domingo, 14 de agosto de 2016

“O Pavilhão Púrpura”
de José Rodrigues dos Santos

O mundo à beira do abismo


O projeto de escrever uma saga, algo inédito no universo literário nacional, revelava-se envolto de contornos ambiciosos logo à partida. Avesso a controvérsias e dificuldades, José Rodrigues dos Santos comprometeu-se com essa tarefa hercúlea e começou a “desenhar” uma trilogia que tem em “O Pavilhão Púrpura” (Gradiva, 2016) o seu segundo e muito aguardado tomo.

Pegando nas (muitas) pontas soltas de “As Flores de Lótus”, Rodrigues dos Santos faz-nos regressar às deambulações de Fukui, Artur, Lian-hua e Nadija, quatro «pessoas ordinárias que se viram em situações extraordinárias e que, pela forma como as souberam superar, se tornaram elas próprias extraordinárias».

Se no primeiro volume da trilogia o leitor era convidado a entrar num filme cujo fio condutor tinha por base o forte pendor revolucionário que se sentia no final do século XIX e inícios dos anos 1900, e que fazia cair alguns regimes e ideais em favor de outros, em “O Pavilhão Púrpura” o epicentro da estória centra-se no «voraz capitalismo» e nas marcas que esta nova visão económica cravou nas democracias, principalmente pelo cataclismo que se revelaria a Grande Quebra de Wall Street, conjunto de acontecimentos que não deixam de encontrar um paralelismo com aquilo que hoje vivemos.

Rodrigues dos Santos faz-nos entrar na máquina do tempo e revela os vendavais sociais vividos em Portugal, Japão, China e União Soviética. Assim, Artur, agora major, torna-se numa espécie de braço direito de Salazar e vive na primeira pessoa as estratégias que o ambicioso ministro das finanças, cujo rigor orçamental provocou o desespero entre os militares abrindo assim alas para um descontentamento crescente.

Enquanto isso, no Japão, o jovem Fukui vê-se no seio de uma dupla revolução. Se, por um lado, tem o coração divido entre a desafiante, bela e quente Harumi e a doce Ren, por outro centra as suas atenções nas mudanças políticas e culturais dos japoneses que começam a abraçar os ensinamentos chegados do ocidente em detrimento das tradições xintoístas e confucionistas. A terrível depressão vivida na Manchúria e os conflitos com a China estão também na ordem do dia.

Também por terras do Oriente, a pequena Lian-hua consegue escapar às garras de Mao Tse-tung e vai para Peiping, entretanto declarada capital, território que sente a invasão japonesa da Manchúria e torna-se num local perigoso para todos. Pesadelo similar vive Nadija na sua União Soviética, principalmente depois de Estaline ter decidido que a vanguarda do pensamento está intrinsecamente aliada à superioridade do comunismo e das consequentes coletivizações, cujo preço se traduz em fome, miséria e uma servidão sem limites em nome de um “ideal”. Para tornar ainda tudo mais complicado, da Alemanha surgem os primeiros ecos da eugenia e higiene racial, propulsionados por uma política nascida da mente de um certo Adolf Hitler.

Com um começo algo morno, “O Pavilhão Púrpura” segue todos os predicados da escrita de José Rodrigues dos Santos, com a ação a dar lugar a uma maior contextualização inicial. Mais uma vez, nota-se um claro domínio do autor na dialética histórica mas a evolução da narrativa revela um menor investimento emocional nos personagens (talvez com a exceção de Fukui) para se focar nos já habituais diálogos académicos repletos de (supérflua) informação que chega, a espaços, a tornar-se contraproducente face ao dinamismo coletivo do romance. Essa questão é ainda mais relevante quando nos deparamos com a riqueza que o narrador pode oferecer à globalidade da trama, esse sim, um “personagem” emocionalmente bem construído, e frágil, cujo sofrimento apenas é denunciado, mais efusivamente, nas derradeiras páginas deste livro.

É também nos últimos suspiros deste romance que a narrativa se revela mais acutilante, principalmente com a trágica peripécia vivida por Nadija, aguçando a curiosidade face ao culminar da trilogia que nos chegará através de “O Reino do Meio”, a ser editado no próximo ano.

In Rua de Baixo

“Um Copo de Cólera”
de Raduan Nassar

Manual de instruções para relações marginais 


Não sendo um autor muito prolífero, o brasileiro Raduan Nassar conseguiu a proeza de marcar a literatura de língua portuguesa através de duas obras fundamentais como “Lavoura Arcaica” e este “Um Copo de Cólera” (Companhia das Letras, 2016), títulos que valeram recentemente ao autor paulista o devido reconhecimento através do Prémio Camões 2016.

Polémico em toda a sua amplitude, “Um Copo de Cólera” foi escrito em 1970, em plena repressão da ditadura militar no Brasil, e apenas viu a luz do dia cerca de oito anos depois. Um livro descrito por muitos como «difícil», é uma novela pós-modernista que versa, e extravasa, a simples ideia de humanidade.

No epicentro de toda a convulsão que é este livro está um casal, uma dupla de amantes que entra num decisivo confronto cujo final parece ser a aniquilação alheia. E como em guerra quase todas as armas são válidas, nas páginas deste (pequeno) livro são vulgares os insultos, a crueldade, o (próprio) sexo ou a vontade de dominar ou ser dominado.

