia fazer enquanto músico. A genialidade de Vile foi crescendo a cada lançamento e “Smoke Ring for My Halo” (2011) encantou a crítica internacional, sendo o álbum incluído nas listas dos melhores do ano para publicações como a Mojo, Uncut ou Pitchfork.

Depois de deixar todos com água na boca, Kurt Vile criou alguma expectativa junto dos seus seguidores. A pressão, se é que isso existe para Vile, poderia exigir algo mais à música do autor de «Baby’s Arms», mas a tranquilidade com que “Wakin on a Pretty Daze” foi gerado indica o estado de maturidade atingido por este sonhador e idealista de cabelos compridos.

Ainda que mantendo a simplicidade que caracteriza o seu trabalho, assim como uma vibração calma e sem grandes alaridos, Vile explora territórios mais ambiciosos. As guitarras, calmas ou mais nervosas, continuam a marcar toda a ambiência e a bateria surge a espaços mais interventiva mas, no fundo, “Wakin on the Pretty Daze” é uma mistura de folk, noise e lo-fi.

Uma das grandes diferenças para com os outros trabalhos reside, por exemplo, na duração das próprias canções. Iniciar e terminar um disco com composições que rondam os dez minutos revela um acto de coragem assinalável e acima de tudo uma confiança enorme das suas capacidades e trabalho.

A primeira faixa do disco, «Wakin on a Pretty Day», dá o mote para a restante hora e é um bom indicativo para o que se segue. Parecendo completamente relaxado e ciente daquilo que quer fazer nascer, Kurt presenteia os nossos ouvidos com uma acústica simples alimentada por uma cadência tão natural que desarma qualquer dúvida sobre a sua intenção.

Mais “solta” e com uma guitarra que faz lembrar os momentos mais “abrasivos” de uns Red House Painters, «KV Crimes» traz um Kurt Vile com uma voz jovial e cheia de optimismo que é intercalada por cordas eléctricas hipnóticas que ousam alguns solos. O baixo também diz presente e a curta e incisiva «KV Crimes» reclama airplay.

«Walk All Talk» mantém o espírito primaveril, mas desta vez com arranjos que trazem à baila múltiplas batidas e pitadas, ainda que discretas, electrónicas. As guitarras livres de espartilhos convidam à reflexão da poesia de Kurt Vile, que se afirma não apenas como músico e intérprete mas como ser humano, como pessoa que está no auge das suas capacidades e longe de um passado, que se quer não esquecido, mas ultrapassado. Herdeiro da magia de Bruce Springsteen ou Tom Petty, Kurt dá-se a conhecer: “There was a time in my life when they thought I was all talk… now I got the upper hand”.

É nessa crueza honesta que se revela a intimidade da escrita deste disco, algo que transcende a filosofia existente nos trabalhos anteriores do cantor. Muitas destas novas composições centram-se no crescimento de Vile enquanto homem, enquanto ser que luta entre as responsabilidades inatas a um qualquer “pai de família”e os sonhos de um utópico sonhador.

Mas isto de se ser artista e andar na estrada também traz amargos de boca. Se «Pure Pain», momento que entra deliciosamente no universo de Crosby, Stills, Nash and Young’s, descreve a solidão do músico que anda constantemente na estrada e dos sacrifícios inerentes a tal dedicação, a já referida e longa «Too Hard» revela o esforço de quem quer ultrapassar problemas e dramas pessoais. Deixar de fumar e assentar podem ser promessas de “ano novo” para quem se sente apenas um ser humano.

Antes disso, «Girl Called Alex» é uma das mais belas canções deste brilhante disco. O psicadelismo está bem patente nos ritmos e na voz de Vile, por entre o órgão, a bateria e os solos de guitarra. A espiral sonora ganha corpo até ao final da canção. Já «Never Run Away» reúne sons e sentimentos mais directos, mais à pele. Kurt Vile joga de forma sublime entre a colocação instrumental e a aparição da voz, algo que gente, como por exemplo o já mencionando Neil Young, faz como poucos.

A viagem segue com «Shame Chamber», um exercício de desarmante beleza com a voz de Vile a colar-se aos muitos sons que se ouvem durante os minutos que dura a canção. As cordas das guitarras engancham na nossa mente e seduzem. A bateria ajuda, e pelo meio sentimos a vergonha de outros exorcizada por pequenos gritos. A mais pequena faixa do disco é «Snowflakes are Dancing», tema que denota descaradamente um perfil “sónico” e é um dos mais consistentes de todo o disco.

Ainda em ambiências que misturam psicadelismo e guitarras planantes, «Air Bud» é outra das magníficas canções de “Wakin On a Pretty Daze” e volta a revelar a beleza sónica que é agora um ingrediente fundamental do bolo sonoro de Kurt Vile.

E tal qual como começou, Vile encerra o álbum como um tour de force em forma de balada. «Goldtone» estende-se por cerca de dez minutos e prolonga a sua doçura pela eternidade. O acústico é quem mais ordena e todos os instrumentos têm o direito de brilhar, com destaque para o órgão sonhador e a guitarra dolente. Melhor forma de encerrar o disco não era possível.

Ao contrário dos trabalhos que antecedem “Wakin on a Pretty Daze”, Kurt Vile abandona alguma insegurança e destila confiança. De forma corajosamente franca, e na companhia dos seus Violators, Vile fez crescer a sua música e acrescentou camadas verdadeiramente interessantes de tendências sónicas e encorpadas ao já brilhante som lo-fi. Apesar de estarmos na presença de um disco longo (cerca de 70 minutos), a música cativa de tal forma que não damos pela passagem dos minutos e a empatia entre som e ouvinte cresce a cada audição. As grandes e crescentes capacidades de Kurt Vile como compositor fazem prever que o melhor ainda pode estar para vir. Nós esperamos ansiosamente por isso.

In Rua de Baixo

“A IRMÃ DE FREUD”
de GOCE SIMLESVSKI

O Esquecimento de Adolfine



A existência, enquanto relação interior ou com o próximo, pode ser uma experiência talhada para a incerteza, um vazio que se procura preencher com momentos, pedaços de vivência, com sentimentos, com amizade, com amor.

No decorrer da vida vão existindo obstáculos inesperados e outros que são a confirmação da efemeridade ou permanência de conceitos tão abstratos como a felicidade, a inocência, a tristeza, a solidão e, por muito estranho que possa parecer, os laços familiares.

Uma das mais famosas personalidades da história recente, que dedicou toda a sua vida a tentar esclarecer o labirinto da consciência humana e a dar algum sentido à análise psicanalítica do “Eu”, foi o austríaco Sigmund Freud; com ele a mente assumiria um papel de indiscutível importância no conhecimento do Homem enquanto ser pensante.

Depois de Copérnico e Darwin assumirem papel de destaque na relação do Homem no seu espaço e origem, Freud procurou, no interior do cérebro humano, razões para o comportamento individual. A frieza da sua análise levou a cultivar uma personalidade peculiar. Os seus estudos polémicos, a base da sua vida, foram a forma de atingir a imortalidade através de uma obra que encantou a comunidade científica.

É esta obsessão que dá o mote ao romance “A Irmã de Freud” (terceira obra do autor e a primeira com edição portuguesa) do macedónio Goce Smilevski, que decorre numa das épocas mais complicadas e traumatizantes da Europa: entre as duas primeiras guerras mundiais, a ascensão de Adolf Hitler ao poder e a anexação da Áustria por parte do Império Nazi.

Vencedor do Prémio União Europeia da Literatura de 2010, este romance, agora editado pela Alfaguara, chancela da Objectiva, conta a vida da irmã mais nova de Freud, que se viu subjugada ao amor que dedicara a Sigmund e que colocou essa estima à frente da própria vida. A trama é contada em jeito biográfico, com uma narrativa que extravasa o conceito comum da linha cronológica.

A história tem o seu início em 1938, depois da Alemanha anexar a vizinha Áustria. Os tempos são conturbados, a limpeza étnica está em marcha e o famoso psicanalista Sigmund Freud, à época enfermo, consegue vistos para fugir para Londres. Assim, Freud elabora uma lista com 16 pessoas que o vão acompanhar nessa viagem, que pode significar a própria salvação perante a ameaça irracional da filosofia de Hitler.

Freud preenche essa lista com o nome da sua esposa, dos filhos, netos, cunhada, médico particular, criadagem e do seu amigo de quatro patas. Estranhamente, o nome das suas quatro irmãs não configura nesse rol, cujo destino será a morte em campos de concentração. A “loucura temporária” de Hitler serve de obstáculo racional ao germanófilo psicanalista, que não vê necessidade de afastar as suas irmãs da sua terra natal.

Será a sensível Adolfine, a sua irmã mais nova – e segundo Freud “a melhor e mais doce irmã” -, a assumir o papel de narrador, revelando uma vida repleta de vazios e pontas soltas cujo seio familiar é o grande responsável pela sua incompetência enquanto ser humano.

Misturando e confundido realidade com ficção, Smilevski traça uma autêntica Via Sacra a Adolfine que, depois de suplicar uma tentativa de saída do país pela mão do irmão, se vê refém de uma vida que tem nas suas irmãs e na sua mãe um fim em si mesmo. A simbiose que ligava Adolfine a Sigmund foi há muito foi perdida, e não resta outra coisa senão o triste destino de encarar a morte, o esquecimento da vida, num campo de concentração nazi.

Tal como referimos, a narrativa deste “A Irmã de Freud” não é linear. Se no início do livro estamos no auge do período Nazi, o avançar das páginas faz uma regressão à Viena do virar dos séculos XIX e XX, onde a arte e o espírito intelectual mascaravam a dor e a solidão de muitos. O epílogo da obra leva o leitor de novo a um presente que se quer esquecido.

A escrita magistral de Goce Smilevski trabalha de forma inteligente e sagaz a memória, o subconsciente, e fixa-se na história de vida de uma mulher engolida pela pobreza, financeira e mental, que é sinónimo do desapontamento, da perda. Adolfine cresceu sobre o estigma de ser indesejada pela própria mãe, de se ver rejeitada pelo seu irmão e não conseguir um relacionamento estável e saudável na sua intimidade.

A vida torna-se cada vez mais crua e madrasta para Adolfine que consegue, ainda assim, atingir estados de felicidade, mesmo que efémeros. O amor inocente vivido com Rainer (“Quando a alma e o corpo ainda estão unidos…”) e a amizade que a une a Klara ou a Ottla formam a sua personalidade enquanto ser humano, fechado em si mesmo e à beira da falência.

Citando Nietzsche, Adolfine ganha o abismo depois de estar muito tempo face a tal sensação. É esse sentimento que Smilevski explora de forma sublime quando Adolfine, depois de passar pela maior provação em termos do conceito de maternidade, decide ir para uma instituição que alberga loucos, que é também casa de Klara. Adolfine toma esse ato de forma consciente, não por se sentir fora das suas faculdades mentais mas para se libertar «da prisão que o seu espírito se encontra».

