quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

“Desde a Sombra”
de Juan José Millás

O mordomo fantasma


No início do mais recente livro do jornalista e escritor (ou escritor jornalista?) valenciano Juan José Millás, um dos personagens, no caso o onírico apresentador de televisão Sergio O´Kane, pergunta a Damián Lobo, o nosso (anti)herói, com que peixe se identifica mais. Perante as opções tubarão ou sardinha, a resposta surge soturna, ensimesmada. «Não sei, talvez com a moreia», responde Lobo.

E é essa a descrição possível para um dos melhores personagens saídos da cabeça criativa e um pouco esquizofrénica de Millás. Lobo é um homem confuso, escondido de si próprio, que desde a perda do emprego se desmoronou refugiando-se, qual moreira, nos mais recônditos lugares onde deambula. Um dia, nesses passeios sem destino, dá consigo numa feira de antiguidades e acaba por esconder-se dentro de um armário depois de realizar um pequeno furto.

Incapaz de sair de dentro do antigo móvel, é levado para a casa de Lúcia, Fede e María, mãe, pai e filha que compõem uma (a)normal família de classe média. Damián acaba por fazer do armário o seu refúgio de felicidade, um esconderijo perfeito para alimentar o seu desejo voyeurista e conseguir reconquistar um sentimento que julgava perdido dentro de si: a vontade de viver. Nem que a mesma se expresse por via das mais vulgares tarefas domésticas ou de uma inesperada cumplicidade.

Livro curto mas denso e intenso, “Desde a Sombra” (Planeta, 2016), reflete a solidão através de um expressivo delírio do sentido de realidade e assume-se como uma crítica velada ao capitalismo e à chamada “tv lixo”, uma “expressão comunicativa” infelizmente muito usual nos nossos dias. Também as relações familiares, umas mais disfuncionais que outras, nalguns casos numa perigosa trajetória incestuosa (onde não falta uma irmã chinesa com apetência a atribuir alma ao pénis), são objeto de reflexão, assim como as já habituais análises psicanalíticas. A união de tudo isto está a escrita superlativa de Millás, uma espécie de exercício siamês entre emotividade e sobriedade, entre o real e o fantasmagórico, cujo terreno de ação tem uma dupla neutralidade.

Estão assim, felizmente, reunidos todos os elementos que fazem com que os livros de Millás sejam especiais, únicos, escritos e lidos numa fronteira bidimensional, no caso, dentro e fora de um armário. Como aliados estão os habituais e diferentes pontos de vista narrativos, os desdobramentos de personalidade dos personagens e um sentido de humor inteligente, predicados esses bem vincados noutras obras do autor, principalmente no anterior “A Mulher Louca”.

Além da função de escritor, ou contador de estórias, Millás torna-se num amigo e amante absoluto das palavras e faz com elas desarmantes malabarismos que dão origem a narrativas inquietantes que envolvem o leitor como se de um estranho, diferente e envolvente abraço se tratasse.

In Rua de Baixo

Mão cheia de livros
Semana #48

Começamos as sugestões da semana com algo completamente diferente.


“A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar” (Tinta da China) traz de volta Ricardo Araújo Pereira desta vez em formato de manual de escrita humorística. Segundo o autor, este livro é um modo especial de olhar para o humor e dar-lhe uma hipótese real de acontecer. Para Ricardo Araújo Pereira: «somos treinados para saber o que as coisas são, não para perder tempo a investigar o que parecem, ou o que poderiam ser. Este livro procura identificar e discutir algumas características dessa maneira de ver e de pensar».


Falar de Afonso Cruz é descobrir um universo muito particular e especial. Entre o seu já vasto espólio literário, a coleção Enciclopédia da Estória Universal (Alfaguara) é um desses exemplos e é com prazer que anunciamos a edição do seu mais recente tomo: “Mil Anos de Esquecimento”. Além dos (des)habituais aforismos, dramas, personagens, apostas e considerações sobre temas tão importantes como Deus e a medida de uma cintura, este volume inclui ainda um relato de um pintor renascentista que se vê enredado numa guerra violenta e sanguinária entre duas cidadelas inimigas, governadas por irmãos desavindos, que encarnam a acesa disputa entre o aristotelismo e o platonismo, depois de… mil anos de esquecimento.