Os espaços de confronto são a cama, a banheira ou a mesa onde se come o pequeno-almoço e é neles, e através deles, que se libertam egos, se oprime o adversário e se diaboliza sobre a própria sociedade e os seus limites, pois não é a catarse que Nassar procura mas sim um puro e deleitoso exorcismo recheado de falsos moralismos.

Além de uma guerra (sexual) sem quartel, os sete capítulos de “Um Copo de Cólera” – escritos de um só pulsar onde apenas existe um parágrafo e o ponto final adquire a forma de preciosa e contextualizadora pausa – cauterizam através de citações, opressões, contradições desabafos, por via de uma linguagem ora poética, ora teatral, mesclando o absurdo com o surreal.

Sem o recurso a perfis de vencedores ou vencidos, Raduan Nassar apela a um desalinho romântico nascido no coração de uma ditadura que marcou não apenas social e politicamente mas também o coletivo emocional de um povo constantemente oprimido, e só através de uma linguagem nua e sem qualquer traço de censura pode chegar-se a um patamar onde o marginal pode desafiar o absolutismo bacoco.

Mais que uma tensa narrativa que se lê num fôlego sobre um arrogante e rude homem mais velho e uma liberal mulher mais nova, este livro, metafórico, mostra a rutura, a raiva, as fronteiras das relações humanas, do próprio machismo ou do maternalismo estéril, de classe e género, através de uma intensidade física, desgastante e complexa.

In Rua de Baixo

“A Rapariga da Banda” de Kim Gordon | “M Train” de Patti Smith

O rock e a vida

Numa altura em que os festivais de música atingem o seu auge por terras lusas, a música transcende a sua forma auditiva e pode assumir o formato livro, nomeadamente através da fusão entre o género biográfico e a crónica.

Dois exemplos disso são “A Rapariga da Banda”, de Kim Gordon (Bertrand, 2016), e “M Train”, de Patti Smith (Quetzal, 2016), livros recentemente editados e que mostram um pouco mais da vida da ex-baixista dos Sonic Youth e da mítica cantora e poeta Patti Smith.

Em ambos os casos, a emoção é o fio condutor para confissões, mais ou menos filosóficas e urbanas, ou pedaços biográficos de uma vida que colocou estas mulheres entre a elite da história do Rock.

Sem índices ou resumos capitulares, onde a forma de compreensão assume-se por via de um crescente sentimento dos números que abrem os seus pensamentos, “A Rapariga da Banda” é um exercício deveras interessante, e muitas vezes emotivo, com Kim Gordon a vestir o fato de (auto)biografa mas que curiosamente inicia as páginas deste livro com um fim, no caso, o último concerto dos Sonic Youth e o processo de luta interior que isso a conduziu.

Pelo meio, conhecemos várias etapas do seu crescimento, a história da sua família, as aventuras nas artes visuais, a sua mudança para Nova Iorque, os homens que lhe assaltaram as emoções, a relação com Coco Hayley, sua filha e, claro está, a música e o seu casamento e divórcio com Thurston Moore e os Sonic Youth.

Esta viagem em forma de livro leva-nos a destinos mais ou menos caros a Gordon, alguns deles quase em piloto-automático. Existem pontas soltas, memórias boas, outras nem tanto, mas no centro de tudo está uma mulher que sabe o que quer, emocional e criativamente, e tem noção das suas escolhas e faz um excelente relato daquilo que é o amor de estar em palco e tocar música.


 Já “M Train” de Patti Smith rege-se por uma abordagem mais experimental, com a autora a definir este livro como «um mapa de estradas» da sua vida cuja narrativa parte do presente, nomeadamente através dos exercícios reflexivos que nascem no “Greenwich Village”, um pequeno café que serve de poiso reflexivo da autora de discos como “Radio Ethiopia” e do nascimento da estética punk.

As 19 estórias, ou estações como lhe chama Patti Smith, fluem entre o onírico e o real, sem uma linha cronológica assinalável mas com o lado mais criativo sempre em destaque, seja o motivo da escrita o simples ato de beber café, assistir a séries policiais ou visitar túmulos de gente conhecida das artes.

O prazer de ler Patti Smith, ou de contemplar os seus retratos polaroid, reside do mais puro sentido nostálgico, e por vezes minimalista, onde se exploram, e dilaceram, obsessões literárias, gostos boémios, viagens quixotescas ou moleskines. Tudo motivos essenciais para uma mulher que confessa não gostar de «nada supérfluo», definindo assim uma rara estética pessoal e (in)transmissível.


In Rua de Baixo

domingo, 17 de julho de 2016

“Numa Floresta Muito Escura”
de Ruth Ware

Os Segredos da Casa de Vidro


Aquando da apresentação de “Numa Floresta Muito Escura” (Clube do Livro, 2016), a autora e escritora britânica Ruth Ware afirmou que ganhou inspiração para escrever este livro com universo de Agatha Christie e também com o filme “Scream”.

E é definitivamente essa a sensação que nos invade logo desde as primeiras páginas de um livro que se move num sentimento de suspense constante com laivos de terror, onde um grupo dinâmico de personagens, cujas intenções nos surpreendem e põem em causa, comandam todo o exercício narrativo.

