sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

De 2013, para mais tarde recordar

Discos lá de fora

Vampire Weekend – Modern Vampire of the City
Nick Cave and the Bad Seeds – Push the Sky Away
You La Tengo - Fade
These New Puritans – Field of Reeds
Arcade Fire - Reflektor

Discos cá dentro

Linda Martini - Turbo Lento
Noiserv – A.V.O.
Gisela João – Gisela João
Beautify Junkards – Beautify Junkyards
Valter Lobo - Inverno

Músicas ao vivo

Vampire Weekend - Optimus Alive
Scott Matthew - CCB
Dead Can Dance - Coliseu de Lisboa
Yo La Tengo – Aula Magna
Anna Calvi - Aula Magna

Novos sons lá de fora

Daughter
Savages
Palma Violets
Deap Vally
Jagwar Ma

Novos sons cá de dentro

Gisela João
Valter Lobo
Ciclo Preparatório
Tape Junk
Beautify Junkyards

Livros para alimentar a alma

Afonso Cruz - Livro do ano
Afonso Cruz - Para onde vão os guarda-chuvas
David Machado - Índice médio de felicidade
Valter Hugo Mãe - A desumanização
Herbjorg Wassamo - A casa com alpendre de vidro cego

Filmes gravados na memória

Temporário 12 - Destin Cretton
A vida de Adèle (Cap 1 e 2) - Abdellatif Kechiche
Para lá das colinas - Cristian Mungiu
A caça - Thomas Vintenberg
Hannah Arendt - Margarethe von Trotta

Aventuras nas consolas

Beyond - Duas almas - PS3 Rain - PS3
Killzone: Mercenary - PS Vita
Tearaway - PS Vita
Fifa 14 - PS3 / PS Vita
The Last of us - PS3

“UM MILIONÁRIO EM LISBOA”
de JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS

A erupção do vulcão arménio



Ainda na primeira metade de “Um milionário em Lisboa” (Gradiva, 2013), José Rodrigues dos Santos ensaia um diálogo entre Kaloust Sarkisian e Sir Kenneth Bark, curador da National Gallery. O tema é a definição de arte portadora da noção de belo e as mudanças desse paradigma depois do flagelo da Primeira Grande Guerra.

Para a conversa convocam-se nomes como Marchel Duchamp, Picasso, Stravinsky, Virginia Wolf, Dostoiévski, Platão e Sócrates. Percorrem-se séculos em poucas páginas e discute-se convenções, ideias, conceitos e revolução das mentes face ao novo, ao diferente. Ainda que não seja, dizemos nós, uma das prioridades deste romance de José Rodrigues dos Santos, a ideia de “formar” o leitor está bem patente nas mais de mil páginas que representam os dois mais recentes livros do autor, que assenta a sua escrita numa base de assinalável e eficaz entretenimento.

Algumas semanas depois de lançar “O Homem de Constantinopla”, chega-nos entretanto “Um milionário em Lisboa”, uma obra ficcionada sobre Calouste Gulbenkian que visa dar seguimento ao primeiro livro e leva o leitor a conhecer um pouco do progresso do “senhor cinco por cento” nos negócios do petróleo, que o tornariam no homem mais rico do mundo, na construção da maior coleção privada de arte que o planeta já conheceu bem como o amor que o arménio desenvolveu pela capital portuguesa, local que serviu de exílio durante a Segunda Grande Guerra.

Este livro dá eco a episódios como a detenção de Sarkisian pela PIDE, a criação da sua fundação homónima, permitindo ainda continuar a viagem pela mente de um dos mais brilhantes homens de negócios que o mundo já conheceu.

Ainda que seja Kaloust o personagem maior deste livro, Krikor, o seu único herdeiro, tem um papel deveras importante na trama, sendo que a primeira metade do livro centra a atenção sobre o atribulado e dramático percurso de vida do jovem Sarkisian que, depois de correr atrás de uma paixão avassaladora por Marjan Kinosian, se vê envolvido numa das mais negras fases da história do século XX, sendo engolido pelo movimento que ficou conhecido por “Genocídio Arménio”, uma marcha de morte organizada pelas forças do Império Otomano que massacrou perto de um milhão de homens, mulheres e crianças de origem arménia.

Fazendo o leitor atravessar alguns dos momentos mais marcantes do século XX, José Rodrigues dos Santos torna “Um milionário em Lisboa” num diário de costumes e vivências de assinalável competência, revelando estratégias de um homem com um ímpar poder negocial que conseguiu domar a seu bel-prazer as mudanças geopolíticas provocadas pela dialética belicista das duas Grandes Guerras e que viu, em Lisboa, um definitivo porto de abrigo, muito por culpa das semelhanças entre o espírito português e o arménio e a arquitetura gémea entre Constantinopla e Lisboa, isto depois de viver alguns dos momentos mais importantes da sua vida em Londres ou Paris.

A escrita cativante de José Rodrigues dos Santos torna a narrativa de “Um milionário em Lisboa” – tal como já tinha acontecido com “O homem de Constantinopla” – num autêntico filme romanceado, que não dá tréguas ao leitor que rapidamente é seduzido por uma estória invulgar onde a ação se divide pelos quatros cantos de um mundo sempre à beira do colapso.

In Rua de Baixo

“ALEX CROSS: A CAÇA”
de JAMES PATTERSON

Em busca do impiedoso gangue felino



Longe vão os tempos em que o norte-americano James Brendan Patterson venceu o prestigiado Edgar Award em 1977 e, desde a edição de “The Thomas Berryman Number”, o autor já vendeu perto de 300 (!) milhões de livros, divididos por 43 países.

A capacidade de escrita de Patterson, uma verdadeira máquina de fazer livros, levou-o a escrever vários géneros. Desde a literatura infantil até aos livros policias carregados de várias camadas de mistério, ação, aventura e suspense, o criador de personagens como Alex Cross fidelizou milhões de fãs em todo o mundo que aguardam com ansiedade cada novo projeto do seu escritor favorito.

Ciente do potencial de James Patterson, a Topseller agarrou com unhas e dentes a possibilidade de editar o norte-americano por terras nacionais e, a prolífera cadência criativa do norte-americano, levou a editora a colocar no mercado 14 títulos deste autor no curto espaço de um ano.

Entre as criações mais procurados do universo de James Patterson destacam-se as coleções “Private: Agência Internacional de Investigação”, “The Women’s Murder Club – (Clube das Investigadoras)”, “Micheal Bennett” e, claro, a série dedicada a Alex Cross.

Depois do sucesso das edições de “Alex Cross” e “Alex Cross: Perigo Duplo”, chega-nos agora “Alex Cross: A Caça” (Topseller, 2013), o terceiro livro da apetecível saga do conhecido ex-agente do FBI, que promete fazer as delícias da sua crescente trupe de fãs.

Mais uma vez, Patterson leva-nos a mergulhar nos meandros de Washington DC, uma cidade desta vez assombrada pela crueldade de um assassino que surpreende os mais frios através da brutalidade da sua ação.

A entrada de Cross neste autêntico inferno acontece quando Ellie Cox, camarada de Alex nos tempos de liceu, é morta e mutilada, assim como os membros da sua família, por um bando em fúria cujos membros, aparentemente, fazem parte de um gangue impiedoso que tem na ameaçadora e misteriosa figura de um homem apelidado de “Tigre” o seu líder.

Aquele que ousa atravessar o caminho de “Tigre” conhece a morte como a consequência de tal atrevimento. Suspeito pelo envolvimento em casos de vendas de estupefacientes, lavagem de dinheiro e ilegalidades várias, “O Gangue do Tigre” tem como imagem de marca brutais assassinatos a sangue-frio cuja intensidade não encontra precedentes na história criminal da cidade.

Sucedem-se os crimes, morrem famílias inteiras cujos corpos são alvo de violentos atos de crueldade e, perante tal cenário, Cross – na companhia de Brianna Stone, a sua atual cara-metade – envolve-se num dos mais intricados e perigosos casos da sua carreira que o levam a embrenhar-se no mortífero submundo de Washington DC e que, num ápice, pode tornar o caçador numa inofensiva presa.

Sem armas para enfrentar a poderosa organização, Alex é subjugado pelo “Tigre” e seus homens, sofrendo as mais difíceis provações depois de decidir seguir o terrível bando por terras de África. Qual será o destino de Cross?

É essa a dúvida que leva o leitor a devorar as páginas deste livro, que se revela uma das mais complexas obras do autor trazendo consigo alguns tiques atípicos à obra de Patterson, uma vez que estamos perante um romance que privilegia a ação em detrimento do habitual jogo psicológico presente nos livros do autor norte-americano. Outras das características inovadoras de “Alex Cross: A Caça” é a brutalidade dos crimes praticados pelo gangue felino, que se assumem como insuperáveis doses de horror face às anteriores aventuras escritas por Patterson que, com este livro, reforça a sua condição do mais bem-sucedido autor de policiais em todo o planeta.

In Rua de Baixo

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

ANNA CALVI @ AULA MAGNA

O (EN)CANTO DA SEREIA



Maravilhoso. Esta pode ser uma das formas de adjetivar aquilo que se passou na noite de ontem na quase lotada Aula Magna. Rendido desde a primeira hora, o muito público presente sublinhou com aplausos e outros tiques de devoção cada interpretação da cantora, compositora e exímia guitarrista britânica.

No seguimento da digressão que promove o seu segundo álbum, “One Breath”, Anna Calvi regressou a Portugal para duas datas que, por certo, ficarão na memória dos privilegiados que assistiram aos concertos na Casa da Música e Aula Magna, espetáculos esses que encerram a referida tour.

De aspeto frágil, assente nuns desafiadores saltos altos e trajando elegantemente de vermelho e negro, Calvi enceta uma deslumbrante metamorfose ao pegar na guitarra, elemento ensimesmado da sua própria existência. Por entre registos perto de paisagens sónicas e outros momentos a reclamar o sussurro, a britânica explorou os seus únicos dois discos editados até hoje, gravando na memória dos presentes instantes perto da perfeição técnica e orgânica, com particular destaque para uma voz ímpar e um trabalho de guitarra fantástico.

Depois do público marcar a sua impaciência face a um palco momentaneamente vazio através de gritos de chamamento a Anna Calvi, a pequena diva, acompanhada por um trio de grandes músicos, entrou em palco poucos minutos depois das 22 horas. Com a bateria a marcar o ritmo inicial, “Suzanne & I”, retirado do trabalho debutante de Anna Calvi, numa versão mais calma que a do registo de estúdio, revelou a aparente fragilidade da figura que ocupava o centro do palco, rapidamente ultrapassada quando da guitarra sairam acordes maiores, assentes numa mestria assinalável.

Depois de receber, sorridente, as primeiras palmas do público, Calvi atira-se a uma grande versão de “Eliza”, retirada do recente “One Breath”. Para tocar “Suddenly”, a pequena grande britânica troca de guitarra e a voz doce de Calvi faz a todos percorrer sonhos tranquilos, através de uma doçura intimista, apenas quebrada por alguns momentos de explosão. A seguir, “Sing to Me”, uma das mais belas composição de Calvi, fez sentir laivos do universo musical de David Lynch misturado com fantasmas de PJ Harvey, e o público sente o encanto da sereia.

A assistência não esconde a emoção que se vive na sala e alguém grita: “we love you!”. Sorridente, Calvi agradece e logo a seguir atira-se a um potente “Cry” e, pela primeira vez, sente-se a presença do inconfundível sublinhar de um baixo. Em curtos minutos de genial manobra de uma guitarra que “fala” para quem a escuta, Calvi mostra que é uma das maiores guitarristas do momento. Na verdadeira montanha-russa de sentimentos que é um concerto de Anna Calvi, “First We Kiss”, leva-nos de volta ao fundo de um mar vermelho, cuja intensidade das cordas da guitarra faz a todos flutuar.