Depois de “As Raparigas Esquecidas”, a dinamarquesa Sara Blædel oferece-nos “O Trilho da Morte” (Top Seller), mais um thriller da saga protagonizado por Louise Rick, agente policial do Departamento das Pessoas Desaparecidas. Na ordem do dia está o desaparecimento de Sune Frandsen, um menino de 15 anos que desapareceu na floresta de Hvalsø, no dia do seu aniversário. Ao investigar, Louise descobre que se trata do filho do talhante Frandsen, amigo de Klaus, o seu primeiro grande amor, cujo suicídio nunca fora convenientemente explicado.


Por mais que se mostre, escreva ou fale, o tema do Holocausto ainda consegue surpreender. Baseado em factos verídicos, “O Rapaz e o Pombo” (Oficina do Livro), de Cristina Norton, conta-nos uma história passada entre as décadas de 1930 e 1950. No epicentro está um rapaz judeu que descobre o ódio, o desalento, a ternura e o amor à vida, e à sua volta estão ecos e fantasmas de todas as pessoas que passaram por uma das maiores injustiças e vergonhas da humanidade: a violência provocada pelo III Reich. Este livro surge da necessidade de Cristina Norton em denunciar o que por vergonha as mulheres que haviam sido obrigadas a prostituir-se nos campos de concentração não ousavam contar.


Finalizamos a nossa mão cheia da semana com uma sugestão para o público infantojuvenil. Chama-se “As Mulheres e os Homens” (Orfeu Negro) e venceu o Prémio Não Ficção 2016 – Bologna Ragazzi Award 2016. A autoria é de Luci Gutiérrez, versa sobre a igualdade de direitos entre géneros e é uma espécie de serviço público do centro criativo espanhol conhecido por Equipo Plantel.

Boas leituras!

In Rua de Baixo

“Doutor Sono”
de Stephen King

Here’s…Danny!


Qualquer fã de Stephen King, principalmente aqueles que acompanham a sua obra desde sempre, já muito que aguardavam, nervosamente, a edição de “Doutor Sono” (Bertrand, 2016), a sequela de “The Shinning”, do fantástico mundo de Danny Torrance e do “seu” Hotel Overlook. Mas será que a espera valeu a pena?

Vamos por partes. Se o objetivo é ler uma continuação direta e explicita do livro lançado originalmente em 1977, recuperando a mesma sensação claustrofóbica de um terror atrativo, a espera terá sido em vão. Mas se se quer um bom livro que mistura suspense com terror, “Dr. Sono” é uma excelente companhia e tem como bónus sentir as mais recentes deambulações de Danny Torrance.

Agora adulto, Torrance tornou-se num alcoólico mas sente que tem de mudar, recuperar. Ainda assombrado pelos residentes do Hotel Overlook, anda há décadas à deriva, tentando libertar-se do legado de desespero e violência deixado pelo seu pai. Instala-se numa cidade de New Hampshire, apoia-se na comunidade local dos Alcoólicos Anónimos e trabalha num lar. O único brilho que lhe resta oferece é um derradeiro conforto aos moribundos, assumindo-se como o «Doutor Sono», sempre acompanhado por um misterioso gato.

Entretanto conhece Abra Stone, uma antiga companheira de infância cujos poderes suplantam os seus. Vivem-se tempos atribulados, principalmente devido a uma nova seita composta por “vampiros psicológicos” que se fazem transportar à boleia de autocaravanas, que se autointitula “Nó Verdadeiro”, seres (quase) imortais que vivem do vapor produzido pelas crianças, com o seu brilho quando são lentamente torturadas até à morte. Stone anda a ser perseguida pela seita e cabe a Torrence protegê-la e salvar a sua alma.