Tudo começa quando Nora, uma escritora de policiais, recebe um inesperado apelo via email ao ser convidada para a despedida de solteira de Clare, uma amiga que o tempo acabou por separar. Ainda que a medo e mergulhada na surpresa, Nora, dona de um perfil pouco social, aceita o convite e decide integrar o grupo de seis pessoas convocadas para essa reunião marcada para uma casa isolada numa floresta recôndita, e essa decisão vai marcar a sua vida para sempre.

Nora vê-se assim forçada a um peculiar convívio no meio de estranhos, à exceção de Clare e Nina, ambas colegas de uma distante infância, e a sensação de que deveria ter recusado o convite ganha cada vez mais contornos, principalmente por ver-se obrigada a responder a questões ligadas a um período que, definitivamente, quer esquecer.

Cerca de quarenta e oito horas depois dessa estranha reunião, Nora acorda no hospital. Desorientada e ferida, não se recorda de nada mas sabe que algo muito grave aconteceu. Sente a morte de alguém, mas não sabe de quem. Pergunta-se o que terá acontecido naquela casa envidraçada perdida na muito escura floresta. Encarcerada num mundo de dúvidas, vai recuperando a memória e sente que o pesadelo está apenas a começar.

O enredo, claustrofóbico e tenso, de “Numa Floresta Muito Escura” prende eficazmente o leitor e o pequeno elenco envolve-nos à medida que segredos são revelados, ainda que à superfície não seja demonstrada toda a sua negra imensidão.

Outro dos trunfos deste livro é o desenho individual de cada personagem que se vai assumindo como essencial na globalidade da narrativa dando a sensação de uma intrincada relação global (bem) definida por Ruth Ware, e que serve de elemento contextualizador para as diferentes peças do cativante puzzle que é este livro.

Ainda que com alguns tiques algo previsíveis, Ruth Ware faz-nos chegar um thriller bem contado e construído que leva o leitor a mergulhar numa viagem extrema onde o medo e o perigo escondem-se atrás daquilo que de mais assustador existe: a mente humana.

In Rua de Baixo

“As Raparigas Esquecidas”
de Sara Blaedel

Floresta de Sombras

 
A chegada de mais um autor de romances policiais oriundo do Norte da Europa é sempre uma excelente notícia. Desta vez a honra cabe à dinamarquesa Sara Blaedel, uma ilustre desconhecida por terras lusas mas que tem uma acérrima horda de fãs espalhada por todos os países que já editaram os seus livros. A sua estreia em Portugal faz-se com “As Raparigas Esquecidas” (Topseller, 2016), sétimo volume da série Louise Rick e primeiro tomo da trilogia homónima.

No centro da trama está, obviamente, Louise Rick, agente policial recentemente transferida para o Departamento das Pessoas Desaparecidas e que fará parelha com Eik Nordstrom, um homem sempre trajado de negro, viciado em tabaco, à beira de um qualquer limite pessoal, que faz do bar local sua casa.
Apesar do início da parceria se revelar conturbado, Louise e Eik acabam por conseguir ultrapassar as diferenças e quando um terrível crime acontece, juntam forças. O caso é complicado e tudo começa quando uma mulher aparece morta numa floresta e o crime é revelado quando o guarda-florestal encontra o maltratado corpo.

Profundamente marcada por uma cicatriz que lhe envolve grande parte do rosto, a mulher morta parece ser facilmente reconhecível, mas essa tarefa revela-se mais complicada pois ninguém relatou o seu desaparecimento e dos registos não constam os seus dados.

Luise e Eik procuram pistas mas estas teimam em não existir. Na esperança que alguém identifique aquele rosto tão marcado, é publicada uma fotografia da mulher no jornal local e os resultados são quase imediatos. Louise recebe um telefonema de Agnete Eskildsen e fica a saber que o corpo pertence a Lismette, uma das «raparigas esquecidas» de Eliselund, antiga instituição estatal para doentes mentais onde Agnete trabalhara anos antes e cujas memórias assombram a sua vida desde então.

A descoberta leva a dupla do Departamento de Pessoas Esquecidas a investigar os arquivos da instituição e acabam por descobrir terríveis segredos que colocam toda a comunidade em cheque, e choque. A desconfiança cresce à medida que mais se sabe sobre o caso e as mortes continuam a acontecer na floresta…

Sara Blaedel consegue construir uma narrativa envolvente, emocional e emotiva, misteriosa, com alguns requintes de malvadez e cenas onde o ódio e a violência desafiam os limites da mente humana. A par da investigação policial, existe espaço, e cuidado, para uma breve apresentação do elenco com particular destaque para o personagem de Louise, uma mulher encurralada num passado tortuoso onde os maiores fantasma assumem a forma do suicídio de Klaus, seu antigo namorado, e a relação fugidia com a sua família, exceção feita a Jonas, seu filho, e Melvin, seu paternal vizinho. Também Camilla, uma das melhores amigas de Louise, e a braços com uma situação pessoal instável, tem uma presença determinante na trama, principalmente a partir do momento que decide investigar o estranho caso das raparigas desaparecidas, mortas ou violadas que assombram a comunidade.