Decididamente mais potente e emotiva ao vivo, a música de Calvi procura inspiração em territórios díspares e em “I’ll be Your Man” é o blues a marcar presença. Durante alguns instantes, Anna abandona a frente do microfone e leva a guitarra mais perto da assistência através de um maravilhoso solo de intensidade oscilante. O silêncio reclama espaço e o público respeita o pedido. Antes de tocar “Piece by Piece”, a banda é premiada com uma das maiores ovações da noite e, em forma de agradecimento, oferece intensos minutos groove ao tocar outra das faixas de “One Breath”. “Carry Me Over”, um dos momentos mais “pop” da noite, faz outros instrumentos brilhar e o som irrepreensível da Aula Magna delicia os ouvidos com toques de xilofone, grandes momentos de bateria e teclas, que apenas são profanados com a estática e o feedback da responsabilidade e mestria de Calvi.

Depois, a banda retira-se de palco e Anna, tomando por companhia apenas a guitarra, toca uma assombrosa versão de “Fire”, de Bruce Springsteen. Numa atitude descaradamente sedutora, Calvi faz suar os presentes com uma interpretação agridoce que reclama desejo. Já com a banda novamente em palco, a paixão continua sob a forma de “Desire”, um exercício perfeito que conjuga a arte de bem tocar um instrumento e a magnitude de uma voz surpreendente.

Antes de se retirar pela primeira vez do palco há ainda tempo para “Love Will Be Leaving”, que assumiu contornos de uma saudável jam session.

O regresso ao palco fez-se pouco momentos depois, pois o público não se cansava de reclamar a presença de Calvi e seus pares. Depois de uma hora certinha de canções, música e momentos de grande beleza interpretativa, a serena “Bleed Into Me” e a mais encorpada “Jezebel” confirmaram a excelência do concerto, que terminaria apenas com um fantasmagórico “Blackout”, que contou com um início à moda de um western spaghetti envolto de outro solo marcante e circular de Calvi e que serviu de desculpa para regressar ao placo depois de outra curtíssima pausa.

A ovação final, com todos de pé, mostrou como todos estavam rendidos a um dos melhores concertos que os portugueses tiveram a honra de assistir em 2013 e cuja definição possível pode ser encontrada na primeira palavra deste texto.

Antes da inesquecível atuação de Anna Calvi, esteve em palco “I Have a Tribe”, um projeto de um homem só que aposta na companhia de uma guitarra ou de um piano, conseguindo proporcionar momentos de rara beleza, assentes numa assinalável linguagem corporal e dramatismo. Ao longo de sete canções, das quais de destaca “Monsoon”, assistimos a uma muito interessante e intimista prestação, cujo ambiente toca nos universos de gente como Jeff Buckley ou Justin Vernon. Em jeito de confissão, o enigmático e simpático intérprete revelou que se tratava da sua primeira digressão, sendo que o nome de “I Have a Tribe” deixou o público com água na boca, esperando-se mais novidades do músico e do seu projeto.

Foto: Marta Ribeiro/Palco Principal

In Palco Principal

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

“Um céu demasiado azul”
de Francisco José Viegas

Um policial com sotaque do norte



Numa atitude que nos apraz saudar, a Porto Editora lançou recentemente uma nova edição de “Um céu demasiado azul” (Porto Editora, 2013), um dos mais apetecíveis romances policiais de Francisco José Viegas e que tem como maior protagonista Jaime Ramos, um detetive “tripeiro” da velha guarda que resgata para si o direito de assumir o papel de anti-herói e que tem, nos refinados gostos gourmet, um dos mais marcantes traços do seu perfil.

Outras das personagens que ocupam o universo de Ramos é o seu camarada de luta Filipe Castanheira, um jovem polícia apaixonado pela sua profissão e por uma açoriana que lhe raptou o coração, assim como Rosa, a vizinha do veterano agente da autoridade com a qual partilha uma relação de especial proximidade.

A trama de “Um céu demasiado azul”, livro também publicado no mercado brasileiro, alemão e francês, foca-se na investigação que Jaime Ramos leva a cabo depois de encontrado o cadáver de João Alves Lopes, antigo membro de um partido esquerdista nacional que é também conhecido pelas bem-sucedidas aventuras profissionais no mundo da publicidade. Como ponto de partida, para além da descoberta do corpo da vítima dentro do próprio carro, a dupla Ramos e Castanheira consegue uma série de pistas que os levam a considerar Amélia Lobo Correia, uma stripper itinerante e estudante de filosofia, uma potencial suspeita.

Para desconsolo de Rosa, a demanda de Jaime Ramos em descobrir o assassino de João Alves Lopes leva o primeiro a percorrer terras sul americanas, tendo como cenário Cuba e México. Num autêntica viagem ao passado, Ramos constrói um delicado e intrincado puzzle cujas peças são compostas de corações partidos, traições e sonhos perdidos que têm, como elos aglutinadores, elevadas doses de azar e coincidências que se tornam ainda mais autênticas quando transportadas para dentro de um Portugal mesquinho onde todas as armas são possíveis para um desejado fim.

Um dos homens mais conhecidos do espetro cultural nacional, cujo trajeto profissional o conduziu pela arte de lecionar, pelo jornalismo e pela edição, Francisco José Viegas atinge, dizemos nós, a plenitude da sua escrita com o retrato de um polícia à portuguesa que faz lembrar, por exemplo, o fantástico Mário Conde do cubano Leonardo Padura, através de uma narrativa exemplar e um assinalável requinte, principalmente no que toca ao perfil de Jaime Ramos, um dos personagens maiores da ficção nacional.

Vivamente aconselhado aos amantes do género policial mas não só, “Um céu demasiado azul” é um livro que apaixona, envolve e seduz de uma forma tão natural que, depois de apenas algumas páginas, o leitor desliga-se da realidade que o rodeia e dá por si dentro da ação vivida e sentida ao sabor dos ritmos e paisagens particulares, cujo fascínio é sublinhado pela presença de Jaime Ramos e companhia deveras limitada.

In Rua de Baixo

sábado, 14 de dezembro de 2013

“Temporário 12”
de Destin Cretton

Interrupção (in)voluntária da existência



Um dos grandes vencedores da mais recente edição do SXSW Film Festival, tendo também arrebatado os maiores galardões no Los Angeles Film Festival e no Locarno Filme Festival, “Temporário 12”, escrito e realizado por Destin Cretton é, sem dúvida, uma das mais comoventes peças cinematográficas de 2013 e que tem num elenco praticamente desconhecido do grande público a sua grande mais-valia.

Com um perfil assumidamente indie onde a câmara subjetiva de Cretton ousa entrar na mente dos personagens através de muitos e ajustados grandes planos, “Temporário 12” centra a sua narrativa num centro de acolhimento temporário para adolescentes com um comportamento socialmente desviante que escondem dentro das ainda tenras existências segredos, medos e cicatrizes que os impedem de encarar o futuro de forma risonha.

De forma a conseguir uma ponte entre os jovens, a instituição e a vida fora das suas paredes, Grace (Brie Larson) é uma das mais dedicadas monitoras do centro e tem na sua relação apaixonada com o colega Mason (John Gallagher Jr.) um ponto de equilíbrio para a sua vida também ela manchada com alguns dos tormentos que assolam alguns dos adolescentes internados.

Enquanto alguns dos membros da comunidade lutam dentro de si para conseguir ganhar a necessária coragem para o inevitável abandono da instituição, outros estão a chegar. Se, por exemplo, o revoltado Marcus (Keith Stanfield) vê no festejo do seu 18 aniversário uma fronteira entre a desejada liberdade e o medo desse sentimento, a recém-chegada Jayden (Kaitlyn Dever) não esconde a raiva que lhe rói a alma, sensação essa também parceira de vida de Grace que se revê na atitude desesperada da jovem nascendo assim uma poderosa ligação entre ambas.

De alma e corpo entregue às responsabilidades profissionais, Grace não consegue ser tão pragmática na sua vida e relacionamento com Mason como o faz junto dos membros do centro de acolhimento sendo que os fantasmas do passado impedem que presente e futuro sejam formas verbais presentes no seu vocabulário.

Envolto de uma sensibilidade desarmante, “Temporário 12” coloca a nu os fantasmas e o reflexo dos sentimentos recalcados nas mentes perturbadas dos seus personagens que têm nos já referidos grandes planos um espelho da sua perversidade. Ainda assim entre cenas em que unhas castigam a carne e a automutilação se assuma como um poderoso grito de revolta, existe espaço para diálogos onde o humor, a partilha e a vontade de viver consigam resgatar laivos de uma ténue esperança.

Nesse aspeto o personagem encarnado pela excelente Brie Larson é sublime e Grace consegue criar fortes laços e elevados níveis de cumplicidade ao expor as próprias fraquezas conferindo às jovens almas solitárias uma crescente sensação de “conforto”, pertença e amor-próprio. No fundo “Temporário 12” dá a conhecer vidas sufocadas pela omnipresença da dor psicológica que se estende ao patamar físico.

Para além da mestria de Cretton, convém realçar a importância da banda-sonora de “Temporário 12” da autoria de Joel P. West que em toda a sua plenitude tem como propósito e significado algo mais que uma mera transposição entre cenas. Aqui, a música, muitas vezes num registo acústico ou envolto de uma simplicidade semelhante, representa sentimentos e emoções delicadas e que completam o perfil dos personagens. Se noutros filmes as canções possam transmitir ações e pensamentos impercetíveis pela representação dos atores, em “Temporário 12” West completa as pessoas presentes na tela através dos vários acordes e sons.

Repleto de emoções, honesto, apaixonado e arrebatadoramente simples, “Temporário 12” tem, obrigatoriamente, de figurar entre as listas dos melhores objetos cinematográficos de 2013 sob pena de se ostracizar aquilo que melhor traduz a arte de fazer cinema e que é a “simples” partilha de sentimentos puros.

In Rua de Baixo

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Muse
“Live at Rome Olympic Stadium”

Ao vivo e a (muitas) cores



Depois de seis álbuns de estúdio, dois registos ao vivo, milhões de discos vendidos em todo o mundo e alguns prémios internacionais arrecadados, o trio britânico Muse regressa aos títulos registados durante uma digressão, no caso “Live at Rome Olympic Stadium”, uma muito bem-vinda consequência direta da mais recente tour da banda de Matthew Bellamy, Christopher Wolstenholme e Dominic Howard, a propósito da edição e divulgação de “The 2nd Law”.

Visivelmente orgulhoso do trabalho da banda ao vivo, Bellamy não tem dúvidas em afirmar que “Live at Rome Olympic Stadium” é o reflexo da maior e mais ambiciosa digressão que a banda já realizou. Sem dúvida um dos mais excitantes coletivos rock no registo ao vivo, os Muse são hoje, cerca de duas décadas depois da sua génese, uma espécie de assumidos herdeiros da opulência e magnitude dos Queen, até mesmo do que toca às similaridades sonoras, ainda com as respetivas diferenças e tiques próprios.

Edição em formatos CD/DVD e Blu-Ray, “Live at Rome Olympic Stadium” foi filmado com ajuda da tecnologia 4K, que permite uma fantástica resolução na exibição em salas de cinema, sendo que a versão DVD caseira é sinónimo de um visionamento ultra HD. O registo áudio ousa roçar a perfeição, sendo o som deste disco uma verdadeira obra-prima da técnica, ainda que a voz de Bellamy e a mestria dos instrumentistas da banda ajude, e muito, ao excelente resultado final.