Ainda que com uma narrativa sólida (sim, King é King…), “Doutor Sono” deixa a desejar em alguns pormenores. Os seus monstros, por exemplo, não têm o mesmo perfil assustador de outros (volta, Pennywise!). Porque, simplesmente, não o são. Um dos poucos momentos que se sente, de facto pânico, e as mãos suam, regista-se aquando do rapto de um rapaz cujo destino é ser devorado. Talvez, dizemos nós, Stephen King tenha de sair um pouco de dentro da cabeça dos seus personagens maléficos – alguns deles, como por exemplo Corvo, Nozes, Sam Harmónica, Petty, a chinesa, ou até mesmo o Avô Flick, são neste livro vítimas de alguma falta de conteúdo, com papéis de meros antagonistas – e dar-nos mais a conhecer dos seus lados pérfidos.

Mas King está além da forma pois o seu conteúdo continua…brilhante. A caracterização dos personagens é fantástica, sendo, por exemplo, quase impossível não sentir uma (real) simpatia por Torrance. Rose (Hat) O’Hara é também uma mais-valia ainda que esteja muito longe, por exemplo, do magnífico Randall ‘Walking Dude’ Flagg.

Apesar disso, e das talvez demasiado elevadas espectativas, “Doutor Sono” é um (muito) bom livro, apresenta uma trama consistente, apresentada em “camadas” crescentes de interesse, vai, com certeza, saciar a sede dos fãs de Stephen King em ler o mestre.

In Rua de Baixo

“Contagem Decrescente”
de Ken Follett

Luta contra o tempo


Depois de deambular por territórios imbuídos de contornos históricos, sagas e várias derivações do thriller, Ken Follett regressa às raízes com um livro de espionagem cujo enredo nos transporta para os tempos da Guerra Fria.

Editado pela primeira vez em 2000, “Contagem Decrescente” (Presença, 2016) relembra os primeiros tempos da corrida espacial onde Estados Unidos e União Soviética disputavam cada segundo, milímetro, de atenção.

A ação passa-se em 1958, na ressaca da vitória soviética no jogo orbital, e leva-nos a seguir as atribuladas movimentações do cientista Claude Lucas, um dos responsáveis pelas operações espaciais norte-americanas, encarregado do lançamento do Explorer I, o primeiro satélite americano, e que se encontra desaparecido.

Vítima de amnésia, Lucas acorda numa casa de banho de uma estação ferroviária na capital do país do Tio Sam. Desconhece o seu nome, onde mora, e nem sonha que é um dos maiores responsáveis pela eventual glória espacial norte-americana.

Enquanto Lucas tenta recuperar a identidade, a CIA continua a operar em prol do bom nome do país. A conhecida agência, liderada por Anthony Carrol, antigo camarada de Claude Lucas, sente-se confortável pelo desaparecimento deste, e pondera matá-lo caso intervenha no lançamento do Explorer I.

Não sendo um dos melhores títulos de Follett, “Contagem Decrescente” tem alguns pontos muito positivos, principalmente no que toca à forma de como vamos descobrindo quem é Lucas e como este consegue estar sempre um passo à frente dos seus perseguidores. Numa corrida entre Washington, Alabama e Cape Canaveral, o leitor é convidado a entrar numa perseguição sem tréguas, num período de 48 horas, juntando-se a Elspeth, esposa de Claude, Carrol, Bille e Bern, amigos de longa data do protagonista e atualmente espiões, bem como do terrível Anthony ou de uma sombra de chapéu e gabardina.

Ainda que os primeiros capítulos do livro sejam passados em velocidade de cruzeiro, à medida que a trama evoluiu a dinâmica ganha outros contornos e a ligação entre Lucas e os seus aliados, com ou sem aspas, vão ultrapassando, ou fomentando, obstáculos. Para isso muito contribuem os (bem escolhidos) flashbacks e um dilema bem delineado que faz interrogar sobre quem é amigo ou inimigo.