“As Raparigas Esquecidas” é, no seu todo, um bom livro, cru e com boas doses de suspense, reviravoltas e um assassino cuja forma de atuação nos faz devorar as páginas com voracidade deixando a dúvida sobre a sua identidade até aos suspiros finais, mas que, a espaços peca por deixar o leitor um pouco perdido face ao natural desconhecimento do passado de alguns personagens.

Este livro revela ainda uma outra dimensão, levando-nos para um território que transcende o próprio cenário ficcionado e que remete para as situações de maus tratos em instituições para pessoas com deficiências e os abandonos, forçados ou não, que são alvo e que demonstra que a sociedade, infelizmente, ainda está muito longe da plenitude solidaria e humana que tanto se apregoa, e espera, e que muitas vezes é moldado por dramas pessoais.

 In Rua de Baixo

NOS Alive 16: Dia 3
Em dia de festa, cantam milhares de almas


Mais um dia, mais uma grande viagem, à volta do mundo. O terceiro e último dia da edição do NOS Alive deste ano foi muito intenso e foi possível sentir o habitual ecletismo sonoro. A abrir sentimos o calor mariachi dos Calexico, depois serpenteamos com uma dupla Jibóia, saltámos a galope dos Band of Horses e acabámos a noite com uma beleza em tons de branco e prata com a prestação estrelada dos Arcade Fire. Pelo meio ficamos a saber que a edição do próximo ano já tem data marcada e a busca pelo «melhor cartaz de sempre» já começou.

18.55 – Calexico – Palco Heineken

Quem chegou à tenda Heineken minutos antes do início do espetáculo podia ver o palco já cheio de gente. Ensaiavam-se guitarras, trompetes e bateria. Bem no centro, destaca-se um senhor de camisa vermelha que coordenava as operações. Cá em baixo, no imenso tapete verde, enquanto a música não tomava conta do recinto, havia tempo para conversar, descansar, que isto de andar três dias a viver maratonas sonoras não mata mas mói, e saltar uns gritos por Portugal. O palco teimava em manter-se sobrelotado e, ainda com a “música” ambiente a emanar dos écrans que ladeiam o palco, ouvem-se os primeiros acordes de “Frontera/Trigger”, a faixa que tem aberto os concertos recentes dos Calexico.

Num ápice, o ar é invadido por uma envolvência mariachi e Joey Burns, o tipo da camisa escarlate, John Convertino, Scott Colberg, Jacob Valenzuela, Martin Wenk, Sergio Mendoza e Jairo Zavala, quais sete magníficos, fazem-nos entrar num “filme” cujo argumento remete para os caminhos quentes da Tucson natal da banda que, por quase uma hora, nos fizeram sentir tudo menos os últimos homens (e mulheres) do planeta.

Com a evidente empatia conseguida logo nos primeiros instantes entre banda e público, Burns solta um «Bom dia» com um sotaque quase perfeito, e ataca “Falling From the Sky”, um dos exercícios mais pop do veterano coletivo. Mas a festa atingia sempre um especial pico com a aventura por territórios de ritmo mexicali e "Cumbia de Donde" fez dançar e aplaudir. Um dos momentos mais intensos da atuação, com Burns a assumir o papel de o contador de serviço, foi a dramática “Maybe on Monday”, o mesmo acontecendo com a lindíssima “Black Heart”.

Os corpos voltaram a agitar-se com “Soledad (Cumbia en la Mar)", uma versão do colombiano Enrique Bonfante, e “Inspiración”, com o microfone a ser assumido por Jacob Valenzuela que ainda assim não abandonou por completo o trompete.

O ambiente estava ao rubro e ninguém resistia a abanar corpo e alma. A fiesta seguiu-se com o clássico de coração destroçado que é “Alone Again”e o hino à redenção de nome “All Systems Red”, cujo pujante e brilhante final arrancou uma merecida ovação.

Também ele rendido, Joey Burns, confessava que se sentia na sua Arizona natal e agradecia a paciência que tínhamos em estar ali. Modéstias e simpatias à parte, a melhor recompensa que todos sentimos ao assistir a tudo isto assumia a forma de uma música sem fronteiras, feita e pensada numa espécie de crossover de todo o continente americano. As derradeiras balas sonoras disparadas pelos pistoleiros Calexico atingiram-nos em cheio no coração (derretido) e “Bullets & Rocks”, “Crystal Frontier”, vénia dividida para Burns e Convertino, e “Guero Canelo”, um original de Manu Chao, fecharam uma prestação que dificilmente se esquecerá. E porque isto do amor com o mesmo se paga, Burns despediu-se com um voto especial: «amanhã, vamos fazer força por Portugal na final do Euro!». A bola já rola?

Serpentes ecléticas e novidades, das boas

Ainda com os sons da latina América na cabeça, seguimos para outras latitudes sonoras. Ali mesmo à beira do palco Heineken, o espaço Raw Coreto estava muito bem composto e o ar, era invadido por sons que nos remetem para o Médio Oriente. Voamos até lá e ao descer do tapete aterramos no concerto de Jibóia, projeto português da dupla Óscar Silva (guitarras, eletrónicas e beat) e Ricardo Martins (bateria). O concerto teve como ponto de partida (e chegada) “Massala”, o recente álbum da banda que é, nas palavras de Óscar Silva, «uma mistura de especiarias», e nele se amalgamam sons da América do Sul, África, Europa e Ásia.