A loucura enquanto vazio interior atormenta a frágil Adolfine, que se refugia numa realidade alternativa e marginal de forma a sacudir o peso da insanidade provocada pela solidão. Mais uma vez, Smilevski pega da psicanálise freudiana e no “Eu” em relação a eventuais relacionamentos com terceiros. De forma a abrir ainda mais a caixa de Pandora da ausência de racionalidade, as linhas deste livro revelam testemunhos de possíveis definições de loucura, como é o caso do pintor Van Gogh.

Goce Smileski, apontado por muitos como herdeiro de Saramago ou Grass, mais do que uma atribuição de culpa procura, com esta obra, uma profunda reflexão sobre a vivência humana, os seus acidentes de percurso pessoais e as consequentes falências.
Ao ler as páginas de “A Irmã de Freud”, percebemos que a dimensão da vida pode ser subjugada por fatores externos, à própria racionalidade, razoabilidade e efemeridade. Numa das muitas citações que se encontram nesta fantástica obra, as palavras de Píndaro ousam definir o ser humano: «O Homem é o sonho de uma sombra».
Alegoria ou não, “A Irmã de Freud” tem tudo o que o leitor deseja. Do amor à traição, da demência à racionalidade “excessiva”, da alegria à dor, do abandono ao regresso. A vida inteira reunida numa dos mais belos exercícios de reflexão filosófica e pessoal dos últimos tempos. A não perder!

In Rua de Baixo

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Yeah Yeah Yeahs
“Mosquito”

Carrocel de emoções




Apesar de não terem uma atividade editorial muito prolífera, os nova-iorquinos Yeah Yeah Yeahs estão juntos desde 2000 e lançaram, desde então, quatro álbuns, sendo “Mosquito” o seu mais recente trabalho.

Trio constituído pela carismática vocalista Karen O e pelos multi-instrumentalistas Brain Chase e Nick Zinner, os Yeah Yeah Yeahs vagueiam entre o rock e o punk, e têm na energia uma das suas maiores características enquanto músicos.

O seu álbum de estreia, “Fever to Tell” (2003), conseguiu reunir consenso na crítica e o disco vendeu perto de 800 mil exemplares um pouco por todo o globo. Faixas como “Y Control” e, especialmente, “Maps” valeram aos Yeah Yeah Yeahs bastante airplay em algumas das mais consagradas rádios indie do mundo.

Em 2006 surgiria outro disco na discografia da banda, mas “Show Your Bones” não criou o mesmo frenesim que o disco de estreia. Contudo, “It’s Blitz”, o brilhante registo de 2009, voltou a revelar uns Yeah Yeah Yeahs mais inspirados e singles como “Zero”, “Skeletons” ou “Heads Will Roll” levaram publicações com a "Spin" e o "New Musical Express" a colocar o álbum na lista dos melhores do ano.

Depois de nova e, dizemos nós, prolongada pausa, chega-nos “Mosquito”, um disco que pode indicar uma mudança na atitude da banda e que revela uma maior abertura sonora. Para além do louro platinado que Karen O ostenta na sua base capilar, os Yeah Yeah Yeahs estão diferentes. Se essa mudança é benéfica para a sua música, (ainda) não sabemos, mas existem novos dados na composição do trio norte-americano.

De acordo com declarações dos elementos da banda, este novo trabalho foi feito à imagem do que tinha acontecido com “Fever to Tell”, com as demos a serem gravadas à medida que a vontade e inspiração eram sentidas. A pressa, dizem os Yeah Yeah Yeahs, é inimiga da perfeição...

As já referidas mudanças na filosofia musical da banda sentem-se logo na primeira faixa de “Mosquito”. “Sacrilege” começa de forma tranquila com a voz de Karen O a oscilar entre a ternura e a distorção.

Assente numa base de drumbeat dançável, “Sacrilege” cresce a cada segundo e os feedbacks misturam-se com pormenores oriundos dos sintetizadores. Surpreendentemente, ou não, perto do final somos formalmente convidados a entrar num ambiente gospel que resulta na perfeição. Um começo arrebatador.

Logo a seguir, ”Subway” surge numa toada calma, sensual, mas segura. O falsete subtil de Karen O é outra das boas surpresas de “Mosquito” e apaixona os ouvidos dos mais empedernidos. O calor sobe com as notas libertadas pelo baixo e com os acordes suaves de uma guitarra que faz lembrar alguns momentos dolentes dos The XX. Muito bom!

Mas convém agitar as águas. A música que dá nome ao álbum tem uma batida rock, onde a linha de baixo recorda as galinhas psicóticas dos Talking Heads. Por entre zumbidos e picadelas, “Mosquito” é uma delícia para os ouvidos. Por sua vez, “Under The Earth” abandona o lado mais visceral dos Yeah Yeah Yeahs e aponta a universos mais reggae e escuros. O falsete regressa às cordas vocais de Karen O, que acompanha na perfeição a miscelânea sonora que é “Under The Earth”. De forma claustrofóbica canta-se: “Down down under the earth, goes another lover”.

“Slave” volta a trazer ambientes mais dançáveis onde a guitarra de Nick Zinner é o fio condutor da composição bem secundada pela batida firme da bateria de Brain Chase. A voz de Karen O aproxima-se do registo doce e gótico de Siouxsie Sioux e sente-se um espaço oprimido por uma sujeição emocional.

O carrocel emocional de “Mosquito” tem novo capítulo com a minimal “The Paths”, um exercício downbeat com toadas trip-hop, onde baixo e sintetizadores percorrem os quase cinco minutos da faixa. Mais uma vez, Karen O opta pelo falsete com resultados muito satisfatórios.

Mas eis que, ao chegar a “Area 52”, a confusão instala-se naquela que é a faixa mais esquizoide de “Mosquito”. O tema, espacial, faz Karen O reclamar por uma abdução alienígena (“I want to be your passenger / Take me as your prisioner / I want to be na alien / Take me please, oh alien”) e o território punk é profanado de forma abrupta.

De regresso à Terra, “Buried Alive”, uma parceria musical com Dr. Octagon, faz lembrar “Spite and Malice” dos Placebo e mistura o rock com o hip-hop. O resultado é uma amálgama de gosto discutível. Os riffs de guitarra acrescentam profundidade, mas parece que, a par de “Area 52”, estas duas faixas são as menos conseguidas de todo o álbum.

“Always” recupera momentos mais introspetivos e ambientais, que se tornam mais rock e depressivos em “Despair”, uma ode a uma eventual tristeza omnipresente que assola o coração e alma de Karen O. A canção ganha intencionalidade e garra com o passar dos segundos e assume-se como um dos momentos mais épicos do álbum, com Karen O a gritar de coração aberto e de forma honesta: “Oh dispair, you were there through my wasted years… You always been there”.

Ainda com o pesadelo bem presente, chegamos ao último momento de “Mosquito”. “Weeding Song” é uma canção de embalar, desarmante, mas, colocada como derradeiro tomo do disco, perde um pouco da sua força. Ainda a propósito de “Wedding Song”, diz quem viu, que Karen O a terá cantado no seu casamento, em 2011…

Ouvidas as 11 canções de “Mosquito”, fica a clara sensação que estamos perante o trabalho mais arriscado da banda, onde a tentativa de explorar novos territórios é bem patente. Sabendo que é necessário fazer apostas para conseguir chegar ao objetivo pretendido, os Yeah Yeah Yeahs construíram um disco fraturante que aponta novos caminhos num futuro que esperamos próximo.

Não é, de todo, o seu disco mais consistente, tem algumas faixas menos conseguidas, mas aponta para a transição, para a evolução. A maturidade, por vezes, demora a chegar…

Alinhamento:

01.Sacrilege
02.Subway
03.Mosquito
04.Under The Earth
05.Slave
06.These Paths
07.Area 52
08.Buried Alive (feat. Dr. Octagon)
09.Always
10.Despair
11.Wedding Song

Classificação do Palco: 6,5/10

In Palco Principal

terça-feira, 23 de abril de 2013

Cláudia Guerreiro (Linda Martini)
em Entrevista

Minutos antes dos Linda Martini subirem ao palco no Ritz Clube, tivemos a oportunidade de falar com Cláudia Guerreiro, a baixista da banda.



Com os pés bem assentes na terra e rejeitando qualquer tipo expectativas futuras, Cláudia falou-nos do convite para tocarem no IndieLisboa, de comparações entre os Linda Martini e outras lendas do indie, da recente colaboração com Filho da Mãe e do novo trabalho que estará pronto lá para o final do Verão.

Os Linda Martini fazem 10 anos, uma data redonda. O que mudou nas vossas vidas desde o lançamento da primeira maqueta em 2005? 

Temos mais dez anos, perdemos um guitarrista pelo caminho mas a vontade de tocar é a mesma, apesar das expectativas mudarem pois, se de início não existe qualquer tipo de perspectivas, invariavelmente, com a experiência, ficamos condicionados, fazemos as coisas de forma diferente. De resto, penso que continuamos a fazer e a encarar a música da mesma forma e temos uma tendência de fazer essa mesma música de uma forma mais directa, concentrados no presente mas abertos ao que o futuro nos reserva.

Depois do devido, e merecido, reconhecimento pelo vosso trabalho, sentem vontade de dar o salto fora de portas? A vossa experiência, por exemplo, com os God is an Astronaut em 2006, foi muito interessante e gratificante…

Penso que temos tido muita sorte no nosso percurso. Antes dos Linda Martini tínhamos as nossas próprias bandas que se incluíam num circuito bem mais restrito em relação ao que agora nos encontramos. Colocámos a música na internet e as pessoas aderiram ao apelo dos Linda Martini quase de imediato, e penso que tivemos um crescimento rápido. Ainda há pouco tempo encontrei um documento dos primórdios da banda com o nosso primeiro cachet: 150 euros! Lembro-me de que ficámos muito satisfeitos… Quanto ao sair lá para fora, infelizmente estamos condicionados pelos empregos dos elementos da banda fora dos Linda Martini e é muito complicado pois temos de fazer tudo com muita antecedência e neste momento é difícil. Adorávamos fazer uma digressão. Um dia, quem sabe…



Foram convidados para o Indielisboa 2013. A ideia de tocar o “Olhos de Mongol” na íntegra foi vossa ou da organização? 

A organização do Indielisboa propôs-nos fazer um concerto diferente e nós optámos pelo “Olhos de Mongol”. Eles comemoram a décima edição, nós fazemos dez anos… Não sei dizer se o que vamos fazer é especial mas sei que só fizemos algo semelhante quando lançámos o álbum. Nestes anos temos tocado algumas faixas do “Olhos de Mongol” mas há coisas que entretanto ganharam nova forma. As introduções sofreram arranjos e, por exemplo, o sampler do «Partir para ficar» é sempre um desafio e por vezes a coisa não resulta muito bem. Também sentimos que algumas músicas estão “datadas”. Por o exemplo a «A Severa…» dificilmente seria feita por nós hoje… Ainda assim, aceitámos a sugestão e vamos tocar o disco na íntegra.