Com dois alinhamentos díspares (CD com 13 temas, DVD com 20 canções mais três extras retirados da digressão norte-americana, assim como um documentário – "The Road" -, que mostra as várias perspetivas de uma digressão) “Live at Rome Olympic Stadium” é uma aconselhável edição e, aproveitando a época natalícia, a prenda ideal, principalmente para os fãs da banda.

Ambas as versões abrem com “Supremacy” e terminam com “Starlight” e, depois de observar atentamente o alinhamento dos registos áudio e vídeo, verifica-se, com alguma surpresa, diga-se, que o seminal “Origin of the Symmetry” é, de certa forma, preterido, sendo apenas possível no formato DVD ver e ouvir “Plug in Baby” e “Feeling Good”, as únicas faixas retiradas do álbum de 2001.

Ainda assim, “Live at Rome Olympic Stadium” apresenta o esqueleto habitual de um disco ao vivo e assume uma natural veia “best of”. “Panic Sation”, com uma interessante intro e um excelente trabalho de baixo de Wolstenholme, que adensa a performance do coletivo, e “Resistance” são dois exemplos da majestade do som atual dos Muse e da energia e dedicação que colocam na sua arte. O som das cerca de 60 mil almas que encheram por completo o estádio romano está deliciosamente misturado com a música e capta na perfeição o frenesim resultante da atuação dos britânicos.

“Hysteria” é um dos momentos mais marcantes do concerto e “Animals” revela a liberdade criativa que um concerto permite, com Matt Bellamy a fazer o que quer da sua guitarra. O épico “Knights of Cydonia”, que se inicia ao dramático som da harmónica de Chris, que interpreta “Man With a Harmonica”, de Ennio Morricone - e que depois de atirar o instrumento de sopro para a multidão corre umas boas dezenas de metros para abraçar o baixo - é outra magnífica interpretação de uns Muse que dominam o palco como poucos.

A união, ou fusão, entre voz e música é impecável e “Explorers” e, especialmente, “Follow Me” levam o ouvinte a estabelecer “óbvias” comparações entre Bellamy e Mercury, sem que nenhum desses protagonistas seja eclipsado. Convém aqui fazer a devida ressalva para a grande forma que Bellamy exibe no que toca ao ato de cantar. O hipnótico “Madness”, cantado em uníssono pela audiência, dá liberdade a Mark para percorrer a passadeira e olhar o público nos olhos antes de pegar na guitarra. Por outro lado, uma audição mais atenta em “Guiding Light” permite ter a certeza da qualidade de som de um instrumento como a bateria, que beneficia das inúmeras vantagens proporcionadas por uma gravação multipistas.

Antes da faixa retirada de “The Resistance”, o mega sucesso “Time is Running Out”, apenas presente na versão DVD, revela o fantástico ambiente vivido na noite de 6 de julho do corrente ano e toda a gente salta ao ritmo de uma das mais emblemáticas canções de “Absolution”. Seguem-se “Supermassive Black Hole” e “Uprising”, fantásticos registos que se assumem ainda mais interessantes que a edição de estúdio pois, ao vivo, os Muse crescem e tornam ainda mais apetecível a sua música.

A honra de fechar este magnífico concerto cabe a “Starlight”, retirada do álbum “Black Holes and Revalations”, e, mais uma vez, é possível ver e sentir a magnitude deste concerto realizado num dos mais fantásticos palcos jamais vistos, que ganha ainda mais brilhantismo com a qualidade ultra HD do registo.

Resumidamente, “Live at Rome Olympic Stadium” é um excelente disco de uma das maiores bandas atuais, ainda que a versão CD merecesse conter mais canções. A interação minimalista de Matt Bellamy junto do público revela uma certa atitude introvertida, mas a entrega do vocalista e restante banda compensa essa lacuna comunicacional, dando ao público aquilo que este mais procura: boa música.

Alinhamento:

CD:
1. "Supremacy"
2. "Panic Station"
3. "Resistance"
4. "Hysteria"
5. "Animals"
6. "Knights of Cydonia"
7. "Explorers"
8. "Follow Me"
9. "Madness"
10. "Guiding Light"
11. "Supermassive Black Hole"
12. "Uprising"
13. "Starlight"

DVD:
1. "Intro"
2. "Supremacy"
3. "Panic Station"
4. "Plug In Baby"
5. "Resistance"
6. "Animals"
7. "Knights of Cydonia"
8. "Explorers"
9. "Hysteria"
10. "Feeling Good"
11. "Follow Me"
12. "Madness"
13. "Time Is Running Out"
14. "Guiding Light"
15. "Undisclosed Desires"
16. "Supermassive Black Hole"
17. "Survival"
18. "The 2nd Law: Isolated System"
19. "Uprising"
20. "Starlight"

Classificação do Palco: 8/10

In Palco Principal

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

“Mandela, o rebelde exemplar”
António Mateus

A maravilhosa história de vida de Madiba



Numa altura em que o mundo ainda chora com pesar o adeus de Nelson Mandela, não existe melhor forma de homenagem do que reviver e sentir o percurso de um homem que ousou lutar contra o poder cego e instituído de uns, em favor de um ideal que se tornou numa das maiores bandeiras no que à solidariedade diz respeito e que teve, como grandes fontes de inspiração, a liberdade e o direito à existência.

E é isso que o jornalista António Mateus faz em “Mandela, o rebelde exemplar” (Planeta, 2013), um livro que tem como propósito afirmar-se como a primeira biografia de Madiba pensada para um público mais jovem, apresentando como uma das suas mais-valias as ilustrações de Nuno Maldonado Tuna.

António Mateus, um dos nomes maiores do jornalismo nacional, é atualmente repórter e correspondente da Lusa e da RTP em Moçambique e Joanesburgo e, para a elaboração deste livro, teve como precioso auxílio os anos de experiência que viveu por terras africanas, continente que lhe permitiu conhecer intimamente a pessoa de Nelson Mandela, tendo tido a honra de o entrevistar assim como a outras personagens da elite política e social africana.

Através de uma escrita direta, concisa, descontraída e apaixonada, Mateus torna “Mandela, o rebelde exemplar” uma obra de leitura obrigatória, não só para um auditório mais jovem mas para todos aqueles que queriam aprofundar o seu conhecimento sobre o homem que encarou de frente a omnipotência do regime do apartheid, dando a conhecer importantes e decisivos pormenores que se estendem da infância de Mandela até à transmissão do seu legado ao mundo, passando pelo relato de algumas experiências de vida de um homem que, mesmo injustamente encarcerado, manteve a paz de espírito e consciência livre de nunca baixar os braços perante qualquer adversidade.

A este olhar humano de um ser que se transforma num líder mundial, alicerçando a sua filosofia de vida em pressupostos como a tolerância e humildade, António Mateus aproveita as páginas deste livro para dar a também conhecer a rebeldia própria de um rapaz nascido em Mvezo, África do Sul, que viu a vida moldar-lhe uma personalidade inicialmente emotiva e egocêntrica.

As últimas páginas de “Mandela, o rebelde exemplar” reservam espaço para uma cronologia do Nobel da Paz, assim como da sua pátria, notas que conferem uma maior contextualização ao seu todo assim como às várias citações que se estendem durante as mais de 150 páginas deste livro extraídas de “Um longo caminho para a liberdade – Autobiografia de Nelson Mandela” e “O legado de Mandela – Quinze lições de vida amor e coragem”, de Richard Stengel, obras que, segundo António Mateus, são fundamentais para alargar ainda mais o conhecimento de um estadista que afasta de si qualquer espetro de “santidade”.

In Rua de Baixo

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

“Coração tão Branco”
de Javier Marias

A dissecação da instituição matrimonial



Madrileno de gema, Javier Marias é um dos mais importantes escritores europeus da sua geração que, para além da sua veia romancista – é autor de livros como “O Teu Rosto Amanhã” e “Homem Sentimental” -, acumula as funções de cronista e tradutor.

Vencedor de vários prémios a nível internacional, Marias tem obras publicadas em mais de cinquenta países e em quarenta idiomas diferentes, tendo vendido mais de seis milhões de livros em todo o mundo.

“Coração tão Branco” (Alfaguara, 2013) é o mais recente título do espanhol a chegar a Portugal sendo, para muitos, um dos seus melhores e mais ambiciosos romances, arrebatando importantes galardões como o Premio Nacional de la Critica, em Espanha, o IMPAC Dublin Literary Award, na Irlanda e o Prix l’Oeil et la Lettre, em França.

Neste livro, Javier Marias analisa os lugares-comuns da peculiar instituição que é o casamento, assim como os segredos e eventuais traições que surgem ao longo da sua existência. Um dos seus personagens centrais é Juan, um afamado tradutor que divide a vida entre a sede das Nações Unidas de Nova Iorque e Haia, passando períodos de seis a oito semanas em cada desses destinos. Também tradutora, Luisa, a sua noiva, encontra-se em Madrid a tratar da casa que servirá de lar para o casal.

Na ausência de Juan, Luisa desenvolve a sua relação com Ranz, o seu enigmático sogro e carismático negociante de arte que, apesar de septuagenário, não perdeu um inato charme que o levou a casar três vezes, ainda que os destinos das suas duas primeiras ex-mulheres estejam envoltos de algum negrume. Se a sua primeira esposa morreu em circunstâncias misteriosas, a segunda, Teresa, suicidou-se pouco depois da lua-de-mel durante um almoço de família.

Apesar da proximidade entre a sua mulher e o seu pai, Juan nunca nutriu grande empatia pelo seu progenitor, mostrando grandes reservas no que toca à relação entretanto desenvolvida entre Luisa e Ranz. A par disso, as recordações da morte da mulher que fora casada com Ranz antes da sua mãe levantam muitas dúvidas, e a tentativa de descobrir esse segredo bem guardado vai suscitar em Juan várias dúvidas em relação ao seu próprio e recente casamento, que provocou no seu espírito dúvidas face à inadaptação do seu novo estado civil.

É o fantasma do passado que mais atormenta a mente de Juan, que teima em não aceitar e entender o facto de o seu pai precisar de casar três vezes para conseguir ter um filho, no caso ele próprio.
Neste romance hipnótico em que são os segredos e as não-revelações a ditar o propósito da uma narrativa carregada de suspeitas e traições, Javier Marias especula e analisa as curiosidades do matrimónio, aproveitando para extravasar filosoficamente o somatório das várias camadas que resultam nas e das relações interpessoais.

Para além deste intrincado e interessante enredo, o maior trunfo de “Coração tão Branco” é o fantástico estilo literário de Marias que, através de frases longas e múltiplas orações, oferece uma escrita lânguida que, apesar de uma aparente “redundância” e repetição, agarra em definitivo a atenção do leitor. Esta peculiaridade circular revela-se determinante na perceção de verdadeiro significado quando se atinge o contexto certo. Exemplo disso é a natureza confessional da narrativa de Juan que, através de um encadeamento de pensamentos, se transformam de inócuos em essenciais e decisivos.

De certa forma, estamos perante um romance que aborda a natureza das relações e como o amor pode ser a chave que vai revelar um segredo, apenas compreendido e desatado com um entendimento e consentimento mútuo.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

THE YOUNG GODS @ TMN AO VIVO

REVIVER O PASSADO EM PORTUGAL




É preciso recuar até maio de 1990 para encontrar o primeiro concerto dado em terras lusas pelos suíços The Young Gods, trio que pratica um som pós-industrial assente na interação entre voz, bateria e um sampler capaz de encerrar dezenas de guitarras ou fragmentos clássicos envoltos de pitadas apocalípticas.