A internacionalização musical dos Jibóia, também apanágio de um festival como cada vez mais se assume o Alive, serviu como uma espécie de ponte para aquilo que foi dito por Álvaro Covões, diretor da Everything is New, numa conferência de imprensa em forma de balanço e que contou ainda com a presença de Paulo Vistas, presidente da Câmara de Oeiras, e Rita Torres Baptista, diretora de marketing da NOS. Numa breve e agradável conversa, salientou-se a segurança de um festival que tem tido o mérito de conquistar considerável reputação por esse mundo fora, integrando mesmo a lista dos 10 melhores festivais do planeta difundida pela insuspeita cadeia de televisão norte-americana CNN. Entre sorrisos e sentimentos de dever cumprido, ficamos a saber que esta edição do Alive contou com festivaleiros de 88 nações diferentes, num total de quase 32 mil almas de outros quadrantes, e que foram acreditados perto de 500 jornalistas, dos quais uma centena eram estrangeiros. No final, somos também informados que a edição do NOS Alive 17 já está em marcha e tem data marcada: 6, 7 e 8 julho.

21.00 – Band of Horses – Palco NOS

Na memória de quem esteve no Passeio Marítimo de Algés na edição do Alive de 2013, então ainda Optimus, e teve a sorte de estar no palco Heineken a assistir ao concerto dos Band of Horses, estão recordações de um excelente espetáculo da banda liderada por Bred Bridwell. Passados três anos, e face ao crescimento, a pulso, da banda, os Band of Horses subiram de divisão e estão agora entre os eleitos que pisam o palco NOS já sem a luz do sol.

Na ressaca da estreia de “Why Are You Ok?”, o quinteto de Seatlle tinha a difícil tarefa de subir a palco antes dos muito esperados Arcade Fire e sofreram um pouco a ansiedade que espelhava a cara dos milhares que tinham à sua frente. Independentemente disso, os Band of Horses estavam decididos a entreter os convivas e o começo do concerto deu-se com a fantástica “Is there a Ghost” que, noutros tempos, seria escolha mais que esperada para fechar a prestação. “Casual Party”, com um assumido perfil radiofrendly, foi o primeiro mergulho no refrescante rio que é “Why Are You Ok?”, bem secundado pela etérea e melancólica “The Snow Fall”, pérola retirada de “Everything All the Time”, registo de estreia da banda.

Seguiram-se “The Great Salt Lake”, a luminosa “Solemn Oath” e “In A Drawer”, as duas últimas safra do registo de 2016. A receção do público alternava entre a momentânea excitação e um aparente alheamento e as razões, dizemos nós, estariam associadas a algum desconhecimento em relação às novas canções e ao aproximar da presença dos Arcade Fire. Ainda assim, o jogo de guitarras de “Laredo” não deixou ninguém indiferente e o espírito texano da nova “Throw My Mess” fez abanar alguns esqueletos, enquanto a doce e aveludada “Hag” aqueceu e protegeu muitos corações do vento.

Perto do final, a emocionada declaração “No One's Gonna Love You” provocou muitos beijos no perímetro e “Cigarettes, Wedding Bands” abriu caminho para a música que todos esperavam e “Funeral” fez, pela primeira vez, todos olharem o palco.

Ainda que tivéssemos assistido a um bom concerto, os Band of Horses acabaram por ser “vítimas” dos senhores que se seguiam e, objetivamente, o coletivo liderado por Bridwell merece mais atenção e um espaço mais íntimo aumenta o sentido à sua música.

22.45 – Arcade Fire – Palco NOS

Que atire a primeira pedra quem tinha bilhete para o derradeiro dia de Alive e não sonhava com o concerto da banda do casal Win Butler e Regine Chassagne. À medida que o dia avançava a pergunta mais frequente era quanto tempo faltava para começar o concerto de Arcade Fire. Muita coisa mudou desde o lançamento de “Funeral”, em 2004, e, hoje, a banda canadiana atingiu um estatuto maior do que aquele que certamente esperariam. Cada disco do sexteto, que em palco se transforma numa espécie de plantel futeboleiro tal a quantidade de craques em campo, é uma esperada obra-prima cujas epifanias agradam uns e fazem outros questionar as direções tomadas.

Com um palco cuidado, digno de um estrelato que, literalmente, marcava esse espaço, os Arcade Fire entraram com o jogo ganho à partida mas cuja mestria tinha de ser provada, e ao longo de mais de hora e meia deixaram sangue, prateado, suor e provocaram algumas lágrimas, das boas.

“Ready to Start” abriu o caminho de uma estrada cujo destino nos fez chegar a uns deliciosos “The Suburbs. A viagem fazia-se ao ritmo de um passeio agradável. Ao volante, Butler, vestido de branco, mostrava-nos as direções e alguma dúvida sobre o trajeto facilmente era esclarecido por uma Regine, prateada, e que chegou mesmo a assumir o papel de decidida cheerleader.