Têm tocado recentemente e na semana passada actuaram aquando do Warm Up Vodafone Paredes de Coura. Como tem sido a experiência de tocar com nomes grandes no panorama indie como os Sonic Youth, banda que de certa forma é associada ao vosso som? 

Tem sido uma boa experiência, claro. Na parte que me toca não sou grande fã, por exemplo, dos Sonic Youth, prefiro os Nirvana, mas admito que tenhamos alguns pontos de contacto com os Sonic Youth, embora não ache que sejamos assim tão semelhantes como dizem. Com um baterista como o Hélio é impossível sermos parecidos com eles pois a nossa batida é mais forte, mais intensa, mais hardcore, enquanto os Sonic Youth vagueiam pelo experimental.

Este ano vamos ter mais um disco dos Linda Martini. Em entrevistas que deram afirmam que este novo trabalho será uma mistura entre os sons e filosofias de vossos dois primeiros álbuns. Que podemos esperar? 

A ideia é ter o disco pronto depois do Verão. No que toca à filosofia do álbum as coisas ainda estão muito em aberto, ainda estão a acontecer. Posso dizer que algumas músicas que já temos em fase adiantada têm um pouco de algumas características de faixas do “Olhos de Mongol”, em que o som é mais circular sem o objectivo de “explodir”. Por outro lado, temos outras músicas que têm um efeito mais directo, mais “Casa Ocupada”. Digamos que estamos entre os universos dos dois discos, apesar de uma estrutura global mais espacial, sem grandes pormenores, mas até ao fim tudo pode acontecer.



Como está a ser o processo criativo deste álbum? Os Linda Martini assumem-se lentos nesse campo, sempre a limar arestas e a procurar a corrigir “aquele” pormenor menos bem conseguido… 

Nós somos de facto “picuinhas” mas não com os sons que entram aqui e ali, e confesso que devíamos, talvez, ser mais cuidadosos nesse aspecto. O que queremos é ir de encontro ao gosto individual de cada elemento da banda. Quando alguém não gosta de algum pormenor tentamos ludibriar isso e chegar a um consenso mas sem grandes cedências. Fazer com que as coisas estejam bem para todos. Perdemos muito tempo com os ajustes mas no fim penso que ficamos todos satisfeitos com o resultado final.

Uma das vossas imagens de marca é a composição em Português. Este novo trabalho vai manter a bitola?

Sim, claro, nem outra coisa faria sentido! Continuamos em registo instrumental ou em Português. Nas nossas antigas bandas compúnhamos em Inglês e quando criámos os Linda Martini decidimos que íamos tentar o Português. Alterar isso seria uma regressão.

A par da concepção deste novo disco, fizeram uma colaboração com Filho da Mãe, um sete polegadas. Como surgiu essa colaboração? Esperam ter mais experiências do género?

Sinceramente não pensamos muito nisso. As coisas surgem naturalmente e lidamos com isso de forma espontânea. À partida gostamos da ideia da “colaboração” mas as coisas podem acontecer de forma diferente ao que esperamos. Com o Rui Carvalho (“Filho da Mãe”) o processo foi complicado pois ele tem uma forma de tocar radicalmente diferente da nossa, contratempos atrás de contratempos e confesso que tivemos dificuldade em acompanhá-lo. Ainda assim, para o Hélio foi fácil pois tocam juntos nos If Lucy Fell e sentiam-se como “peixes na água”. A facilidade da própria colaboração tem muito a ver com quem estamos a tocar mas à partida é uma ideia que nos agrada.

Para além deste novo álbum que podemos esperar dos Linda Martini para o futuro próximo? 

Ainda está tudo muito no início e não temos nada definido mas como o disco só vai sair perto do outono pensamos que só em 2014 é que vamos pôr mãos à obra. Só a partir de Outubro é que vamos condicionar a nossa agenda a pensar no novo trabalho. Mas a ideia de tour em Portugal é estranha. Tocamos aos fins de semana e pouco mais. Nos Estados Unidos e no resto da Europa sim, fazem-se digressões, por cá não me parece. É óbvio que seria bom termos muitos concertos em Portugal. Aliás, este ano, temos tido mais datas do que esperávamos pois estamos no terceiro ano do “Casa Ocupada”. Para dar uma ideia, ainda há pouco tempo tocámos no Warm Up do Vodafone Paredes de Coura e na Queima das Fitas em Vila Real mas não tocávamos desde outubro. Aqui no IndieLisboa vamos fazer uma coisa diferente … Ainda assim vamos esperar, como disse, pela saída do álbum e depois logo vemos. Por vezes surgem alguns contratempos e depois tens de repensar tudo.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 22 de abril de 2013

LINDA MARTINI
RITZ CLUBE (20.4.2013)

Inventar o mar de volta



A décima edição do Indielisboa continua a surpreender. Depois do encontro festivo protagonizado por Manuel Fúria e os Náufragos na sexta-feira, no dia seguinte seria a vez dos Linda Martini subirem ao palco da simpática sala da Rua da Glória.

As expectativas sobre este concerto eram elevadas, tanto que os bilhetes esgotaram num ápice, sendo a organização obrigada a vender ingressos extra. Os Linda Martini conseguiram, com todo o mérito, reunir um conjunto de fãs que lhes garantem um culto de certa forma ímpar por terras lusas.

Passados dez anos, dois álbuns e alguns EP’s, André Henriques, Cláudia Guerreiro, Hélio Morais e Pedro Geraldes são um dos mais fortes colectivos do panorama indie nacional e cada concerto é sinónimo de entrega, competência, honestidade e celebração.

Desta vez, o espectáculo assumia contornos diferentes e os Linda Martini pegaram em “Olhos de Mongol” e tocaram na íntegra o seu primeiro longa-duração. Se na lotada sala do Ritz Clube o calor humano sentia-se amiúde antes da banda subir ao palco, depois dos primeiros acordes a temperatura subiu ainda mais e a emoção estava ao rubro.

De forma concentrada e competente, os Linda Martini arrancaram com «Sinto a Cabeça Cair» e «Cronógrafo». Se na faixa inaugural de “Olhos de Mongol” a calma aparente reinava em palco, logo a seguir o som contido e circular de «Sinto a Cabeça Cair» deu lugar à explosão crua e directa de «Cronógrafo».
O público retribuía com palmas a compasso e uma entrega idêntica aos quatro músicos que pisavam o palco.

Essa cumplicidade entre quem toca e quem ouve é habitual nos concertos dos Linda Martini e no passado sábado voltou a sentir-se. Se em palco se destilavam acordes sónicos por entre batidas sincopadas de uma bateria pujante, bem secundada por um baixo omnipresente, na tela que se encontrava por detrás dos músicos as imagens subaquáticas das “20 000 mil Léguas Submarinas” de Júlio Verne davam um ambiente particular ao concerto.

Antes da brilhante «Dá-me a tua Melhor Faca», Hélio Morais agradecia a presença de todos e recordava que aquele palco era especial para os Linda Martini, pois foi um dos primeiros locais onde a banda de Queluz ousou tocar a sua música. Se a banda se sente bem na capital, Lisboa também adora receber os decibéis dos Linda Martini.

«Partir Para Ficar» foi a senhora que se seguiu e a voz samplada de José Mário Branco encheu por completo o ambiente do Ritz Clube. Embora as guitarras percam, momentaneamente, a sua fúria, ganham uma forma circular e ambiental muito especial com o diálogo sonoro entre André Henriques e Pedro Geraldes. Um dos momentos mais intimistas e bonitos da noite.

Logo depois somos embalados por «Estuque», um tema que atravessa toda a versatilidade sonora dos Linda Martini, onde a contenção saída dos instrumentos é maravilhosamente secundada pelas palavras entoadas por André Henriques. Uma das mais hipnóticas e bem conseguidas faixas de “Olhos de Mongol” é um autêntico hino ao devaneio lírico.

Sem descanso, «Amor é Não Haver Polícia» rompe com a inércia e o feedback segue directo à medula. O estado sónico é um alerta e o sentimento caótico convida ao mosh nas primeiras filas. Se em palco o prazer de se tocar é contagiante, a audiência sente o hipnotismo de ser conquistada por uma música que incita ao “motim”.

Para recuperar da intensidade do momento, «Quarto 210» traz a quietude e todos cantam em coro. A sinfonia gritada é substituída por ecos de tranquilidade. E depois da calmaria, a tempestade de «Amor Combate», talvez o maior hino dos Linda Martini e que provoca naturalmente um sentimento emotivo de grande intensidade. O mosh reaparece e há quem surfe na multidão, talvez inspirado pelas já referidas imagens aquáticas que continuavam a inundar as mentes de quem as via.

A apresentação de “Olhos de Mongol” acabaria com uma fantástica interpretação de «A Severa (ver de perto)». O baixo de Cláudia indica o caminho, a bateria de Hélio ilumina a estrada e as guitarras de André e Pedro voam, felizmente, em excesso de velocidade. Cansados e satisfeitos, os Linda Martini recolhem ao balneário, mas neste jogo sonoro ainda havia direito a prolongamento.

Depois de uma curta pausa, os Linda Martini regressam ao palco com mais algumas surpresas. Depois de tocarem “Olhos de Mongol” na íntegra, o concerto segue com o primeiro EP da banda. «Este Mar» foi a primeira música a ser tocada e, passada uma década, continua a ser uma das mais bonitas, intensas e fortes composições da banda. Os momentos instrumentais seguiram-se com a marcial «Efémera», repleta de loops onde o silêncio e o “ruído” complementam-se. A voz de André voltaria a sentir-se com «Lição de Voo nº1». A música vai subindo devagarinho e todos, sem excepção, os que estavam no Ritz Clube conseguiram tocar no “avião sem tirar os pés do chão”.

A brilhante e suada actuação do quarteto seria ainda coroada com mais dois momentos, desta vez revisitando “Casa Ocupada”. Primeiro «Belarmino» e depois «Cem Metros Sereia» permitiram palmas, coros afinados, gritos e um crowdsurfing de Hélio Morais que só pararia perto do bar. O concerto terminou com uma merecida ovação por parte de um público sedento por mais música dos Linda Martini.

In Rua de Baixo

domingo, 21 de abril de 2013

“AGOSTO”
de RUBEM FONSECA

Diário de um tira carioca



Integrado nas comemorações dos cinquenta anos de vida literária de Rubem Fonseca, chega agora às livrarias nacionais a reedição de “Agosto”, uma publicação da responsabilidade da Sextante, uma chancela da Porto Editora.