Esse espetáculo, que teve o entretanto desaparecido Cinema Alvalade como epicentro, vinha no seguimento da digressão que resultou da edição do segundo álbum da banda de Franz Treichler e contou com um alinhamento maioritariamente preenchido por “The Young Gods” e “L’Eau Rouge”, com a exceção de “Dame Chance”, a faixa que encerrou o concerto de maio de 1990 e que integraria “T.V. Sky”, disco de 1992.

Como que envolto de uma sensação de déjà vu, o concerto de sexta-feira à noite no TMN ao Vivo voltou a ter os dois primeiros trabalhos da banda no cardápio, mas desta vez não houve espaço para temas compostos depois de “L’Eau Rouge”. Como uma forma de tributo aos fãs de longa data, os The Young Gods baseiam a atual digressão numa saborosa viagem ao passado, apimentada com o regresso de Cesare Pizzi ao sampler, algo que não acontecia há perto de duas décadas.

E era, sem dúvida, a “velha guarda” que lotava quase por completo a sala do TMN ao Vivo e, por entre conversas e abraços, recordava antigos concertos dos suíços em Portugal, sendo que a já referida presença no Cinema Alvalade era, a par do concerto dado na Voz do Operário, em 1992, a passagem mais saudada.

Após a saída de palco dos Tape Junk – dos quais falaremos umas linhas mais abaixo – a agitação em palco era muita e trabalhava-se em prol da atuação do trio suíço. A bateria ocupava a posição mais recuada enquanto a maquinaria de Pizzi reservava o lado direito do palco. Ao centro, o micro de Franz sentia a solidão temporária do seu dono e mentor, mas tinha por companhia o habitual holofote que apontava para o céu. O público, maioritariamente trajado de negro, ainda que salpicado por nuances rubras, esperava pela entrada da banda, que pisaria um palco envolto de um nevoeiro artificial. Aqui e ali ouviam-se tímidos sons de chamamento, em forma de assobio. No PA tocavam os The Smiths e, perto do seu final, “There is a Light That Never Goes Out” era interrompida para a entrada dos “jovens deuses”.

Apenas ainda com Franz e Cesare em palco, sentem-se os primeiros sons de “C.S.C.L.D.F”, faixa que encerra o álbum debutante dos The Young Gods e que na noite memorável da última sexta-feira iniciou os cerca de 90 minutos de grande música, emoção, potência e magia. Enquanto Pizzi manobrava a sua máquina de forma a conferir um ambiente de assinalável negrume e tensão envoltos numa tempestade metálica, a voz cavernosa de Treichler enchia essa melodia de forma segura e ímpar. As palmas conseguidas no final do tema serviram de antecâmara para a entrada de Bernard Trotin para a bateria e “Jouqu’au Bout” encheu a sala de um semblante marcial.

Ainda a explorar o filão “The Young Gods”, ao terceiro tema o público é brindado com a emblemática “Fais la Mouette”, que na sua génese liberta uma nova luz sobre uma plateia deliciada e completamente entregue às descargas sonoras de Pizzi, acompanhado pelo groove de Trotin. No centro do palco, Treichler ensaia o voo da gaivota e evoca fantasmas e espíritos através de uma desconcertante coreografia acompanhada pela constante alternância entre o sussurro e o grito. “The Irrtum Boys” continua a prestação segura e por vezes “sôfrega” do trio, sublinhada pelos disparos de “canhão” que saíam da bateria.

Com alguns agradecimentos poliglotas pelo meio, chega a vez de Franz apresentar a velocíssima “Jimmy”, que fez saltar todos os presentes. Os The Young Gods estão num grande momento de forma e a voz de Treichler continua entrelaçada com um poderoso misticismo que, a par do excelente som que se sentia no TMN ao Vivo, tornava a noite num episódio de industrial perfeição. E sem qualquer assombro de tréguas, “A Ciel Ouvert” adensa a escuridão e faz com que a sombra musical saída das mentes dos três suíços que ocupavam o palco se transforme num momento enigmático.

Palmas, assobios, devoção. Eis algumas palavras que retratavam o ambiente que agora adquiria tonalidades avermelhadas, pois estávamos prestes a sentir a primeira canção retirada de “L’Eau Rouge”. Franz Treichler ataca as primeiras frases desta “chanson rouge” enquanto a bateria, agora suave, de Trotin aguarda a chegada das “guitarras” libertadas pelo sampler de Pizzi. E como era a saudade um dos maiores sentimentos vividos na sala, “Did You Miss Me” regressa ao trabalho debutante da banda através de um registo hipnótico e minimal, sublinhado com uma das maiores ovações da noite.

Visivelmente sorridente e emocionado, Franz vence as palmas ao anunciar “Percussionne”, que nos primeiros momentos não contou com a presença do baterista, que se havia rendido à sinfonia caótica resultante dos dedos de Pizzi, que, ainda assim, reclamava pelas batidas assimétricas de Trotin, que surgiriam a meio da prestação. Treichler aproveita a ocasião e encarna a pele de um verdadeiro xamã e vivem-se alguns dos minutos mais intensos da noite.

“Crier les Chiens” e “Pas Mal” fazem regressar mais eletricidade ao placo e presta-se a devida vassalagem a “L’Eau Rouge”, para muitos o mais emblemático disco da banda. “L’Amourir” continua a doce exploração do álbum de 1989 e a atmosfera é envolvida por um ambiente perturbador, que tem nas batidas de Trotin o seu maior filão. Testa-se o limite do audível e ousa-se passar a fronteira do humanamente suportável. O público reage com uma intensa chuva de palmas. Antes da primeira saída de palco, “Si tu Gardes” faz regressar tonalidades marciais, sentindo-se uma simbiose particular na articulação entre instrumentos orgânicos, sintéticos e voz.

A ausência do palco revelou-se curta e, antes do trio atacar mais algumas peças musicais, Franz Treichler falou no porquê desta nova digressão, realçando a importância dos primeiros discos da banda, e agradeceu a todos os presentes num português muito aceitável. Depois, “Feu”, já a seguir da meia-noite, e, principalmente, a rapidíssima “Envoyé!” provocavam momentos de grande agitação na plateia. Franz dançava de forma frenética e contagiava os presentes. A cumplicidade entre público e banda, que trocavam mimos entre si nas primeiras filas, evitou a precoce saída de palco do trio, que atacou de imediato uma magnífica prestação de “La Fille de la Mort”, uma das composições maiores da banda e que é sinónimo de síntese da magistral forma como os The Young Gods fazem a sua ímpar arte. Era o ocaso do um excelente concerto, que bem pode figurar entre os melhores momentos proporcionados pela banda suíça em Portugal.

Antes da prestação dos The Young Gods, o palco esteve entregue aos portugueses Tape Junk, que editaram recentemente “The Good & the Mean”, o primeiro álbum da banda de João Correia, que também empresta a sua voz aos Julie & the Carjackers e ajuda na bateria de Márcia, Frankie Chávez e Walter Benjamin.

Durante cerca de meia hora, os Tape Junk deram um muito interessante concerto, no qual as letras diretas e pessoais de Correia têm como importante aliado um som que navega entre influências country e um certo indie rock norte-americano, que tem nos Pavement e Beck as maiores referências. Acompanhado por Nuno Lucas no baixo, António Vasconcelos na bateria e Chávez na guitarra, João Correia serviu-se do microfone e da sua guitarra semi-acústica para atacar canções como “99 Year Blues”, “The Good & the Mean”, “No Romance Without Finance” ou “Buzz”.

Todos os instrumentos brilham e sabem ocupar os múltiplos espaços deixados pelos companheiros de som e a música dos Tape Junk ao vivo é mais “agressiva” do que no registo de estúdio. Por entre os diálogos das guitarras, alguns momentos de feedback, o sublinhar do baixo e o forte ritmo da bateria, a música dos Tape Junk é muitíssimo agradável ao ouvido e aguardam-se espetáculos da banda em nome próprio, para que o quarteto possa explanar ainda mais a sua mestria. Altamente recomendável!

In Palco Principal

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

“Proteus”
PS3/PS Vita

Natureza abstrata, o direito à saudável diferença



Com a época natalícia bem perto são muitos os títulos que surgem para as várias plataformas de consolas. Se “Call of Duty: Ghosts” e “Battlefield IV” enchem as medidas aos mais furtivos jogadores, a mais recente aventura de Edward Kenway em Assassin’s Creed IV faz as delícias dos fãs de estórias de piratas. Noutros quadrantes, joga-se desenfreadamente dentro das quatro linhas com “Fifa 14” ou quebram-se limites em Los Santos…

Depois existe quem teime em apostar na diferença com um misto de desarmante simplicidade. São estas algumas das principais demandas dos produtores e criadores dos jogos Indie e “Proteus”, uma ideia de Ed Key e Davis Kanaga inicialmente projetada para o universo PC, chega agora ao planeta Sony – pela mão da Curve Studios – nas versões PS3 e PS Vita.

E é mesmo na versão portátil que “Proteus” parece ter mais sentido. Num dos trailers de apresentação desta aventura de inspiração “retro” podemos ver um dos seus criadores, Ed Key, a passear pela natureza e a ser absorvido pela mesma. E tal, acreditem, é o que se sente ao jogar “Proteus” durante alguns minutos que se vão tornar progressivamente muitos. Ainda que os cenários de 8 bits remetam para imaginários vividos há décadas a envolvência e a maravilhosa banda sonora, minimalista q.b., deixam-nos dentro de jogo de forma gradual. A realidade passa a estar nas nossas mãos e o que nos rodeia desvanece aos poucos.

Nos primeiros instantes somos levados a emergir do mar e a caminhar em direção do vazio natural de uma ilha algures na nossa imaginação. O sol está a brilhar e com a ajuda de simples comandos embrenhamo-nos em terra firme. Estamos na primavera. Os pássaros cantam, o dia está claro e convida a um passeio. Se aparentemente existe uma sensação de solidão e acalmia à medida que os minutos passam e os caminhos são palmilhados começamos a sentir as especificidades do “gameplay”. Tudo à nossa volta está vivo e podemos ajudar a alterar o cenário e essa interatividade sente-se sobremaneira com as alterações da banda sonora.

A deliciosa abstração que “Proteus” confere leva-nos a querer explorar ainda mais este local desconhecido e quanto mais investigarmos e explorarmos maior o sentimento de pertença e satisfação. Cada início representa um novo começo e ficamos com a ideia que podemos ficar nisto para sempre. Cada nova abordagem em relação à fauna e flora nativas produz novas surpresas. As estações mudam e os principais intérpretes também. Esta aventura sensorial vivida na primeira pessoa permite observar folhas que caem, coelhos assustados ou curiosos, sapos que seguem o curso da vida. Pelo meio, existem lagos, vales e montanhas ou ainda, por exemplo, grupos de menires pois a herança história também faz parte da existência.

As horas passam, a música também e, aos poucos, inventamos novas abordagens que fazem “apressar” as mudanças de estação e fazer a natureza acontecer. O final, pelo menos temporário, chega com o ocaso do inverno. O ciclo pode ficar completo em 30 minutos, uma hora ou mais pois tal depende da nossa atividade e objetivo. Mas este universo de simples pixels não tem a noção de finito e vai, com certeza, levar o jogador a reiniciar a aventura pois o sol não deixa de brilhar.

Extremamente viciante e dono de uma “passiva” provocação aos nossos sentidos, “Proteus” conseguiu fazer com elevada distinção a por vezes complicada transição entre o universo dos computadores pessoais e chega às consolas Sony repleto de vitalidade sendo altamente recomendado principalmente na versão portátil e com uns bons headphones. Tal como foi “Journey”, “Proteus” pode assumir-se com um dos maiores sucessos no que aos jogos exclusivamente descarregáveis diz respeito e por apenas 12,99 euros podem assegurar-se várias horas de prazer ao explorar um arquipélago em constante renovação, imaginário e sedutoramente simples.