No entanto, o autor de “Os Pilares da Terra” falha em alguns pontos, nomeadamente na previsibilidade narrativa e num final apressado, assim como no recurso de um romantismo (muito sexual) desconexo que fragiliza o todo, sendo outro dos seus pecados capitais a falta de reviravoltas que fazem as delícias de um bom thriller. Ainda assim, Ken Follett consegue disfarçar estas pechas com uma escrita inteligente que consegue cativar o leitor.

In Rua de Baixo

Mão Cheia de Livros
SEMANA #47


A saudade é uma palavra especial, tão cara e inata à alma lusitana e há algumas cidades que não saem da memória dos portugueses. A capital angolana é um desses exemplos, principalmente para quem teve o privilégio de sentir a sua pulsação no auge do conturbado período colonial. Controvérsias à parte, Luanda era uma cidade inesquecível e é esse brilho que Rita Garcia nos oferece em “Luanda como Ela Era” (Oficina do Livro), um livro que retrata, por via da palavra e da imagem, a modernidade, costumes e paladares da referida capital da Província.


É um dos personagens preferidos dos amantes de policiais e está de volta. Falamos de Harry Hole, o peculiar inspetor norueguês que nasceu da mente criativa de Jo Nesbo. “Polícia” (D. Quixote) traz de volta o terror às ruas de Oslo pois está um assassino à solta e Hole encontra-se em parte incerta. Quem protegerá os polícias envolvidos em anteriores investigações de crimes que nunca foram solucionadas, hoje as vitimas preferidas do referido criminoso? Conseguirá a Brigada Anticrime sobreviver a tudo isto sem o carismático Harry?


Quem não se deixou inebriar com o já clássico “A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafón, que atire a primeira pedra. Os ecos do Cemitério dos Livros estão ainda bem presentes e “O Labirinto dos Espíritos” (Planeta) assume-se como o desejado último tomo da referida tetralogia. Estão assim de regresso Daniel, Bea, Fermím e outros velhos conhecidos do universo do escritor espanhol assim como novos protagonistas. Espera-se muita intriga, emoção, paixão pelos livros e, claro, Barcelona.


Chama-se Casal Mistério, venceu recentemente a categoria «Melhor Blogue de Lazer e Culinária» na primeira gala dos blogues do ano e está agora em livro. O misterioso casal, «ele cozinha, ela viaja», defende que o segredo é a alma do negócio e abraça a “árdua” tarefa de experimentar novos pratos e visitar anonimamente restaurantes de todo o país, e o livro “As Escolhas do Casal Mistério” (Manuscrito) reúne as melhores receitas provadas pela dupla assim como mais alguns truques que vão deixá-lo de queixo caído e alma cheia.


E se o Natal fosse salvo por um dinossauro especial? William Trundle acredita que sim e na companhia de um particular e inesperado amigo vão viver uma aventura extraordinária. “Natalossauro – O dinossauro que salvou o Natal” de Tom Fletcher (Nuvem de Letras) vai encantar pequenos e graúdos e conta uma história sobre amizade, família, sinos, o Pai Natal, duendes cantores, renas voadoras, música e magia. No fundo, uma descoberta dos desejos mais secretos com a esperança de conseguir transformar-se o impossível em algo real.

In Rua de Baixo

“Born to Run”
de Bruce Springsteen

Algumas luzes nunca se apagam


São raras as vezes que escrevo sobre um livro na primeira pessoa, mas trata-se de um caso especial.

Ouvi falar de Bruce Springsteen pela primeira vez nos finais de 1986.Tinha 13 anos e na minha cabeça ecoavam sons vários. As influências eram muitas, as novidades chegavam a reboque de conversas com amigos, na escola e fora dela, do que ouvia na rádio. Cultivava-se uma especial partilha e era vulgar carregar, vaidoso, as enormes rodelas de vinil debaixo do braço, para a “troca”, ou para serem tocados nas muitas tertúlias musicais que tinha por hábito participar.