Considerado como um dos nomes maiores da literatura brasileira moderna, Rubem Fonseca descobriu a paixão pelo mundo dos livros depois de se enamorar das obras de gente como Edgar Allan Poe, Rafael Sabatini ou Júlio Verne. O policial era o género que mais o cativava mas, o seu crescimento enquanto apreciador de acto de ler, fez com que Fonseca também explorasse clássicos, como Homero e Cervantes, ou modernos, como Dostoievski e Proust.

Antes de começar a ver na escrita uma paixão, Rubem Fonseca, formado em Ciências Jurídicas e Sociais, foi um verdadeiro homem de muitos ofícios. Desde comissário de policial a nadador, o autor de “Agosto” foi também escriturário, assistente de magia, revisor, “cineasta frustrado” e paquete. Não importa em que área ou função, Rubem de Fonseca sempre encarou a vida de frente e de mangas arregaçadas.

A sua primeira obra enquanto escritor conheceria a luz do dia na aurora da década de 1960, quando viu dois contos seus terem honras de publicação através das revistas “O Cruzeiro” e “Senhor”. A crítica cedo reconheceu o talento deste homem de coração carioca, ao considerar “Os Prisioneiros” uma das obras mais criativas do seu tempo.

Da crónica de costumes ao romance, passando pelo policial, Rubem Fonseca foi conquistando leitores e louvores, sendo que em 2003 seria galardoado com o Prémio Camões e o Prémio Juan Rudolfo. O “Caso Morel”, “A Grande Arte” e também “Agosto” eram obras que conquistavam um lugar de destaque na literatura brasileira e no resto do mundo.

No que toca a “Agosto”, estamos perante um delicioso policial, em tom auto-biográfico e existencialista, que vagueia entre a ficção e o factual onde o suicídio de Gétulio Vargas e outros acontecimentos e crimes ocupam destaque na trama que tem, no comissário Alberto Mattos, a sua figura central.

Rubem Fonseca conseguiu, com esta obra, retratar de forma irónica mas também objectiva a conjuntura política subjugada à corrupção vivida na década de 1950, nomeadamente em 1954, ano que assinalou tristemente o desaparecimento de Getúlio Vargas, um dos maiores nomes da política brasileira, que decidiu acabar com a própria vida depois de tomar algumas decisões que colocaram em cheque o futuro económico, social e político do Brasil.

Mantendo o Português do Brasil como língua oficial, “Agosto” reflecte um universo repleto de “tiras”, “paletós”, kakistocratas”, “delegacias” e “bicheiros”, alimentados pela força e dinamismo do gerúndio, assim como do sarcasmo. Alberto Mattos, um comissário de polícia que sofre de dores de estômago permanentes e que tem como amuleto um dente de ouro, enche por completo o imaginário do leitor.

Recuando no calendário, estamos no primeiro dia de agosto de 1954, em pleno Rio de Janeiro, quando um empresário é assassinado e, simultaneamente, na sede da Polícia Federal é engendrado mais um crime. Depois, o jornalista Carlos Lacerda escapa a um atentado e uma série de mortes violentas precipitam o suicídio de Vargas. A solução para estes acontecimentos parece estar longe, mas o teimoso e solitário Mattos vê nas causas perdidas a sua demanda, ainda que o seu coração dividido entre dois (des)amores possa obstruir a pouca racionalidade que lhe resta.

As páginas de “Agosto”reflectem o mecanismo que rege uma sociedade disfuncional, contaminada pela usurpação alheia e que vê, erradamente, em certas figuras políticas, a sua salvação, pois muitas vezes os responsáveis governamentais são meros fantoches apalaçados
.
Para além de Alberto Mattos existem muitas personagens, verdadeiras caricaturas, que vão apaixonar os leitores de “Agosto” e das quais destacamos o senador Victor Freitas, o empresário Pedro Lomagno, o segurança “negro”, Gregório Fortunato ou as peculiares Salete e Alice.

Com uma escrita versátil e açucarada, o autor narra, não apenas uma estória, mas sim pedaços da vida de um País que tenta ultrapassar erros e momentos políticos adversos. “Agosto” reúne o melhor do romance policial e do thriller literário e Rubem Fonseca revela-se um conhecedor profundo da natureza humana, dos seus vícios, crimes e pecados que podem estar escondidos atrás da mais leve cortina da personalidade.

In Rua de Baixo

MANUEL FÚRIA E OS NÁUFRAGOS
RITZ CLUBE (19.04.2013)

A noite dos heróis



Por norma, uma reunião de amigos é um momento especial, uma ocasião para trazer a saudade ao presente, para ver companheiros de longa data, para recordar sons que marcaram o tempo e que o calendário teima em não apagar.

E como fazemos para reunir a malta? Falamos com as pessoas, pensamos num lugar para a celebração e entregamos alma e coração ao acontecimento.

Foi isso que aconteceu no Ritz Clube na noite de sexta-feira. Com a feliz desculpa de tocar na íntegra o seminal “Mãe” dos Heróis do Mar, Manuel Fúria e os seus Náufragos convidaram camaradas de luta, amigos de longa data e ídolos de adolescência.

O concerto fez parte do cartaz do IndieLisboa 2013 e contou com o precioso apoio da revista Blitz e do canal SIC Radical. Do rol de amigos convidados, muitos mesmo acreditem, pois isto da amizade não tem fronteiras, saltavam à vista alguns nomes da nova e brilhante vaga de artistas nacionais que se misturavam com veteranos.

Pelo pequeno palco do Ritz passaram Rui Pregal da Cunha, Samuel Úria, Pedro de Troia, Francisco Xavier, Almirante Ramos, Tiago Guillul, Alex d’Alva Teixeira e muitos, muitos mais. Tantos, que qualquer movimento em palco chegou a ser um exercício de inolvidável perícia.

Antes do concerto, o número 57 da Rua da Glória servia de ponto de encontro onde se trocavam palavras, abraços, elogios. Sentia-se o espírito de camaradagem. Alguns sortudos puderam mesmo tirar uma foto com um antigo herói marítimo ou ver o velhinho vinil de “Mãe” autografado. O ambiente era de descontracção total.

Poucos minutos antes das 23, Manuel Fúria reúne tropas, a rua fica vazia e o Ritz começa, muito lentamente, a encher. À entrada, as pessoas anunciam-se. “Eu sou da Banda…”, diz-se. Depois de conferida a lista de convidados lá se sobe a escada escarlate do Ritz.

Na sala a expectativa sentia-se mas ninguém tinha pressa. O palco estava preparado para receber a família reunida pelo líder dos Náufragos e, quando a sala estava já muito bem preenchida, Manuel Fúria surge em palco. Ainda que pouco habituado a discursos, Fúria não perdeu a oportunidade de agradecer a todos os que pisariam o palco, bem como a outros que ajudaram a tornar “Mãe” num dos episódios mais marcantes da história da música portuguesa. Segundo o ex-vocalista dos Golpes: “este concerto é um acontecimento único, irrepetível e especial”. Quem teve o privilégio de o assistir pode confirmar isso mesmo.

A primeira música na noite, «Volta P’ra Mim», fez regressar os presentes a 1983. De braçadeira, quais capitães no mar alto da nossa memória, os músicos entravam em palco tornando o mesmo pequeno mas aconchegante. O assobio de Manuel Fúria, bem secundado pela bateria de Fred Pinto Ferreira, iniciou a celebração e o calor da música tratou de invadir a alma dos presentes. Em palco a formação era “mínima” e os oito músicos gozavam, ainda, de algum espaço de manobra.

«Cachopa», um dos muitos hinos dos Heróis do Mar, trouxe ao já lotado palco do Ritz a primeira colaboração vocal da noite e a honra coube ao extrovertido Alex D’Alva Teixeira. O resultado foi uma versão bastante aplaudida da segunda faixa de “Mãe”, com o público a bater palmas e a entoar o refrão a compasso.

Aquando de «Nunca Mais» estavam em palco cerca de duas dezenas (!) de pessoas. Para além da guitarra, baixo, bateria e teclas, juntavam-se dois tambores, dois violinos, um trompete, um saxofone e um coro composto por diversas vozes. Esta autêntica filarmónica arrancaria para uma brilhante versão da terceira música da noite e a voz de Manuel Fúria soava (e soa) deliciosamente concentrada.

Antes de «Adeus» afinam-se guitarras, trocam-se sorrisos e abraços. A entrada marcial da composição capta a atenção de todos e a intensidade da música traz ainda mais saudades de uma das bandas que mais marcou o panorama musical na década de 1980. Rui Pregal da Cunha e seus pares foram, sem dúvida, uma das maiores referências sonoras de um Portugal que pretendia encontrar uma identidade, um perfil pessoal e que não virava costas ao passado.

Aos primeiros acordes de «Portugal» a falua cantada por Manuel Fúria arrancou um dos maiores aplausos da noite e embalou os presentes já totalmente entregues à festa que este concerto se tornou.

O único “Herói” a subir ao palco do Ritz foi Rui Pregal da Cunha, que vestido a rigor se atirou de cabeça a uma excitante «Cinco Soldados». O antigo vocalista dos LX90 mostra estar em grande forma e durante alguns minutos matou saudades aos presentes, ávidos por “rever” a voz de “Amor”. O baixo de Alex Cortez, dos Rádio Macau, abrilhantava a prestação e o clima festivo estava ao rubro.

A última de “Mãe”, «Se Fores ao Norte», uma das composições mais dançáveis dos autores de «Paixão», contou com uma presença mais vincada de Samuel Úria nos coros. Os músicos tinham espaço para brilhar e os solos sucediam-se em género de jam session. Manuel Fúria aproveitou para apresentar todos os elementos que o acompanharam em palco e o mesmo foi ganhando espaço. Terminava a apresentação de “Mãe” mas não a festa.

Com o palco vazio durante breves instantes, o público entoava o regresso dos artistas e Manuel Fúria e os seus Náufragos voltariam para brindar a assistência com duas canções em nome próprio. A imagem por detrás do palco mudou (depois da Nossa Senhora aparecia agora uma paisagem bucólica) e «Haja Festa Não Sei Onde» e «Canção para Casar Contigo», uma ode ao matrimónio que parece estar próximo, arrancaram aplausos, saltos e muita emoção.

A festa não terminaria sem que Samuel Fúria, Alex d’Alva Teixeira e o próprio Manuel Fúria mergulhassem literalmente para cima de um público rendido numa noite especial. E por entre abraços, risos e muita animação, a última prestação da noite trouxe aquilo que todos queriam: «Alegria». Foi com outro dos sucessos dos Heróis do Mar que a noite chegaria ao fim e a sensação de que se tinha assistido a um concerto memorável era unânime. Afinal, há alguém capaz de nos dar o que queremos.