Com o depósito cheio de um inesgotável combustível, subimos a um céu repleto de estrelas com “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, num ritmo naife e psicadélico, e ousamos não ofuscar pelo brilho de “Reflektor” e dos espelhos que invadiam o palco. Desafiando a gravidade e não podendo deixar de sentir, ao longe, os saudosos New Order, saltamos com “Afterlife”, e para não perder o ritmo, recebemos, de braços e ouvidos abertos, “We Exist” e a rockeira “Normal Person”.

Com a congregação rendida ao seu pastor, ainda que sem bíblias de néons, as palmas sublinhavam o andamento de “Keep the Car Running”, havendo condições para dar seguimento à liturgia de “Intervencion”(com uma breve revisitação aos Sex Pistols no final), com direito ao exorcismo negro que é “My Body is a Cage”. De novo à conta de uma luz nascida nos subúrbios, “We Used to Wait” empurra aos almas até ao céu, faz Win Butler correr desenfreadamente pelas laterais do palco, e não é de estranhar que cheguemos a um sítio como “No Cars Go”, um dos momentos mais bonitos da noite.

A celebração não parava, ainda que por vezes fosse necessário reduzir o andamento e “Ocean of Noise” conseguiu recuperar o fôlego para chegar a um bons portos de abrigo como são “Neighborhood #1 (Tunnels)”, cujo riff inicial desperta qualquer coração, e “Neighborhood #3 (Power out)”, que nos fizeram recuar até ao disco de estreia da banda. Mas se “Rebellion” nos manteve em “Funeral”, “Here Comes The Night Time” teve o condão de nos avançar no tempo e transportar para outras reflexões com o palco a ser invadido não por aliens mas pelos cabeçudos que ficaram conhecidos no videoclip de “Reflektor”, obra do mestre Anton Cornijn. O final do concerto, depois de Butler se aventurar junto do público, entretanto premiado com uma chuva de confetti, e receber como recompensa um cachecol de Portugal, fez-se ao som do esperado “Wake Up”, canção que faz disparar uma espécie de orgasmo auditivo e leva-nos a entoar a canção durante, minutos, horas, dias. De alma cheia, resta-nos, portanto, dizer obrigado, pois, bolas, valeu mesmo a pena!

Fotografia: João Lambelho

NOS Alive 16 - Dia 2
Gente comum, pregadores e sacanas à procura do paraíso



A corrida aos bilhetes para o segundo dia desta edição de Alive fez com que o mesmo esgotasse rapidamente. Olhando para o cartaz, diríamos que essa sofreguidão se deveria aos Radiohead mas o dia de ontem teve muito muito para oferecer, especialmente no universo mais indie. Logo nas primeiras horas, a australiana Courtney Barnett chegou, viu, tocou e venceu. O mesmo pode dizer-se de Josh Tillman, aka, Father John Misty que deixou a assistência rendida ao primeiro round e os Radiohead deram um concerto maravilhoso. Pelo meio ainda espreitamos a loucura ora psicadélica, ora stooner, dos Tame Impala e sentimos um breve cheirinho a Foals.

19.20 – Courtney Barnett – Palco Heineken

Ainda longe das 55 mil almas que assistiram ao concerto de Thom Yorke e comparsas, foi com um espaço do NOS Alive ainda respirável que tivemos a honra de ver os primeiros passos da australiana Courtney Barnett por terras lusas. Sem grandes pressões e com uma entrega do tamanho das suas (grandes) canções, Barnett, entre a timidez e o descaramento de carregar e espalhar riffs diretos ao coração de quem a ouve, deu um excelente concerto demonstrando como o quotidiano, dirão alguns, banal, pode ser a inspiração para contar histórias sonoras.

Notava-se que a grande maioria do público que encheu a tenda do palco Heineken não estava lá por acaso. As letras das músicas estavam na ponta da língua e alguns fãs (não é exagero, acredite-se) exibiam cartazes com frases, ou adaptações, das letras da autora de “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit”, o muito bom álbum de estreia.

“Dead Fox” abriu o concerto de forma tranquila e decidida que subiu alguns degraus na intensidade com “Debbie Dower”, depois de Courtney afinar a guitarra e deixar-nos a salivar por mais das suas confissões suburbanas.

“An Illustration of Loneliness (Sleepless in New York)” foi a senhora que se seguiu e o ritmo algo dolente deu lugar a uma micro jam session que mostra que a miúda de Melbourne, com um estilo entre o (sacrilégio!) grunge e o garage sabe da poda. Já “Small Poppies”, um tour de force sensual com lampejos sónicos, transcende o habitual formato canção da australiana, reclama, «olho por olho, dente por dente», e faz-nos entrar, mais uma vez, numa história, banal, crua, pessoal, à conta de uma bateria, um baixo e uma guitarra que destilam acordes espartanos.

O cortejo foi celebrado com um tímido “Hey, how are you doing?” e respondido com um poderoso aplauso. A comunhão entre quem estava em cima do palco e a assistência atingiu o pico com “Depreston” e “Pedestrian at Best” e os muitos curiosos que passavam junto da tenda do Heineken assentavam arraiais. Seguiram-se “Elevator Operator”, gingona e com direito a momentos de crowd surf, “Avant Gardener” com Barnett a explorar um solo delicioso e, já a apontar para o final da prestação, “Lance Jr.”, uma das faixas mais antigas e solenes da australiana, fez o elogio à subestimação pessoal. O derradeiro suspiro do concerto chegou com a mensagem algo contraditória de “Nobody Really Cares If You Don't Go To The Party” pois todos os que assistiram à prestação de Courtney Barnett sentiram tudo menos indiferença e podem sentir-se felizes por terem decidido sair de casa e ficar ancorados neste mundo privado sublinhado com eletricidade (e paixão) e dedicação à causa “rock”.