Foi numa dessas sessões que ouvi pela primeira vez um tipo de voz rouca, carregada de alma, e logo ao primeiro impacto, senti um misto de explosão e empatia. A canção em particular era “Backstreets”, faixa que abria o lado A do segundo 33 rotações de “Live 1975-85” (a edição em vinil era composta por cinco discos), uma compilação de registos ao vivo de Springsteen e da (sua) E-Street Band.

Gravei uma cassete (de 90 minutos!) com algumas das 40 músicas que componham “Live 1975-85” e passaram a ser o meu mantra. Sempre que as ouvia, deixava o som entrar na minha circulação sanguínea, devorava as histórias contadas em género de “prefácio” e sabia (e, digo-o, com orgulho, ainda sei) todas as letras de cor. Dai até conhecer toda a discografia do Boss foi um pequeno passo (eternamente agradecido Hugo, grande abraço!). Hoje, passados trinta anos, continuo a sentir a mesma magia quando oiço “Rosalita”, “Hungry Heart”, “Because the Night”, “Born to Run” ou “Thunder Road”, esta última a canção da minha vida, e a qual já tive o privilégio de “ouver” no momento devido, com a pessoa certa, a minha “Jersey girl”.

Cresci com as canções de Springsteen, gravadas e cravadas na alma, mas sempre quis saber mais da vida do Boss. Sim, acompanhei (quase) todo o que o profeta de Jersey fez mas faltava sempre qualquer coisa, um contexto (histórico) geral, uma pitada de sal que tardava.

Até que, recentemente, surgiu “Born to Run” (Elsinore, 2016), a tão aguardada autobiografia de Bruce, que, reza a história, nasceu na sequência de um concerto realizado aquando da edição de 2009 do Super Bowl e que serviu de epifania para que Springsteen resolvesse, finalmente, contar toda a vida.

Recuando aos mais recônditos becos da sua memória, Bruce Springsteen, o inicialmente desajustado jovem descendente de uma família de origem italiana, resolveu revelar o seu lado mais privado com a mesma devoção, honestidade, fúria, humor e paixão com que sempre escreveu as suas canções.

À boleia de uma escrita confessional e emotiva, Bruce recorda as (suas) raízes católicas na fria Freehold, New Jersey, revela os primeiros contactos com a perigosa e efervescente premissa e poesia rock, passando pelos perigos de uma imaginação fértil alimentada pelo combustível da música negra, a reação provocada pela atuação de Elvis Presley no “The Ed Sullivan Show”, o impacto da arte dos The Beatles, os prematuros contactos com a indústria musical, o domínio dos The Castiles e Steel Mill (as duas primeiras bandas de Springsteen) dos circuito de bares da zona de Asbury Park, o conhecimento decisivo de personagens como o produtor John Landau ou os músicos Clarence Clemmons e Little Steven, ou da “sua” Patti, até à afirmação, a pulso, da E Street Band e do seu (merecido) sucesso mundial. Tudo sublinhado com as dúvidas e lutas interiores que servem de inspiração para toda a sua obra e nos levam também a conhecer melhor a génese de muitas das suas canções.

A beleza de “Born to Run”, um livro que se devora, de preferência, devagar, lenta e pausadamente, pois não queremos que acabe, reside no espírito das suas palavras (e imagens) e transcende o objeto livro. É uma forma de inspiração não só para quem é fã do Bruce cantor, artista, homem e poeta, mas também para aqueles que ousam conhecer melhor uma pessoa que lutou por aquilo que acreditava, desafiou destino e família, e abraçou dias de glória.

E é também o livro que sempre esperei, que ficará para sempre perto da minha almofada, a transcrição de uma lenda, de alguém, de carne e osso, com virtudes e defeitos, da pessoa que me transmitiu algumas das maiores lições de vida («aprendemos mais ao ouvir um disco que na escola»), do ser cujo legado gostaria que os meus filhos conhecessem, de uma luz que teima em indicar-nos o caminho.