In Rua de Baixo

terça-feira, 16 de abril de 2013

James Blake
“Overgrown”

O rapaz que não quer ser estrela



Muitos acreditam no destino. Muitos agarram a vida e fazem da própria existência uma passagem para deixar uma marca, uma identidade, uma obra. A ambição não tem de ser o móbil da criação, mas a genialidade é uma arma que a poucos pertence.

James Blake nasceu para seduzir os nossos ouvidos, para encher a alma com uma música melancolicamente cósmica. As suas armas são uma voz angelical, brilhante, e uma capacidade inata de transformar pedaços de sons, maquinalmente trabalhados, em peças de pura filigrana.

Em 2010, com o homónimo “James Blake”, disco que resultou da compilação de três EPs editados em 2010, o músico londrino, também conhecido por Harmonimix, encantou o território da pop de características eletrónicas e arrebatou os corações de quem ouviu “Limit to Your Love”. Mestre da manipulação de sintetizadores, caixas de ritmos, samplers e sequenciadores, Blake juntava a tal panóplia sonora uns pózinhos de Soul e R&B.

O sucesso foi o resultado (in)esperado e a comunidade musical premiou James Blake com nomeações para os Brit Awards, BBC Sound ou Mercury Prize. Em várias entrevistas o multi-instrumentalista e cantor confidenciava que os The XX eram a sua maior influência, mas que tinha a mente uma aberta…

Passados dois anos do lançamento de “James Blake”, “Overgrown” vem confirmar essa mesma abertura e capacidade de evolução. Blake é, sem dúvida, um artista em constante movimento. Ainda que as diferenças entre os seus dois trabalhos não sejam abismais, depois de ouvir “Overgrown” nota-se a capacidade e propósito de expandir ideias, descobrir novos patamares sonoros e caminhos na composição, algo que revela uma confiança necessária para extravasar fronteiras.

Durante a génese de “Overgrown”, um disco que mantém intocável o ambiente dubstep e a coesão sonora do álbum de estreia, o músico trabalhou com gente ilustre como Bjork ou Bon Iver e, estando atentos às músicas deste trabalho, essas influências sentem-se e contribuem como um fator que dá consistência a esta elaborada jornada sonora.

Também a literatura está na base deste disco. O título do mesmo foi resgatado a um poema da norte-americana Emily Dickson, que refere o sentimento de incerteza perante o crescimento de algo novo, de uma matéria que nos ultrapassa e do papel do protagonista perante uma conjuntura olhada com desconfiança. Assim, as linhas de “All overgrown by cunning moss” inspiraram Blake a colocar o dedo na ferida perante a omnipotência da indústria musical e da função do artista enquanto parte de um todo aglutinador.

Para além das artes, algo também inato à música de James Blake é a habilidade de laborar de forma ímpar e suave as influências que traz para dentro da sua bolha musical, trabalhando as mesmas com a ajuda de sintetizadores e afins, aparelhos que possibilitam um movimento ascendente e que são responsáveis por fascinantes e frequentes ruturas sonoras.

Também enquanto cantor, James Blake está mais confiante, mais brilhante. A sua voz sobe e desce com maior confiança e estabilidade, servindo, por vezes, como um instrumento orgânico que destoa do ambiente maquinal e minimal que abraça grande parte do álbum. À semelhança, por exemplo, de Antony Hegarty, a voz de Blake explora e joga com o silêncio de forma sublime.

Apesar desse crescimento, metaforicamente ou não, Blake mantém a humildade e rejeita qualquer ascensão meteórica. Na faixa de abertura, por entre alguns murmúrios e umas pitadas de piano, canta-se: “So, if that is how it is / I don’t want to be a star / But a stone on the shore”.

O jeito peculiar da narrativa de James Blake permite também a possibilidade de juntar a um ambiente desoladamente romântico, onde o piano e as malhas eletrónicas são reis e senhores, apontamentos Hip Hop e partituras dançáveis ou ambientais que podem ser bem secundadas por próteses sintéticas em forma de palmas sincopadas.

Durante a conceção deste trabalho, James confessou ter-se apaixonado e é amor que se sente ao longo dos cerca de 40 minutos de “Overgrown”. A já referida faixa-título é uma belíssima ode ao desprendimento, onde um piano e uma batida suave dão espaço à voz magnífica de Blake. O refrão é de uma beleza desarmante e, até ao final da música, o tempo passa e a harmonia é constante e duradoura.

“Retrograde”, o primeiro single do álbum, é outra belíssima canção que junta piano, uma voz fantasmagórica e as anteriormente palmas sintéticas, conseguindo ser, simultaneamente, íntima e distante, quente e fria. A ansiedade é outro sentimento que se sente em “Overgrown” e “I Am Sold” traz à tona essa particularidade. O baixo é aqui trabalhado de forma exemplar e a voz, em forma de grito mudo, cristaliza a magnificência do momento.

As influências e novas aproximações sonoras estão muito presentes em “Overgrown”. Se “DLM” é uma balada de contornos cinzentos em direção à redenção e, ao jeito de Joni Mitchell (e porque não de Justin Verner?), com um piano dolente, uma voz que canta: “Please don´t let me hurt you more”, “Take a Fall For Me” traz o Hip Hop e a presença de RZA destila considerações sobre as agruras de um matrimónio assombrado. Por mais que pareça estranho, para depois entranhar, esta é uma das canções que mais reforçam o “ecletismo” do segundo LP de James Blake.

A unidade sonora de “Overgrown” cresce a cada audição e as diferentes camadas que compõem este trabalho estão acima de qualquer suspeita enquanto parte do todo. Ainda assim, a segunda metade do disco segue caminhos mais abstratos e reforça as capacidades de Blake enquanto produtor e tecelão de autênticas tapeçarias sonoras repletas de uma emotividade pungente. Exemplo disso é “Digital Lion”, uma colaboração com o mestre da música ambiente, Brain Eno. O resultado são quase cinco minutos de experimentação com break beats, pulsões onde o baixo é levado ao extremo, assim como uma propulsão rítmica assinalável.

As últimas três faixas do disco resultam como a súmula tripartida das novas ideias e charme de James Blake. “Voyeur”, “To the Last” e, especialmente, “Our Love Comes Back” reúnem tonalidades a dois-tempos, uma voz (quase) humana e uma doce melancolia por vezes a puxar um lado timidamente dançável.

Resumidamente, “Overgrown” é um triunfo em toda a escala, mas sem grandes alaridos, hype ou aspirações. É, no fundo, mais um passo seguro no caminho singular de James Blake, um homem que se assume cada vez mais e melhor no papel de talentoso produtor e magnífico cantor e compositor.

Alinhamento:

01.Overgrown
02.I Am Sold
03.Life Round Me
04.Take a Fall for Me (feat. RZA)
05.Retrograde
06.DLM
07.Digital Lion
08.Voyeur
09.To the Last
10.Our Love Comes Back

Classificação do Palco: 8,5/10

In Palco Principal

THE KNIFE
“SHAKING THE HABITUAL”

Gritos mudos



Fértil em (boas) surpresas, 2013 traz mais um muito aguardado álbum. “Shaking the Habitual” surge cerca de sete anos depois de muito bem-sucedido “Silent Shout” e volta a colocar o fraterno duo sueco The Knife nas bocas do mundo.

Se é certo que os fãs de Karin Dreijer Andersson e Olof Dreijer já desesperavam por notícias sonoras da banda, segundo os próprios The Knife este trabalho surgiu de forma natural e não por qualquer tipo de imposição. De acordo com uma “entrevista vídeo” que pode ser vista no site oficial, “este disco é a consequência da necessidade de fazer algo diferente”. Para Karin e Olof “a música pode ser algo sem um sentido próprio, pode ser apenas som sem mensagem”.

Apesar destas declarações sobre um qualquer vazio de conteúdo, “Shaking the Habitual” é tudo menos um trabalho à deriva. Estamos, sem dúvida, perante o disco mais político, interventivo e acutilante dos The Knife. O título do trabalho, retirado de um conhecido texto de Michel Foucault, insita ao agitar da massa anónima e amorfa de uma sociedade habituada a cumprir ordens sem as questionar. Questões como a monarquia, a família nuclear, a riqueza extrema, a degradação ambiental, as injustiças do neoliberalismo ou a mutação da representação do homem enquanto ser, ocupam a agenda de Karin e Olof.

A crença de uma visão crítica em relação aos vícios da sociedade de consumo leva a dupla sueca a preferir o anonimato, insistindo em ocultar os rostos. Aquilo que começou como uma forma de conseguiram a tranquilidade necessária para fazer a música que queriam acabou por se tornar no seu traço mais identificativo. Segundo os The Knife, “existem outras máscaras por baixo destas. Não queremos que associem a nossa música a rostos mas sim criar uma identidade através da nossa forma de comunicar”.

Dar som às ideias deste novo punhado de canções foi outra barreira que os The Knife tiveram de ultrapassar. “A música deste disco nasceu do improviso, partiu do inesperado e conseguimos criar novas fontes sonoras tocando e inventando alguns instrumentos assim como reinventando a realidade musical que resulta dos instrumentos mais clássicos. Decidimos desconstruir o som dito normal, expondo os limites convencionais do mesmo, ultrapassando a matemática dos acordes”, cita Olof.

Essa nova abordagem está bem patente em “Shaking the Habitual” e, por exemplo, os 19 minutos de «Old Dreams Waiting to Be Realized» resultam numa longa demanda musical de cariz ambiental que pode levar ao limite da capacidade auditiva do ouvinte. Mas é isso que se pretende no disco: explorar a tensão do silêncio face à presença musical. Karin e Olof procuram criar um diálogo entre a obra, quem a concebe e o receptor. É urgente o apelo ao sentimento de fruição, ao sentido de obra aberta, como diria Umberto Eco.

Sobre o conceito das suas novas criações, os The Knife são peremptórios: “queremos questionar as relações da música enquanto objecto pop em relação às regras instituídas da funcionalidade do próprio segmento. Não fazemos música que seja absorvida de forma rápida e imediata, apelamos sim à interiorização da mesma.”

“Shaking the Habitual” é tudo menos um disco imediato e consensual. Ao longo dos seus 97 minutos – duplo CD e triplo LP – viajamos por territórios que nos transportam para ambientes perto de Aphex Twin, Björk, Nurse With Wound ou Einstruzende Neubauten. Ouvir o quarto disco dos The Knife é fazer tabula rasa a tudo, ou quase, que ouvimos (até) hoje. Para além de temas longos, a experiência sonora proporcionada por esta dupla de Estocolmo também proporciona peças musicais que cristalizam a audição em apenas alguns segundos.