In Rua de Baixo

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

“O Golpe”
de Janet Evanovich e Lee Goldberg

Policial à moda de Hollywood



Já bastante conhecida pelos leitores portugueses devido a policiais como “Perseguição Escaldante” e “Sorte Explosiva”, livros que revelaram ao mundo Stephanie Plum, uma caçadora de recompensas viciada em lingerie, a norte-americana Janet Evanovich aposta agora numa parceria com Lee Goldberg – um dos mais promissores escritores e guionistas da sua geração e criador da série de ambiente thriller “Monk” – e faz chegar às livrarias “O Golpe” (Topseller, 2013).

Autora de alguns dos maiores sucessos do New York Times, com mais de 75 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, Evanovich faz nascer uma nova e excitante dupla ao juntar uma competente e obsessiva agente do FBI, Kate O’Hare, com um dos maiores e mais procurados vigaristas do planeta, o mestre do disfarce Nick Fox.

A teimosia, obstinação e exigência de O’Hare faz com que a agente do FBI encare a captura de Fox como o mais alto galardão profissional a alcançar, usando toda a sua sapiência e sagacidade para colocar atrás das grades o imaginativo e charmoso Nick, conhecido por escapar com competência a qualquer desafio colocado por parte das autoridades.

A atração entre ambos os personagens é por demais evidente, apesar de Nick e principalmente Kate negarem o óbvio. Decidida, O’Hare acaba por conseguir desmascarar mais um astucioso plano de Fox mas, quando pensa que o fora da lei conhecido por utilizar disfarces com nomes de personagens de sitcom ficará a cumprir a merecida pena, uma convergência de interesses leva o FBI a juntar perseguidora e presa, numa missão que tem como objetivo prender Derek Griffin, um playboy banqueiro e investidor que está por trás de um desfalque de 500 milhões de dólares.

Para esta dupla, o maior desafio não será deter o muito procurado criminoso, mas sim conseguir evitar os inevitáveis choques de personalidade e liderança que esta aliança representa. Para conseguir tornar apetecível esta relação, Janet Evanovich aprumou a escrita e revela uma narrativa mais elaborada, comparativamente com as aventuras de Plum – algo ao qual a presença de Lee Goldberg não é de todo alheia.

Apesar de continuarmos num ambiente claramente inspirado nos blockbusters de ação made in Hollywood, onde a rapidez da ação supera muitas vezes os esqueletos dos próprios personagens, em “O Golpe” existiu o cuidado de conferir maior credibilidade aos seus intervenientes, com clara vantagem para Kate O’Hare que, através de uma intrincada relação com o pai, se assume mais humana e real que a personagem de Nick Fox, que chega a roçar a fronteira do verosímil devido à caricatura de alguns dos seus métodos e golpes.

Altamente recomendado para os amantes de policiais cuja ação frenética e o entretenimento puro sejam as mais procuradas sensações, “O Golpe” é um livro viciante que nos leva numa viagem iniciada nos Estados Unidos e que, depois, evolui por terras gregas, francesas e alemãs, tendo como destino uma das milhares de ilhas indonésias que escondem o já referido investidor.

In Rua de Baixo

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

“A BIBLIOTECÁRIA DE AUSCHWITZ”
de ANTONIO G. ITURBE

O poder fascinante dos livros que nunca perdem a memória



O tema do Holocausto é uma fonte de inesgotáveis referências e, acima de tudo, uma lembrança de algo terrivelmente desumano que alguns teimam em negar mas que deve, para o bem universal, servir de alerta para que seja irrepetível.

Muitos foram os autores e obras a dedicarem as suas páginas ao sofrimento de milhões que viram o seu bem mais precioso ser negado por mesquinhez, capricho ou apenas por professar uma cultura e ideologia diferente ou considerada menor.

E é, em parte, isso que o espanhol Antonio G. Iturbe faz com “A Bibliotecária de Auschwitz” (Planeta, 2013), um livro que presta homenagem às vítimas e sobreviventes da “Solução Final” e que encontra, na personagem frágil de uma menina checa de catorze anos, Edita Dorachova, uma destemida heroína que assume a função de bibliotecária no Bloco de 31 do campo de Auschwitz-Birkenau, um local assassino que servia de “lar” para mais de 500 crianças, muitas delas cobaias do terrível doutor Mengele, médico nazi fã da eugenia e apelidado de “Anjo da Morte”.

Conhecido pelas obras de cariz infantil cujo enredo gira à volta das aventuras do Inspetor Zito e Chin Me Do, Iturbe é também jornalista cultural, tendo coordenado suplementos televisivos de referência na vizinha Espanha como o “El Periodíco”, sendo nessa qualidade que descobriu em Praga a sobrevivente checa que serviu de inspiração à conceção deste belo romance.

“A Bibliotecária de Auschwitz” é um poderoso e arrebatador livro que relata a coragem de algumas almas incautas que arriscaram a vida para manter e transmitir o legado cultural a outros que tinham, nos sonhos entretanto arrumados e esquecidos no sótão da memória, os únicos pedaços de um efémero consolo.

Transferida na companhia dos seus pais de um maravilhoso apartamento em Praga para o gueto de Hradcandy – e depois para o campo de Auschwitz-Birkenau -, Dita conhece Fredy Hirch, um lutador que consegue erguer uma escola no meio de um ambiente onde a desesperança reinava. As aulas eram dadas apenas com o auxílio da palavra, sendo que em vez de ardósias se utilizavam os sentidos para apreender o conhecimento.

Para além desta conquista ímpar, Hirch escondia um maravilhoso tesouro: uma biblioteca cujo espólio correspondia a oito obras. De forma a preservar esse fantástico e proibido legado, Dita aceita o destemido papel de bibliotecária e guarda, com a vida, um atlas desgastado pelo passar dos anos, um compêndio de Geometria, uma gramática russa, obras de H. G. Wells, Freud e Hasek, bem como um romance francês e outro russo, estes últimos incompletos pela falta de páginas.

Assumindo o papel de “enfermeira de livros”, Dita abraçou a missão e diariamente enfrentava os demónios das SS com livros escondidos em bolsos secretos no seu vestido, que depois encontravam um porto de abrigo num esconderijo debaixo do chão. Para quem a vida e a identidade estava resumida a um número, estes livros funcionavam como uma réstia de esperança, uma dádiva divina que, por breves momentos, fazia esquecer as condições desumanas que se viviam num local que talvez seja a visão mais próxima do Inferno criada e vivida pelo Homem.

Com uma escrita que se serve do passado e da memória como bengalas para compreender o terrível presente vivido por quem habitou os campos de concentração nazis, “A Bibliotecária de Auschwitz” prende o leitor da primeira à última página e, sem afastar a dor e o desespero inatos a um dos mais negros períodos da História Universal, consegue passar um sentimento de esperança numa das mais bonitas odes modernas dedicada aos poderes e magia que os livros possuem, aos maravilhosos e únicos sentimentos que passam para os seus leitores pois, as obras escritas, nunca perdem a memória.

In Rua de Baixo

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Smash IT Adventures Uma aventura made in Portugal

 Uma aventura made in Portugal

Com uma alma assumidamente indie, a Bica Studios, que tem a sua génese na Startup Lisboa, é uma aposta nacional de Nuno Folhadela e Miguel Tomás e promete muita agitação do que toca aos jogos para ambientes Android e Apple sendo “Smash It Adventures” uma aplicação que promete ser um vício para os amantes de “smashers”.

Projeto ambicioso, “Smash IT Adventures” quer tornar-se num título charneira no que toca aos jogos de ação onde tudo, acreditem, está sujeito a ser esmagado. Seja através do sistema Android ou com a interação permitida por iphone, iPad e iPod touch, a diversão será o maior sinónimo de quem ousar testar os controlos intuitivas Tap and Swipe deste novo, viciante e extremamente rápido jogo.

O seu lançamento terá duas componentes díspares sendo que o modo Competição vai ser descarregado gratuitamente de forma a apresentar “Smash IT Adventures” e permitir a competição entre jogadores. Todas as semanas as pontuações serão alvo de um reset oferecendo aos recém-chegados a oportunidade de brilhar.



O modo Aventura terá um custo inerente mas traz consigo o já referido modo Competição e bastantes extras e exclusivos dando assim conhecer por dentro a estória de uma carismática bruxa que conta com as habilidades do jogador para derrotar os arrepiantes Blarghinis que têm como objetivo destruir todos os animais simpáticos do planeta.

À medida que nos embrenhamos no jogo, a Bica Studios promete oferecer uma extensa lista de Conquistas assim como novos desafios e atualizações sendo que estão desde já pensadas novas aventuras e personagens que farão a sua estreia a breve trecho.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

PS4 Hands-On

Deus ex Machina 



Longe vão dos tempos da saudosa PS1, um sistema 32 bits com cd que deixou os amantes dos videojogos boquiabertos em 1994. A febre provocada pelo gigante japonês levou a um incrível recorde de vendas e o primeiro sistema Play Station vendeu mais de 100 milhões de unidades até ao ano 2000, data que surgiria no mercado a icónica PS2 que ousou destronar a sua antecessora ao chegar a casa de mais de 150 milhões de pessoas em todo o mundo.

Mantendo uma cadência evolutiva a cada seis anos, em 2006 a Sony colocaria no mercado a muito ambiciosa PS3 que apesar da qualidade inata do seu sistema demorou algum tempo a cativar os amantes de consolas – muito por culpa do seu preço inicial excessivo – mas por fim lá chegou ao coração dos mesmos. O sonho tornado realidade do modo online começava a fazer crescer o amor face à PS3 que é hoje um valor seguro do mercado.

A fasquia estava muito alta mas desde a introdução da terceira geração de consolas da Sony no mercado a evolução da mesma foi gradual – quer em termos estéticos, técnicos e no que toca ao software – e passou a ocupar um lugar privilegiado junto aos mais comuns e imprescindíveis eletrodomésticos domésticos.
Tendo a noção que o sucesso no mundo das consolas é sinónimo de uma latente efemeridade, a Sony queria, definitivamente, marcar o mercado e enquanto a PS3 se assumia como líder de segmento, os técnicos que entretanto desenvolveram a PS4 tomavam notas e pensavam numa consola que superasse, a cada pormenor, tudo o que já existia eliminando as falhas registadas no sistema antecessor.

Gradualmente seguiram o seu caminho e a PS4 é, sem dúvida, uma máquina a roçar a perfeição no que ao mundo dos jogos de consolas diz respeito. A sua programação é mais intuitiva e sagaz, os novíssimos dualshock4 são substancialmente mais atrativos, funcionais e melhorados em relação aos anteriores comandos PS3 e estamos perante um sistema que oferece uma excelente relação em termos de qualidade/preço.

Como resultado temos uma consola que vai afirmar-se de forma mais segura no mercado do que aquilo que aconteceu com a PS3 e é sem dúvida uma peça envolta de um muito atraente design cujo paralelismo linear angular é uma delícia para o olhar, tendo ainda a vantagem de trazer consigo um software estável que promete afastar problemas de maior em termos de jogabilidade e afins.

Em termos de perfil, a PS4 divide-se em quatro blocos: entrada de discos, indicador de energia, botões de comando e o sistema refrigerador (no estreito espaço entre secções). Frente e traseira (onde estão as múltiplas entradas exceto usb) da consola são ligeiramente inclinadas o que confere um belo quadro estético à consola esteja ela vertical ou horizontal. Tal como as antecessoras é a cor preta que pinta a nova aposta da Sony cujos acabamentos matte e gloss conferem um visual sofisticado.