In Rua de Baixo

domingo, 20 de novembro de 2016

“Violência e Islão”
de Adonis

Do terror à luz


Foi recentemente apontado à vitória ao Prémio Nobel da Literatura e através de várias obras e análises deu a conhecer ao mundo uma atitude muito crítica face às «falsas interpretações e leituras do Corão», refletindo sobre os conceitos de identidade, religião, progresso e humanidade, alguns dos principais alicerces do processo de conhecimento do Islão e, por conseguinte, da conjuntura do mundo árabe.

Falamos do poeta sírio Adonis, pseudónimo de Ali Ahmad Saïd Esber, uma das vozes mais marcantes da atualidade face à constante ebulição política arábica. Exilado no Líbano desde a década de 1950, trabalhou na revista Shi’r, uma das mais influentes publicações literárias do mundo árabe, e fundou a igualmente prestigiada, Mawaqif.

“Violência e Islão” (Porto Editora, 2016) não é nada mais nada menos que um seguimento lógico desse caminho, mas também da «esperança num renascimento, na morte deste Islão-terror para dar lugar a um Islão-luz», e este fundamental e corajoso livro brotou na ressaca de uma sucessão de conversas entre Adonis e Houria Abdelouahed, professora na Universidade Paris Diderot, psicanalista e tradutora da obra de Adonis para a língua francesa.

Com um assinalável sentido crítico, onde nada é deixado ao acaso, Adonis e Abdelouahed falam-nos de um Islão como resultado de um ideal religioso e político mas que procura, a todo o custo, impor-se através da conquista e do controlo, algo que vai contra a ética individual apregoada no referido livro sagrado e que, nas suas palavras, castram a individualidade e criatividade.

Em algumas passagens, por exemplo, é feito a alusão ao Corão e à Hadith (conjunto de leis, lendas e histórias sobre a vida do profeta Maomé) para questionar as atitudes repressivas face ao universo feminino, declarando que essa mesma “filosofia” acabou por matar a própria subjetividade da existência. É essa perda também o motivo que leva as duas vozes de “Violência e Islão” a apelar à tolerância e refutando simultaneamente a ideia errónea de que todos os muçulmanos são hereges ou traidores apelando à elevação da cultura árabe, de forma evidente e definitivamente pacífica. Apela-se, portanto, o fim «do extremismo islâmico, no seu discurso e na sua ação», uma «bandeira em permanente agonia, que mantém os seus fiéis na escuridão e incute na sociedade árabe uma conduta de violência, analfabetismo, misoginia e ignorância. Um obscurantismo e uma barbárie que duram há quinze séculos e que hoje se fazem sentir um pouco por todo o mundo, de Palmyra a Paris.»

Traça-se ainda uma visão sobre as atuais tensões no território mas também se recua à génese do próprio Islão. Desde a morte do profeta Maomé, a “sua” religião tem sido usada como uma arma política e económica que tem explorado e reforçado as divisões locais, e tribais, com o único objetivo do poder.

Essa realidade leva Adonis a refletir sobre os eventos recentes no Médio Oriente, desde os insucessos da “Primavera Árabe” até à ascensão do Daesh, passando pela guerra na Síria, «dos quais o Ocidente não pode ser ilibado de culpas», e pelos ecos destruidores que se têm alastrado ao mundo e que negam qualquer possibilidade de uma crescente noção de pluralidade face a uma violência omnipresente. Consciente, Adonis apela a um espírito “inquisidor”, que resgate liberdades e faça evoluir as normais culturais e sociais.

O objetivo é, simultaneamente, «o combate ao silêncio e à hipocrisia que se instalaram tanto no Médio Oriente quanto no Ocidente» abrindo alas para a «necessidade urgente de uma releitura e debate livres no seio da sociedade árabe, um novo tempo que do passado apenas invoque a luta pelo direito à diversidade e que condene o confronto. Uma era de reconciliação».

A abrilhantar o livro está o estilo marcadamente poético, claro está, do seu discurso que aliado a uma abordagem mais psicanalítica tornam a leitura fluida, interessante e que tem como “bónus” o conhecimento da própria cultura árabe por via da referência a alguns dos seus mestres poetas.

In Rua de Baixo