Ao ouvir a ambiguidade sonora de “Shaking the Habitual” somos levados a pensar sobre o conceito do formato canção como está “estabelecido”. Será que uma canção deve obedecer a uma estrutura determinada? A música enquanto arte (toda a música poderá sê-lo?) é um produto como uma finalidade estética e comunicativa? Será apenas o apelo à emotividade através de recursos plásticos, linguísticos e sonoros? Em jeito de resposta, ou interpretação definitivamente subjectiva, Karin fala da música como “uma ferramenta que gera movimento, um espaço onde tudo é possível”. No fundo, ou talvez não, uma canção não é mais nem menos que uma forma de expressão encorpada por materiais sonoros, e por vezes palavras, resultando de uma forma mais ou menos agradável e que leva a uma ideia interpretada conforme a percepção individual.

O disco começa com «Tooth For An Eye» e afirma-se como uma das poucas heranças sonoras de “Silent Shout”. Como que a querer fazer a ponte entre dois universos distintos, está marcada por ritmos tribais e afro e resulta como um dos temas mais dançáveis de todo o disco. Esse corte com o passado recente tem o seu primeiro tomo com «Full of Fire». O estado minimal rompe os espartilhos e nasce um ambiente atmosférico com momentos intensos de um terror induzido. A voz de Karin distorce a realidade e faz um exorcismo face ao passado. Nove minutos depois do seu começo, «Full of Fire», o primeiro single do disco, aponta um novo caminho.

«Cherry On Top» continua o caminho errático de “Shaking the Habitual” e oferece mais uma canção desconstruída em si mesma, um som que causa desconforto, que assusta, ainda que seja a tranquilidade que paute o móbil destes quase nove minutos. Podemos descrever esta criação como um sonho que se deixa prender por um pesadelo incómodo em viagem por um universo paralelo. Tal como referido anteriormente, estamos perante um apelo à interpretação do formato canção e a própria voz de Karin, assombrada por registos sonoros díspares ao fundo, faz esquecer uma linha estrutural definida. À medida que «Cherry On Top» avança sente-se a repartição do tema em partes dentro de si mesmo.

Sem anunciar, «Without You My Life Would Be Boring» faz regressar o tribalismo, desta vez com um cheirinho tropical acompanhado por umas flautas desgarradas que são o fio condutor, se ele existir, de todo o tema. A voz surge com novos arranjos distorcidos e é apenas um instrumento em si mesmo. A seguir, «Wrap You Arms Around Me» é um exercício denso com toadas épicas e envolto de uma base musical demolidora, a fazer lembrar, ao longe, os ambientes mais soturnos dos Dead Can Dance. A percussão potente apela ao sentimento da voz de Karin que solta alguns dos versos mais apelativos do disco. “Will You Remind Me? Wrap Your Arms Around Me…” Sem dúvida um dos momentos mais intensos deste complexo trabalho.

Depois de mais uma bomba calórica de ritmos repletos de açúcares diversos, é-nos servido um prato light. No entanto, apesar da curta duração, os 55 segundos de «Crake» soltam uma sensação de angústia atroz onde uns desconcertantes agudos adensam o ambiente. De forma a recuperar deste susto sonoro, de mansinho começamos a ouvir os primeiros sons de «Old Dreams Waiting To Be Realized», o tal tour de force de 19 minutos que desperta todos os sentidos do ouvinte. O ambiente hipnótico e a estranha apatia desta composição é quebrado amiúde por pormenores perdidos num labirinto (vazio) de emoções elevadas ao expoente da interpretação por entre camadas obscuras.

Depois da inépcia, são novamente os laivos tribais que se fazem ouvir, embora em «Ranging Lung» os mesmos sejam, progressivamente, ocultos aquando da entrada da voz de Karin. Neste que é o tema mais free jazzy de “Shaking The Habitual”, a prosa apela a sentimentos adversos. Karin canta o sofrimento: “And That’s Why It Hurts / Is It a Difference? / It’s Raging Now / Is It a Difference? / Ist’s Raging Now / An Indifference / Oh Difference / And an Indifference would make”. O crescendo da música dilui-se em rastilhos sonoros que lembram partituras de gente como os Art Of Noise.

Já «Full of Fire» é um instrumental electrónico até à medula e que convida à dança os mais afoitos. Seis minutos e alguns segundos depois, «Oryx» despacha rapidamente o ouvinte com uns segundos disparados por um azimute controlado por uma força obscura. A dança regressa com «Stay Out There», um tema com uma base grave cujas vozes de Olof e Karin tornam ainda mais misterioso. Um diálogo arrepiante.
A mais desconcertante composição do disco é encarnada por «Fracking Fluis Injection», onde a indefinição de uma lógica sonora pode levar ao limite. Durante dez minutos os The Knife toldam sons e colam acordes de forma aleatória. Indefinível.
Contrariando o sentido niilista de «Fracking Fluis Injection», «Ready to Lose» é uma das mais viciantes e “coerentes” faixas do álbum. A voz graciosa de Karin mistura-se nos graves e na percussão electrónica e somos arrastados para um redemoinho de devaneios do qual hesitamos em ficar ou sair. Talvez a melhor forma de terminar um disco tão especial.

Muitas vezes é complicado qualificar um som, uma ideia, um punhado de canções que se agrupam em forma de disco. A coragem de encarar de frente um projecto novo, inédito, e de contornos assumidamente perigosos, é um feito a ter em conta nestes dias em que a massificação das artes leva a colagens sobre colagens. E, por vezes, como um tiro no escuro, alguns trabalhos – neste caso falamos de um disco – podem ajudar a definir uma época, uma conjuntura.

É essa a sensação que ganha forma depois de se ouvir “Shaking the Habitual” uma, duas, dezenas de vezes. A abstracção tolda-se a cada audição, a liberdade musical molda o caminho e as parcas palavras são âncoras que fixam a metáfora musical que é o quarto disco de originais dos The Knife. Embora seja uma peça que, sendo ouvida como um todo, se possa considerar “exaustiva”, é, sem dúvida, uma experiência única. Não é a duração deste disco que o torna especial mas a natureza inquisitiva do mesmo que tem como suporte uma experimentação electroacústica que abana e destrói convenções.

In Rua de Baixo

sexta-feira, 12 de abril de 2013

“NUMA MESMA NOITE“
de LEOPOLDO BRIZUELA

Memórias de uma ditadura omnipresente




Vencedor do Prémio Alfaguarra 2012, Leopoldo Brizuela é, atualmente, um dos mais reconhecidos autores sul-americanos. Natural de La Plata, perto da capital argentina, acumula o vício de escrever romances com a colaboração em publicações como o Le Monde, El Pais e a Folha de S. Paulo, sendo também um reconhecido tradutor de nomes internacionais como Henry James ou Eudora Weltry.

No seu percurso académico, Leopoldo Brizuela estudou Literatura na Universidade de La Plata e, com apenas 17 anos, escreveu o primeiro romance, “Tijiendo Agua”, obra que lhe valeu o Prémio Fortabat. Mais tarde, em 1999, voltaria a atingir outro importante galardão literário, desta vez o Prémio Clarín de Romance, com “Una Fábula”.

Entre as suas inúmeras deambulações pela escrita, Brizuela é também um profundo conhecedor da cultura portuguesa, tendo mesmo lançado uma obra poética em 1995 denominada “Fado”. O seu fascínio pela língua de Camões viria a ser premiado quando, em 2001, recebeu uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian de forma a aprofundar o seu conhecimento pela alma lusitana.

Para (com)provarmos o talento do autor argentino, chegou recentemente às livrarias portuguesas “Numa Mesma Noite”, obra que levou o exigente júri do Prémio Alfaguara a atribuir o seu mais alto galardão a este brilhante livro, em 2012, que será distribuído em 19 países cujo castelhano é a língua materna. Por cá, a edição é da responsabilidade da Objectiva, e o mercado nacional tem agora mais uma obra do autor em português depois de “Lisboa, Um Melodrama”.

No que toca às linhas gerais deste romance, estamos perante uma história escrita de forma irrepreensível, que tem na sensação de um desagradável dejá vú o rastilho para uma aventura que evoca fantasmas políticos da história da Argentina durante o último quarto do século XX.

O início do livro leva-nos até uma madrugada de 2010, quando alguém testemunha um assalto a uma casa vizinha. Aparentemente tratava-se de um vulgar roubo mas, na verdade, tal acontecimento foi levado a cabo por um grupo organizado com acesso a segredos bancários, altamente experiente na desativação de alarmes sofisticados, com vários carros a patrulhar a área e com uma unidade forense.

No dia seguinte, em conversa com os vizinhos, Leonardo Diego Brazán, o escritor que de forma involuntária presenciou todo o acontecimento, descobre que os “ladrões” eram, na verdade, agentes policiais, e as vítimas uma família abastada. Vasculhando na memória, Leonardo revive uma experiência semelhante, vivida há 34 anos, e que ele é a única testemunha que pode fazer luz sobre tal bizarra “coincidência”.

Tal acontecimento remonta a 1976, primeiro ano de uma ditadura que viria a assolar o povo argentino e, coincidência ou não, a mesma casa foi tomada de assalto por uma elite policial que procurava Diana Kuperman, uma advogada associada ao Grupo Graiver – uma empresa ligada à banca e indústria – e que foi vítima de tortura psicológica por parte das forças governamentais. Para além do referido castigo, Kuperman foi também delapidada do seu império do qual fazia parte a empresa “Papel Prensa”, fábrica que fornecia a matéria-prima para grande parte da imprensa nacional, devido à intransigência sem escrúpulos de uma figura impiedosa conhecida como ditadura armada.

Na altura, apanhado de surpresa com apenas 13 anos -quando o piano era o seu maior refúgio -, Leonardo, hoje escritor, revive os mesmos acontecimentos mas com a clarividência fornecida pela idade e decide escrever um romance, de forma a delinear uma qualquer justificação que possa explicar a origem de tais eventos. Se durante a década de 1970 o crime caiu num conveniente esquecimento, 34 anos depois a memória ganha vida e, as revelações que advêm da investigação, podem pôr em causa aquilo que existe de mais sagrado, inclusive a própria família.

Será possível que, décadas depois, uma estrutura criminosa resolva fazer renascer os ideais entretanto perdidos no tempo? Como será que a opinião pública reagirá numa conjuntura que reclama justiça com “armas” que a democracia lhe devolveu? Será que um retrocesso ao passado pode reabilitar o presente?

Em jeito de demanda pessoal, Leonardo corre atrás de pistas que vão levar-nos a conhecer labirintos onde a razão perde a batalha face ao poder da brutalidade, da tortura, da difamação, do assassinato, do crime. A memória do escritor assume-se como o maior antídoto contra as organizações mafiosas, que tendem a toldar a realidade à sua medida e necessidade.

Para além de procura elementos que permitam contar uma estória que pula entre o passado e o presente, Leonardo persegue pormenores que tornem possível a sua libertação face a um acontecimento que insiste em residir na sua cabeça.