Vento, psicadelismo e alguns tropeções

Com sete espaços culturais distintos, o NOS Alive cresceu e esta, que é a sua décima edição, prova que o evento pode, orgulhosamente, ombrear com os maiores festivais do mundo. A organização estimava a presença de mais de 30 mil estrangeiros durante os três dias de festival e isso é facilmente comprovado a cada “esquina”. Enquanto se passeia, olha para o cardápio e se escolhe o próximo concerto, empurrados pelo já habitual vento que teima em visitar o Passeio Marítimo de Algés todos os anos, os choques culturais rasgam-nos o sorriso e ao pedido de um esclarecimento vindo de terras de Sua Majestade paramos junto ao Raw Coreto. Na altura atuavam os The Loafing Heroes, uma aventura joint venture internacional que junta um irlandês, uma italiana, um norte-americana e um português (não, não é o começo de uma anedota…) cujo ambiente se situa entre o hippie e o folk, e ficamos à conversa com um casal de Manchester, adeptos do City, que nos confidenciava que o NOS Alive estava ao nível de, por exemplo, Coachella.

Feitas as despedidas, e quando os Foals faziam ecoar “Inhaler” e se preparavam para despedir da multidão que se tinha juntado no palco NOS, tivemos ainda tempo para assistir a um par de quedas que deixariam muitos futebolistas roídos de inveja mas que dificilmente arrancariam uma grande penalidade. A culpa não é do árbitro mas sim dos enormes tapetes verdes, sem linhas, que já começam a enrolar nas pontas e a apanhar os mais distraídos.

Felizmente que as lesões não foram impeditivas de continuar em jogo e podemos mesmo afiançar a forma destes jogadores pois quem os viu a saltar, cantar e vibrar com os Tame Impala nem sequer se lembraria de tais acidentes. Os australianos foram mesmo como uma espécie de analgésico pois o seu psicadelismo sintético, cruzado com momentos stooner, encheu de euforia os muitos milhares que tiveram oportunidade de assistir a canções como “Let It Happen”, com direito a uma primeira chuva de papelinhos coloridos, “The Moment”, a proporcionar um incauto strip feminino, ou “Elephant”. O ambiente estava bom, o público delirante e entregue, mas tínhamos um compromisso “litúrgico” e o mestre de cerimónias é merecedor de ver a sua congregação reunida a horas.

21.40 – Father John Misty – Palco Heineken

Com a tenda do Palco Heineken muito vazia, situação rara e da qual a prestação dos Tame Impala parecia ser a principal responsável, aguardávamos a prestação de Father John Misty, o mais recente alter-ego de Joshua Tillman, que já nos havia visitado no mesmo espaço, em 2011, mas no papel de baterista dos (grandes) Fleet Foxes. O palco, preparado com uma cortina em tom escarlate, rapidamente se encheu com a presença do esguio Tillman que, sem demoras e desde o primeiro momento do concerto, agarrou o público e o seduziu com mestria e como bem o quis.

Qual pregador, Tillman, de fato trajado, dono de uma voz que vagueia entre o doce e o “gutural”, agarrou-se a “Hollywood Forever Cemetery Sings” como se fosse a última prestação da sua vida, tal a notória dedicação. Dramático e num mundo só dele, mas no qual tivemos a honra de entrar, o norte-americano parte a loiça toda com “When You're Smiling and Astride Me”, tema do álbum “I Love You Heneybear” e do qual foi retirada a maioria das canções da noite. Tal como diz o poema cantado, vemos Tillman como ele é, uma alma apaixonada, que dança, seduz, e se ajoelha perante a música e o público. Uma toada calma ajuda o artista a entrar no papel de crooner e “Only Son of the Ladiesman” leva-nos para ambientes mais indie folk a lembrar uma certas raposas enquanto “Nothing Good Ever Happens at the Goddamn Thirsty Crow” molda a atmosfera com pinceladas mais blusy.

De coração partido, e com o público rendido total e incondicionalmente a um grande concerto, “Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins)” volta a trazer fantasmas dos Fleet Foxes e a seguir, apenas na companhia de um piano, “Bored in the Usa” é responsável por um dos momentos de maior partilha entre público e banda através de um coro “certinho”. Entretanto, a tenda vazia deu espaço a uma bem composta assistência ainda que alguns olhassem para o relógio, pois os Radiohead tocavam daqui a pouco.

Mas a coisa estava tão boa que abandoná-la seria, lá está, um pecado capital. Indiferente a essa hesitação, e confessando a sua pouca habilidade para comunicar com o público, Joshua Tillman destilava ódios e deceções com “Holy Shit” e, depois, “True Affection”, de arranque levemente eletrónico, demostraria uma faceta mais pop coroada com uma descida do homem, cujo espírito lembra aqui e ali Nick Cave, não ao inferno mais sim perto de um público que o agarrou, abraçou e agradeceu. O final do concerto aproximava-se e em ritmo country afolkalhado “I'm Writing a Novel” abriu caminho para o dramático “I Love You, Honeybear”. O final do espetáculo fez-se com a mais agitada “The Ideal Husband”, e podemos dizer que muitos corações femininos não desdenhariam esposar o rapaz Tillman, espelho do desalinho barbudo, responsável por um dos momentos mais intensos do segundo dia do festival.