A interatividade proporcionada pelos novos comandos é um dos grandes trunfos da PS4 e trazem muitas novidades. Mais robustos e com um toque esteticamente mais arredondado os dualshock4 têm os sticks ligeiramente mais afastados e os apoios conferem outra estabilidade aos triggers, permitindo este novo formato um maior conforto ao jogador.



Ao invés dos anteriores botões Select e Start, surgem agora duas novidades. Mais separados, os comandos Share e Options ladeiam o painel tátil que vai permitir uma maior liberdade de movimentos e uma interessante interação com o Playroom, mas lá chegaremos. Mas é sem dúvida o botão Share que vai ganhar muitos adeptos entre os amantes da PS4 pois através desse comando é possível partilhar online triunfos com os amigos com a ajuda das redes sociais. Podemos mesmo transmitir a ação em direto por ustream e em apenas alguns segundos é possível gravar, editar e postar um vídeo no Facebook.

O dualshock4 oferece ainda uma maior e melhor vibração devido à potência dos novos motores e de forma a identificar os jogadores existe uma barra de luz traseira com quatro cores diferentes possíveis. Para conseguir ainda um maior envolvimento por parte do jogador, estes novos comandos trazem uma coluna em registo mono integrada e uma entrada para phones que permitem dar outro enfase aos pormenores do gameplay. Outra questão importante: é possível realizar a portabilidade dos dualshock4 entre PS4 e PS3 mas apenas através do cabo usb e nunca através de bluetooth.

O interface da PS4 revela também assinaláveis melhorias e permite ao utilizador retirar uma maior funcionalidade da barra de ferramentas. Podemos, por exemplo, pausar qualquer momento do jogo ao carregar no botão PS e mudar algumas definições sem abortar a mesma sessão. Depois de anos de experiência a navegar no sistema PS3 e na concorrente XBOX 360 é hoje intuitivo navegar nos menus da PS4 e não estranhar a por vezes quase infinita linha horizontal que serve de casa para jogos e aplicações várias.

Em termos do sistema online a PS4 permite a possibilidade de um acesso remoto – desde que tenham a mesmo ponto de acesso Wi-Fi – através da PlayStatioApp, uma aplicação que pode ser descarregada através da App Store ou Google Play para dispositivos móveis da família Apple ou smartphones e tablets Android. Depois de instalada a aplicação é possível a visualização de segundos ecrãs no que toca a títulos PS4 podendo os seus utilizadores aceder ao mundo PSN e ver as listas dos amigos assim como os seus troféus ou trocar mensagens. A partilha de atividades é uma nova forma de comunicação e a funcionalidade “What’s New” dá a conhecer aquilo que os membros (até um limite de duas mil entradas) mais próximos da nossa “comunidade” estão a fazer e liberta uma privilegiada porta para sessões multigame evitando as aborrecidas “filas de espera” online.

O breve mas muito saboroso teste que realizamos no acolhedor espaço alfacinha The Playce, permitiu verificar que a PS4 é uma máquina essencialmente focada no ato de jogar. São os jogadores os máximos destinatários desta fantástica consola e ao interagir com Assassins Creed Black Flag, Killzone Shadow Fall, Knack, Battlefield 4 e Fifa 14 sentimos a potência dos novos motores gráficos da PS4 e os nossos sentidos entram numa nova dimensão de gameplay onde os gráficos em alta resolução são um fascínio para a alma. Com uma memória de 8GB e 500GB de capacidade de armazenamento, a PS4 é um verdadeiro portento.

Sendo um sistema extremamente versátil, a interatividade entre a PS4 e a PS Vita é de uma assinalável importância e um acessório como a nova câmara permite disfrutar de muitas horas de prazer através das funcionalidades a explorar no Playroom, um espaço que permite uma maior interação e conhecimento com o novo dualshock4, uma espécie de lâmpada de Aladino versão 4.0, através de divertidas aplicações como o são o elástico Air Hockey, o divertido robot voador Asobi ou os cativantes AR Bots, pequenos seres que podem habitar no interior dos novos comandos Sony e prometem invadir os corações de pequenos e graúdos.

Com o Natal bem próximo, a nova PS4 assume-se como a prenda ideal para os amantes de jogos e pode bem ser o toque final do assalto à liderança da Sony no que toca ao mercado mundial das consolas. Tem a palavra a Xbox One.

In Rua de Baixo

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

“PARA ONDE VÃO OS GUARDA-CHUVAS”
de AFONSO CRUZ

Era uma vez o equilíbrio notavelmente/absolutamente/absurdamente/infinitivamente/moralmente/esteticamente desequilibrado




Num ano em que editou os infanto-juvenis “O livro do ano” e “Assim, mas sem ser assim”, o exercício teatral de “O cultivo das flores de plástico” bem como mais um tomo da “Enciclopédia da estória universal”, o multidisciplinar Afonso Cruz consegue, finalmente, lançar “Para onde vão os guarda-chuvas” (Alfaguara, 2013), um projeto no qual trabalhava há três anos e que vinha sendo adiado devido à sua complexidade e a outros compromissos que iam surgindo no seu empolgante percurso.

Ao longo de mais de 600 páginas, Afonso Cruz percorre um universo digno de umas peculiares mil e uma noites, que fazem o leitor entrar num Oriente efabulado e apaquistanado onde passado, presente e futuro servem de palco para um cenário que traz a mais profunda das dores, que é a perda de um filho, tendo como inspiração maior um conselho dado por Gandhi a um hindu destroçado por uma idêntica tragédia.

Repleto de surpresas e fortemente alicerçado no poder que a imagem representa enquanto objeto contextual, “Para onde vão os guarda-chuvas” começa com uma História de Natal dedicada a quem não acredita da mítica figura do velho das barbaras brancas e fatiota vermelha e, de uma forma, crua Afonso Cruz relata e ilustra uma outra visão da época natalícia que, ainda assim, recompensa os mais bem-comportados.

Tendo como figura central Fazal Elahi, um “marreco social” dono de uma fábrica de tapetes e que “gostava de ser como as paredes”, “Para onde vão os guarda-chuvas” é como que uma caixa de Pandora repleta de maravilhosas personagens, algumas das quais forçando uma tangente com outras obras do autor.

Numa sociedade onde a (in)tolerância religiosa é condição justificável para tudo, Fazal Elahi partilha uma casa, da qual se viam “as montanhas e o céu”, com a sua irmã de dentes desalinhados, Aminah, cujo sonho é casar com um rapaz de olhos azuis e que lhe dê uns sapatos vermelhos e perfumes estrangeiros. O primo Badini, um dervixe enorme e mudo que fala pelos cotovelos, Bibi, a sua mulher e Salim o seu cabritinho herdeiro, são os outros inquilinos da habitação.

A completar o eclético desfile de personagens surge um mulá dogmático, um general cujas vestes acerejadas tentam esconder intolerâncias e violências várias, hindus que se convertem ao islamismo, solados equivocados, prostitutas com e sem burcas, um anjo da guarda e muitos, muitos outros.

Todos estes ingredientes formam um prato absolutamente encantador, cuja escrita maravilhosamente encantada de Afonso Cruz nos deixa entregues a um dos mais deliciosos livros publicados em Portugal nos últimos anos e que tem, na metafórica visão estratégica de um jogo de xadrez, uma lição de vida, de comportamento e de existência.

Tendo como cenário uma sociedade onde a religião assume contornos de justificação moral para os mais bárbaros atos de violência, as mulheres são um ser menor e o trabalho infantil é uma necessária e bem-vinda banalidade, “Para onde vão os guarda-chuvas” é um livro cheio e que preenche uma obra maior que transcende a mera função romanceada que, através de uma narrativa ímpar, atinge o epicentro da pessoa que o lê. Mais que um livro, estamos perante um alimento para a alma e para os sentidos, características sempre presentes na obra de Afonso Cruz, sem dúvida um dos mais carismáticos e singulares escritores da sua geração e que tem na ponta dos dedos uma arrebatadora noção de humanidade.

Ao longo do livro, para além das muitas imagens cujo objeto central é um tabuleiro de xadrez, Afonso Cruz fez pequenas ilustrações, refugiando-se na sapiência dos fragmentos persas – frases, fruto da eventualidade da escrita de um anónimo do século I que foram enciclopedicamente recolhidas por Téophile Morel – para contextualizar a ação e o pensamento dos personagens.

E como a perda é o sentimento abrangente deste livro, Afonso Cruz deixa um apelo nas últimas páginas, encorajando o leitor a relatar uma perda semelhante ao que sucede a Fazal Elahi. Também a editora quis deixar uma nota especial no final da obra e oferece uma prenda a quem descobrir uma diferente palavra que apenas se pode encontrar em dois dos cinco mil exemplares da primeira edição desta obra.

In Rua de Baixo

THESE NEW PURITANS @ TMN AO VIVO

O LADO OBSCURO DA LUA




Com um considerável culto por terras nacionais e em ano de lançamento do seu terceiro disco de originais, o complexo e de toadas mais clássicas “Field of Reeds”, o agora trio These New Puritans regressou a Portugal e deu um brilhante concerto na aconchegante sala ribeirinha do TMN ao Vivo, que apenas pecou pela escassez de público.

A transformação sonora que a banda dos gémeos Jack e George Barnett e Thomas Hein tem vindo a registar desde do mais punky “Beat Pyramid” revela a constante espiral evolutiva que os britânicos fazem questão de ser sinónimo da sua música. Hoje, num registo onde a presença de instrumentos como uma trompa ou uma trompete confere uma maior solenidade ao seu ambiente, os britânicos These New Puritans têm em “Field of Reeds” uma majoração do seu talento enquanto intérpretes de uma arte que parece sedeada algures num satélite lunar que mistura eletrónica, um certo revivalismo punk e laivos de um neoclassicismo abrasivo.

Ao longo de mais de uma hora, as dezenas de espetadores que se deslocaram até à sala perto do Cais do Sodré vibraram com um alinhamento que teve por base o mais recente disco de originais da banda, que também recorreu a algumas faixas do brilhante “Hidden” para dar outras tonalidades à sua atuação. Curiosamente, ou talvez não, “Beat Pyramid” não marcou presença na noite de ontem.

Os primeiros sons que chegavam do palco, ainda sem todos os elementos da banda presentes, tinham como companheiras ténues luzes brancas que serviam de farol para o mecânico rugir de motores automóveis que aceleravam, a espaços, numa imaginária via rápida. De branca para roxa, a tonalidade sobre o palco era alvo de uma metamorfose que servia de entrada para um labirinto sonoro sinistro, apenas quebrado pelos acordes que saíam do baixo de Jack Barnett, que anunciavam assim “Spiral”, uma das mais densas composições de “Field of Reeds”.

Para além do formato trio, os These New Puritans contam com a companhia da doce e etérea voz da portuguesa Elisa Rodrigues, que lança uma espécie de feitiço sobre a música da banda e, ao entrelaçar-se com o espetro vocal de Jack, inicia um competente diálogo que, em conjunto com clarinete, trompete e piano, dá origem a um melódico e controlado caos sonoro, sublinhado pela eletrónica que resulta dos samples de Hein e dos loops de George.