No fundo, este romance de Leopoldo Brizuela explora de forma exemplar o crescimento de um personagem que assume três papéis fundamentais, sem ordem hierárquica, no desenrolar e culminar da trama: narrador, detetive e vítima. Em “Numa Mesma Noite” ficamos a conhecer os dramas de um cidadão anónimo, que se vê arrastado numa miríade de acontecimentos que apenas poderá ser vencida tendo por base a capacidade para expressar a sua revolta e afastar os fantasmas que a cobardia pode ser sinónimo.

Um livro obrigatório para quem gosta de um thriller inteligente e que cresce de emoção e sentido a cada página, condensando num só registo dois acontecimentos que unem passado e presente numa dicotomia assente na mestria da linguagem peculiar e precisa de Leopoldo Brizuela.

In Rua de Baixo

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Flamming Lips
“The Terror”

Aventura cósmica no reino experimental



Nascidos em Oklahoma no início da década de 1980, os Flamming Lips são um dos fenómenos mais bizarros do contexto musical do universo audiófilo. O som gerado por Waine Coyne e seus companheiros de luta vagueia entre o psicadélico e o rock, entre a realidade e a ilusão, entre o planeta Terra e o espaço sideral.

Do trio inicialmente formado por um vocalista, um baixista e um guitarrista, e que procurou desesperadamente por alguém que ocupasse a bateria, ficam apenas as memórias e hoje, aquando do lançamento de “The Terror”, o décimo terceiro álbum da banda, encontramos um grupo de cinco pessoas que tentam fazer música sem rede e receios de falhar.

Depois de uma carreira que lembra uma montanha-russa de emoções, desilusões, apontamentos pop e até - espante-se - alguns êxitos comerciais, os Flamming Lips estão hoje muito longe dos rapazes que entraram num episódio da série "Beverly Hills 90210" em 1993 e cantaram “She Don’t Use Jelly”, o maior sucesso comercial do grupo. Mas afinal o que são hoje os Flamming Lips?

Antes deste “The Terror”, o último registo da banda data de 2009. Na época, “Embryonic” representou, de certa forma, um (re)despertar cósmico de Coyne e comparsas que os levava para territórios experimentais e onde a lógica sonora era um mero jogo de espelhos e sonhos destorcidos pelas letras acutilantes do mentor e vocalista da banda. Definitivamente, a banda afastava-se de um “perigoso” enclave de easy-listening erigido por discos como “The Soft Bulletin” (1999) e “Yoshimi Battles the Pink Robots” (2001), sendo que “At War of the Mystics” (2006) funcionou como ponte entre os dois andamentos musicais do grupo de Oklahoma.

“The Terror” pega no que “Embrypnic” deixou e afunda-se num mar de experimentalismos e tensão claustrofóbica, ainda que com uma sonoridade mais aberta. Segundo o líder da banda, estamos perante “uma obra de ambiente retro-futurista sci-fi”. A escuridão é agora totalmente explorada e os Flamming Lips arrastam-se, positivamente, para momentos de depressão maníaca acompanhada por filigranas de desconstrução pop. As letras de Coyne apontam na direção da dor, da perda, sentimento que acompanha o vocalista que se encontra a atravessar um período complicado devido ao divórcio.

Ao longo de pouco menos de uma hora, “The Terror” assemelha-se a uma viagem interior onde cada uma das nove composições do álbum indica caminhos onde o nevoeiro se dissipa através de espelhos maquinais, onde elementos sonoros alicerçados em potentes riffs sintéticos nos guiam por loop’s sem fim.

O exercício auditivo que ”The Terror” abre-nos a mente e, por entre destroços da memória, encontramos pedaços das aventuras lunares dos Pink Floyd, bem como traços minimalistas e utópicos dos futuristas Atoms For Peace. O que se faz ouvir em “The Terror” não é - cremos - um destino em si mesmo mas, pura e simplesmente, um desvio desse caminho.

No que toca ao som do disco propriamente dito, com a produção a ficar novamente à responsabilidade da própria banda como também de Dave Friedmann e Scott Bokker, a faixa de abertura “Look…The Sun is Rising” lembra um lamento maquinal, distorcido eletronicamente, mas com uma melodia sagaz que torna a voz tímida de Coyne numa prece dilacerada pelas guitarras cortantes.

Sendo mais um performer que cantor, facto facilmente comprovado por quem já teve o privilégio de assistir a um devaneio musical ao vivo dos Flamming Lips, Wayne Coyne agarra-se ao microfone em “The Terror” de forma mais segura. Em “Be Free, a Way” a voz do “rapaz da bolha” assume a forma de um canto omnipresente que se estende e ecoa ao longo dos restantes minutos do álbum. A suavidade da música feita ambiente ajuda a preservar as palavras neste que é um dos momentos mais calmos de “The Terror”. O inesperado lirismo das referidas cordas vocais continua o seu trilho em “Try To Explain”, e transforma a composição numa celebração sonora.

Eclético, imprevisível e com uma estrutura em constante movimento e alteração, “The Terror” pisa caminhos que extravasam a linha espaço-temporal. “You Lust” carrega baterias nos sintetizadores, com a ajuda preciosa dos convidados The Phantogram, e o som mágico registado algures na década de 1980 invade a toada experimental e ambiental e de certa forma noise desta faixa. Coyne, sussurra: “Lust to Succeed…”, e os nervos auditivos despertam de um sonho letárgico. A faixa-título continua com a mesma bitola e junta-lhe uma batida sincopada, por vezes assaltada por descargas electrónicas e vozes fantasmagóricas.

A experiência continua com “You Are Alone”, uma malha sonora presa a ecos embrionários, a fazer lembrar os mais recentes tiques sonoros de Thom Yorke. De forma minimalista e muito negra, a música evoluiu para lugares que chamam pelo êxtase da solidão versus presença - uma dicotomia provocada pela abstinência de uma razão plausível.

Ao chegar a “Butterfly, How Long it Takes to Die” a escuridão desvanece um pouco e vislumbra-se uma luz, ainda que ténue. As linhas mais opressivas dão lugar a sons mais luminosos. São estas alterações, estes tiques bipolares, que servem de âncora para acompanhar a oscilação temperamental, ainda que singela, dos estados de espírito existentes em “The Terror”. O final de “Butterfly…” é hipnótico e é sem surpresa que ao mesmo surja colado “Turning Violent”, outro momento onde a inépcia e a apatia encontram réstias de esperança na voz de Coyne. Em segundo plano, os sons misteriosos sobem e descem à medida do desejo dos seus criadores.

O disco termina com “Always There, In Our Hearts”, a faixa que mais se aproxima da sonoridade mais “inacessível” de “Embryonic”. Aqui a bateria e as guitarras assumem o controlo das operações a meio da faixa, acabando com um som loop a fazer lembrar algumas paisagens sonoras de uns The Young Gods mais ambientais.

Depois de quase três décadas dedicadas à música, o núcleo duro dos Flamming Lips tem razões para se sentir satisfeito com o resultado final de “The Terror”, pois este registo mostra uma banda que não perdeu a criatividade e a vontade de se redescobrir. A sonoridade deste disco coloca-o num grupo restrito de trabalhos onde a indefinição propositada é o móbil da criação. Mais uma vez, os Flamming Lips convidam os seus seguidores a deixarem a zona de conforto auditiva, proporcionando uma experiência sonora ímpar onde o experimentalismo e o noise são figuras de proa. Estamos perante um dos mais marcantes ovnis musicais dos últimos anos e que, certamente, vai assumir papel de destaque na já longa discografia de um grupo que teima em abraçar o futuro.

Alinhamento:

01.Look… the Sun Is Rising
02.Bee Free, a Way
03.Try to Explain
04.You Lust
05.The Terror
06.You are Alone
07.Butterfly, How Long it Takes to Die
08.Turning Violent
09.Always There, in Our Hearts

Classificação do Palco: 8/10

In: Palco Principal

domingo, 7 de abril de 2013

CRISTINA BRANCO
no TEATRO S. LUIZ

Uma noite de doces ilusões




Depois de iniciar a apresentação do seu mais recente trabalho denominado “Alegria” por terras de Bélgica e Noruega, foi a vez da magnífica e aconchegante sala lisboeta do S. Luiz servir de palco para a apresentação portuguesa de um dos álbuns mais marcantes da cantora ribatejana.

Um pouco como que a provar a universalidade e diversidade da música desta eterna menina com voz de mulher, pelos corredores do S. Luiz ouvia-se Castelhano, Francês, Inglês e, um dos idiomas mais bonitos, o riso de algumas crianças que se misturavam com os mimos recebidos por pais e avós.

As portas abrem e a plateia e os camarotes enchem de forma rápida ficando apenas vagas algumas cadeiras para audiófilos de última hora. Se na rua o vento frio convidava a levantar golas e a fechar casacos, dentro da sala o ambiente estava na temperatura certa. No palco, luzes de tonalidades escuras abriam espaço para o piano, o contrabaixo, a viola e a guitarra portuguesa.

O relógio passava já das 21 horas e aguardava-se, tranquilamente, a entrada dos artistas. Até que as luzes extinguem-se, o burburinho da sala termina, o silêncio é apenas quebrado pelas palmas que recebem os músicos. Cristina Branco entra em palco por último e recebe uma (merecida) ovação. O piano rompe a inércia, a guitarra portuguesa acorda e canta-se «Lenço de Carolina», uma das mais bonitas músicas de “Alegria”, o disco que, de forma esperada, mais de ouviu na noite de ontem.

Ainda que a “jogar em casa”, Cristina Branco mostrava tiques de um nervosismo que tem o condão de a tornar ainda mais humana, ainda mais bonita. As complexas e por vezes longas letras de algumas das canções deste “Alegria” obrigavam a cantora a recorrer às cabulas de uma partitura sempre presente.

Mais interventiva que nunca, Cristina Branco, e antes de se ouvir «Alice no País dos Matraquilhos», um original de Sérgio Godinho, a menina de Almeirim fez questão lembrar a todos que “ser feliz é, acima de tudo, um acto cívico”. O convite à felicidade, pelos menos auditiva, foi uma constante na noite e os maravilhosos músicos que acompanham Cristina Branco foram grandes responsáveis por tal estado. «Alice…» desabrocha com o contrabaixo e a guitarra portuguesa a liderar para depois serem acompanhados pelas teclas.

«Trago um Fado» de “Kronos” (2009) foi a primeira incursão a outros trabalhos que contam na discografia de Cristina Branco e o fado, que fica tão bem com o timbre vocal da cantora, encheu a alma dos presentes. A vitalidade da voz de Cristina Branco torna-se cristalina e o tal nervoso miudinho vai desaparecendo de forma ténue.