22.45 – Radiohead – Palco NOS

A recente edição de “A Moon Shaped Pool” deixou muitos dos fãs dos Radiohead surpreendidos. Ainda que a banda de Thom Yorke, Jonny Greenwood, Colin Greenwood, Ed O'Brien e Philip Selway nos tenha habituado a surpresas e a algumas manobras de mercado que ousam desafiar os seus normais cânones, é sempre com muita ansiedade que se recebe um disco criado pelo quinteto que assinou alguns dos trabalhos mais importantes das últimas décadas e que ousam desafiar e reconstruir o seu som destruindo barreias e fronteiras (sabiamente) por si criadas.

De forma apaixonada, por vezes até matemática mas nunca alvo de facilitismo, os Radiohead construíram uma história especial e lograram reunir um séquito de seguidores acérrimos, e foi isso que se sentiu ao longo de mais de duas horas de um extraordinário concerto cujo palco transformado e decorado com espírito cinematográfico seria poiso de um dos melhores filmes da história de todas as edições do festival Alive.

A viagem começou inteiramente dedicada ao já referido “A Moon Shaped Pool” com a banda a respeitar inclusive a ordem de apresentação do disco. Assim, a pujante “Burn the Witch”, e as seminais “Daydreaming” e “Decks Dark” faziam crescer uma entrega e comunhão entre banda e público que nunca se desfez, e logrou mesmo momentos de puro êxtase lá mais para o final da atuação. A colheita do álbum de 2016 continuou com o puro exorcismo que é “Desert Island Disk”, numa apresentação acústica a apelar a momentos de acalmia anterior a fazer a nossa mente recuar até aos momentos mais reflexivos de Jim Morrison e companhia. “Full Stop” continuaria essa demanda mas agora com sinais mais sónicos a mostrar que o caminho da evolução se faz com quebras e ruturas evitando assim o marasmo da monotonia.

Em territórios mais pop, “My Iron Lung” fez despertar sentimentos mais letárgicos e recuou até aos momentos mais próximos de casamento perfeito de que as guitarras já foram sinónimo quando falamos de Radiohead. “Talk Show Host” faz regressar um certo sentimento quebrante e ligeiramente swingante carregando de batidas que aliam na perfeição baixo, bateria e elementos eletrónicos, situação semelhante acontecendo com a muito bem acolhida “LotusFlower”, retirada de “The King of Limbs”.

A música soa límpida, direta ao coração, e para isso é decisiva a entrega dos músicos e especialmente do frontman Yorke, hoje a personificação de um comunicador bem na sua pele, que ousa “dançar” e desafiar o público com algumas interjeições em detrimento de uma qualquer tentativa de diálogo.

Alvo de muitas versões mix, “The Gloaming”, safra de “Hail to the Thief”, traz uma tensão crescente carregada de dub que se viu atenuada com “Exit Music (To a Film)”, uma das pérolas de “Ok Computador”. O público agradeceu, fez silêncio e cantou de si para si, o mesmo acontecendo com “The Numbers” e “Identikit”, novas entradas em “A Moon Shaped Pool” e dois dos seus exemplos mais doces, ternos e cheios de alma. “Reckoner” traz “In Rainbows” à praça pública e “Everything in its Right Places”, recebida em delírio, anuncia “Kid A” e “Idioteque” que fazem os corações disparar. Canta-se, grita-se, vibra-se, chora-se. A música entra em nós e fica. E porque não saltar ainda mais alto? É isso que se faz à conta de “Bodysnatchers”. Antes da primeira paragem para abastecer energias, “Street Spirit (Fade Out)” faz-nos ir a um baú chamado “The Bends” que voltaria a ser aberto um pouco depois.

Sob uma estrondosa ovação, a banda sai de palco para entrar pouco depois. Tínhamos direito a encore, coisa rara nestes dias de Alive. O regresso foi sinónimo da ensimesmada e eletrónica “Bloom” - que algures no meio do público motivou um especial pedido de casamento com direito a anel -, logo seguido de “Paranoid Android”, “Nude”, da errónea soma de “2 + 2 = 5” e “There There”, ambas de “Hail to the Thief”.

Depois de duas horas de concerto, os Radiohead saíram mas voltariam com duas enormíssimas surpresas. Se se dissesse que se ouviria “Creep” e “Karma Police” na noite de ontem poucos acreditariam, principalmente Sharon, a inglesa que ao nosso lado, emocionada, afirmava que já tinha visto os Radiohead uma mão-cheia de vezes e nunca tinha ouvido o tema retirado de “Pablo Honey”. Estes dois últimos momentos, cantados apenas e a uma só voz, figuras angelicais incluídas, arrepiam, marcam e deixam sequelas, das boas, pois todos, mas todos os que assistiram a este concerto, pertenciam ou partilharam um mesmo lugar: o paraíso.

Fotografia: João Lambelho

In Palco Principal