A solenidade e jogos musicais proporcionados entre a pujante bateria, baixo e samples servem de apresentação a “Fragment Two”, um dos momentos mais saudados pelo público. O silêncio também marca a sua presença e cola sons ao quebrar fronteiras entre “extremos” orgânicos e maquinais. Ao vivo, as composições mais contidas de “Field of Reeds” crescem e a ensimesmada e jazzy “The Light in your Name” parece saída de um conto de fadas assombrado e enche a sala de uma bela melodia noturna que incendeia o jogo vocal entre Elisa e Jack. Piano e bateria engrandecem o negrume e teme-se a presença de Nosferatu na sala.

O primeiro recurso a “Hidden” chegou através da curta “Three Thousand” e, durante cerca de três minutos, a bateria pauta o ambiente e a voz de Jack assinala de forma sublime o ambiente marcial que ecoa na sala. Sons de vidro a quebrar tornam a performance mais teatral e punk. Os momentos seguintes têm o disco de 2010 como origem e o arábico “Attack Music” faz abanar as almas presentes, que se deixam embalar pelo sedutor hipnotismo maquinal que sai do palco. A eletrónica libertada por Hein encontra um porto de abrigo nas vozes de Elisa e Jack, que são abraçadas pela intervenção compassada da bateria.

Aos primeiros acordes da muito solicitada “We Want War”, a sala vibra de forma intensa. Naquele que é um dos exercícios que mais bem define o ADN dos These New Puritans, a faixa retirada de “Hidden” reflete o quebrante musical da banda e permite estabelecer o submundo sonoro habitado pelo trio britânico, que muitas vezes fixa raízes na interpretação minimal de uma escuridão urgente. As várias camadas sonoras de “We Want War” e a entrega dos músicos em palco resultam na maior ovação da noite.

Jack solta um “obrigado” e o concerto prossegue com “Organ Eternal”, mais outra peça de “Field of Reeds” que, aos primeiros acordes, encontra resposta nas palmas do público. Às primeiras notas saídas das teclas eletrónicas do órgão, George alheia-se da bateria e entrega-se aos loops que são ocasionalmente interrompidos pelos uivos samplados por Thomas Hein. Jack canta de forma sussurrada e a ténue cadência vocal é intencionalmente assaltada pelos outros elementos orgânicos em palco.

Esta magia sincopada encontra seguimento em “Field of Reeds”, faixa que dá o nome ao mais recente álbum da banda e que se movimenta entre momentos de puro e tranquilo deleite. Sem o baixo, Jack Barnett assume o microfone por completo e, por momentos, sentimos que estamos a caminhar numa qualquer floresta encantada onde fantasmas dos islandeses Sigur Rós seguem o seu caminho. Do palco, nascem luzes que parecem procurar almas incautas que vagueiam na sombra.

Antes da breve saída de palco, os These New Puritans anunciam “V (Island Song)” ,e ao longo de mais de dez minutos, as vozes misturam-se com a música e o resultado é mais um momento de grande intensidade. Os sons resultam na medida e lugar certos e do aparente caos surge a harmonia. No final, os músicos abandonam à vez o palco, que fica entregue a si próprio, ao som das palmas do público e de um omnipresente feedback.

O regresso, quase imediato, é feito com uma reinterpretação de “We Want War” e o público é presenteado com a brutal entrega dos músicos. O sampler domina o ambiente e, por momentos, sente-se a panfletária herança do manifesto dos suíços The Young Gods, que vão atuar nesta mesma sala no final da próxima semana. O último tema da noite seria um “Orion” em tom operático e brilhante, que se revelou no canto do cisne da brilhante e cativante atuação dos These New Puritans, que se assumem como uma das mais interessantes bandas da atualidade.

Antes do concerto dos These New Puritans o palco esteve entregue à solitária alma de Erica Buettner, uma norte-americana que adotou Portugal como sua casa e tem no registo indie-folk a sua imagem de marca. Num universo próximo de Joan Baez ou Joni Mitchell, Buettner cantou meia dúzia de canções cujo ambiente tranquilo e sedutor soube arrancar merecidas palmas em crescendo junto dos poucos que já se encontravam na sala. Com apenas um álbum editado, de seu nome “True Love and Water”, a simpática e cativante norte-americana tocou canções como “Parisian Clouds”, “Wolf Among Wolfs”, algumas das quais parte do reportório de uma colaboração resultante com o coletivo “The Resident Cards”. Apenas com uma viola como companhia, Erica Buettner deixou água na boca e o seu perfil tímido e intenso merece especial atenção num futuro próximo.

In Palco Principal

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Maria João Lopo de Carvalho em entrevista

«Não sendo eu feminista acredito que a mulher portuguesa é singular e, para mim, o símbolo máximo da resiliência e coragem. Somos metade de Portugal e mães da outra metade»



Com o pretexto do lançamento de “Padeira de Aljubarrota” estivemos à conversa com Maria João Lopo de Carvalho, ficando a conhecer um pouco do esquema de trabalho da autora, as suas fontes de inspiração e mestres, assim como o porquê de fazer um livro que se assume como um exercício metafórico sobre um Portugal que faz das fraquezas forças e encontra heróis improváveis que se superaram a si mesmos.

Em “A Marquesa de Alorna” explorou a vida de uma mulher rebelde e fez um elogio à liberdade e ao amor que sente por Portugal. Em a “Padeira de Aljubarrota”, a esse amor à pátria junta uma noção metafórica de resistência e coragem. Serão estes dois romances uma reflexão muito própria sobre o Portugal recente?

Os meus livros refletem sobretudo um eco do amor a Portugal por parte dos portugueses. É uma voz intemporal que cruza a sociedade de ontem e de hoje baseada na esperança de que «amanhã» haja também esta mesma resiliência e capacidade de lutar pelo país com a habitual coragem de uma nação que se diz «valente e imortal».

Explora a lenda da Padeira e os acontecimentos de 1385 de uma forma bastante pertinente e apaixonada. Quais foram as maiores fontes de inspiração para fazer um romance como a “Padeira de Aljubarrota”?

Antes e primeiro que tudo o meu amor a Portugal e à nossa Historia. Depois, o meu mestre: Fernão Lopes; e a minha maior luz: Nuno Alvares Pereira.

No livro cruza as vidas de D. Beatriz de Portugal, rainha-infanta, e Brites de Almeida, uma das maiores lendas nacionais. Se de um lado temos a “causadora” da Batalha de Aljubarrota, do outro está a maior heroína do conflito. Como foi trabalhar esses intrincados extremos?

Sempre desconfio da História quando é contada a uma só voz. Na batalha de Aljubarrota havia os dois lados da «moeda» Ao descobrir Beatriz de Portugal tive de fazer um exercício para não me deixar ir atrás dos acontecimentos, mas sim de analisar as causas da batalha de Aljubarrota, Atoleiros e Valverde pelo lado de Castela. Quem tinha razão? Haveria uma só «razão?» Estaria certa a causa de Beatriz, símbolo da nobreza e dos filhos primeiros? Ou de Brites, metáfora do povo e dos filhos segundos que estavam pelo mestre de Avis. Penso que não há, na crise de 1383-85, uma só versão da História. Há sim as várias «estórias» da histórias que ajudarão o leitor a tomar um ou outro partido. E isso é que pode ser mais interessante neste livro.

Este livro resulta num elogio ao género feminino. Sente que a mulher portuguesa tem dentro de si “uma costela” de Brites de Almeida?

Sinto e mais: tenho a certeza. Não sendo eu feminista acredito que a mulher portuguesa é singular e para mim o símbolo máximo da resiliência e coragem. Somos metade de Portugal e mães da outra metade.

Os seus romances históricos são muito ricos em pormenores e patenteiam a noção de uma forte investigação. Por norma, como realiza o processo e quanto tempo demora a preparar uma obra deste género?

Nada nesta vida se faz sem trabalho. Neste caso seria impossível deitar mãos à obra sem muito estudo e investigação. Passo pelo menos seis meses só a ler, a estudar e a investigar. Como costumo dizer, preciso de viajar 600 anos para trás e deixar-me lá ficar. Só quando tenho a época em questão como presente do indicativo, é que ouso começar a escrever. Depois são outros seis, sete meses isolada do mundo. Dias e dias inteiros a escrever, a corrigir a verificar fontes e a pintar o «quadro»!

De certa forma, o resultado dos acontecimentos ocorridos no final do século XIV foram um forte incentivo para Portugal começar a investir nos Descobrimentos e a formar um forte império. Tendo em conta a conjuntura atual, que tipo de “abanão” deveria Portugal sentir para dar a volta por cima?

Esta crise de austeridade que vivemos já é um forte abalo para não voltarmos a cometer os erros do passado. Temos de aprender todos a viver de outra forma e lá está, tal como no século XIV, a não desprezarmos a nosso força interior e a nossa capacidade de nos lançarmos a novos desafios. Ontem desvendamos o mar e conquistamos o mundo; hoje o incentivo é precisamente esse: superarmo-nos a nós próprios e conquistarmos o futuro.

Tem perto de 50 obras publicadas. Da literatura infantil aos títulos históricos, passando pelo romance ou a elaboração de manuais escolares, a Maria João Lopo de Carvalho é uma referência da literatura nacional. Dos géneros que referimos qual lhe dá mais prazer?

Completam-se. São desafios diferentes. Não posso dizer que me dá menos gozo ir buscar-me a mim própria aos doze anos e escrever de acordo com essa voz interior que ainda cá mora; como também não posso deixar de sentir um enorme gosto em tornar simples uma história complexa e com ela levar os leitores a refletirem sobre o nosso passado coletivo. Ao fim ao cabo, sou apenas uma cantadora de histórias. E é esse o meu maior prazer!

O que podemos esperar de Maria João Lopo de Carvalho no futuro próximo? Mais incursões históricas, aventuras no espetro infanto-juvenil, um romance…?

Tudo se conjuga. Para já o que posso dizer é que a ultima palavra deste romance «Padeira de Aljubarrota» é «mar».Talvez seja um presságio do futuro…

In Rua de Baixo

“Padeira de Aljubarrota”
de Maria João Lopo de Carvalho

Elogio metafórico à mulher portuguesa



Maria João Lopo de Carvalho, uma das mais ativas e preponderantes vozes portuguesas do mercado livreiro nacional, tem cerca de meia centena de obras publicadas, entre títulos infantojuvenis, manuais escolares, romances e obras de cariz histórico.

Depois do sucesso com “A Marquesa de Alorna”, a autora natural de Lisboa volta aos grandes romances históricos com “Padeira de Aljubarrota” (Oficina do Livro, 2013), um livro que aborda, de diferentes perspetivas, a lenda da famosa Brites de Almeida, mulher de armas e uma das grandes referências no que toca à estoicidade e resistência nacional face às adversidades.

De uma extraordinária riqueza no que toca aos pormenores, “Padeira de Aljubarrota” é um grito de revolta contra as crises várias e intemporais, fazendo da coragem e determinação no feminino a melhor das metáforas contra o período atual do Portugal de hoje, alvo de assinalável crise e vítima da desesperança coletiva.

No centro desta muito interessante e cativante narrativa está Brites de Almeida que, envolta de um ímpar fôlego patriótico, enfrenta as intrigas resultantes da política da rainha-infanta D. Beatriz de Portugal, uma forte aliada de Castela.

Mas não apenas de espírito guerreiro vive este livro. Lopo de Carvalho dá-nos uma visão mais feminina e deliciosamente sedutora de uma mulher que tinha consigo outras armas para levar de vencidas batalhas no campo dos sentimentos.

Dividido em quatro partes, “Padeira de Aljubarrota” denota influências dos estudos do mestre Fernão Lopes e, através de um confronto de Beatrizes, leva-nos de volta aos primeiros passos da afirmação e extensão da noção de portugalidade, que tem marcada nas suas raízes feitos – lendários ou não – de personalidades que ajudaram à atual definição patriótica.