Seguiu-se «Invitation au Voyage», de “Não há Só Tangos em Paris” (2011), um poema de Charles Baudelaire musicado de forma sublime com destaque para os acordes saídos da guitarra portuguesa de Bernardo Couto. Apesar de não se cantar na língua de Camões, sente-se a alma lusitana. De regresso a “Alegria”, é a vez de se ouvir a canção-fábula de «O Palhaço e o Ministro». O piano de Ricardo Dias toma a dianteira, mas aos poucos a guitarra portuguesa e o contrabaixo aparecem de mansinho.

Coube a Fausto Bordalo Dias a próxima homenagem da noite. «Foi por Ela», segundo Cristina Branco, evoca quem é obrigado a sair da cidade amada em busca de outros destinos. Ao ritmo swingado da sua voz, Cristina ensaia um tímido passo dançado. «Cândida» faz a ponte para «Alegria» e relata-se uma alma à beira do colapso que foge da realidade dorida e tenta saborear o sabor do conforto, ainda que por uma última vez. Ouve-se que “já não há condições para doces ilusões”, mas a esperança é um sentimento que reina no S. Luiz.

«Miriam», outra das personagens de “Alegria”, uma espécie de “Robin dos Bosques à portuguesa, habita no Chiado e traz a esperança na mochila”. Metaforicamente, ou não, é isso que sentimos quando se ouve Cristina Branco a cantar, uma vontade de acreditar na mudança, na solidificação do bem. Os aplausos são muitos e aumentam ao ouvir-se os primeiros acordes de «Construção» um clássico de Chico Buarque agora revisitado em “Alegria”. O dramatismo da guitarra portuguesa percorre o palco a cada acorde e o coro masculino que “substitui” a voz de Cristina Branco valeu um dos mais fortes aplausos da noite.

Timidamente sorridente, Cristina Branco apresenta «Fria Claridade», um poema de Pedro Homem de Melo que faz o fado regressar ao S. Luiz e a voz ganhar corpo, elevar-se. Depois, qual velocista em vestido de noite, a cantora acelera para trás do palco com Ricardo Dias, seu companheiro de músicas e vida, e é a vez da guitarra portuguesa brilhar num instrumental a roçar a perfeição. O contrabaixo ajuda e a viola de Carlos Manuel Proença deixa o anonimato.

O regresso da cantora ao palco foi sinónimo de canção de embalar com «Laurindinha», uma das mais bonitas canções de “Não Há Só Tangos em Paris”, e depois «Cherokke Louise», um original de Joni Mitchel que traz de novo “Alegria”. Ao vivo esta canção ganha novos contornos e fica mais desinibida do que na versão de estúdio.

Sérgio Godinho “volta” de novo ao S. Luiz com «Bomba Relógio», uma faixa que faz parte do alinhamento de “Kronos” e Cristina Branco faz, e muito bem, um verdadeiro exercício respiratório devido à métrica especial das composições de Godinho. Depois, «Branca Aurora», a resposta de Jorge Palma ao seu «Jeremias», traz uma personagem sem identidade, sem cartão de cidadão e idade, entregue a si mesma em busca de futuro. Cristina Branco suspira, respira fundo e ataca a partitura e ultrapassa as dificuldades do poema de Palma com algum nervosismo à mistura.

O maravilhoso fado «Água e Mel», outro dos grandes momentos da noite, arrancou bravos e fortes aplausos a um público completamente entregue à doçura da música que enchia alma e corações da gente que, afortunadamente, se encontrava no S. Luiz. «Havemos de ir a Viena» é a senhora que se segue e a mestria de Pedro Homem de Melo encontra um excelente porto de abrigo nas cordas vocais de Cristina Branco e na musicalidade dos seus companheiros de palco.

Palmas, muitas palmas e no silêncio depois das mesmas, Cristina Branco, antes de se entregar de forma magnífica a «Meu Amor é Marinheiro», de “Corpo Iluminado” (2001), faz um aviso à navegação: “a melancolia mata aos poucos”. Sentada no banco de Ricardo Dias, Cristina Branco contempla o piano, passeia pelo palco e a voz ganha corpo ao cantar “…coração que nasceu livre não se pode acorrentar”. No final, apresenta os seus músicos que abrilhantam o momento com pequenos mas sólidos solos. Os músicos deixam o palco mas os aplausos intensificam-se e o regresso ao palco é feito instantes depois.

Agora com um grande e merecido sorriso nos lábios, Cristina Branco e seus pares voltaram ao palco para presentear a audiência com mais dois temas. Antes de «Petição do Farias…», outro momento retirado de “Alegria”, Cristina Branco aproveitou a ocasião para criticar os governantes sobre o menosprezo que este executivo tem em relação à cultura, aquele que é um dos maiores legados nacionais. O público assinou, de facto, a petição e aplaudiu de forma veemente. A última da noite foi a lindíssima «Os Teus Olhos São Dois Círios», um fado que traz para dentro do íntimo do ouvinte a dor e o sentimento de quem o canta.

In Rua de Baixo

sexta-feira, 5 de abril de 2013

PALMA VIOLETS
“180”

Ao ritmo da garagem




Quando, em 2001, uns rapazes de Nova Iorque editaram um álbum de nome “Is This it”, muitos gritaram que estávamos perante os novos mestres do garage rock. Faixas como «Last Nite» ou «Hard to Explain» faziam os nostálgicos do movimento punk saltar de alegria e colocar Julian Casablancas no pódio das vozes mais cool do novo milénio.

A energia e a honestidade da música dos The Strokes voltou a pôr muita gente a ouvir, por exemplo, Sex Pistols, The Clash e os The Replacements. As guitarras sem artifícios e o som cru da bateria faziam ligação directa ao coração do ouvinte. Um pouco por todo o globo surgiam projectos interessantes como os The Libertines, Arctic Monkeys ou The Vaccines.

Cerca de uma década depois desse fenómeno, a consagrada publicação britânica New Musical Express atribuiu a «Best of Friends» o galardão de melhor canção do ano de 2012. Já neste ano, a banda responsável por tal feito actuou no reputadíssimo festival SXSW e quem teve o privilégio de estar em Austin, Texas, a 16 de Março último testemunhou um excelente concerto de rock and roll.

Os Palma Violets, sim é deles que falamos, saltaram, em pouco mais de um ano, de Lambeth, no coração de Londres, para as bocas do Mundo. Samuel Thomas Fryer (guitarra e voz), Chilli Alexander Jensson (baixo e voz), Jefferey Peter Mayhew (teclas) e William Martin Doyle (bateria) tornaram-se num ápice na next big punk thing britânica e editaram “180”, um álbum cheio de vitalidade, influências e pujança.

O mérito é todos deles, indiscutivelmente, mas o hype que se formou em torno do quarteto pode ser uma faca de dois gumes. O futuro dirá se estamos perante um colectivo consistente ou não mas o certo é que “180” acerta em cheio. As 11 faixas que constituem o disco de estreia dos Palma Violets fazem as delícias dos fanáticos do rock puro.

O álbum começa da melhor maneira possível com a excitante, viciante e delirante «Best Of Friends», um verdadeiro hino punk repleto de uma energia feroz e uma letra que agarra desde logo quem ousa ouvir esta música. “I wanna be you best friend / I don´t want you to be my girl” grita-se a plenos pulmões, a bateria sobe de tom e a guitarra segura o tema e tem mesmo direito a brilhar com um solo.

«Step Up for the Cool Cats» continua a festa dos Palma Violets e o som do órgão de Jefferey traz à memória alguns tiques dos Arcade Fire e os exercícios idiossincráticos de Ray Manzarek, responsável máximo pelo som psicadélico dos The Doors. Apesar de nos aproximarmos de uma toada mais morna que a primeira faixa do disco, tanto «Step Up for the Cool Cats» como «All the Garden Birds» são temas consistentes, sendo este último acompanhado por uma fantástica linha de órgão durante um refrão pautado por muita rabugice.

Já «Ratllesnake Highway» acelera as pulsações e os Palma Violets invadem o território sagrado dos The Clash com umas pitadas do som psicadélico oriundo das teclas. «Chicken Dippers» varia os níveis de contenção sonora e traz algumas doses de humor e gritos enquanto a bateria e a guitarra soltam a raiva aquando do enérgico refrão.

«Last of the Summer Wine» é outra das grandes canções deste disco e começa, mais uma vez, com um órgão demente que vai perdendo o espaço para as guitarras soltas à lá Jesus and Mary Chain que a meio da contenda partilham a preponderância com a bateria e depois a voz. Aqui canta-se a procura, um objectivo repetido, um amor perdido. “I’m seaching for something / Something i love! … Over and over again”.

Sendo este o primeiro disco da banda, também se sente que os Palma Violets se questionam, buscam uma identidade. O próprio uso, e por vezes “abuso”, das linhas de teclado deixam no ar a dúvida. Se em faixas como «Best Of Friends» o casamento entre guitarras e órgão resulta em pleno, noutros casos o som sorumbático do sintetizador retira o poder e alma ao próprio som dos restantes instrumentos.

De volta ao ambiente mais cru e rock, «Tom the Drum» é um puro exercício narcisista e altruísta com o baixo em grande destaque. Perto do final da faixa, os Palma Violets dão-se ao luxo de aplaudir os próprios egos e soltarem um “Fucking brilliant!” entre o som de palmas. A seguir, a bem-disposta «Johnny Bagga’s Donuts» traz uns pozinhos gospel e muito rock and roll.

«We Found Love» é mais uma das grandes canções deste disco e aqui e ali, dizemos nós, sentimos a presença de espírito de um Springsteen dos finais da década de 1970 ou dos The Velvet Underground por entre uma letra dolente e gemida (“…gonna find myself a ladyfriend and stick by her until the end”). Ainda com um espírito de coração partido «Three Stars» mostram uns Palma Violets mais calmos, em ritmo de balada de baile de finalistas, ainda que no final se oiça um grito e a guitarra e a bateria busquem outros ritmos.
O disco encerra com «14», outro momento intimista que volta a juntar na perfeição voz e restantes instrumentos. O refrão cola-se aos canais auditivos e aquela que é a canção mais longa do disco, com quase oito minutos (!), vai crescendo de forma segura, por vezes caminhando por universos mais experimentais, algo que metaforicamente se deseja em relação à música dos Palma Violets.

Não sendo uma obra-prima, “180” é um disco seguro, no qual se acredita. As músicas deste álbum de estreia – algumas delas a roçar o genial – têm força e tornam este registo num patamar elevado. Para isso muito contribui a produção de Steve Mackey, baixista dos Pulp, que conseguiu colocar o som de “180” perto do registo “ao vivo”, conferindo veracidade à música dos Palma Violets, como se estivéssemos a assistir a um concerto. E é essa a alma que o espírito punk de músicas como «Best Of Friends» e «Tom the Drum» precisam. Dificilmente teremos outro disco de estreia como este em 2013. Querem apostar?

In Rua de Baixo