De forma a colorir ainda mais esta cativante estória, as páginas centrais de “Padeira de Aljubarrota” mostram algumas imagens que retratam a narrativa que Maria João Lopo de Carvalho oferece ao longo das mais de 500 páginas deste romance, onde a intriga, a ação, a coragem e a resiliência de um povo estão gravadas a fundo no perfil da conhecida padeira que tinha seis dedos em cada mão.

In Rua de Baixo

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Scott Matthew
“Unlearned”

Direto ao coração



Ainda com os ecos do fantástico concerto que o australiano Scott Matthew deu no Pequeno Auditório do CCB no passado dia 14, integrado no cartaz da edição 2013 do Misty Fest, bem presentes, cabe agora fazer uma análise a “Unlearned”, a obra que serve de inspiração maior para a recente digressão do autor de álbuns como “There Is an Ocean That Divides and with My Longing I Can Charge It with a Voltage That's So Violent to Cross It Could Mean Death”.

Sendo um álbum de versões, “Unlearned” é muito, mas muito, mais do que isso. Matthew escolheu 14 canções que refletem a sua vida em determinadas fases. Estas canções, revistas e transvestidas, são fragmentos de um homem simples, sincero, talentoso e dono de uma das mais marcantes vozes da atualidade.

Eclético, Matthew, recorda clássicos de gente como os Bee Gees, Neil Young, Jesus & the Mary Chain, Radiohead, Joy Divison ou Whitney Houston. O registo acústico é o ambiente que envolve “Unlearned”, um disco feito com um deslumbrante carinho e que levou Scott a convidar Jurgen Stark para a guitarra, M Eugene Lemcio para as teclas, Clara Kennedy para o violoncelo e Celina da Piedade para o acordeão. Neil Hannon teve ainda o privilégio de cantar em “Smile”, um lindíssimo tema original de Charlie Chaplin, e Ian Matthew abrilhantou a versão de “Help me Make it Throught the Night”, uma balada da autoria de Kris Kristofferson que já foi também alvo de uma versão de Elvis Presley.

Sendo, na essência, um dos discos mais bonitos editados neste ano que se aproxima do fim, “Unlearned” revela a sensibilidade de um dos artistas mais especiais das últimas décadas. Scott Matthew consegue mesmo fazer-nos sentir que estamos perante composições em nome próprio, tal foi a intensidade e dedicação com que as levou para estúdio e, mais recentemente, para os palcos. Desde os primeiros momentos de “To Love Somebody” até aos últimos acordes de “Annie’s Song”, passando pela versão de “Love Will Tear Us Appart”, é impossível não sentir coração e alma a derreterem com a voz quente de Matthew, e os arranjos minimalistas e maravilhosamente assertivos que transformam as canções originais em pedaços da mais pura filigrana musical.

Logo no início do disco, a transformação do hit baladeiro dos Bee Gees “To Love Somebody”, ainda sem o registo em falsete, numa profunda composição solene onde as teclas e a cordas tímidas acompanham na perfeição a voz de Matthew, é uma excelente amostra do que podemos esperar de “Unleraned”. Sem qualquer tipo de urgência e de uma forma tranquila e doce, é possível sentir a transformação de uma descontraída composição como o é “I Wanna Dance With Somebody” numa canção completamente apaixonada e febril.

Existe também uma grande dose de coragem ao fazer-se versões de canções maiores que a própria vida, como o são “There's a Place in Hell for me and my Friends”, de Morrisey, ou, acima de tudo, “Love Will Tear Us Appart”, saída do génio de Ian Curtis, ou “Harvest Moon”, esta última tida, com uma boa dose de ironia, pelo cantor australiano como melhor que o original de Neil Young.

Em “Smile”, uma arrebatadora versão de um original de Charlie Chaplin, é impossível não sentir uma forte pontada no coração ao ouvir as cordas do ukelele de Matthew serem trespassadas pelas gargantas do vocalista dos Divine Comedy que, a meio da viagem, partilha o seu lugar com a poesia que brota da garganta angelical de Scott Matthew. Também fabulosas são as novas abordagens de “Jesse” e “Total Control”, canções que têm a sua génese nos trabalhos de Robert Flak ou no dos The Motels, de Jeff Jourard.

“Unlearned” é um disco que irradia sensibilidade e é vivamente aconselhável, senão imperdível, para quem sente a música de uma forma especial, como a banda sonora de uma vida inteira. Peça musical invulgar, este trabalho de Scott Matthew denota a extraordinária e bela melancolia que aponta em direto ao coração e tem no silêncio um poderoso aliado.

Alinhamento:

01 To Love Somebody
02 I Wanna Dance With Somebody
03 Darklands
04 Jesse
05 Smile com Neil Hannon
06 Help Me Make It Through The Night com Ian Matthew
07 No Surprises
08 L.O.V.E
09 Love Will Tear Us Apart
10 There`s A Place In Hell For Me And My Friends
11 Harvest Moon
12 I Don`t Want To Talk About It
13 Total Control
14 Annie`s Song

Classificação do Palco: 9/10

In Palco Principal

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

The Killers
“Direct Hits”

Bom prato, mas requentado



A proximidade com a época natalícia funciona como um motor propulsor no que às edições discográficas diz respeito, com particular incidência nos familiarizados “Best Of”. Quando tal acontece, estamos, vulgarmente, perante uma de três situações: o disco deriva de uma imposição contratual por parte da editora; a banda revela problemas criativos e o seu fim está, eventualmente, próximo; fecha-se um ciclo. No caso de um banda como os norte-americanos The Killers, que contam com uma década de existência e “apenas” quatro álbuns de originais, a edição de “Direct Hits” enquadra-se na primeira opção, como os próprios confirmaram recentemente.

Os mais de vinte milhões de discos vendidos até hoje tornam a banda natural de Nevada, Las Vegas, que tem na figura do seu vocalista, Brandon Flowers, o seu maior ícone, como uma importante referência nestas coisas da música. Em 2004 editaram “Hot Fuss”, o seu mais bem-sucedido trabalho em termos comerciais, e lograram subir aos lugares cimeiros dos tops mundiais através de um som que bebia influências no rock mais alternativo, assim como num revivalismo punk e new wave. Em entrevistas, aquando do lançamento do seu primeiro disco de originais, os próprios The Killers afirmavam que tinham muito carinho pelo trabalho de bandas como os New Order, The Cure, The Smiths, The Cars, Duran Duran, David Bowie ou Bruce Springsteen, sendo que estes nomes eram as suas maiores e assumidas influências.

De forma mais ou menos clara ou evidente, “Hot Fuss” e depois “Sam’s Town” - para muitos o mais sagaz trabalho do coletivo – traziam no seu som pedaços das referidas influências e, no caso do álbum de 2006, nota-se um crescimento musical assinalável, onde os ecos da obra de Bruce Springsteen eram notórios e muito bem-vindos. Os The Killers cresciam, davam muitos concertos, recebiam prémios e afirmavam-se junto de um público indie, mas nunca perdendo de vista o universo mais mainstream. Essa “metamorfose” seria completada nos passos seguintes, sendo “Day & Age” e “Battle Born” registos que situavam Flowers e companheiros em universos mais rock, por vezes muito dançáveis, outras mais contidos, mas manifestamente diferentes dos primeiros tempos.

E eis que surge “Direct Hits”. Muitos perguntam a pertinência da edição, outros ficam deliciados por verem compilados alguns dos temas mais emblemáticos da banda. Sim, hoje facilmente podemos fazer as nossas próprias “compilações”, graças a ferramentas como o itunes e similares, mas um registo em versão discutível de “o melhor de…” pode ser um objeto auditivo pertinente. Ainda que na construção do mesmo possa residir a grande fatia do seu sucesso e, talvez nesse aspeto, “Direct Hits” possa estar aquém do pretendido. Falamos em concreto da discutível organização cronológica da apresentação de “Direct Hits”, que revela uma preguiça de ideias, tanto na edição normal desta compilação, como na versão deluxe, que conta com mais três temas.

O disco começa com quatro belas canções de “Hot Fuss”. São elas: “Mr Brightside”, talvez o maior hino da banda, “Somebody Told Me”, “Smile Like you Meant” e “All These Things that I’ve Done”. O glamour indie disco do primeiro registo de originais dos The Killers é absolutamente irresistível e ficam na cabeça sons e frases como “I’ve got soul, but i’m not a soldier”.

Depois, é a vez de “Sam’s Town” brilhar, mais maduro e com uma escrita perto do registo de mestres como Bruce Springsteen ou Tom Petty, onde o rock and roll desponta com sobriedade. Houve quem afirmasse que este disco estava entre os melhores das últimas décadas. Exagero ou devoção desmedida, as reações ao álbum datado de 2006 transformaram os The Killers numa das maiores bandas do planeta rock. “Direct Hits” regista três momentos desse disco. “When you Were Young” e “Read My Mind” fazem como que a ponte entre sons indie e toadas associadas à América, e apontavam o futuro sonoro de Flowers e comparsas. Ainda que muito subjetivo, estranha-se, ou não, a opção de colocar no alinhamento “For Reasons Unknow” e deixar de fora a fantástica “Bones”.

Já em territórios assumidamente rock e em diálogo permanente com a grandiosidade dos grandes estádios e arenas onde os The Killers exibiram os seus “sucessos diretos”, “Day & Age” dá três músicas a esta compilação. “Human” é uma faixa coberta de uma tensão dançável, alimentada pelas teclas de um sintetizador omnipresente, mas que fica uns furos a baixo da intensidade de “Spaceman”, talvez a composição maior da banda nesta fase. Num registo mais intimista “A Dustland Fairytale” é um exercício que aponta para o exorcismo de sonhos perdidos.

Na ressaca de uma mega digressão que ocorreu a propósito de “Day & Age”, a banda fez uma longa pausa e tal hiato terminaria com a edição de “Battle Born”, lançado em 2012, um disco que foi sinónimo de um “retrocesso sonoro”, onde as guitarras assumiam maior protagonismo. “Runaways” é um exemplo disso e faz um passeio até aos recantos da memória dos anos 1980. “Miss Atomic Bomb” e “The Way t Is” continuam esse caminho e misturam ecos sintéticos com cordas que se soltam, transformando-se em paisagens, com a América sempre em mente, desculpando-se até a heresia de uma certa aproximação a gente como Meat Loaf.

Mas “Direct Hits” apresenta também duas e interessantes novidades. Se o synthpop de “Shot at the Night” é o reflexo do trabalho da banda com Antony Gonzalez, membro dos franceses M83, “Just Another Girl” é um regresso aos tempos de “Day & Age”, pois os The Killers voltam a trabalhar com o produtor Staurt Price.

Resumindo, ou talvez não, “Direct Hits” é um trabalho algo passivo e preguiçoso, mas tem excelentes canções que, de certa forma, retratam a evolução sonora dos The Killers. Fazer uma compilação com apenas quatro álbuns editados pode parecer estranho, mas a sua pertinência será mais bem analisada daqui a uns tempos, de preferência, esperemos, depois da edição de novos trabalhos. Até lá, “Direct Hits” é um disco envolto de fantasmas do passado, com uma leve esperança face ao futuro. Mas que dá vontade de ouvir, dá!

Alinhamento:

01.Mr Brightside
02.Somebody Told Me
03.Smile Like You Mean It
04.All These Things That I’ve Done
05.When You Were Young
06.Read My Mind
07.For Reasons Unknown
08.Human
09.Spaceman
10.A Dustland Fairytale
11.Runaways
12.Miss Atomic Bomb
13.The Way It Was
14.Shot At The Night
15.Just Another Girl

Classificação do Palco: 7/10

In Palco Principal